9. Resultat - risikovurdering Trinn 2
9.1. Risiko for spredning
9.1.6. Oppvirvling som følge av skipstrafikk
Caminhamos até aqui, no sentido de analisar as aprendizagens da docência a partir das reflexões das práticas realizadas pelos estudantes e pela professora supervisora na escola. Agora, vamos nos focar em outros contextos que potencializaram o nível de interação estabelecido no grupo e o desenvolvimento do conhecimento práxico ocorrido.
Além disso, destacamos algumas situações que se mostraram bem significativas para os sujeitos que, de alguma forma, estavam relacionados com esta atividade de estágio (as pessoas da comunidade escolar e os outros estudantes da licenciatura que faziam estágio nesse mesmo período).
Espaços institucionalizados
Estamos denominando espaços institucionalizados as atividades formais geradas no currículo da licenciatura para possibilitar a formação do futuro professor, bem como os locais onde essas atividades são desenvolvidas, pois, muitas delas estão em função de seu contexto de existência. Dessa forma, é preciso considerar os fatores internos e externos que influenciam a aprendizagem e as estratégias de formação que foram desenvolvidas nesses espaços.
Existe o momento de confronto das certezas e das contradições quando o formador, em sua ação no contexto das disciplinas, por exemplo, traz situações em narrativas, depoimentos dos próprios estudantes, casos de ensino que podem mobilizar coisas guardadas na memória, até mesmo de forma inconsciente para aquele que aprende. Dessa forma, então, algumas questões poderão ser colocadas em estranhamento ou (re)significadas, e, assim, possibilitarem ao sujeito ter consciência da sua constante posição de contradição e de forma reflexiva e investigativa (às vezes) consiga conviver sem se contaminar por certas contradições instaladas na profissão, no sentido de naturalizá-las. Desse modo entendemos que
imagens, filmes, narrativas de educadores são materiais que podem criar ambientes de aproximação e aprendizagem, por seu potencial cognitivo e afetivo. Cada aprendiz, à sua moda e em sua circunstância, traz as histórias de suas práticas educativas para servirem como repertório de experiências que merecem ser vasculhadas e exploradas (...). (PLACCO; SOUZA, 2006, p. 38).
Conhecendo o currículo do curso e percebendo como as questões da docência vinham ou não se desenvolvendo até o momento em que os estudantes chegaram aos estágios é que procuramos delinear como seriam as atividades de estágio. Ao longo da sessão anterior, mencionamos ao menos algumas das estratégias desenvolvidas pelo professor orientador de estágio nas disciplinas de “Aspectos”, a saber: a discussão do desafio de ser professor; a questão dos mitos acerca do conhecimento matemático. E na disciplina “Metodologia de Ensino”, o trabalho com jogos e resolução de problemas.
A condição do professor formador nas atividades do estágio, em suas responsabilidades com o futuro profissional e ainda com o desafio de preocupar-se com o profissional em exercício, quando possível, obriga-o a cuidar dos “nichos potentes de produção de sentidos, que circunscrevem a trajetória de cada indivíduo”; são espaços (configuração) que produzem elementos subjetivos “nas interações de diferentes zonas da vida social das pessoas” (p. 44).
Por sua vez, a memória tem um papel essencial na aprendizagem, é um importante recurso no ato de aprender, pois movimenta os saberes produzidos. A mobilização da memória do sujeito, colocando seus saberes em movimento, também provoca a produção de novos saberes ou a ressignificação dos saberes que esses já detinham, e esse processo se estabelece pela metacognição desenvolvida na ação reflexiva do sujeito. A memória é reconhecida como um dos fundamentos essenciais da aprendizagem e o professor, ao recorrer a ela, enquanto “ferramenta de aprendizagem e formação, percorre o caminho de abertura e disponibilidade para novas indagações e descobertas, cria projetos, revê, abandona e valoriza práticas já percorridas e ilumina esse processo com as lembranças remexidas na gaveta dos guardados” (PLACCO; SOUZA, 2006, p. 39).
Destacamos, também, a metacognição, por ela mobilizar os recursos cognitivos responsáveis pela aprendizagem do sujeito pelo sujeito, isto é, “quanto mais conscientes estivermos de nossos processos de pensamento, mais aprendizagens significativas e autônomas poderão ocorrer, situação que reforça a necessidade de clareza de intenções por parte do formador” (p. 59).
Na mobilização de elemento centrais da aprendizagem reafirma-se a importância do contexto em que se realiza a docência, pois “ele deve estar presente no momento da reflexão e das aprendizagens, para ser possível compreender os saberes na complexidade em que eles se engendram” (GAMA, 2007).
professor um sujeito com autonomia para gerenciar sua formação. Porém, esse estágio (nível) nem sempre é possível de ser alcançado com todos aqueles sujeitos que se deseja formar, devido à singularidade de cada um, suas experiências culturais e sociais próprias e, sobretudo, pela leitura muito particular dessas experiências, visto que aquilo que é significativo para alguns não o é para outros. Por outro lado, se as memórias são mobilizadas e ideias são colocadas em discussão, não podemos negar que haja aprendizagem – a diferença é o tipo de representação que essa aprendizagem tem para cada sujeito.
Na comparação das atividades de estágio que ocorreram na maioria das equipes, com essa equipe em específico, percebemos que não basta garantir espaços institucionalizados, é preciso considerar também que há outras “condições necessárias à aprendizagem, como disponibilidade para o novo e para o reconhecer-se, domínio da linguagem, flexibilidade e sensibilidade” (PLACCO; SOUZA, 2006, p. 18). Concordamos com Placco e Souza (2006, p. 18), que “é na interação com esses fatores e condições, de maneira dinâmica e permanente, que o processo de aprendizagem se desenvolve. Tal visão, se apropriada pelo formador, constitui-se, por si só, condição favorecedora ao processo de aprendizagem dos adultos”.
Espaços intersticiais
Os estudos de Guérios (2002) e Cardim (2008) mostram como esses espaços ampliam as potencialidades e qualidade do desenvolvimento da formação do futuro professor. Esses três estagiários apresentavam um alto grau de participação e envolvimento com as atividades extracurriculares propostas no curso, mas as que demonstraram maior impacto na formação desses estudantes, em nossa avaliação, foi o trabalho no NEPEM-DEX/UFLA e na Iniciação Científica Voluntária.
O grupo denominado NEPEM foi criado ainda durante o primeiro ano de funcionamento do curso de Matemática, em 2007, e contou com a participação de 10 dos 21 estudantes que estavam estagiando em 2009. O grupo surgiu com o propósito de estudar e desenvolver práticas relacionadas à resolução de problemas. Talvez para essa experiência com os estágios tenha ocorrido uma maior influência do trabalho no NEPEM, porque se vinha, há mais tempo, trabalhando com o grupo – pouco mais de dois anos – em comparação com a iniciação científica.
Além do NEPEM, esses estudantes ingressaram, em 2009, no Programa Institucional Voluntário de Iniciação Científica (PIVIC) com projetos orientados pelo professor formador responsável pelo estágio. No âmbito do PIVIC, esses três estagiários atuaram em três projetos
diferentes, assim:
• Angélica fez estudos sobre os processos de argumentação e validação em Matemática apoiando-se em Lakatos (1978), Lins e Gimenez (1997), De Villiers (2001), Pietropaolo (2005), Nacarato, Grando e Costa (2009).
• Paulo desenvolvia um estudo sobre os nexos conceituais do número natural – fundamentando-se principalmente Sousa (2004), Caraça (1984), Karlson (1961), Ifrah (2001).
• Flávia optou por estudar a atuação das filosofias da Matemática e da/na educação matemática na constituição das concepções dos professores no ensino de Matemática, debruçando-se sobre autores como: Paul Ernest (1995), Miguel (2003) dentre outros. Os projetos de Angélica e Paulo visaram ao desenvolvimento e à análise de atividades de ensino e o de Flávia à realização de entrevistas com professores das escolas públicas de Lavras-MG. Vale destacar que todos os projetos geraram trabalhos em eventos importantes como: SHIAM80, EMEM81 e ENEM82.
É bastante sensível o engajamento com as atividades e ações de aprendizagem da docência daqueles que vivenciaram experiências como essas, de poder de algum modo iniciar um trabalho de estudos e investigação sobre o ensino de Matemática um tanto mais aprofundado e com uma relação mais próxima de orientação, além da oportunidade de se debruçarem no estudo de alguns conceitos ou constructos teóricos associados à reflexão sobre a prática pedagógica em Matemática.
A busca de perspectivas para os alunos e a interação com a comunidade
A compreensão da real dimensão das condições sociais e culturais daquela comunidade fez com que pudéssemos organizar um trabalho que tivesse condições de ampliar a perspectiva de vida dos alunos e, consequentemente, de valorização da escola: a visita à UFLA e a cerimônia de formatura dos alunos do 9° ano.
A visita à UFLA:
Durante o período de férias, levamos os estudantes do 8° ano A, 8° ano B e 9° ano A, (...) para conhecer a UFLA. A visita ocorreu em dois dias onde no primeiro dia levamos os 8º e no
80 SHIAM: Seminário de Histórias e Investigações de/em Aulas de Matemática. 81 EMEM: Encontro Mineiro de Educação Matemática.
segundo dia o 9º ano. Tínhamos como objetivo apresentá-los a uma nova realidade, ampliando suas visões de mundo, e fazendo com que eles compreendam que eles podem e têm capacidade de entrar numa universidade, sendo que para isso é preciso estudar muito.
Percebeu-se que a maioria dos estudantes nunca tinham ido à UFLA e nem sabiam o que é uma universidade. Um acontecimento que deixou essa afirmação explicita ocorreu quando alguns estudantes do 8°B perguntaram: “Quanto é que se paga para estudar na UFLA?”, pois acreditavam que para estudar em um lugar daquele tamanho seria preciso pagar. Explicamos para elas que não é preciso pagar, mas fazer uma prova, chamada Vestibular, onde se obtivessem um resultado satisfatório poderiam estudar lá.
A visita foi dividida em quatro momentos:
1. Exibição do filme Donald no País da Matemágica: consiste em um desenho animado que retrata a história da matemática e quais são as utilidades e benefícios da Matemática na nossa vida;
2. Atividades nos Laboratórios do DEX: os estudantes foram divididos em dois grupos, onde um deles foi encaminhado para o Laboratório de Educação Matemática (LEM - DEX 04), o qual foi proposta uma atividade de planificação de alguns sólidos. O outro grupo foi encaminhado para o Laboratório de Informática (DEX 02), onde se realizou uma atividade usando o software computacional Kig, o qual é um aplicativo de código livre para o ensino de geometria interativa que permite aos estudantes explorarem figuras e conceitos matemáticos, e serve como uma ferramenta para desenhar figuras matemáticas que podem ser incluídas em outros documentos. O primeiro momento da atividade consistia na apresentação do software, para reconhecimento, e a seguir foram proposta duas atividades de construção de polígonos;
3. Intervalo para o lanche, o qual foi disponibilizado pela Escola;
4. Passeio pela universidade: a intenção de foi fazer com que os estudantes conhecessem a universidade, e despertasse o interesse deles com relação a ela.
Na observação que fizemos da atuação da professora percebemos a preocupação que ela tem com a individualidade de cada estudante a fim de atender da melhor forma possível suas necessidades de aprendizado. Percebemos também que o estudante precisa ser motivado, e que, no caso específico da Escola Municipal Professor José Serafim, eles vêem a possibilidade de ascensão social como algo remoto.
Na tentativa de incentivar os estudantes, desmitificar a Matemática, possibilitar um ambiente fértil de aprendizado e mostrar as estruturas de uma universidade pública que pode levar os estudantes a conquistarem melhores condições de vida é que planejamos a visita a UFLA, onde alcançamos com êxito o nosso objetivo. Porém, pudemos encontrar um ponto negativo em nossa programação (...) a atividade desenvolvida nos computadores não teve grande sucesso porque alguns estudantes tinham muitas dificuldades para manipular os computadores. Com isso concluímos que uma atividade de ensino tem como ponto de partida e de chegada o estudante. Para ter sucesso é preciso conhecer o estudante e suas habilidades tomando-as como ponto de partida e desenvolvê-las no sentido de atender as necessidades do mesmo. (NARRATIVA, PAULO, 2009-2, f. 6)
Essa iniciativa demonstra a autonomia que os estagiários conquistaram no trabalho com esses alunos, tomando a frente de todo o processo de organização e concretização da visitação à universidade: desenvolveram o planejamento; cuidaram da parte logística (reserva de ônibus, laboratórios, solicitação da alimentação ...) e procuraram avaliar o processo. No mais, deixamos a reflexão sobre o significado desse processo nas palavras da professora Ephigênia:
O que estava - predeterminado para ser uma interação com enfoque pedagógico criou raízes de afetividade, os estagiários passaram a fazer parte do nosso cotidiano, deixaram de ser “externos” e por fazerem parte, vivenciavam das nossas expectativas, das nossas dificuldades, dos nossos conflitos e até nossos planos. As observações feitas por eles não ficou na observação pela observação e um dos frutos desse trabalho foi o passeio que eles planejaram para os alunos da Escola à Universidade (UFLA). Parece uma coisa simples, mas não é. Estamos falando de alunos limitados em suas visões concernentes ao futuro e quanto às possibilidades de uma vida diferente da que eles vivem. Alunos que sofrem preconceitos por morarem em um bairro de alta vulnerabilidade social, que convivem de perto com a criminalidade e suas consequências e que são privados de bens essências como o direito a alimentação adequada, esgoto, dignidade entre outros. Tanto é que eles não sabiam que tinham o direito de entrar na Universidade, pensavam que seriam presos se lá fossem sem autorização. Quando estes alunos entraram no laboratório de Matemática, sentaram nas cadeiras e ouvi algo que me emocionou: “Daqui a 4 anos eu vou estar aqui!”. Naquele momento essa aluna pode se livrar das limitações que lhe eram impostas e visualizar um amanhã melhor. Uma proposta de melhora de vida por meio do estudo. (NARRATIVA, EPHIGÊNIA, 2010, f. 3)
A integração com a comunidade escolar e a Formatura:
Esses estagiários parecem ter adquirido um status de efetivo pertencimento à comunidade escolar onde atuavam, obtendo o respeito e a consideração dos alunos e dos demais atores deste local de trabalho. Ao falar da realização da formatura, a supervisora explicitou essa integração dos estagiários no ambiente da Escola:
Percebi que os estagiários estariam ali para ajudar mesmo, deixando de ser só uma pessoa em sala de aula. Nos dias que os estagiários fossem os alunos poderiam aproveitar o máximo para aprender, porque não precisariam esperar muito tempo... foi muito boa a nossa caminhada. E aí o que acontece? Às vezes criticam: – ah, a escola não recebe bem o estagiário. Mas qual é a postura também do estagiário? Por que o que aconteceu aqui? Eles começaram a ser vistos pela escola. A escola começou a ver esse movimento, viu que eles eram diferentes. As cozinheiras começaram a observar, a direção começou a observar, os outros professores começaram a observar e a comentar: – quero um desses para mim, arruma um desses para mim. Daí eles ganharam todo o respeito na escola, eu percebi isso, tanto que no final os próprios alunos que são de um bairro assim... ou eles gostam ou eles não gostam, eles lá não tem meio termo. E os meninos fizeram homenagem para os estagiários, eram todos carinhosos, reconheceram que eles estavam ali para ajudá-los de alguma forma. Aí eu vejo assim: é o oposto do que eu vivenciei. Eles chegavam, tinham dificuldade ou às vezes não concordavam, chegavam e falavam. A gente tinha esse diálogo, essa conversa entre a gente; (...) era uma troca em que eu cresci muito enquanto professora e espero ter contribuído de alguma forma com eles, mas eles contribuíram muito comigo porque, sem querer, eu fiquei vendo o que acontece: você tem mais alguém na sala para trocar ideia, você vai fazer uma atividade, você vai pensar na outra pessoa que está ali para te ajudar, para também observar e criticar, e a partir daí nós crescemos muito, eu vejo isso, a turma, eu enquanto professora, foi um acréscimo muito grande. (ENTREVISTA, EPHIGÊNIA, 2011)
(NARRATIVA, FLÁVIA, 2009-2)
Essa experiência permitiu um ir além a todos os envolvidos. Para os estudantes daquela escola, que tiveram a oportunidade de vivenciar uma Matemática mais significativa e outras situações que extrapolam o contexto da sala de aula como é o caso da perspectiva de vida dos alunos atrelada à visita e aula na UFLA, bem como o significado simbólico da formatura para aquela comunidade. Fazendo um trocadilho com o nome dado ao bairro onde se localiza a escola, essa experiência proporcionou-lhes observar um “Novo Horizonte” que, geográfica e socioculturalmente, vai muito além da rodovia que segrega o bairro do resto da cidade, fazendo-os perceber algumas das oportunidades que podem ter e que isto não é tão inacessível e, ainda, que as oportunidades podem estar mais perto do que eles poderiam supor. Esses dois eventos, na verdade, simbolizam muito do que foi essa experiência de formação, pois o reconhecimento, dependendo do contexto, é a maior e melhor compensação que um profissional pode ter. Além disso, trouxe reflexos muito positivos para o restante da turma que também realizava o estágio naquela ocasião, pois, na socialização das experiências que promovíamos no final do semestre (2009-2) todos se emocionaram com a apresentação dessa experiência de formação.
Verificamos, assim, que “além dos saberes envolvidos na ação docente existem outras dimensões que afetam o trabalho do professor, como o seu compromisso social, sua luta pela emancipação da pessoa” (PLACCO; SOUZA, 2006, p. 82).
Homenagem aos estagiários
Pessoas são como sementes. Depois que são plantadas, devem receber alguns cuidados e depois crescem, elas florescem e dão seus frutos.
Mas vocês são sementes especiais que precisam ter cuidados especiais: respeito, amor e carinho. E com vocês, nós aprendemos que na vida tudo é possível, só basta acreditar.
Vocês nos ensinaram que a Matemática não é um bicho de sete cabeças, mas sim uma simples matéria que é útil no dia a dia.
E que agora, vocês possam também ensinar para outros alunos e que eles possam aprender essa mesma lição.
Nós, do 9º Ano, agradecemos por terem nos ensinado mais e também por terem compartilhado a alegria de vocês com todos nós.