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A noção de discurso traz à tona uma série de elementos constitutivos do campo da Análise do Discurso. Iniciamos nossa reflexão, partindo do princípio de que os efeitos de sentido em uma circunscrição discursiva são instituídos por meio de sua materialidade lingüística, de que a significação não existe em si mesma, mas, sim, na dependência de sua exterioridade constitutiva, em outros termos, da relação entre a linguagem e sua constitutividade histórico-social. Assim, ponderamos sobre a formação discursiva e o interdiscurso para compreender como essa reflexão permite uma análise significativa do

corpus. Portanto, atentemos para a definição de formação discursiva (FD) proposta por

Foucault (1995):

No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (...), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva – evitando, assim, palavras demasiado carregadas de condições e conseqüências, inadequadas, aliás, para designar semelhante dispersão, tais como “ciência”, ou “ideologia”, ou “teoria” ou “domínio de objetividade”. (FOUCAULT, 1995, p.43-44)

Dessa maneira, podemos conceber por formação discursiva o sistema de manifestação verbal resultante da constituição sócio-histórica dispersas nos sentidos dos enunciados. Assim, vê-se a alteração de sentido de um enunciado conforme sua condição histórica – ou seja, dos sentidos construídos na História, em aspectos distintos, tais como o social, o econômico e o cultural –, evitando a concepção equivocada de que o sentido é imanente ao discurso. Essa questão possibilita-nos uma reflexão sobre a formação discursiva como organizadora de grupos de enunciados em sua historicidade.

Partindo desse mesmo princípio, temos as ponderações de Pêcheux (1997), que considera a FD como lugar discursivo, no qual

(...) palavras, expressões, proposições, etc., mudam de sentido segundo as posições

sustentadas por aqueles que as empregam, o que quer dizer que elas adquirem seu sentido em referência a essas posições, isto é, em referência às formações

ideológicas8 (...) nas quais essas posições se inscrevem. Chamaremos, então,

formação discursiva aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado da luta de classes, determina o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de uma exposição, de um programa, etc.) (PÊCHEUX, 1997, p.160). 9

Ao procurar mostrar a determinação sócio-histórica de FD, o autor considera-a como um lugar em que se regula a orientação dos dizeres a partir do interior das condições de produção de um determinado discurso, constituindo-se pela contradição existente entre as vozes nela traspassadas. Uma FD é atravessada por outras FDs, pois a alteridade10 em que se organiza permite diferentes vozes encontrarem-se em FDs distintas, produzindo sentidos outros ou desconstruindo-os.

8 Segundo Pêcheux (1997, p. 146), as formações ideológicas, concomitantemente, “(...) possuem um caráter

‘regional’ e comportam posições de classe: os ‘objetos’ são sempre fornecidos ao mesmo tempo em que a ‘maneira de se servir deles’ – seu ‘sentido’, isto é, sua orientação, ou seja, os interesses de classe aos quais eles servem –, o que se pode comentar dizendo que as ideologias práticas são práticas de classes (de luta de classe) na Ideologia.”, ou seja, confronto de ideologias em um dado momento pelas quais os sujeitos se relacionam em sociedade.

9 Grifos itálicos da citação são do autor.

10 A alteridade se evidencia, em um determinado discurso, pela ocorrência fragmentária de outros discursos

circunscritos naquele discurso, sendo observada essa característica, também, nos sentidos que atravessam esses outros. Em resumo, ela caracteriza a relação de contraste, distinção ou diferença entre os discursos por meio de uma contraposição discursiva.

Essa contradição permite em observar a inclusão do conceito de luta de classes, permitindo dizer o que pode e deve ser dito sobre uma FD que se refere a uma estrutura e um

acontecimento. Pêcheux procura fazer valer a existência ideológica da luta de classes o que significa, conforme o estudioso, que o autor de Arqueologia do Saber poderia ter explicitado o jogo contraditório das formações discursivas, evitando um “déficit” com o materialismo histórico.

Esse ponto nevrálgico nos leva a entender como formação discursiva a organização sócio-histórica de enunciados em grupos, dispersando os sentidos organizados por meio da alteridade existente na luta de classes e, assim, (re) construindo as significações em uma FD. Tal fato acontece, uma vez que essa dispersão de significações ocorre, pois uma FD desloca- se e (re) significa as significações possíveis ao tocar em outras FDs. Nesse sentido, trata-se de realizar um estudo voltado para a observação desse funcionamento como pluralidade, evitando a freqüente falácia de que o sujeito é dono de seu dizer.

A reflexão acima nos leva a examinar a correlação entre FD e interdiscurso, a fim de esclarecer as análises subseqüentes. Nessa perspectiva, seguem as reflexões de Pêcheux (1997) sobre o conceito de interdiscurso:

(...) propomos chamar de interdiscurso a esse “todo complexo com dominante” das formações discursivas, esclarecendo que também ele é submetido à lei de desigualdade-contradição-subordinação que (...) caracteriza o complexo das formações ideológicas. (PÊCHEUX, 1997, p.162).

Assim, pode-se dizer que a interdiscursividade é uma característica das FDs e corresponde ao atravessamento de diferentes discursos na composição de um processo enunciativo. O interdiscurso encontra sua formação relacionada com as condições de produção – históricas e (re) produtoras de posições na sociedade. Em outros termos, ele é um complexo dinâmico da desconstrução/produção de sentidos nas FDs.

Pensando dessa maneira, concebemos o interdiscurso como um elemento constituinte e constitutivo, um amálgama de elementos de significação por intermédio dos quais os dizeres se instauram pelo caráter contraditório que possuem. Dito de outra forma, o sentido não nasce no sujeito enquanto causa de si, como já dissemos; ele é produzido pelo processo das formações ideológicas que ocorre nas relações sociais. Essa é uma das razões que justifica a materialidade contraditória do interdiscurso – a sua historicidade – juntamente à sua submissão à lei de “desigualdade-contradição-subordinação”.

Notamos que esse continuum discursivo pode ser construído sob dois panoramas. O primeiro refere-se ao interdiscurso formado por elementos do “pré-construído”, referente ao já-dito, construído histórico-ideologicamente. O outro se encontra na instituição da “articulação”, referindo-se ao modo como os sujeitos, ao se constituírem pela exterioridade do discurso – no interdiscurso –, relacionam as significações e produzem sentidos.

Assim, podemos dizer que a desconstrução, (re) significação e a transformação dos dizeres dos sujeitos advêm de lugares discursivos contraditórios e desiguais, de formações discursivas distintas, apresentadas por manifestações ideológicas que “lutam” continuamente a partir da presença das múltiplas vozes interdiscursivas. Como dissemos anteriormente, o sentido não é imanente ao sujeito, mas, sim, avesso à unicidade de significações nos dizeres, pois tais significações são fomentadas na exterioridade da linguagem, nas relações históricas e sociais dos sujeitos que discursivizam/significam essas práticas sociais em um devir. Isso acarreta a necessidade em nos determos nessa “plurissignificação discursiva” para averiguar a noção de polifonia em estudo.