A nossa opção por buscar uma metodologia e métodos no contexto das teorias críticas deu-se porque consideramos que os fatos, inclusive os fatos científicos, não nos são dados por meio das perguntas que fazemos dos eventos, mas, sim, construídos, conforme adverte Lather (1991).
Desse modo, “[t]odos os pesquisadores constroem o seu objeto de investigação com os materiais que a sua cultura fornece, e os valores desempenham um papel central nesse projeto integrado em termos linguísticos, ideológicos e históricos que chamamos de ciência” (LATHER, 1991, p. 105).
A Biblioteconomia e Ciência da Informação apresenta conceitos, como disciplinas intelectuais e acadêmicas, categorias mentais, ou a estrutura do mundo real “[...] como naturais e objetivos, como competidores em um campo epistemologicamente nivelado de teste de hipóteses, verificação, lógica e verdade” (FROHMANN, 1994, p. 132).
Na sua trajetória de pesquisa, Frohmann alerta sobre o caráter contingencial desses conceitos, as construções sociais que os moldam por meio de instituições e agenciamentos e, ainda, os problemas políticos que os mesmos podem abordar, pois, afinal, são produtos oriundos de várias disputas de poder. Concordamos com o autor e, uma vez que todos os contextos possuem limites, poderíamos escolher quais dentre estes seriam trabalhados e tentar, então, torná-los permeáveis.
Dessa forma, partindo do pressuposto de que os limites são construídos, assim como as diferenças, mudanças poderão começar a ser traçadas em contextos de ações políticas.
Ações políticas estão permeadas por agenciamentos. Agenciamento, por sua vez, “[...] refere-se à habilidade de agir ou executar uma ação” (ASHCROFT; GRIFFITHS; TIFFIN, 2007, p. 6). Os autores explicam que o agenciamento veicula a reflexão sobre até que ponto os indivíduos podem iniciar uma ação com liberdade e autonomia, já que suas ações são orientadas pela maneira como a sua identidade vem sendo construída.
Em meados de julho de 2012, a Dra. Olson, em um seminário sobre teorias críticas, exemplificou a questão do agenciamento: “Nós podemos criar um jardim onde as pessoas possam construir caminhos. Se outras pessoas as seguirem por um desses caminhos, o mesmo será mantido, mas se esse caminho não for utilizado, tentativas de criar ligações entre ele e os caminhos mais usados podem ser feitas, ou ele será excluído. Isso não precisa ocorrer apenas em relação ao tópico de assunto de uma determinada obra, mas pode ocorrer também nos relacionamentos entre os termos que compõem o tópico de assunto dessa obra.” A explicação de Olson pode ser observada quando, ao navegarmos por websites de compras na Internet, nos são sugeridos alguns produtos sob a seguinte justificativa: “Quem viu/comprou esse produto também viu/comprou os seguintes produtos.”
No contexto da representação de assunto, esses caminhos são construídos e seguidos por diferentes comunidades discursivas, o que poderia trazer à tona conceitos como diversidade e multiculturalismo. Esses conceitos têm sido evitados pela abordagem das teorias críticas, pois os mesmos não consideram a questão da diferença. Os grupos pertencentes a uma mesma comunidade usuária têm diferenças entre si. Sendo assim, por exemplo, não podemos utilizar o conceito Feminismo e esperar que esse domínio seja homogêneo. Não há cultura pura.
Ao procurarmos uma alternativa que não tivesse uma base teórica positivista, nos deparamos com as Teorias Críticas, o Pós-modernismo e o Pós-estruturalismo, teorias que apresentam uma ou mais maneiras de se fazer e/ou ver as coisas, ressaltando, para tanto, as diferentes perspectivas presentes em uma mesma realidade.
Sabemos das controvérsias existentes sobre essas linhas de pensamento, mas entendemos que essas teorias têm como foco comum interrogar suposições tomadas como verdades e rejeitam o conceito de uma representação sem pressuposição, uma vez que tal representação é politicamente indesejável e filosoficamente impossível (AGGER, 1991).
A Teoria Crítica é a mais política das três teorias citadas. Desenvolvida originalmente no contexto da Escola de Frankfurt, foi construída com o objetivo de “[...] explicar por que a revolução socialista prevista por Marx em meados do século XIX não ocorreu como o esperado” (AGGER, 1991, p. 107). O autor explica que os teóricos dessa escola de pensamento criticam o Positivismo baseando-se no argumento de que o mesmo reproduz o status quo e inspira conformidade em relação às leis que regem a sociedade e a economia. Como método, a Teoria Crítica estimula os pesquisadores a questionar suas próprias verdades. O Pós-modernismo, por sua vez, é “[...] o processo de reteorização de objetos e experiências da vida cotidiana sob a luz da modernidade, uma guinada histórica na maneira como o mundo e as possibilidades de agenciamento humano são concebidos” (LATHER, 1991, p. 121). O Pós-modernismo, visto como uma abordagem ligada principalmente à Estética, institui que não precisamos ter o mesmo estilo ou apenas um estilo. Essa teoria rejeita grandes narrativas e reflete sobre o fazer, mais especificamente sobre a sociedade, cultura e história (AGGER, 1991). Para Agger (1991), o Pós-Modernismo é uma teoria antirreducionista e pluralista que destaca a natureza contextual, histórica e política dos objetos e experiências.
Na Biblioteconomia, por exemplo, podemos identificar um traço pós-moderno quando, ao utilizarmos mais de um esquema de classificação ou mais de um catálogo, temos dois ou mais sistemas trabalhando juntos, cooperando e sobrepondo-se.
Optamos por utilizar um método advindo do Pós-Estruturalismo para análise dos dados desta pesquisa, porque o Pós-Estruturalismo veicula uma postura epistêmica composta por uma vertente crítica e uma abordagem teórica. O Pós-Estruturalismo, enquanto uma teoria sobre o conhecimento e a linguagem,
[...] completa a crítica de Frankfurt à Ciência, mostrando que podemos ler todo tipo de textos não discursivos como argumentos retóricos a um determinado estado de ser social. Ao dar atenção aos subtextos da apresentação literária da Ciência (por exemplo, agradecimentos, práticas de citação, revisões de literatura preliminares, uso de número e figura, como as seções de discussão/conclusão de um artigo científico são estruturadas, notas no final do texto, notas de rodapé, apêndices etc.), o Pós-Estruturalismo auxilia a ler e a democratizar a Ciência (AGGER, 1991, p. 120).
Considerando o poder e o caráter contingencial do conhecimento e da linguagem, Lather (1991, p. 111) esclarece que:
O Pós-Estruturalismo substitui a visão pós-Kuhniana de que a linguagem é transparente, assim como a visão dos teóricos críticos de que a linguagem é uma disputa ideológica travada no campo de jogo da dialética. Elevando os riscos de objetivação e as inadequações da dialética, o pós-estruturalismo exige uma reflexão radical sobre as nossas estruturas de interpretação, uma vez que adentramos a transição Foucaultiana de paradigma para discurso, com foco na ontologia do pesquisador e na epistemologia do processo da escolha paradigmática, para um foco na produção de linguagem na construção dos objetos de investigação.
Dessa forma, o Pós-Estruturalismo sugere que os procedimentos metodológicos podem ser abertos e descritos de uma maneira que não seja puramente técnica, postura que adotamos nesta seção.
Algumas vertentes pós-estruturalistas defendem que existe um conjunto de verdades universais, mas nós defendemos que cada domínio do conhecimento constrói as suas próprias formas simbólicas64, e não uma verdade singular, e essas formas simbólicas refletem os discursos que as permeiam.
Quando se fala em conjunto de verdades, evocamos os conceitos advindos do Essencialismo, que entende que “[...] um grupo, uma categoria ou uma classe de objetos tem uma ou muitas características exclusivas a todos os membros daquela categoria” (ASHCROFT; GRIFFITHS; TIFFIN, 2007, p. 74). O Essencialismo é composto por essências enquanto “coisas que têm o potencial de” e são inatas, independentes, imutáveis, universais, ou seja, o contexto, não as modifica. Considerando que, assim descrito, o Essencialismo não refletiria a realidade dos diversos indivíduos pertencentes a uma ou a várias comunidades discursivas, Ashcroft, Griffiths e Tiffin (2007, p. 75), ao interpretar os trabalhos de Gayatri Spivak, explicam a importância do Essencialismo estratégico, pois:
[...] em diferentes períodos o emprego das ideias essencialistas podem ser uma parte do processo por meio do qual o colonizado alcança o sentido renovado do valor e da dignidade das culturas pré-coloniais [por exemplo] e, por meio disso, a nova nação pós-colonial emergente afirma-se a si mesma.
64Formas simbólicas são as construções que compõem o mundo, isto é, as construções que concedem ao mundo e
à sociedade a sua forma. Por exemplo, os mitos e a linguagem são formas simbólicas que modelam a maneira pela qual o mundo será interpretado, assim como o racismo, a irracionalidade etc. (CORNELL; PANFILIO, 2010).
O essencialismo estratégico nega a existência de um discurso universal, mas valoriza algumas formulações essencialistas. No caso do exemplo acima, as formulações essencialistas poderiam ser percebidas a partir das lutas de libertação, “[...] dos efeitos das opressões coloniais e neocoloniais” (ASHCROFT; GRIFFITHS; TIFFIN, 2007, p. 74). Olson e Fox (2012) explicam que, para colocar o essencialismo em perspectiva, Spivak o subverteu, tornando as essências negociáveis.
No contexto de uma postura epistêmica pós-estruturalista, o método eleito para analisar os documentos textuais teóricos eleitos para esta pesquisa foi a Desconstrução.