Por volta da década de 1970, a partir de estudos sobre o chinês e suas variedades dialetais, Chen e Wang (1975) sugeriram que a mudança sonora era uma inovação na qual um condicionador lexical se sobreporia a um condicionador fonético. Os autores verificaram que a mudança sonora tratava-se, na verdade, de um processo de difusão lexical no qual uma mudança sonora poderia se originar mesmo na ausência de condicionamento fonético porque a mudança iniciaria em uma palavra e não em um som.
Chen e Wang (1975) corroboraram seu argumento de que o componente lexical tinha uma função primária no mecanismo de mudança sonora a partir de exemplos do sistema tonal do dialeto Cháozhou, da alternância acentual em inglês e do apagamento de /d/ final na língua sueca. Comentaremos a seguir os dois últimos casos.
Segundo os autores, palavras inglesas como abstract, accent e addict apresentam dois acentos tônicos que se alternam: quando são usadas como substantivos, o acento primário aparece na primeira sílaba; quando são usadas como verbos, o acento primário aparece na segunda. O levantamento de dados realizado por Sherman (1973)12 indicou que no ano de 1570 apenas três palavras
apresentavam este comportamento, a saber, outlaw, rebel e record. Em 1582 foram acrescentadas ao léxico da língua mais cinco palavras diatônicas. Em 1660, havia 24 palavras, em 1700 registravam-se 35 e, um século mais tarde, 70 palavras. Em 1934, o Short Oxford English Dictionary registrava 150 palavras diatônicas.
Chen e Wang (1975) chamaram a atenção para o fato de que a regra de alternância do acento difundiu-se gradualmente pelo léxico da língua ao longo dos séculos e que de 1.315 potenciais candidatas à regra, apenas 150 palavras realizaram-se como itens lexicais diatônicos, evidência de que a regra em questão é de cunho difusionista.
A variedade sueca falada em Estocolmo, por sua vez, mantinha o /d/ final ortográfico, mas, em sua variedade falada, apagava-o em palavras como ved, hund, blad e röd, em um processo de aplicação crescente entre palavras representativas de diversas categorias gramaticais verificada desde o século XIV. Entretanto,
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SHERMAN, Donald. Noun-verb stress alternation: An example of the lexical diffusion of sound change in English. POLA Reports, v. 17, p. 46-82, 1973.
segundo Janson (1973)13, formas com e sem /d/ final alternavam-se no sistema da
língua à época de sua pesquisa, com o apagamento restringindo-se a um número reduzido de classes gramaticais.
O aumento das taxas de alfabetização entre os suecos na primeira metade do século XX sugere que o conhecimento ortográfico dos falantes interferiu no processo regular de apagamento de /d/ final, conservando algumas formas com apagamento e outras sem, fato característico da mudança por difusão lexical.
Os referidos estudos reforçaram a hipótese difusionista de que a mudança começaria na palavra, sem, com isso, excluir o componente fonético do processo de mudança linguística. Ao estabelecer o papel secundário do condicionador fonético, a teoria difusionista justificava a existência de itens lexicais que não eram atingidos pela mudança que se operava em outros itens lexicais com o mesmo condicionamento fonético.
A hipótese difusionista previa, portanto, que as mudanças sonoras seriam foneticamente repentinas e lexicalmente graduais, ou seja, a mudança sonora começaria abruptamente em uma palavra isolada e, a partir dela, poderia se propagar gradualmente para outras palavras com contexto fonético semelhante.
Oliveira (1991) argumenta que a diferença entre as propostas neogramática e difusionista está no ordenamento dos condicionadores envolvidos no processo. Assim, enquanto que para os neogramáticos o condicionamento fonético precede o condicionamento lexical, para os difusionistas a relação é oposta, ou seja, o condicionamento lexical antecede o condicionamento fonético.
Ao explorar o exemplo da palatalização de /t/ e /d/, Oliveira (1991, p. 103) explica que as sequências [ti] e [tʃi], por exemplo, coexistiram, mas, diante do fato que a consoante palatal [tʃ] é mɲis nɲturɲl ɲ [i] do que a consoante alveolar [t], a regularidade foi atingida ao final do processo. Nas palavras do próprio autor, considerɲndo umɲ regrɲ como X → Y / __ Z, "(...) onde Z é um contexto fonético natural para Y a regularidade pode ocorrer; onde não o é, a irregularidade aparece e encontramos seleção lexical" (OLIVEIRA, 1991, p. 104).
Em estudo posterior, Oliveira (1992) considera a mudança sonora uma inovação na qual o contexto fonético atua mais como o estabilizador da inovação do que como condicionador, dando respaldo local à fixação da alternância sonora.
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JANSON, T. Reversed lexical diffusion and lexical split: loss of –d in Stockholm. In: WANG, W. S. Y. (ed.) The
Segundo Labov (1981, p. 304), há mudanças dos dois tipos, ou seja, mudanças neogramáticas e mudanças difusionistas, sendo que as primeiras são processos fonéticos superficiais (low-level output rules), enquanto que as últimas atuam no léxico subjacente.
A partir da comparação de resultados obtidos sobre diferentes processos fonológicos, a saber, a cisão do /a/ breve e outras mudanças neogramáticas em progresso no inglês falado na região da Filadélfia, Estados Unidos, Labov (1981) apresentou as principais diferenças entre as teorias neogramática e difusionista no quadro abaixo reproduzido.
Quadro 1 - Características dos modelos neogramático e da difusão lexical
CARACTERÍSTICAS NEOGRAMÁTICO MODELO DIFUSIONISTA MODELO
Discreto NÃO SIM
Condicionamento fonético FINO GROSSEIRO
Exceções lexicais NÃO SIM
Condicionamento gramatical NÃO SIM
Sensível ao social SIM NÃO
Previsível SIM NÃO
Possível de aprender SIM NÃO
Categorizado NÃO SIM
Entradas de dicionário 1 2
Difusão lexical no passado NÃO SIM
Difusão lexical no presente NÃO SIM
Fonte: Adaptado de Labov (1981, p. 296)14
Conforme se observa no Quadro 1 acima, as mudanças neogramáticas dizem respeito aos ajustes sonoros que ocorrem dentro de um pequeno espaço fonético e, portanto, não chegam a produzir distinção fonológica, mas são sensíveis à valoração social. Já os processos de difusão lexical apresentam ajustes fonéticos menos gradientes que os processos neogramáticos e não sofrem avaliação social.
Os fatores apresentados por Labov (1981) não são generalizáveis, segundo Oliveira (1991), no sentido de que consideram apenas as mudanças acabadas, isto é, aquelas que se acredita terem sido implementadas integralmente. A mudança sonora em progresso é apresentada através dos pressupostos teórico-
metodológicos da Teoria da Variação ou Sociolinguística Quantitativa (LABOV, 2008[1972], 1994, 2001), os quais serão apresentados na seção a seguir.