CHAPTER 4: Sir Orfeo
4.2 Sir Orfeo’s Performance
4.2.1 Orfeo as a Protagonist
Apesar de não haver ainda muitas investigações de natureza etnográfica sobre os turistas backpacker (e.g. Maoz, 1999; Welk, 2004; Westerhausen, 2002, citado por Binder, 2004), os traba- lhos de Anderskov (2002) e Sørensen (2003) fazem referência à existência de uma cultura backpacker. Utilizando uma metodo- logia que lhes permite analisar diferentes perspetivas da vida destes turistas, dos lugares visitados e dos fatores de mudan- ça inerentes a este fenómeno, Sørensen (2003) demonstra a
importância de um conceito dinâmico de cultura adequado aos tempos em que vivemos. A definição de cultura apresentada por Tylor na 6ª edição de Primitive Culture remete-nos para “o complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, moralidade, leis, costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”102. Por conseguinte, cada cultura
manifesta-se e reproduz-se num determinado território onde vive uma determinada sociedade, o que contraria a permanente desterritorialização inerente ao nomadismo dos backpackers. Mas a cultura backpacker existe, e segundo Anderskov (2002), encontra-se hierarquicamente estruturada e com um status individual conectado aos valores de liberdade, independência, tolerância, orçamento reduzido e interação com a população local. A comunidade backpacker partilha assim uma cultura que é constituída por normas, condutas, hierarquias, entre outros, que emergem, ganham raízes e que se reproduzem através, por exemplo, da transmissão de informação e conhecimentos entre os backpackers mais velhos e experientes e os backpackers mais novos. Trata-se de uma comunidade que não se encontra delimitada por um lugar nem por um grupo fixo e onde a hie- rarquia social depende da troca do mais valioso: informação. A comunidade backpacker também se caracteriza pela sua inter- conetividade e por os seus elementos serem interdependentes. Circulam por todo o globo, tendo como suporte uma vasta rede de hostels que, servindo de apoio à sua mobilidade, deram ori- gem em algumas cidades a verdadeiros enclaves de backpackers (Cohen, 2011; Maoz, 2006; O’Regan, 2010b; Peel & Steen, 2007). Os hostels não são apenas um alojamento barato. São lugares de encontro, de criação e reprodução de identidades, lugares de partilha de ideias, hipóteses, histórias e conhecimento (O’Re- gan, 2010a) e, por isso, fundamentais na cultura backpacker. É nestes lugares de encontro que os backpackers i) interagem entre si e mantêm diálogos focados nas viagens que estão a realizar; ii) estabelecem contactos via telemóvel ou internet com amigos e familiares que, à distância, vão acompanhando a viagem; iii) e contactam com elementos da população local. Se tradicional- mente os principais fluxos de backpackers tinham como direção privilegiada os países do sul da Ásia (Índia, Tailândia, Malásia, Indonésia, entre outros), temos assistido a uma diversificação dos destinos pelos outros continentes. A Europa conheceu um
102 Fonte: https:// archive.org/stream/ primitiveculture01 tylouoft#page/n17/ mode/2up. Consulta realizada em 15 de outubro de 2015.
incremento após a queda do Muro de Berlim, acontecimento que facilitou posteriormente a circulação de turistas ávidos em conhecer o que restava do velho império soviético. Os conhe- cidos passes Interrail também favoreceram a mobilidade no continente europeu, permitindo viajar de comboio por vários países, a preços reduzidos.
Reflexo da globalização, as mais diversas culturas têm vindo a ser bombardeadas por influências globais. Com a intensifica- ção das relações sociais à escala global promovida pelos atuais meios de comunicação social, passamos a pensar globalmente, pelo que os problemas atuais não são apenas problemas locais ou regionais. Um acontecimento num lugar distante refletir-se- -á com maior ou menor intensidade em todo o planeta, como tem acontecido com a crise da dívida soberana de alguns países, com o fluxo de refugiados em direção à Europa, entre outros, dificultando a sua gestão à escala nacional. A globalização tem assim conduzido ao desaparecimento de uma consciência ter- ritorial (local, regional ou nacional), contribuindo para o surgi- mento de sentimentos de “desorientação” e para uma redução do mediatismo de comunidades que se encontram geografica- mente mais periféricas e economicamente à margem dos prin- cipais centros de decisão. Esta situação vai de encontro a uma das principais motivações dos turistas backpacker que viajam como reação à alienação da sociedade moderna e ao desapa- recimento das culturas pré-modernas, visitando-as antes que desapareçam, aumentando os conhecimentos sobre as mesmas e desafiando simultaneamente as suas próprias capacidades. Mas a globalização não tem só aumentado o ritmo de margina- lização de algumas sociedades e culturas periféricas. A rapidez com que os turistas chegam a elas é avassaladora, permitindo aos backpackers viajarem até lugares que a maioria dos turis- tas nunca ouviu sequer falar, ultrapassando barreiras físicas e culturais com grande facilidade. Esta procura de diferenciação, imagem de marca dos backpackers, descritos por vezes como antituristas, opõe-se à imagem do turista “convencional”, acor- rentado aos “pacotes de viagens com tudo incluído” vendidos em série em todas as agências de viagem. O sentimento de liber- dade oferecido pelo turismo backpacking é também reconheci- do como uma das principais motivações, procurado por jovens
que se encontram no final do ensino secundário ou universi- tário e que não querem entrar no mundo do trabalho, casar e ter filhos sem antes viajarem de mochila às costas durante um longo período por diversas regiões do mundo. Ritual de passa- gem entre a escola e a universidade ou entre a universidade e o mundo do trabalho, o turismo backpacker pode também ser considerado um “período de transição autoimposto” ou ainda como um momento rico em oportunidades educativas e desen- volvimento de competências gerais, uma espécie de ‘‘Universi- ty of Travel’’103.
As novas tecnologias da informação e comunicação (TIC), e a internet em particular, têm tido um impacto notável no turismo backpacker. Utilizada como transmissora de informação e, por isso, reprodutora da cultura backpacker, a internet é igualmente um facilitador de viagens, de contactos, comentários (e-WOM), sugestões, entre outros, contribuindo para a disseminação de solidariedade e para a partilha de conhecimentos da cultura back- packer104. É também responsável por uma disrupção digital que,
ao nível do turismo, é visível através do surgimento de empresas como a Airbnb, Uber, Skype, Booking.com, entre outras.
É ao desenvolvimento dos transportes e das TIC que se deve a (híper)mobilidade contemporânea tão característica dos backpa- ckers. Essa mobilidade expressa-se não só nas viagens realizadas, mas também nos frequentes contactos com amigos, familia- res, outros backpackers com que se estabeleceram convívios ou amizades durante a viagem, população local e outros viajantes (Paris, 2010), numa espécie de socialização itinerante que resul- ta do permanente contacto com uma rede social virtual e onde a informação circula em tempo real, por todo o mundo, esbatendo as fronteiras políticas entre os lugares visitados e o lar, lugar de residência habitual (Paris, 2010). Não deixa de ser irónico que o sentimento de liberdade intrínseco à realização de uma viagem para um lugar distante conviva com a frequente necessidade de não perder o contacto com as origens.
103 Fonte: Pearce, Philip L. & Foster, Faith (2007). A “University of Travel”: Backpacker learning. Tourism Management, 28(5), 1285-1298. 104 Nota: Sítios de internet como o Hostelworld.com permitem a reserva online em dezenas de milhares de hostels em mais de 170 países. A heterogeneidade do segmento backpacker tem contribuído para que os sítios de internet especializados em hostels tenham alargado o seu âmbito de atuação para outros alojamentos de custos reduzidos, como parques de campismo,
bed&breakfast,
apartamentos, entre outros.