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Orbital limted teori

2.4 Langmuir Probe Teori

2.4.3 Orbital limted teori

No altar do sacrifício

INFORME: Um dicionário começaria a partir do momento em que não fornecesse mais o sentido mas a tarefa das palavras. Assim, informe não é apenas um adjetivo tendo tal e tal objetivo mas um termo que serve para desclassificar, exigindo geralmente que cada coisa tenha sua forma. O que ele designa não tem seus direitos em sentido algum e se faz esmagar em toda parte como uma aranha ou um verme. Seria preciso, com efeito, para que os homens acadêmicos ficassem contentes, que o universo tomasse forma. A filosofia inteira não tem outra meta: trata-se de dar um redingote ao que é, um redingote matemático. Em compensação, dizer que o universo se assemelha a nada e que ele só é informe equivale a dizer que o universo é algo como uma aranha ou um escarro.

Georges Bataille, Documents

No final desta reflexão patética que, num grito, aniquila a si mesma, na medida em que ela soçobra na intolerância por si mesmo, encontramos Deus. [...] e este Deus, contudo, é uma mulher da vida, em todos os pontos parecida com as outras. Mas o que o misticismo não pôde dizer (no momento de dizê-lo, ele enfraquecia), o erotismo diz: Deus não é nada se ele não é a superação de Deus em todos os sentidos, no sentido do ser vulgar, no do horror e da impureza; finalmente no sentido de nada... Não podemos acrescentar à linguagem a palavra que supera as palavras, a palavra Deus; desde o momento em que o fazemos, esta palavra superando-se a si mesma destrói vertiginosamente seus limites. É que ela não recua diante de nada. Está em toda parte onde não é esperada: ela própria é uma enormidade. Alguém que tenha a menor suspeita disso logo se cala. Ou procurando a saída, e sabendo-se preso nas próprias armadilhas, procura nela o que, podendo aniquilá-lo, torna-o semelhante a Deus, semelhante a nada.

Georges Bataille, Prefácio de “Madame Edwarda”

Segundo Georges Bataille, sua Teoria da religião (Bataille, 1993, [1973]) deveria ser o esboço de um trabalho acabado. Que ninguém se engane, Bataille não pretendia com isso atingir qualquer completude ou estabilidade irrevogáveis. Enquanto esboço de um trabalho acabado, sua Teoria da religião (Bataille, 1993, [1973]) deveria reafirmar a mobilidade de um pensamento que

nunca teve como meta alcançar qualquer estado definitivo de completude. O que nela se esboça é, na realidade, o fecho de um trabalho que se soube sempre incompleto: isso porque o pensamento batailliano preferiu manter-se como um permanente canteiro de obras (Bataille, 1993, [1973]) a cristalizar-se em fórmulas rígidas, presumidamente acabadas. No esboço deixado para o final vemos ser retomada, com singular mobilidade de espírito, a questão relativa à viabilidade do homem: questão essa situada entre os pólos da animalidade e da reificação. Não por acaso, porém, desse esboço derradeiro no qual Bataille retoma a interrogação sobre a viabilidade do homem estão banidas as figuras de autoridade tais como a do Deus cristão ou a do cientista imparcial. Assim, em termos bataillianos, se há uma resposta possível para esse impasse ela passa necessariamente pela destituição de toda e qualquer referência absoluta: de onde resulta que a teoria da religião ali formalizada seja estritamente atéia.

Bataille sabe que o seu procedimento filosófico realiza-se em um esquema temporal distinto daquele do cientista comum. De modo inverso ao que ocorre ao homem da ciência, ele abandona qualquer pretensão de neutralidade em relação aos objetos de sua investigação, e se lança na tentativa de responder àquilo que o inquieta entendendo que esse movimento já é, em si mesmo, o que existe de mais importante em seu projeto. Disso decorre que seu método comporte sempre uma dose necessária de precipitação: precipitar-se em um caminho sabendo, desde o início, que ele é uma travessia e não um fim. A esse respeito ele acrescenta:

A resposta da filosofia não pode ser um efeito dos trabalhos filosóficos, e se ela pode não ser arbitrária, isso supõe, dados desde o início, o desprezo pela posição individual e a extrema mobilidade do pensamento aberto a todos os movimentos

anteriores ou posteriores; e, ligados desde o início à resposta, melhor, consubstanciais à resposta, a insatisfação e o inacabamento do pensamento. (Bataille, 1993, [1973], p. 15-16, grifo do autor)

Nenhuma atitude poderia ser mais rigorosa com a compreensão de que o conceito é insuficiente em relação à vida do que esta que opõe à austeridade do fazer científico a exuberância do êxtase. Desde muito cedo a obra de Georges Bataille dá evidências de que toda resposta é precária e também que nenhuma conclusão pode ser definitiva para um espírito que se pretenda livre. Seu pensamento orienta-se, portanto, menos para um ponto final do que para o incessante movimento de busca: perfazer, ao seu modo, o seu itinerário, tinha para ele o valor de uma resposta afirmativa, resposta essa que somente poderia se realizar na contramão da mortificadora estabilidade dos pontos de saída ou de chegada.

Ao inacabamento permanente que figura enquanto traço fundamental da condição humana, Bataille responde com um movimento em direção ao

impossível. O que anima sua produção, entretanto, parece ser justamente a

expectativa de avançar rumo a esse ponto ao custo de sucessivas transgressões dos limites. Tal expectativa explicita aquilo que muito provavelmente poderia ser definido como a base da sua filosofia: a exigência de que o pensamento fosse levado à constante superação de si mesmo de modo que assim, sem nunca chegar a um estado final de repouso, ele conseguisse se renovar e renovando-se ele se mantivesse em permanente estado de abertura. Sobre as características estilísticas do método batailliano, Silvio Mattoni observa o seguinte:

Poderíamos dizer que Bataille sempre, através da filosofia, da antropologia, ou da reflexão estética, chega à poesia, que não será então um gênero literário. Trata-se mais precisamente de

um movimento que deixa pegadas no escrito: criação por meio da perda ou, em outros termos, o ato do sacrifício na linguagem. Se as palavras parecem constituir um mundo e de fato justificam, por meio do pensamento discursivo, o mundo da ação prática, dos fins úteis, na poesia se anularia esse caráter articulado, separado, feito de conceitos e referências, e se faria visível a totalidade contínua do que existe. [...] Esse retorno do contínuo na consciência descontínua e suas claras distinções seria a poesia, a afirmação mais absoluta, o grande “sim” nietzschiano frente a tudo o que há. (Mattoni, 2001, p. 8-9) Disso resulta que Bataille tenha elegido o erotismo, o riso, o sacrifício e o gasto improdutivo como temas privilegiados de seu interesse: motivos aos quais ele retorna repetidamente em seus escritos filosóficos, antropológicos e literários. Seu empenho em projetar as sombras da continuidade sobre o universo descontínuo reafirmam a posição privilegiada que a literatura ocupa no contexto geral de sua produção: assim, se é verdade que é dela que seu pensamento parte, se é verdade também que é nela que se consolidam suas bases formais, é provavelmente ali também que ele se realiza e se expressa do modo mais vigoroso. Em Bataille, a literatura é o território soberano dessa

afirmação que exige nada menos do que uma “[...] abertura a todo o possível

[...]” (Bataille, 2004, [1957], p. 433). E é precisamente seu estado de ser aberto a todo o possível que faz da escrita batailliana uma via de acesso ao que ele postulou ser o impossível: abrir-se a esse ponto significa forçar passagem rumo ao impensado, esforço em direção ao que resta ainda irrepresentado. Assim compreendida, a escrita batailliana realiza um percurso inverso àquele do “[...] discurso no qual [...] mantemo-nos, nós que dele dispomos, confortavelmente instalados” (Blanchot, 2001, p. 09). Sua heterogeneidade em relação aos padrões convencionais revela-se diretamente proporcional à sua violência: por meio da qual Bataille pretende abalar o universo das representações fixadas pela tradição. Eis portanto o paradoxo de uma escrita que parece conspirar

contra a própria linguagem, senão contra toda a linguagem ao menos contra aquela que se limita a valorar e a fixar sentidos.

Bataille nunca temeu os paradoxos. Para ele, mais importante do que a uniformidade ou a coerência de seu trabalho era a paradoxal suspeita de que a morte (ponto de articulação entre os motivos que o obcecaram), a experiência da própria dissolução, constitui a marca soberana do para-além de todo saber (Mattoni, 2001). Se entretanto, levado ao limite, o saber revela-se impotente para nomear a abissal experiência da própria dissolução, “a escritura, então, não deve ocultar sua impotência, seu desfalecimento frente ao que, por um golpe de sorte, quisera comunicar” (Mattoni, 2001, p. 10).

Privilegiando o corpo vivo e as suas intensidades, Bataille avança na direção do impossível. E se o faz, é precisamente porque tem a coragem de assumir-se sem socorro nem esperança enquanto alguém que já não conta com mais nada, e que por isso mesmo pode experimentar, de modo autêntico e sem qualquer expectativa de transcendência, o presente afirmado pela experiência. “Arrojado nesse campo de possibilidades efêmeras, caído do alto, desamparado como um inseto que dá voltas” (Bataille, 2001, [1944-1961], p. 20), o homem não tem motivos a priori para adotar o servilismo voluntário como meta. Se, entretanto, ele abandona a fruição da vida e o exercício da vontade para servir, se renuncia ao gesto soberano em prol daquele que lhe parece o mais útil, parece ser pelo temor que a noite e seus monstros lhe inspiram: a ela ele opôs desde o princípio as metafísicas e esperanças; à noite ele opôs a razão e com ela a vontade de durar indefinidamente. Bataille, ao contrário, exige a terrível “[...] experiência da noite” (Bataille, 2001, [1944-1961], p. 24), essa experiência que faz vacilar as figuras do saber mas também os valores

instituídos e sustentados ao preço do empobrecimento da vida (Bataille, 2001, [1944-1961]). Assim como a mesa de dissecação condensa a poética surrealista, a poética batailliana encontra no altar do sacrifício a imagem que melhor lhe cabe (Moraes, 2002).

***

Ao longo do primeiro capítulo deste trabalho nos dedicamos à apresentação de alguns dos aspectos gerais da literatura produzida por Georges Bataille, incluindo o contexto no qual ela foi produzida. Naquele momento nos interessava situar, sobretudo a partir da narrativa do olho (Bataille, 2003, [1928]), o êxtase como o ponto fundamental sobre o qual se alicerça o pensamento batailliano. Em nosso percurso, destacamos o fato de que, assimilada a herança de Sade, de Nietzsche e de Freud, Bataille fez de seu programa estético-filosófico uma via de acesso ao deslimite, via que o conduziu à paradoxal experiência do impossível. Além disso, destacamos também que o pensamento batailliano, consagrado ao impossível, evoca constantemente a abertura para uma experiência com a vida a se realizar fora do campo das injunções morais, uma experiência votada à convulsão e à vertigem. Partindo da análise de sua novela de estréia, a História do olho (Bataille, 2003, [1928]), procuramos identificar os princípios geradores desse programa que, construído sob a influência de Sade, Nietzsche e Freud, avança rumo ao deslimite do êxtase, arriscando-se na direção da paradoxal experiência do impossível: afirmar a vida por meio da celebração das intensidades corpo.

No presente capítulo buscaremos compreender o êxtase a partir de duas das obras que compõem a parte mais relevante do escopo propriamente

filosófico da obra de Georges Bataille. Nos interessa sobretudo rastrear, ao longo dO ânus solar (Bataille, 1985, [1931]) e dA experiência interior (Bataille, 1992, [1943]), os princípios que fundamentam esse pensamento não apenas construído em torno do êxtase, mas verdadeiramente votado a ele. Em nosso percurso, destacaremos o fato de que a paixão batailliana pelo impossível marca o início de sua teorização sobre o êxtase: conceito fundamental que visa expressar aquilo que na experiência ultrapassa os limites fixados pela razão. Além disso nos perguntaremos sobre a viabilidade desse projeto, ancorado na transgressão, que apela para o impossível: nos interessa aqui especular a viabilidade de concretização de uma ordem comum que não estivesse sustentada unicamente a partir de referências universalmente válidas mas, ao contrário, pudesse vir a sustentar-se pela singularidade.

Nossos objetivos neste capítulo são portanto: a) acrescentar ao êxtase, anteriormente abordado desde a literatura batailliana, os contornos da proposta filosófica de Georges Bataille; b) especular sobre a viabilidade do projeto batailliano levado ao seu termo. Nosso movimento, ao longo do presente capítulo será o seguinte: partindo da economia pulsional pensada por Bataille e do êxtase definido por ele através da experiência interior, tentaremos extrair os princípios que fundamentam aquilo que chamaremos aqui de sua heterologia para, em seguida nos perguntarmos sobre a sua viabilidade. O problema em torno do qual gira este capítulo é aquele enunciado por Bataille em sua Teoria

da religião: a aparente impossibilidade de “[...] ser humano sem ser coisa e de

escapar aos limites das coisas sem retornar ao sono animal [...]” (Bataille, 1993, [1973], p. 26). Ao final apresentaremos a versão batailliana para tal impasse: despido de qualquer esperança ou compromisso moral, despido

também de qualquer expectativa de durar indefinidamente e tendo aberto mão de seus suportes metafísicos, poder abrir os olhos e ver (Kazantzakis, 1997).

2.1 - por uma economia pulsional

Até o ano de 1943, Georges Bataille publicou seus escritos utilizando-se de pseudônimos: Lord Auch serviu-lhe para a História do olho (Bataille, 2003, [1928]), Pierre Angelique para Madame Edwarda (Bataille, 1940, [1981]) e Louis Trente para Le petit (Bataille, 1943). Exceção a esse procedimento é O

ânus solar (Bataille, 1985, [1931]). Nesse escrito, publicado pela primeira vez

em 1931 e assinado com seu nome de família, Bataille (1985, [1931]) apresenta-nos, de modo extremamente condensado, aquilo que poderia ser considerado o ponto zero de sua matriz econômica baseada no dispêndio improdutivo. Nos prospectos da editora consta a seguinte anunciação do texto pelo seu autor:

Se tememos ofuscar-nos ao ponto de nunca termos visto (– em pleno Verão, e nós próprios com a face vermelha banhada de suor –) que o sol é agoniante e cor-de-rosa como uma glande, aberto e urinante como um meato, talvez seja inútil voltar a abrir, no meio da natureza, olhos carregados de interrogação; a natureza responde à chicotada, tão galante como as formosas domadoras que admiramos nas montras das livrarias pornográficas. (Bataille, 1985, [1931], p. 15, grifo do autor) Anunciada por ele está a conjunção entre o Sol e sexo, entre o princípio mantenedor da vida na Terra e a glande que urina. O escândalo da associação entre esses dois elementos prenuncia sua indisposição contra a rigorosa separação, imposta pela racionalidade, entre o mundo celeste e o terreno. O Sol, condição indispensável para a existência de qualquer forma de vida terrestre, ícone religioso da mais alta importância ao longo de toda a história das religiões, liga-se, nesse texto batailliano, à fealdade profana de um pênis

urinando. Bataille antecipa nessa imagem uma das características mais marcantes de sua obra: a fusão intencional entre o que existe de mais elevado e o que há de mais baixo na existência humana. É desde essa perspectiva que ele partirá para referir-se à arte, ao erotismo e (por que não?) também ao sagrado.

A Bataille, importa sobretudo o êxtase que emerge paradoxalmente do máximo sofrimento: pois “[...] a natureza responde à chicotada [...]” (Bataille, 1985, [1931], p. 15). Esse é o seu método, é assim que ele procede para ter acesso ao segredo que a natureza não entregaria voluntariamente, mas somente depois de ter sido levada ao limite, na forma de uma reação à pancada. O segredo em questão, entretanto, não diz respeito a nenhuma verdade mais fundamental sobre o ser, mas restringe-se exclusivamente à experiência. Se há uma verdade a ser revelada, essa é uma verdade que tem a textura da carne: uma verdade que não comunica absolutamente nada, mas é grunhido ou grito arcaicos, inaudita sonoridade nascida das convulsões do corpo vivo.

Se Bataille elogia o exercício de uma violência irracional, ele o faz com o intuito de avançar para além da calma ordenada do mundo cotidiano (e submetido às leis da razão) para revelar, no íntimo da dor, uma experiência sem-nome: daquele que sofre com seu corpo submetido à violência da tortura, o carrasco exige nada menos do que o impossível: uma fala da qual se possa extrair, por meio da impiedosa aplicação da violência posta em ação pelo verdugo, um gozo inominável (André, 1995). Se a natureza responde à chicotada, interessam-lhe menos os sentidos cristalizados sob a forma da tradição do que a possível irrupção do que existe de impronunciável na

experiência: interessa-lhe sobretudo a opacidade do ato ou ainda o puro exercício de uma violência tão inútil quanto desprovida de sentido.

Opondo-se vigorosamente ao partido do Bem, à “[...] preocupação com o interesse comum, que implica, de uma maneira essencial, a consideração do futuro” (Bataille, 1989, [1957], p. 19), Bataille exige o Mal, os estados extremos nos quais interessa unicamente o instante presente. Interesse que apenas confirma seu protesto em relação ao mundo governado exclusivamente a partir da consideração dos fins úteis36. O apelo à destruição das formas estáveis e harmônicas comparece ao longo dos seus variados escritos enquanto estratégia para revelar o homem “não mais na sua ilusória completude antropomórfica, mas em seu permanente inacabamento” (Moraes, 2010, p. 225). Desse modo, não podendo escapar à sua insuficiência, caberia ao homem reivindicar, “tanto no plano ético quanto no estético”, “uma atitude soberana diante deste inacabamento” (Moraes, 2010, p. 219)37

.

36 Em seu A noção de despesa (1975, [1933]), por meio da oposição entre os termos aquisição e despesa, Bataille não apenas destacará a anterioridade da despesa improdutiva em relação à preocupação em conservar/ crescer, mas interpretará a própria sobrevivência das sociedades humanas como dependente de consideráveis e crescentes despesas improdutivas. Em A parte maldita, ele ampliará tal interpretação reafirmando a perda improdutiva enquanto uma necessidade, um impulso impossível de ser contido: “se o excedente não pode ser inteiramente absorvido [...] há necessariamente que perdê-lo sem lucro, despendê-lo, de boa vontade ou não, gloriosamente ou de modo catastrófico” (Bataille, 1975, [1949], p. 59-60). Por meio dessas afirmações, Bataille explicita aquilo que ele considera um princípio econômico geral e imutável: as formas vivas, bem como as sociedades, embora aparentemente funcionem reguladas pela consideração racional (aquela que visa a aplicação mais útil para todo o excedente que lhe cabe), realiza freqüentemente despesas improdutivas, seja sob a forma gloriosa ou catastrófica.

37 Conforme dissemos no primeiro capítulo deste trabalho, a fragmentaridade é um dos traços mais representativos da produção batailliana. Podemos constatá-la na forma conferida por Bataille aos seus escritos e também nas figuras que ele elege e prioriza ao longo de sua obra, o acéfalo, o informe etc., por meio dos quais o escritor e filósofo francês expressa o seu sim em relação ao inacabamento humano: “Fragmentos... mas todo fragmento deve pertencer a uma unidade que, precisamente, se tenha fragmentado. Sem dúvida, em Bataille, esta unidade prévia (e, por conseguinte, metafísica) falta. São fragmentos de uma unidade ausente, mas ausente em sentido absoluto, vale dizer, de uma unidade que nunca existiu e que não pode existir. A fragmentaridade não é retórica, portanto, senão [...] ontológica. [...] Bataille assume as conseqüências desta fragmentaridade, ou, dito de outra forma, entrega-se ao fragmentário com a alegria e o sofrimento de um descobridor” (Drazul, 1970, p. 07).

José Gutiérrez Solana. Suplicio chino. n/d.

Em O ânus solar (Bataille, 1985, [1931]), escrito breve cuja extrema condensação comunica sua intimidade com a poesia, Bataille projeta uma total consubstanciação entre a palavra e o corpo. À cópula dos corpos ele alinha, por analogia, a cópula dos termos. Assim, de uma exclamação na qual estejam conjugados o Ser e o Sol “[...] resulta uma erecção integral porque o verbo ser é veículo do frenesi amoroso” (Bataille, 1985, [1931], p. 19). Na imagem evocada por Bataille, o verbo toma emprestado da ereção sua potência disseminadora. A força expressiva dessa imagem encontra-se no potencial criativo/ gerador que possuem cada um dos dois elementos mobilizados – potencial ainda mais intensificado em razão da aproximação entre ambos. Corromper a pureza lógica da palavra e, por meio desse procedimento, projetar seu pensamento para além dos ideais morais da Cultura: juntar ao verbo e a tudo o que existe de mais elevado o que há igualmente de mais baixo e vil, impregnar a palavra dos humores corporais.

É precisamente dessa linguagem disseminadora, dessa fala impregnada de potência e virilidade que Bataille (1985, [1931]) parte para a construção de uma outra imagem: combinação do movimento rotativo da Terra ao do ato

sexual, a exemplo de uma locomotiva de pistões e rodas. Suposta nessa representação está a reunião dos dois movimentos, a transformação recíproca de um no outro e o retorno, de volta ao princípio, em um movimento contínuo e permanente. À forma fálica dos pistões associam-se os animais e os homens: “assim notamos que a terra a dar voltas faz coitar animais e homens (e, como aquilo que resulta também é a causa que o provoca), animais e homens quando coitam fazem dar voltas à terra” (Bataille, 1985, [1931], p. 20). Abandonada a suposição de uma ordenada e santa mecânica celeste,