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4.2 M APPING OF WAREHOUSE OPERATIONS

4.2.3 Ordinary picking

Após passar pelo sofrido processo de leitura familiar e escolar, o narrador começa a realizar uma leitura de forma solitária, sem a ajuda de ninguém, todavia, contando somente com o apoio de um dicionário e de um atlas: ele irá descobrir um mundo diferente do seu, viajando na imaginação através das obras literárias:

E tomei coragem, fui esconder-me no quintal com os lôbos, o homem, a mulher, os pequenos, a tempestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as fôlhas já percorridas. E as partes que se esclareciam derramavam escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens diminutas cresciam, vagarosamente me penetravam a inteligência espessa. Vagarosamente (RAMOS, op. cit., p. 203)

O garoto que tinha aversão aos livros passa a não suportar viver sem lê- los, mas um outro sofrimento passa a afligi-lo, a ansiedade, pela falta de livros pra ler, pois, como já dissemos antes, a família do menino não é formada por leitores, portanto os livros são raros.

O problema da falta de livros é solucionado quando o menino toma coragem e pede emprestado os livros de um senhor chamado Jerônimo Barreto que tem uma vasta biblioteca.

A leitura constante faz com que o garoto ganhe a liberdade “Enxergara a libertação adivinhando a prosa difícil do romance” (RAMOS, 1980, p.213), pois agora ele vive num mundo à parte sem se incomodar muito com a opinião das pessoas que fazem parte do seu dia-a-dia. Os locais que ele considerava prisão, como a escola, continuam sendo, porém, não para ele, pois agora o menino viaja através da imaginação.

As inúmeras leituras vão transformar-lhe o comportamento: “Mudei meus hábitos e linguagem. Minha mãe notou as modificações com impaciência. (...) Os caixeiros do estabelecimento deixaram de aflingir-me e, pelos modos, entraram a considerar-me esquisito”.

A leitura praticada pelo menino era solitária, silenciosa, “A leitura silenciosa permite a comunicação sem testemunhas entre o livro e o leitor“ (MANGUEL, 2006, p. 68). A comunicação entre o narrador e os livros lidos por ele era tão grande que, mesmo quando estava lendo silenciosamente, em sala de aula, enquanto os outros alunos faziam as atividades escolares, ele conseguia se abstrair totalmente, “Surdo às explicações do mestre, alheio aos remoques dos garotos, embrenhava-me na leitura do precioso fascículo, escondido entre as folhas de um Atlas”. (RAMOS, 1980, p.224)

Mais uma vez vamos encontrar coincidências entre a formação leitora de Graciliano Ramos e a de José de Alencar. Antes, porém, de fixarmo-nos na comparação das duas formações leitoras, gostaríamos de salientar uma diferença sutil entre as duas obras. O texto de Alencar assume-se como autobiografia, enquanto o de Graciliano, mesmo sendo apresentado como um livro de memórias, toma forma ficcional. Como diz Antonio Candido, citado por

Coutinho, “as pessoas parecem personagens e o escritor se aproxima delas por meio da interpretação literária, situando-as como criações” (2006, p. 42). Dessa forma, o leitor de Graciliano deve guardar certa distância do dito e vivido, compreendendo que há a distância conferida pela representação entre as duas instâncias. Podemos asseverar que há também no texto de Alencar uma representação diferenciadora entre o dito e o vivido, haja vista que se concebe por meio da linguagem. Entretanto, num texto em que a escrita toma forma literária, essa representação ganha ares de ficção, fazendo com que o distanciamento passe a ser bem maior. Passemos agora às considerações acerca da formação leitora propriamente dita.

Inicialmente – e de forma coincidente – a formação literária dos dois escritores passa por grandes nomes da literatura. São citados por Alencar, em suas memórias, Chateaubriand, Balzac, Dumas, Vigny e Victor Hugo, entre outros. Já em Graciliano, encontramos, além de diversos nomes da literatura nacional (como Coelho Neto, Joaquim Manuel de Macedo, Aluísio Azevedo e o próprio José de Alencar), e também a citação de Émile Zola, Júlio Verne e Victor Hugo.

É interessante notar, entretanto, que, apesar da formação de Graciliano passar com mais ênfase pelo Naturalismo de Zola, o autor cita a existência dos autores de “capa e espada” no seu rol de leituras, como romances que florearam sua imaginação. Para o leitor atento ao estilo de Graciliano, tido normalmente como duro e conciso, a afirmação de que o autor era leitor de romances de aventura pode soar contraditória. É, entretanto, através de outra passagem do mesmo livro que descobrimos a relação estabelecida entre essas leituras e aquelas que realmente se aproximarão do conhecido modo de escrita do autor:

(...) Não ficávamos na torrente e na brisa. Descíamos o monte das Oliveiras, caíamos na planície nacional, visitávamos a Casa de Pensão e O Coruja. Da cópia saltávamos ao modelo, invadíamos torpezas dos Rougon-

Feria-me às vezes, porém, uma saudade viva das personagens de folhetins: abandonava a agência, chegava-me a biblioteca de Jerônimo Barreto, regressava às leituras fáceis, revia condes e condessas, salteadores e mosqueteiros brigões, viajava com eles em diligência pelos caminhos da França. Esquecia Zola e Victor Hugo, desanuviava-me. Havia sido ingrato com meus pobres heróis de capa e espada. Não

me atrevia a exibi-los agora. Disfarçava-os cuidadoso e,

fortalecido por eles, submetia-me de novo ao pesadume, ia

buscar o artifício e a substância, em geral muito artifício e

pouca substância (1980, p.239 -240) [Grifos nossos].

Vimos, na passagem citada, como a leitura dos romances de capa e espada nutriam a imaginação de Graciliano, enquanto os outros, tidos como “pesadume”, formarão o estilo de escrita. É importante assinalar que sua experiência de leitor em formação passa ao largo da escola, onde os alunos quase nunca ultrapassam a condição de perdedores na dura luta de decifrar os enigmáticos caracteres gráficos das cartilhas. Para Fernanda Coutinho, na época de Graciliano-menino, “a escola, na verdade, nada mais é que uma extensão do espaço doméstico, reproduzindo as mesmas artes de educar, em outras palavras: entendendo a severidade como motor da aprendizagem.”(2006, p.46)

Em Alencar, também, a leitura é tida como uma das principais responsáveis pelo futuro romancista. Leitor de escritores cuja produção é sempre tomada como exacerbada, principalmente pela influência do Romantismo europeu, indaga ele:

Foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção? (1990, p. 29)

O germe do futuro romancista, calcado em leituras prévias, também eclodira no narrador de Infância, motivado pelos elogios de um literato, que via em sua obra “sinais de Coelho Neto e de Aluísio Azevedo (1980, p. 240). Entretanto, mesmo motivado pelas leituras prévias e pelas exortações de Mário

Acanhado, as orelhas ardendo, repeli o vaticínio: os meus exercícios eram composições tolas, não prestavam. Sem dúvida, afirmava o adivinho. Ainda não prestavam. Mas eu faria romances. Gastei meses para certificar-me de que o palpite não encerrava zombaria. (...) Examinei-me por dentro e julguei-me vazio. Não me achava capaz de conceber um daqueles enredos ensangüentados, férteis em nobres valorosos e donzelas puras. (...) Nunca descreveria um candeeiro. (...) Os candeeiros passavam-me despercebidos. E

seriam necessários? (1980, p. 241) [Grifo nosso]

A pergunta que finaliza essa citação é dotada de enorme significância dentro da poética de Graciliano. O estilo conciso parece a toda hora perguntar o que é realmente necessário para o desenvolvimento de seus enredos – nada “ensangüentados”. Enquanto Alencar – oficial ledor da família – vê sua leitura cotidiana festejada cotidianamente, Graciliano busca os lugares mais ermos para que essa relação leitor-obra se estabeleça plenamente. Cabe aqui uma menção – ainda que breve e incompleta, devido ao recorte que aqui traçamos – à correlação entre o leitor clássico vs. “moderno” comentado por Steiner a partir da tela de Chardin.

Se, grosso modo, aproximamos o leitor clássico – participante de um momento ritual prévio para a leitura – do leitor desenhado por José de Alencar, podemos estabelecer uma série de considerações que aproximem também o leitor Graciliano daquele leitor chamado por nós de “moderno”. Ao passo que Alencar toma, em sua casa, o lugar de honra para desenvolver a leitura, num momento em que todos os olhares convergem para ele, Graciliano não consegue fazer uma leitura em voz alta para um público, mesmo que este se resuma a seu pai

Dessa maneira, enquanto Alencar torna-se o grande conhecedor do efeito que as grandes reviravoltas da obra causam no público, Graciliano tem com a leitura uma relação muito mais intimista, já que, após o episódio da leitura para o pai da sala de jantar, afasta-se com seus recém-descobertos heróis da literatura para lugares distantes.

Podemos observar que a leitura que vai realmente contribuir para a formação do menino é a leitura de obras literárias que ele vai conhecer fora da escola.