4 HØRINGSINSTANSENES KRITIKK
4.3 Ordrikt og komplisert lovforslag
Qual a necessidade de produzir algumas pessoas como se fossem cópias perfeitas do modelo ideal do humano? Porque os chefes, sobretudo o primeiro cacique, são considerados pais adotivos de “seu pessoal”, e como tais têm a difícil responsabilidade de fazer seu povo semelhante a si, por um motivo simples: para que as pessoas possam partilhar um ponto de vista e se produzir como parentes.
Iho significa literalmente arrimo ou esteio, como o poste de madeira no qual uma pessoa amarra sua rede. Mas esta noção também é utilizada para descrever uma série de relações baseadas no cuidado e na nutrição: o dono de uma casa também é iho das pessoas
que moram nela, pois se espera que ele cuide de seus corresidentes, que os oriente, organize as atividades coletivas da casa, os apoie em seus problemas; um marido também é iho de sua esposa e seus filhos, pois deve provê-los com comida e protegê-los; pelo mesmo motivo, alguém que seja o único homem de uma casa também é iho das mulheres que moram nela. Pode-se dizer que iho, então, se refere a qualquer pessoa que se encontre na posição de protetor e provedor de outros. Talvez pudéssemos dizer que iho é alguém que tem o dever de “dar suporte”, pois seria a descrição mais literal da função de um esteio. Um chefe também é chamado de iho38:
Tipüsusu:
Kuge iho helei anetüi leha inhügü
Ele é o esteio das pessoas, aquele que já se tornou chefe Anetü etijipügü
Os filhos dos chefes
Kuge iho, hm
São o esteio das pessoas Anetü jetsa tisiho, tisanetü
Os próprios chefes são nossos esteios, nossos chefes
Um chefe é “esteio de gente” (kuge iho) porque ele é um pai em relação a seu povo, seus “filhos/crianças” (forma pela qual se refere às pessoas em discursos formais). Ele deve proteger, educar e nutrir seus filhos, orientando-os com o uso da fala verdadeira (akihekugene), sempre oferecendo peixe e beiju no centro da aldeia e nunca negando nenhum objeto que lhe peçam, por mais valioso que seja. Um kuge iho deve cuidar de sua aldeia e seus moradores como o dono de uma casa cuida de todos os que moram nela. Por conta de sua fala boa e sua generosidade, os chefes são vistos como o motivo pelo qual as pessoas vivem juntas em uma aldeia, a única razão pela qual o grupo local não se fragmenta indefinidamente.
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Muitas vezes sob uma forma do plural, ihoko que, além do próprio chefe, abrange também aqueles de quem ele é esteio (isto é, os moradores de sua aldeia). Quando alguém fala ihoko, portanto, está falando de “um-chefe- e-seu-povo”.
Quando uma aldeia começa a passar por diversas cisões, diz-se que isto se deve à falta de chefes que mantenham seu pessoal unido.
Como já vimos no capítulo 1, aldeias também podem ser iho de outras. Sempre que se conversa sobre aldeias antigas, algumas são frequentemente referidas como “as que se dividiram” (agaketühügü) e outras que são seus iho, sugerindo a existência de assimetria nas relações regionais entre grupos que resultaram de processos de fissão. Por exemplo, durante muito tempo, Kuapügü (a principal aldeia à qual os Kalapalo associam sua “origem”) coexistiu com as aldeias Kalapalo, Apangakigi, Angambütü, Hagagikugu; mas estas aldeias não estavam em pé de igualdade, pois Kuapügü era considerada iho das demais. Uma aldeia- iho tem a capacidade de exercer uma força centrípeta sobre as aldeias que se originaram a partir dela, que limita a tendência a que todo processo de fissão seja um processo de criação de novas identidades coletivas.
Mas há uma questão mais importante em jogo, pois a condição de iho nestas duas escalas (local e regional) está ligada à produção do parentesco e de um ponto de vista coletivo dentro do sistema xinguano. Em uma aldeia (que só pode existir se houver um iho/chefe), a convivência, a partilha de refeições e o exercício da reciprocidade são os responsáveis pela produção de um tipo generalizado de aparentamento: pessoas que vivem em uma mesma aldeia não devem se enfrentar em rituais e, no nível do contraste com outras aldeias, são todos hi u a ou têm o mesmo “sangue”. Em contrapartida, parentes que vivem em aldeias diferentes tendem a se tornar menos parentes, ou “parentes de longe” (Guerreiro Júnior, 2008). Desta forma, se a existência de aldeias de “verdade” (com casa dos homens e capazes de patrocinar rituais) duráveis é a condição para a produção do parentesco, pode-se dizer que a produção do parentesco está condicionada à existência de chefes. Há uma questão a mais, ligada ao vetor que faz da convivência e da comensalidade entre pessoas de origens diversas uma forma de produzir parentes: a paternidade adotiva do chefe. Se a filiação em geral é uma relação de assemelhamento e humanização, o chefe precisa ser um kuge exemplar para que seus filhos sejam também kuge; e na medida em que a humanidade e o parentesco são coextensivos, fazendo gente os chefes criam as condições para o aparentamento em um plano coletivo. Os iho – sejam homens de carne e osso ou aldeias inteiras – oferecem as condições para a identificação e o aparentamento, tanto de um ponto de vista sincrônico quanto diacrônico, local e regional.
Esta noção de esteio também está ligada aos conceitos mutuamente implicados de tronco e corpo, que nos aproximam da relação entre o egitsü e a chefia. Um esteio de fato (aquele no qual amarramos nossas redes) é feito, obviamente, de um tronco de árvore, e a palavra para tronco ou caule, que é a mesma para corpo, também é utilizada para se descrever os chefes: ihü. Eles são ditos ukugetihü ou katotihü (katote ihü), isto é, “o tronco-corpo das pessoas” ou “o tronco-corpo de todos”:
Tipüsusu:
Katote ihüko leha sakitse leha
O tronco-corpo de todos discursa Ahütüha ila inhümingo leha “Não façam desse jeito” Ahütüha ila inhümingo leha “Não façam desse jeito” Nügüha iheke
Ele diz
Katotihü kilü
O tronco-corpo de todos diz
Sanetunda hegei leha, sanetunda leha Assim ele está chefiando, ele está chefiando
Estas relações entre chefia e os conceitos de tronco e corpo não são exclusivas aos Kalapalo nem ao Alto Xingu, mas podem ser encontradas alhures na Amazônia indígena. Segundo Costa (2007), como já vimos de passagem no capítulo 1, os Kanamari utilizam uma mesma palavra (-warah) para dizer corpo, tronco, chefe e dono; um coletivo só existe se possuir um corpo/chefe que o sustente, que cuide dele, que o proteja. Os principais corpos- chefes dos subgrupos kanamari, por exemplo, teriam sido no passado o motivo pelo qual as pessoas viviam próximas e como parentes. Eles teriam a função de reunir as pessoas em sua grande maloca em tempos de rituais e seriam os responsáveis por manter a unidade dos
subgrupos (sem chefes os subgrupos se diluiriam, e as pessoas teriam que ir viver em outro subgrupo que tivesse um warah): “Um grupo de pessoas só emerge como uma unidade e como um grupo de parentes através de um chefe, que estabiliza aqueles que, os Kanamari nos fazem crer, não poderiam de outra forma viver juntos” (Costa, 2007: 47).
Ao mesmo tempo, o subgrupo é o principal critério pelo qual as pessoas definem quem são seus parentes (ainda que haja diferentes graus de parentesco em seu interior), do que se conclui que o parentesco depende da existência de chefes/corpos/donos que reúnam uma multiplicidade de pessoas, pois eles são o que “estabiliza aquilo que é potencialmente fluido; afirma-se como um em relação àquilo que é (potencialmente) muitos” (id. ibid.). Estabilizar uma multiplicidade, fazer um conjunto de pessoas aparecerem como membros de um grupo, é o que permite que elas se assemelhem enquanto um mesmo tipo de “gente”, um mesmo corpo de parentes (ibid: 167-171).
Costa prefere traduzir o –warah kanamari por “corpo” na maioria dos contextos, mas penso que entre os Kalapalo a tradução de ihü como “tronco” parece ter um maior rendimento analítico e etnográfico (principalmente em uma tese sobre um ritual com troncos para chefes). Primeiro porque ela permite realizar uma passagem fácil entre tronco (ihü) e esteio (iho) – já que todo esteio é um tronco – em um contexto no qual não se utiliza a mesma palavra para tudo, como entre os Kanamari; segundo porque as plantas, sobretudo as árvores, são uma metáfora para a continuidade genealógica (e, portanto, para a cognação39) e para as relações assimétricas implicadas entre chefes e comuns: as raízes são os ancestrais, a base (ena) os chefes principais, o meio do tronco (ihü) os chefes de média importância, a parte superior do caule os chefes pequenos, e os galhos (ĩkungu) as pessoas comuns40. Se eu optasse por privilegiar a tradução de “corpo” em detrimento de “tronco”, correria o risco de deixar em segundo plano a “concepção vegetal” que os Kalapalo têm de seus coletivos e do parentesco consanguíneo em geral. Isso não exclui, contudo, o uso de corpo, na medida em que chefes permitem a produção de coletivos como corpos de parentes (pois, no limite, uma aldeia é um “corpo de parentes” face a outras, já que todos podem ter “o mesmo sangue”).
A divisão entre “base” e “galhos” também está presente na organização das suítes musicais. Fausto, Franchetto et. al. (2011: 60) mostram que “les Kuikuro distinguent deux
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Como vimos no conceito de atilü, que designa ao mesmo tempo o crescimento vegetal, as relações de filiação entre os chefes e o parentesco cognático de maneira geral.
éléments constitutifs de tous les chants : iina (la « base ») et itsikungu (la « rupture »)”. Os autores descrevem estes conceitos da seguinte forma: “le terme iina désigne, par exemple, la base d’un arbre ou d’une fleur (l’endroit d’où sortent les pétales). C’est un mot qui connote quelque chose qui surgit de l’endroit en question. Itsikungu, en revanche, indique une bifurcation, une rupture, un détour” (id. ibid., nota 30). A imagem vegetal tem uma grande capacidade para descrever conjuntos englobantes.
Esteio e tronco-corpo se aproximam de forma interessante: todos são formas pelas quais os Kalapalo descrevem relações assimétricas baseadas no cuidado, na proteção e na alimentação (entre um marido e sua mulher, entre um chefe e sua aldeia, entre uma aldeia ritualmente mais importante e outras menos). Para que haja coletivos nas escalas mais variadas, de um núcleo conjugal a nexos regionais, é preciso que exista uma relação de assimetria entre um tronco/esteio/corpo que unifique e suporte as pessoas que vivem ao seu redor. Um chefe é como um tronco que sustenta o crescimento de um corpo de parentes, assim como é um esteio sobre o qual eles se apoiam.