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Assim é a filosofia substantiva da história, que aqui nos interessa como objeto da crítica. Isto porque, fundamentalmente constituída segundo critérios de validade científica pretensamente universal, ultrapassou os próprios limites da realidade empírica e cognitiva lógica da história. Para uma explanação da crítica, partimos da análise feita por Arthur Danto (1989), para quem uma filosofia da história assim, é uma explicação de todo o conjunto da história, o que envolve todo o seu passado e todo seu futuro.
Seguindo a sugestão do autor, identificam-se dois tipos de teorias a partir dessas considerações: as descritivas e as explicativas. Ambas, sendo constituídas pela narrativa
12 Distinguem-se, dentro da filosofia da história, dois tipos de investigação do pensamento histórico. São elas a filosofia substantiva da história e a filosofia analítica da história. A primeira se vincula a própria tarefa dos historiadores, que em sua prática procura dar conta dos fatos ocorridos no passado e daí, sugere uma explicação de todo o conjunto da história. A filosofia analítica da história é o modo de análise dos problemas conceituais referente à filosofia substantiva da história, que surgem tanto da prática historicista a ela subjacente, bem como do discurso por ela evocado.
acabam por incorporar aquela mescla de elementos tanto ficcionais como não- ficcionais, citados por Rüsen (2001). Contudo, isto não desconsidera o fato da narrativa ser constituinte do pensamento histórico, mas predispõe a uma concepção de metanarrativa capaz de esclarecer todo o mistério e sentido do devir histórico. Àquilo a que Rüsen se referia, da transformação do tempo natural em tempo humano13.
Enquanto a teoria descritiva dos acontecimentos históricos parte daquilo que constitui todo o passado, e remete a um padrão que se projeta no futuro, o que desse passado conhecemos, a teoria explicativa, procura dar conta desse padrão em termos causais. Por isso, é que, uma teoria explicativa não se faz sem estar conectada com uma teoria descritiva14. De maneira que, constitui-se enquanto uma filosofia da história15, porque a esta se encontra ligada uma teoria explicativa causal, que segue um padrão determinado por um processo de descrição, relacionado ao conjunto de todo o passado, e de todo o futuro histórico.
Chegamos ao ponto em que a filosofia substantiva da história torna-se ciência da história. Isto porque a ela, agregam-se os valores da observação científica e do caráter da ciência teórica, constituída segundo a compreensão científica de Kepler e de Newton. A ambos os autores creditou-se o aspecto revolucionário do pensamento científico, da busca de leis gerais e causalidades internas específicas a essas leis. De modo que, esse critério científico também foi concebido pelos filósofos da história, como tendência a buscar leis gerais do processo histórico como um todo, segundo explicações causais internas refletidas no seu aspecto exterior. Assim, mais do que reunir dados históricos e reduzi-los a um padrão determinado, se intencionava predizer e explicar todos os acontecimentos históricos futuro.
13“A consciência histórica é, pois, guiada pela intenção de dominar o tempo que é experimentado pelo homem como ameaça de perder-se na transformação do mundo e dele mesmo. O pensamento histórico é, por conseguinte, ganho de tempo, e o conhecimento histórico é o tempo ganho.” (RÜSEN, 2001, p. 60). 14 Arthur Danto cita o exemplo do Marxismo como sendo uma filosofia da história, por apresentar tanto elementos descritivos quanto explicativos. No entanto, é apenas uma teoria da história, já que o padrão que descreve o sentido de causalidade na história, a luta de classes, não ser suficientemente capaz de
explicar e prever o futuro enquanto “fim” da história. No sentido de filosofia da história que estamos
elucidando aqui, a questão abarca tanto todo o passado, como todo o futuro histórico enquanto fim idealmente atingido. E ao Marxismo, atribuiu-se tal idealização.
15“El marxismo es una filosofía de la historia y exhibe ciertamente ambos tipos de teorías, la descriptiva y la explicativa. Considerada desde el punto de vista de la teoria descriptiva, la pauta es la del conflicto de clases, en que una clase genera sua antagonista a partir de las condiciones de su propria existencia y es
superada por ella: „toda la historia es la historia de la lucha de clases‟, y la forma de la historia es
dialéctica. Esta pauta perdurará en la medida en que sigan operando ciertas fuerzas causales con diferentes factores económicos es lo que constituye la teoría explicativa del marxismo. Marx predijo que la pauta llegaría a su fin en un momento futuro, porque los factores causales responsables de su permanencia dejarían de ser operativos.” (DANTO, 1989, p. 31)
No entanto, Arthur Danto (1989) já caracteriza a tarefa do filósofo da história como “mesquinha” para com a história mesma. O historiador lida com os fatos do passado, e do futuro, quando este se converte em passado. E, contudo, não se pode reunir dados acerca do futuro, porque de fato, a ele não se tem “dados” sobre. Para Arthur Danto, isto fica muito claro quando ele aponta a que tipo de programa, pretendem as filosofias da história responder,
Las filosofías explicativas de la historia, incluso las que han sido más influyentes, son poco más que programas para teorías aún por formular, no digamos comprobar. Por otro lado, si pensamos em las explicaciones históricas comunes (y no sólo en las mejores de ellas), parecen ejemplares muy desarrollados de su proprio género, que satisfacen criterios aplicables a ese género y que resaltan la forma en que las filosofías de la historia fracasan miserablemente em satisfacer los criterios de uma teoría científica. (DANTO, 1989, p. 36)
Não obstante, é fato que na história exista algo similar à classe de atividade com a qual se compara a história em seu conjunto na concepção que estamos considerando. Assim, subjacente a ela existe a intenção de organizar os fatos conhecidos em padrões coerentes, de modo que apresentam elementos comuns tanto das teorias científicas, bem como das filosofias da história.
Nesse sentido é que as narrativas históricas correspondem aos critérios de cientificidade dessa organização dos fatos, na medida em que impõem certa cronologia de modo a produzir padrões coerentes de interpretação. É esta a crítica que identificamos no autor em relação à metanarrativa enquanto portadora de sentido histórico, de que a ela não se pode atribuir de modo exato uma projeção sobre o futuro, mas no mínimo, certa capacidade preditiva. Portanto,
la distinción entre observación y teoría tiene un correlato em la historia. Pueden existir amplias diferencias entre las explicaciones históricas y las teorías científicas, pero no más amplias, se siente uno inclinado a pensar, que las diferencias entre las filosofías de la historia y las teorias científicas. (DANTO, 1989, p. 37).
À filosofia substantiva da história, concebemos o caráter “meta” da narrativa histórica. E isto é o que diferencia as filosofias da história e as teorias científicas. Enquanto a teoria pertence a uma categoria que satisfaz critérios diferentes das relações históricas comuns, as filosofias da história parecem ter mais em comum com essas relações paradigmáticas da história. Daí, essas relações nas filosofias da história, nos sugerir, uma predição e previsão, que a própria história, enquanto teoria científica é incapaz de estabelecer.
Já aqui, identificamos um dos propósitos deste trabalho: da diferença entre a atividade prática do historiador e a atividade filosófica do filósofo da história. Portanto, do significado atribuído pela narrativa histórica tanto do historiador como do filósofo da história, relações diferentes, porém constituídas dentro de uma mesma estrutura: a narrativa. Tratando-se das filosofias da história, a questão da narrativa reside no fato de que, elas,
Tienden, de forma típica, a proporcionar interpretaciones de secuencias de acontecimientos que son muy parecidas a las que se encuentran en la historia y muy poco parecidas a las que uno encuentra em la ciencia. Las filosofías de la historia hacen uso de un concepto de interpretación, que, me parece a mí, no sería muy
apropiado en la ciencia, esto es, un cierto concepto de “significado”.
Es decir, pretenden descubrir lo que, en un sentido del término
especial e históricamente apropiado, es el “significado” de este o
aquel acontecimiento. (DANTO, 1989, p. 39)
O problema está, portanto, no sentido do significado que atribuímos em relação ao próprio acontecimento. Até que ponto, tal acontecimento é significativo para a consciência histórica? Qual o sentido do significado de algum acontecimento para o pensamento histórico, para a consciência histórica? Terá ele sentido, no final do movimento histórico? Ou será ele parte constituinte desse movimento? Ou simplesmente, não terá significado nenhum?
A diferença essencial em relação ao que entendemos como “significado” da história, da sua unidade e sentido remete à diferença entre o significado “último” da história, e do significado de um simples enunciado, palavra, frase ou mesmo uma oração. Para concebermos um acontecimento como dotado de significação, pressupõe- se uma estrutura temporal mais ampla, da qual fazem parte. Para Rüsen (2001) esta
estrutura é a narrativa histórica, que articula o passado em função do presente, a fim de compreendê-lo, e para, através dele, projetarmos a ação no futuro.
Para Danto (1989), um acontecimento só tem sentido de forma retrospectiva. De modo que é no presente que o acontecimento adquire sentido e significado para nós, pois inserido nesta continuidade dada e mediada pela narrativa histórica. Assim, ele pode significar algo ou não significar nada, à medida que a ele não é atribuído significado dentro dessa mesma continuidade, já que não faz progredir a ação. Ou então, como coloca Danto (1989), o acontecimento adquire significado específico e determinado somente com respeito à obra em seu conjunto, ou seja, em sua continuidade.
Mas aqui, chegamos a um impasse: porque é exatamente esta visão da obra em seu conjunto, do fato em sua totalidade, que escapa à visão do historiador e do próprio filósofo da história. De modo que, qualquer acontecimento fica à margem da análise que corrobora sua existência diante da totalidade, sempre esperando pra confirmar ou não suas razões de ser.
Assim, a tarefa do historiador é uma constante revisão de suas afirmações, referentes a tal ou qual acontecimento histórico, à luz do que sucede posteriormente, diferentemente do filósofo da história: tendo diante de si, o fragmento de todo o passado, o relaciona a uma concepção de totalidade “da história”, de todo o passado e futuro. E, nesses termos, de acordo com Danto, o filósofo da história,
Piensa en términos del conjunto de la historia, y trata de descubrir a qué se podría parecer la estructura de esta totalidad basándose solo en el fragmento que ya tiene, y al mismo tiempo, trata de decir cuál es el significado de las partes de ese fragmento a la luz de la estrutuctura total que ha proyectado. (DANTO, 1989, p. 41)
Essa forma de conceber a história é segundo Danto, profundamente teológica16. E de fato, é essa caracterização teológica das filosofias substantivas da história, e daquilo que fundamenta suas asserções e predições sobre o futuro, o superávit de intencionalidade, o que determina a diferença dos seus enunciados. Neste aspecto, o enunciado acaba por
16“Estoy completamente de acuerdo con la afirmación del profesor Löwith de que esta forma de concebir el conjunto de la historia es esencialmente teológica o que, en cualquier caso, tiene propriedades estructurales en común con las concepciones teológicas de la historia, a la cual se considera in toto, como correspondiente a algún plan divino.” (DANTO, 1989, pp. 41-42)
definir ações no futuro, ações esperadas, muitas vezes conhecidas como “profecias”. É o significado que as contém que definem uma concepção acerca da totalidade da história no mínimo equivocada e ambiciosa da escrita da história. Assim, a semelhança de suas narrativas consiste no uso do significado dos acontecimentos, que segundo Danto (1989) é injustificado nas filosofias da história.
Neste caso, injustificadas porque pretensiosas. Mas as filosofias da história modernas mostraram que à grandiosidade segue-se por trás, um discurso de poder que procurou abarcar todas as civilizações da história, numa só totalidade, num só objetivo final. Com isso, especificidades históricas, foram deixadas de lado, e da unicidade dos fatos narrados, seguiu-se à universalidade da narrativa histórica.
Até aqui, torna-se indubitável o fato de que a narrativa histórica, ou o relato como denomina Danto (1989), constitui o contexto natural, no qual os acontecimentos adquirem significação histórica. Se aos critérios de validade da narrativa é preciso que os acontecimentos passados adquiram significado no presente, é devido ao fato de que, no presente, tem-se uma relação de posteridade com os fatos passados correlacionados. O presente relaciona-se com o passado de forma correta, pois a ele encontra-se ligado, e determinado. Daí tem-se uma relação presente-passado no mínimo pré- determinada, e não alusões a acontecimentos que não se realizaram em função da própria situação do relato. E é este sentido, que segundo Danto, é violado de alguma forma pelas filosofias substantivas da história,
Utilizando el mismo sentido de significación que los historiadores usan, presuponiendo que los acontecimientos se sitúan en un relato, los filósofos de la historia buscan la significación de acontecimientos antes de que hayan sucedido los acontecimientos posteriores, en conexión con los cuales los primeros adquieren significación. El modelo que proyectan sobre el futuro es una estructura narrativa. En suma, tratan de contar el relato antes de que el relato pueda ser propiamente contado. (DANTO, 1989, p. 46)
O filósofo da história pressupõe acontecimentos ainda não realizados, pela própria condição do relato, que é toda a história. Assim, dentro dessa estrutura narrativa, o acontecimento tem significado já determinado, porque inserido no relato. A descrição tem como referência os acontecimentos dados como posteriores, ou seja, descritos num momento futuro, sem, no entanto, terem ocorrido. Por isso o futuro pertencer a certa
classe de afirmações, porque definitivo no contexto do relato, ou seja, pressupõe a realização do seu fim absoluto. De modo que, mesmo não tendo significado imediato o acontecimento, aquele já está dado, à medida que a ele, pressupõe-se um futuro já determinado pelo relato da narrativa histórica.
Mas o que diferencia uma filosofia substantiva da história é a posição entre o significado da história, e na história. Quanto ao primeiro, já está dado no próprio relato como colocado acima. Em relação ao significado na história, admite-se que o acontecimento esteja preparado para aceitar um contexto no qual ele se torna significativo. Frequentemente, o contexto em que o acontecimento se torna significativo, é em realidade limitado, ou seja, pressupõe um contexto ainda que amplo, particular, pois se refere a uma realidade da qual o acontecimento é apenas uma parte.
No entanto, a questão está na compreensão que se tem da totalidade da história. Porque se um contexto amplo, mesmo que particular pode constituir uma totalidade, esta, contudo, não constitui a totalidade da história17¸ como pensada pelos filósofos da
história. Pois o acontecimento, como colocado acima pode ser apenas parte desta totalidade, e não a totalidade da história. Isto gera um equívoco, segundo Danto, no modo de lidar com esta concepção da totalidade da história:
Existen contextos más o menos amplios, pero la historia, considerada como totalidad, es sin más el contexto más amplio posible, y preguntar por el significado de la totalidad de la historia equivale a privarse del marco contextual en el cual son inteligibles esos requerimientos. Porque no existe un contexto más amplio que la totalidad de la historia en el que se pueda situar la totalidad de la historia. (DANTO, 1989, p. 48)
Assim, a totalidade da história é a própria história. Não há um plano divino, um significado não-histórico, atemporal, que possa reivindicar o significado da totalidade
da história. No entanto, é o mistério subjacente a ideia de um plano divino que envolve
a própria concepção de história, que aqueles tomam para si, como constituidora de sua totalidade. É a autoconsciência do mistério, que se resolve enquanto sentido do absoluto
17 Grifo nosso. No sentido de estabelecer a diferença entre o que entendemos como totalidade da história, no caso, os variados contextos históricos em sua totalidade peculiar e específica, e uma totalidade da história que engloba todos os contextos num só.
na história, cuja compreensão está dada na própria filosofia da história que lhe subjaz, e que projeta no futuro, o sentido de felicidade eterna, portanto, do fim da história.
Por trás desta concepção temos a ideia da secularização cristã da filosofia substantiva da história. Os acontecimentos se inserem dentro de uma narrativa de significado único, que predispõem a descrever algo, baseado em previsões futuras acerca do passado. No entanto, é esta atividade da descrição dos acontecimentos futuros, ou seja, daquilo que pode acontecer, mesmo não tendo acontecido, ou no mínimo prevê-los, que parece confusa na filosofia substantiva da história.
Destarte, é em relação a intencionalidade do modo como os filósofos substantivos da história a concebem que Danto (1989) direciona sua crítica. Para o autor é um erro descrever um acontecimento antes mesmo de ele ter acontecido. De modo que a descrição, refletida nas afirmações sobre o futuro que fazem os filósofos da história, não são as mesmas que fazem os historiadores. Para estes, o passado se refere ao futuro, enquanto passado, de maneira a orientar a ação no presente para uma melhor compreensão dela no futuro. Enquanto o filósofo da história faz referências a acontecimentos passados de modo a prever e descrever acontecimentos futuros, sem que estes tenham ocorrido.
A questão do significado na história segue, portanto, critérios que fogem a narrativa única da totalidade da história, já que se baseiam em fatores de convenção e arbitrariedade que escapam a uma única localização temporal, além dos interesses que regem o que é e o que não é histórico segundo as intenções humanas. De fato, a pretensão de cientificidade das humanidades em geral, e da história em particular, levou a filosofia, por seu discurso metafísico e universal, a incorporar a história dentro de uma metanarrativa que garantisse o sentido dos acontecimentos.
E assim, do sentido de universalidade das metanarrativas tem-se uma descaracterização de outras temporalidades e do sentido histórico a elas relacionado. Assim, quando Rüsen (2001, p. 61) considera a narrativa como o fundamento da ciência da história, é porque é nela que os acontecimentos históricos ganham sentido para nós no presente, ao realizar uma mediação entre passado e futuro, de forma a orientar melhor nossas ações. Ela pode ser uma metanarrativa quando a consciência histórica através da tradição, pautadas na lembrança e na memória, cria uma identidade que une essas narrativas, que coordenadas entre si, orientam a ação para o futuro, o que não é o mesmo que prevê-los.
Esse é o papel da filosofia analítica da história. Que enquanto filosofia deve ser crítica e argumentar de como na história essas narrativas são coordenadas de acordo com os interesses, que regem nossas escolhas dentro de uma estrutura temporal comum tanto ao discurso historiográfico quanto à narrativa de ficção. E neste sentido, compreendemos como pressuposto básico para o que constitui uma metanarrativa, ou Filosofia da História que põe à “prova” a si mesma, o próprio movimento dialético que é o pensamento crítico. E assim, complementa,
Por eso, al discutir nuestro conocimiento del pasado, no puedo dejar de estar interesado en discutir nuestro conocimiento del futuro, se es que podemos hablar de conocimiento en ese caso. Por eso, en un cierto sentido, estaré tan interesado en la filosofía substantiva de la