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4. METHODS

4.4 F ORAMINIFERA

Na comunidade científica, paradigma de pesquisa representa uma perspectiva compartilhada por determinada comunidade de pesquisadores fundamentada em um conjunto

de suposições, conceitos, valores e práticas característicos dessa comunidade específica (JOHNSON e CHRISTENSEN, 2012). Os paradigmas podem sofrer transformações com o tempo. No entanto, enquanto permanecem, eles oferecem problemas e modelos de soluções ou de como empreender investigações para a comunidade que o legitima. Dessa forma, trata- se mais do que um método em particular, pois abrange uma forma de pensar o fazer pesquisa, uma filosofia que subjaz às ações investigativas. Kuhn (1998, p. 66) evidencia isso ao afirmar que “as regras [...] derivam de paradigmas, mas os paradigmas podem dirigir a pesquisa mesmo na ausência de regras”. Na LA dois paradigmas se apresentam como norteadores dos estudos científicos nela empreendidos, cada um com ferramentas e estratégias de investigação próprios: o quantitativo e o qualitativo8.

Entretanto, no conduzir pesquisas, a combinação de métodos e conceitos originários das duas vertentes (a qualitativa e a quantitativa) também mostra-se possível. Essa postura investigativa de combinar os dois paradigmas pode favorecer a qualidade da pesquisa, posto que, ao utilizar ferramentas pautadas em diferentes filosofias, a diversidade de forças e fraquezas contidas em cada uma delas é combinada e, consequentemente, o estudo resultante pode reduzir a propensão a equívocos. Conforme salientam Johnson e Christensen (2012), mesmo que um estudo quantitativo mostre-se adequado para constatar causa e efeito, ele revela-se limitado no que concerne a captar uma realidade dinâmica e suas especificidades. Por outro lado, embora um estudo qualitativo não seja capaz de evidenciar causa e efeito apropriadamente, ele permite a observação da atuação in loco ao sair a campo.

Isso posto, passamos à discussão sobre os paradigmas quantitativo e qualitativo, de forma a explicitar os princípios que caracterizam cada um deles, bem como as possibilidades que se apresentam no encontro dos dois.

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Devido a natureza específica de cada paradigma, muitas vezes, ao referir-se a estudos quantitativos, o termo pesquisa experimental é utilizado; nos qualitativos, por sua vez, destaca-se o uso do termo pesquisa interpretativa. Entretanto, cabe ressaltar que os termos experimental e interpretativo alinham-se no nível de métodos de pesquisas e não de paradigmas propriamente ditos.

1.1.1 O Paradigma Quantitativo

Moura Filho (2000, p. 6) destaca que a pesquisa quantitativa prototípica “é, essencialmente objetiva, distanciada do corpus, particularista e assume uma realidade estática”. No seu desenvolvimento são utilizados métodos como amostragem e correlações, alicerçados em dados quantitativos obtidos através de registros rigorosamente coletados. Os pesquisadores que seguem essa perspectiva descrevem o mundo utilizando variáveis, e buscam explicar e prever os diversos aspectos do contexto em que estão inseridos, demonstrando as relações entre essas variáveis (JOHNSON e CHRISTENSEN, 2012).

Nessa vertente, caracteristicamente positivista, os resultados são apresentados em forma numérica e, portanto, utilizam primordialmente ferramentas advindas das ciências matemáticas, com cálculos estatísticos e fórmulas diversas que viabilizam a apresentação dos dados consolidados sobre o tema do qual o estudo trata. O foco das pesquisas desenvolvidas sob essa vertente é a busca por determinar causa e efeito. Para tanto, os pesquisadores podem adotar uma metodologia de caráter experimental e/ou não-experimental, dependendo do contexto.

O método experimental permite a observação dos efeitos de alterações sistemáticas em uma ou mais variáveis em determinada situação observada em ambiente controlado. Nesse caso, o pesquisador escolhe aleatoriamente grupos e atua de forma diferente em cada um deles. Esses grupos, apresentando resultados distintos, levam à constatação de que tal fato se deve, de alguma forma, à atuação sui generis empregada nos diferentes grupos. Naquelas situações em que, mesmo quando o objetivo é verificar causa e efeito, não seja possível manipular as variáveis (estudos na área da saúde que envolvem questões éticas sobre a condução de experimentos em seres humanos, por exemplo) opta-se pelo método não- experimental, em que se observam variáveis extrínsecas (JOHNSON e CHRISTENSEN, 2012).

A literatura aponta que o paradigma quantitativo foi amplamente aceito para os estudos no campo da educação até, aproximadamente, os anos oitenta, época em que a discussão sobre os paradigmas quantitativo e qualitativo se acentuaram e atingiram seu ápice. As ciências humanas, até aquele momento, sustentavam o desenvolvimento de seus estudos no modelo das ciências da natureza, enquanto os estudos do homem social se conservavam subordinados à filosofia (JOHNSON e CHRISTENSEN, 2012; LAVILLE e DIONNE, 1999).

Desde então, as Ciências Sociais e Humanas – suas pesquisas e seus pesquisadores – vivenciam um progressivo distanciamento dessa vertente positivista (quantificadora e

replicável), e consequente valoração do paradigma qualitativo, ao passo que buscam enfatizar a “natureza da realidade socialmente construída, a íntima relação entre o pesquisador e o que é estudado e as restrições circunstanciais que moldam a pesquisa” (MOURA FILHO, 2000, p. 6). Os traços característicos do paradigma qualitativo serão explorados na sequência.

1.1.2 O Paradigma Qualitativo

Sob a perspectiva da pesquisa qualitativa, a realidade é compreendida como fluída, portanto corrente e contraditória. Seguindo essa premissa, os processos de investigação são percebidos como dependentes do pesquisador, das concepções, dos valores e dos objetivos dele. Esse tipo de pesquisa demonstra a relação pesquisador-contexto, a natureza da realidade socialmente construída e as restrições que podem ocorrer durante o desenvolvimento dos estudos (CHIZZOTTI, 2006; MOURA FILHO, 2000). Como consequência da relação de dependência entre pesquisa e pesquisador, a credibilidade se apresenta como questão nuclear.

Diante desse cenário, os pesquisadores afiliados ao paradigma qualitativo, ao desenvolverem suas pesquisas e relatarem seus resultados, empenham-se na explicitação de conceitos de: (i) confiabilidade, na busca por uma compreensão mais exata do contexto; (ii) confirmação, que demanda revelar os dados nos quais as interpretações se baseiam; (iii) credibilidade, maximizando a precisão das definições e caracterização dos participantes investigados; e (iv) transferência, que requer completa descrição da estrutura, contexto e condições da pesquisa, de forma que os leitores possam perceber se tais interpretações podem ser aplicadas em seus próprios contextos (BROWN, 2004, p. 495).

No que se refere à credibilidade especificamente, nesse tipo de investigação ela envolve, primordialmente, a conduta ética do pesquisador. No que concerne à ética, fica evidente a dificuldade de se chegar a um consenso, em virtude da pluralidade de perspectivas que circundam o entendimento da ética, uma vez que as visões diversas existentes repercutem os valores da sociedade democrática em que estamos inseridos. Por isso, a reflexão sobre as práticas adotadas se mostra essencial para possibilitar a identificação do princípio lógico/ético que fundamenta determinadas decisões no curso da pesquisa (BROWN, 2004; SCHUKLENK, 2005).

Dentre as metodologias que compõem o grupo das pertencentes ao paradigma qualitativo estão a etnografia (ou de base etnográfica), o estudo de caso, a pesquisa-ação, a pesquisa histórica e a teoria fundamentada, entre outras (FREEBODY, 2003; JOHNSON e CHRISTENSEN, 2012). Na produção em AELin/LA nacional observa-se, sobretudo, estudos

de base etnográfica, estudos de caso e pesquisas-ação. Enquanto essas três representam um grupo identificado como de pesquisas primárias, que apresentam resultados ou fatos originais comumente obtidos através de coleta de dados em campo, a teoria fundamentada é identificada como um estudo secundário, ou seja, decorrente do cruzamento de dados registrados na literatura existente (um dos resultados possíveis de uma metapesquisa).

No Brasil, como evidenciado no Quadro 1 (na subseção Motivação e Objetivos), predomina o paradigma qualitativo na condução de pesquisas em AELin. A seguir tratamos especificamente da pesquisa qualitativa em LA, com foco na disciplina de AELin, no intuito de fornecer subsídios para avançar na compreensão de características e procedimentos envolvidos em metapesquisas orientadas por esse paradigma.

1.1.2.1 A PESQUISA QUALITATIVA EM LINGUÍSTICA APLICADA

Freitas (2013) chama a atenção para o fato de que a pesquisa implica, implícita ou explicitamente, uma metodologia que assume pressupostos epistemológicos e uma concepção da realidade, mesmo quando o autor não a declare ou não a perceba. Nesse cenário, Ludke e André (1986) afirmam que, para empreender uma pesquisa, é necessário promover o confronto de informações, evidências e dados coletados sobre determinado tópico, bem como o conhecimento teórico acumulado a respeito dele.

A pesquisa aplicada, especificamente, busca fortalecer a relação teoria-prática, ao passo que tem no contexto social sua fonte primária de problemas, os quais ela busca tratar cientificamente (utilizando as teorias adequadas a cada situação) para, em seguida, retornar à sociedade possíveis práticas para superar dificuldades ou anseios outrora observados. Dessa forma, no campo da pesquisa em AELin (na LA), ela pode assumir o papel de instrumento para reflexão e valoração da prática no ambiente de ensino e aprendizagem, ou mesmo de oportunidade de transformar a prática em práxis9.

Conforme destaca Freitas (2013), outro agente importante envolvido na dinâmica de produção científica são os financiadores. No Brasil, especificamente, grande parte dos recursos destinados à pesquisa são provenientes de órgãos de fomento públicos. Assim, nos parece razoável que essas investigações devam envolver também a difusão do conhecimento, reforçando a necessidade de devolutivas dos centros de pesquisa à sociedade, contribuindo para o desenvolvimento do país e dos cidadãos brasileiros.

Diante disso, nos parece nuclear destacar a importância do pesquisador em LA, 9 Consideramos que os termos ‘prática’ e ‘práxis’ não são sinônimos, visto que, embora os dois revelem ações

particularmente em AELin, assumir uma atitude ética, durante e ao final de seu estudo. Ao passo que envolve a sociedade e os recursos públicos, é imperativo que o pesquisador, ao concluir seu estudo, informe encaminhamentos e direções alternativas e, acima de tudo, comunique de forma honesta, adequada, consistente e profissional sua produção (FREITAS, 2013).

Nesse sentido, Brown (2004, p. 498) considera que os linguistas aplicados (e estudiosos em geral) têm duas responsabilidades éticas principais, a saber: continuar lendo, aprendendo e crescendo como pesquisadores de forma a servir melhor a área; e elaborar pesquisas que sejam eficazes e atendam aos contextos institucionais em que estão envolvidos, através de seleção criteriosa de metodologias que se mostrem mais adequadas para suscitar respostas a questões importantes que ainda permanecem sem solução. Nessa perspectiva, este estudo busca indicar caminhos para a elaboração de metapesquisas em AELin/LA, ao mesmo tempo em que apresenta uma.

Delineadas as características dos paradigmas qualitativo e quantitativo, ambos com presença marcante no cenário da pesquisa em AELin/LA, abordamos na próxima subseção a atuação conjunta das ferramentas características das duas vertentes.

1.1.3 O Continuum Quali-quanti

O potencial da utilização conjunta de métodos e estratégias distintos deve ser reconhecido. Todavia, diante de diferentes estudos que argumentam se servir de procedimentos qualitativos e quantitativos (vide XAVIER, 1999; ELIZI, 2004; ABREU-E- LIMA, 2006; SOUSA, 2011; VIGATA, 2011), embora alguns autores classifiquem o quali- quanti como um paradigma, consideramos que a pesquisa quali-quanti não é um paradigma em si.

Assim, parecem assertivos os argumentos de Brown (2004) ao questionar a dicotomia quantitativo-qualitativo na pesquisa em Linguística Aplicada. O autor (op. cit.) considera que uma percepção de quantitativo versus qualitativo induz a uma noção de que os dois tipos de pesquisa se excluem mutuamente. Essa forma de distinção pode representar uma polarização desnecessária, ou mesmo uma caracterização imprecisa da relação entre os diversos tipos de pesquisa empreendidos no campo da LA.

Uma proposição mais produtiva para área de LA poderia ser aquela em que o qualitativo e o quantitativo fossem vistos como um continuum, e não extremos não conectáveis. Assim, poderiam ser compreendidos como um contínuo interativo, que em

momentos – dependendo da necessidade do estudo realizado – tendem para um lado ou para outro (BROWN, 2004). A Figura 4 apresenta características que o autor (op. cit.) identifica para a pesquisa nos polos qualitativo e quantitativo, e no continuum quali-quanti.

Da forma como é proposto por (Brown (2004), ao invés de traços deterministas e antagônicos, que não convergem e que demandariam filiações absolutas a um paradigma em detrimento do outro, as investigações em LA se beneficiariam de uma perspectiva focada na gradação. A pesquisa se move, então, para o qualitativo ou o quantitativo no continuum apresentado na Figura 4 dependendo da necessidade, o que atenderia mais adequadamente às inúmeras nuances que circundam os estudos em LA.

Figura 4 - Padrões da Pesquisa para Estudos Primários

Fonte: BROWN, 2004, p. 49610.

Consideramos que, como mencionado, ao fazer suas escolhas metodológicas os pesquisadores privilegiam um ou outro paradigma, o que torna os estudos que conduzem caracteristicamente qualitativos ou quantitativos, mas essa tendência não precisa necessariamente representar uma relação de exclusão, e sim uma de parceria. Assim, possibilita-se a aplicação de diferentes técnicas metodológicas (qualitativas e quantitativas) para explorar mais amplamente o contexto e o objeto de pesquisa.

Na sequência, a metodologia da metapesquisa no campo da LA é discutida.

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