O Curussé, como “[...] ritual modifica o tempo e o espaço cotidiano, dando-lhes outras dimensões que nos gestos, palavras, músicas e dança, transforma objetos, pessoas e emoções, ao repetir a tradição cultural [...]” (SILVA; GRANDO, 2007, p. 107).
Domingo, no período da tarde, encontramos um grupo de crianças, homens e mulheres sujos de tinta e brincando entre si, também na varanda da casa do cacique. O som do pífano inicia a música acompanhada dos instrumentos de percussão. Os corpos que dançam já sabem os movimentos, vividos em anos anteriores junto com quem sabe. Após uma pequena pausa, dada pelos músicos para o descanso, o cacique chamou as crianças:
[...] venha aqui criancinhas, todos juntos, por favor! Só um momentinho, não vou demorar, quero pedir um favor para vocês! É o seguinte: a brincadeira de hoje, amanhã e depois é assim: vocês têm que dançar, onde os músicos estão tocando, [...] é pra dançar, não é para vocês sair correndo lá longe fora do terreiro, fiquem aqui perto, tudo bem? Também peço para vocês não jogar pedra em ninguém, nem no adulto, nem nas crianças, [...] aqui tem os visitantes. [...] antes de fazer brincadeiras pergunte se elas gostam de sujeira, aí depende deles, querem que passa barro neles, tudo bem, senão, se elas falar que não, já sabe ele não gosta. Tem que ser conversado primeiro! Tome cuidados por onde andarem por isso que estou pedindo para vocês crianças, pra vocês não ficarem correndo longe dos músicos para não correm risco de pisar em cima da ponta de um toco, [...] no caco de vidro... A festa acaba para quem machuca [...]. (Senhor Fernandes, Caderno de Campo, fev. 2012).
A educação preventiva reforça para as crianças quais são os lugares interditados na aldeia por oferecerem perigo a elas. Os corpos das crianças continuaram em festa, dançando, brincando, sorrindo, sendo pintados de todas as cores pelas brincadeiras. Segundo Pacini (2012, p.5), “[...] Estes agradecem, devotamente, esta chegada das bênçãos ancestrais. Joga-se barro, tinta e cinza uns nos outros para marcarem seus corpos, isso mais intensamente nas aldeias que se reconhecem indígenas”.
Para o autor as brincadeiras usadas são formas de demarcarem o pertencimento étnico e reafirmá-lo também. Nisso, reforça a educação indígena tradicional que ocorre neste processo, pois, como afirma Tassinari (2009, p. 17, grifo do autor):
Além de ensinar as habilidades necessárias para os trabalhos cotidianos, a educação indígena dedica-se especialmente à produção de corpos saudáveis. O tema da ‘fabricação dos corpos’ tem sido muito explorado nos estudos sobre povos indígenas da América do Sul [...] reconhecendo que essas populações associam o ensinamento de valores morais e éticos à produção de corpos saudáveis e bonitos, mediante a ingestão de alimentos adequados e a prática de técnicas corporais.
O grupo do Curussé seguiu dançando, brincando, sorrindo. Os corpos em total sintonia com as músicas dão-se as mãos e seguem sem pressa até chegar à próxima casa e serem recebidos por sua dona. Na medida em que as casas eram visitadas, o número de participantes aumentava. O cacique orientou o grupo para que mesmo as casas fechadas fossem visitadas. Enquanto seguiam, o ritmo da dança era o mesmo, as brincadeiras eram intensificadas e os corpos já estavam todos pintados de tinta, lama e água.
Quando a dona da casa recebe o Curussé, integrando-se à dança e ao grupo, acompanha-o em direção à casa vizinha. Mesmo quando a dona da casa não afirma no cotidiano sua origem Chiquitano9, esta demonstra no
corpo dançante sua identidade. Autores consideram que há semelhança do Curussé com a dança dos trabalhadores dos seringais no estado, em 1898 (BORTOLETTO SILVA, 2007, p. 110).
Reafirmamos assim, que “[...] O homem ao agir, ao dançar ao se movimentar exerce sua totalidade enquanto ser possuidor de características culturais e linguísticas e com a capacidade de locomover deslocando-se de um para outro lugar e se expressar” (GRANDO, 2004, p. 109), torna visível sua identidade e sua história. Neste período ritualístico, o Chiquitano se torna visível nos corpos dançantes que pintados pela brincadeira se misturam e dançam coletivamente.
Chega o Curussé na casa de Dona Elena, ela e sua família o recebem no pátio da casa, sujos de tinta, farinha de trigo; seus corpos também já estão
9 Conforme introdução, a imposição do fazendeiro sobre a terra tradicional e a demanda necessária do trabalho nas fazendas para o sustento das famílias, faz com que alguns não possam se identificar como Chiquitano no cotidiano, mas no Curussé, os corpos dançantes expressam a identidade indígena.
pintados de todas as cores. As brincadeiras se intensificam novamente por alguns instantes e vão gradualmente se acalmando, na medida em que os músicos param para descansar e tomar chicha. Enquanto todos descansam, Dona Elena e o filho buscam a chicha para servir. Ela enche duas cuias e pede ao filho que ofereça a um casal e juntos afirmam enquanto eles recebem:
vamos dar um carinho a um casal. Após terem dado o primeiro gole da bebida,
eles dão vivas ao Curussé e compartilham com os demais o conteúdo da cuia. Assim que acabou a chicha das cuias a distribuição da bebida continuou, mas em copos grandes, de plástico.
“A água mata a sede e a Chicha leva a dançar” (PACINI, 2012, p. 28). Fica evidente nos corpos dançantes, nos três dias de festa, a força da chicha como alimento ritualístico, a cada amanhecer os corpos de todas as idades não evidenciam cansaço algum. Crianças e adultos estão no mesmo ritmo: dançam, brincam e bebem chicha.
O período do Curussé é muito rico em aprendizagem para as crianças e adolescentes Chiquitano. Observamos que os músicos são preservados das brincadeiras por conta do cuidado com a manutenção dos instrumentos musicais. Os adolescentes e os demais membros da comunidade intercalam o tempo todo entre ensinar e aprender, fazendo juntos. Quando os músicos fazem pausa para o descanso, os meninos pegam os instrumentos musicais e os manipulam, mesmo estando sujos. Não há qualquer advertência nestes momentos em que exploram os sons e vivenciam aprendizagens.
A educação do corpo se dá pela alimentação, pelo exercício, pela ornamentação, todavia, essa educação objetiva, além da produção do corpo, a promoção da educação moral e ética, o homem bem educado é também considerado por seu grupo social o corpo que foi educado e moldado para ficar bonito e saudável. Para Tassinari (2007, p. 17) “[...] os cuidados com a educação das crianças são os mesmos [...] a educação de pessoas íntegras e moralmente corretas depende da produção de corpos saudáveis e belos [...]”. Como afirma a autora, “A preocupação com a educação parece ser muito mais direcionada a preparar os corpos para a aprendizagem e a mostrar como se fazem certas coisas, do que falar a respeito delas”. (TASSINARI, 2007, p. 17).
Faz parte desta educação o almoço comunitário10 previsto em reunião,
que ocorre na segunda e terça-feira do carnaval, depois das brincadeiras da manhã. Após uma pausa do almoço, o cacique fez um pequeno
10 Durante o Curussé as famílias preparam a comida em suas casas e levam para a casa do cacique a fim de compartilharem com os demais.
discurso de agradecimento, pedindo à Dona Elena que fizesse uma oração de agradecimento à vida dos presentes e pelo Curussé estar sendo bem sucedido. Com a contribuição de todas as casas, o alimento é diversificado e traz também a tradicional Patasca11.
O Curussé, como uma festa brasileira, expressa a todos os sentidos da alegria carnavalesca e da integração popular, mas traz consigo elementos que reconhecem a identidade coletiva [...] uma mistura de fé, de reza, de alimento comunitário, de dança coletiva [...], de vários elementos que constituem sua religiosidade que mantém o vínculo entre o sagrado e o profano [...]. (SILVA; GRANDO, 2007, p. 104).
Terça-feira de manhã é o dia de visita das bandeiras do Curussé em todas as casas da aldeia. O Chiquitano identifica nas bandeiras suas lutas e religiosidade. Após a visita às casas, elas são levadas à Igreja, onde são reverenciadas. A celebração religiosa é conduzida por Dona Elena que ao finalizar passa a fala ao cacique que faz as recomendações aos eleitos como guardiões das bandeiras, pois deverão conduzi-las sem sujá-las durante as brincadeiras. Neste dia, as casas recebem as bandeiras referenciadas nos pequenos altares de santos de devoção da família, ornamentados com flores.
As crianças, neste momento, têm seus cabelos enfeitados com pequenas coroas de flores, os adultos, chapéus com flores, e os guardiões das bandeiras se vestem formalmente. As brincadeiras dão lugar aos corpos vestidos solenemente para conduzir as bandeiras de casa em casa: “Para nós as bandeiras representam as lutas duras, mas que serão vencidas” (Dona Elena, fev. 2012).
O corpo novamente evidencia o ritual, nessa etapa do Curussé, em que o sagrado é retomado, os corpos enfeitados por flores como os altares, são marcados pela vestimenta solene para o culto espiritual das bandeiras de lutas do seu povo. Nesta ação o corpo dos mais jovens é educado pelas gerações mais novas, e vão dando novos sentidos às lutas e aos ensinamentos do cotidiano. Nas visitas as bandeiras são beijadas com a reverência do
11 Na culinária tradicional Chiquitano, este alimento é feito com cabeça, geralmente de vaca, que assada é servida com milho cozido. A própria comida no ritual é uma expressão da identidade, ao mesmo tempo em que marca esta nos corpos desde criança, o alimento tradicional do indígena da fronteira. Embora não aprofundado neste texto, este deve ser analisado em sua dimensão religiosa Chiquitano. Segundo Bortoletto Silva (2007), há uma necessidade de eliminar e diferenciar sua religiosidade do branco e de sua maldade vergonhosa, pelos alimentos e instrumentos ritualísticos e tradicionais.
ajoelhar-se em sinal de respeito, esta reverência à simbologia das cores12 que
representam a vida coletiva e suas lutas, renovam, no Curussé, a esperança que também é evidenciada pela presença dos mais jovens e as crianças durante todo o ritual.