Jâmblico foi não apenas o primeiro a postular o Inefável antes do Um, como foi também o primeiro a multiplicar as instâncias intermediárias entre o Um e o Intelecto, vindo a influenciar o neoplatonismo tardio nas figuras de Proclo e Damáscio. Sua releitura dos diálogos de Platão, e mais especialmente da primeira hipótese do Parmênides é assunto de controvérsia, não apenas em sua época através da releitura empreendida por seus sucessores, mas também entre os scholars.12 Se quisermos compreender a divergência entre Jâmblico e Proclo e entre Damáscio e Proclo com relação à primeira hipótese do Parmênides, teremos que ler Jâmblico pelas lentes de Proclo na sua Teologia Platônica traduzida por Saffrey- Westerink e pelas lentes de John Dillon em sua tradução dos fragmentos de Jâmblico em Iamblichus: The Platonic Commentaries, ressaltando a diferenças entre eles.
Com relação às hipóteses do Parmênides, Jâmblico afirmava, nos diz Proclo, que a primeira hipótese diz respeito aos deuses e não apenas ao deus.13 Esta questão aparece especialmente em Proclo, quando este critica Jâmblico, e sua importância extrapola os limites da exegese jambliana do Parmênides, vindo a caracterizar uma leitura inédita tanto da primeira como da terceira hipóteses e cuja influência não poderia ser negada. Proclo nega Jâmblico quando diz:
Com efeito, não é verdade, como alguns dizem, que na primeira hipótese o sujeito do discurso seja o deus e os deuses; pois não era permitido a Parmênides coordenar a multiplicidade dos deuses com o Deus Um, nem o Deus Um com a multiplicidade dos deuses, pois que o todo primeiro deus transcende de todas as maneiras o universo inteiro. Ao contrário, na primeira hipótese, Parmênides nega do primeiro não somente o ser, mas também o um-em-si; ora, que isso não convenha aos outros deuses é evidente a qualquer um que seja. Não é verdade também, como pretendem estes autores, que a primeira hipótese do Parmênides trata dos deuses inteligíveis; eles sustentam que é a estes deuses que se reportam as negações, porque
10 John DILLON. Iamblichus: The Platonic Commentaries, p. 414.
11 Há evidências que Jâmblico tenha escrito um comentário sobre o Parmênides de Platão, parte do qual chegou
até o nosso conhecimento através dos escritos de Siriano (Frag. 1), Proclo (Frag. 2) e Damáscio (Frag. 2A/ 2 B, 3-14). Encontramos referências deste comentário nos Fragmentos do Parmênides editados por John Dillon em
Iamblichus: The Platonic Commentaries, pp. 206-225 e comentários, pp. 386-403 e também em John DILLON & Glenn R. MORROW. Proclus’ Commentary on Plato’s Parmenides. Princeton: Princeton University Press, 1987, pp. XXX-XXXI.
12 Ver John DILLON. Iamblichus of Chalcis (c. 240-325), p. 882, n. 60 e a continuação de sua reflexão proposta
por SAFFREY-WESTERINK. Théologie Platonicienne. Livre III, pp. XXVI-XL.
13 Ainda com relação à questão dos deuses e do deus estarem colocados na primeira hipótese, poderíamos citar
mais três destas passagens, sendo que adiante veremos apenas uma delas. Cf. SAFFREY-WESTERINK.
Théologie Platonicienne. Livre III, pp. XIX-XX (1º texto – In: Parm. VI, col. 1054.37-1055.23), que corresponde ao Fragmento 2, pp. XX-XXV (2º texto – In: Parm. VI, col. 1064.21-1071.3.); p. XXVI (3º texto,
eles estão unidos ao Um e que eles ultrapassam, em simplicidade e em unidade todas as classes dos deuses. Como, de fato, o semelhante e o dessemelhante, o que está em contato e o separado e todos os outros atributos negados do Um, poderiam pertencer aos deuses inteligíveis? Não, se eles têm razão, eu o creio, de dizer que os atributos negados são propriedade dos deuses, ils sont tort de dire que eles são todos propriedade dos deuses inteligíveis, sem contar que, conforme esta tese, seria necessário que o sujeito dos deuses inteligíveis fosse tratado uma segunda vez na segunda hipótese, pois o que Parmênides nega na primeira, ele afirma na segunda.14 Teol. Plat. III [23], p. 81.
Se a exegese da primeira hipótese do Parmênides permite a Proclo descobrir e desenvolver o sistema da teologia negativa, em Jâmblico esta permite vislumbrar um novo ordenamento das realidades ao colocar, na primeira hipótese, não apenas o deus, mas “os deuses”. Saffrey-Wersterink entende que os argumentos de Jâmblico e Proclo são diferentes devido à leitura diferenciada que fazem das hipóteses do Parmênides, pois sendo Proclo discípulo de Siriano e tomando como base a sua reflexão relativa às duas primeiras hipóteses, Proclo partiria do pressuposto estabelecido por Siriano de que tudo o que é afirmado na segunda hipótese é negado à primeira, vindo a justificar assim o seu argumento de que o Primeiro Deus corresponderia à primeira hipótese, pois ao negar qualquer atributo relativo aos deuses ao primeiro transcendente, os demais deuses, sejam estes inteligíveis, intelectivos, hipercósmicos e encósmicos, só poderiam estar locados na segunda hipótese.15
O argumento de Saffrey-Westerink culmina em uma leitura diferenciada, a partir da qual cada um dos filósofos virá a desenvolver um sistema não apenas filosófico, mas especialmente filosófico-religioso distinto, cujas conclusões apontam para aquilo que justamente permitirá a Jâmblico desenvolver uma nova visão, ampliada, a partir da qual as realidades assumem uma nova configuração fruto de uma releitura das hipóteses do Parmênides, na qual acima do Um se encontra, o Inefável, e na terceira hipótese, enquanto intermediários, antes mesmo da Alma, encontram-se os anjos, os daemons16 e os heróis, atores essências da teurgia.17
A leitura de Jâmblico pelas lentes de Proclo e Damáscio altera muitas vezes a visão daquilo que estes pretendem demonstrar não nos permitindo ver com nossos próprios olhos o que ali se esconde. Retomaremos aqui a reflexão relativa às hipóteses do Parmênides com a citação do In Parm. 1054 de Proclo, traduzida por John Dillon no Fr. 2 de Iamblichus: The Platonic Commentary, através da qual poderemos ver com outros olhos, os olhos de Jâmblico, o horizonte que este abre, a partir daqui, para nós.
14 Tradução de SAFFREY-WESTERINK. Théologie Platonicienne. Livre III, p. 82. 15 Cf. SAFFREY-WESTERINK. Théologie Platonicienne. Livre III, p. XXVIII.
16 Optamos por manter o termo grego daemon para não confundir com “demônio” já que este assume, na língua
portuguesa, um sentido pejorativo que não corresponde ao sentido grego do termo.
O seguinte conjunto de comentadores segue um método diferente de interpretação. A primeira hipótese é por eles declarada como estando preocupada com o deus e os deuses; pois a discussão não é apenas sobre o Um, mas sobre todas as hênadas divinas. A segunda se preocupará com a esfera inteligível e os deuses inteligíveis;18 a terceira ainda não é sobre a
Alma, como comentadores anteriores tinham declarado, mas sobre as classes de seres superiores a nós, anjos, daemons, e heróis (pois estas classes de seres são imediatamente inferiores aos deuses e são superiores até mesmo às almas universais – esta é a sua visão mais notável, e é por esta razão que eles asseveram que estes têm um nível anterior em relação às almas nas hipóteses). A quarta hipótese concerne às almas racionais, a quinta àquelas almas secundárias que estão limitadas às almas racionais, a sexta às formas imanentes e a todos os Princípios racionais seminais, e a sétima à Matéria em si, a oitava, à esfera dos céus, e a nona à esfera da criação física sublunar.19 (In Parm. – Fr. 2)
Proclo refuta a ordenação das hipóteses proposta por Jâmblico com relação ao lugar especial atribuído aos seres divinos, aos anjos, daemons e heróis dizendo que, ou bem estes correspondem à esfera intelectiva e consequentemente situam-se na segunda hipótese, ou bem correspondem à esfera das almas e situam-se na quarta e quinta hipóteses. A nova postulação de Jâmblico altera, portanto, a posição de cada uma das hipóteses, como atesta Saffrey- Westerink:
Vemos bem que, para fazer entrar na série das hipóteses a classificação dos anjos, daemons, heróis, como um nível particular e completo, foi necessário que Jâmblico tivesse feito remontar o plano intelectivo à segunda hipótese, e por via de consequência o plano inteligível até a primeira, e que fizesse descer ao contrário o nível das almas à quarta e quinta hipótese.20 Jâmblico propõe uma modificação na estrutura das hipóteses do Parmênides ao incluir os deuses na esfera da primeira hipótese; os anjos, daemons e heróis acima da alma, na terceira hipótese; e, entre estes, na segunda hipótese, os intelectivos, rebaixando a Alma à quarta hipótese. Além disso, ele passa a postular a necessidade de um Princípio Inefável, anterior à primeira hipótese relativa ao Deus e aos deuses, denominada o Deus Um, anterior ao Deus Mônada, considerado por ele como segundo Princípio.21 Em síntese, Jâmblico postula dois Princípios e não apenas um como os seus predecessores. Ao colocar acima do Um o Princípio Inefável, ele se distancia ainda mais de Porfírio, pois este colocava o Pai da
18 Convém notar que DILLON escreve “The second will concern the intelligible realm and the ‘intelligible
gods’” e SAFFREY-WESTERINK escrevem “La deuxième concerne les intellectifs et pas du tout les inteligibles”. Sobre esta e outras divergências, ver SAFFREY-WESTERINK. Théologie Platonicienne. Livre III, p. XIX, n. 2.
19 John DILLON. Iamblichus: The Platonic Commentaries, pp. 206-209.
20 SAFFREY-WESTERINK. Théologie Platonicienne. Livre III, p. XXIX. É interesante notar que em Jâmblico a
organização das hipóteses reflete uma mudança de paradigma, pois ele desloca a atenção para aquilo que ultrapassa o Um e assim cria espaço para os intermediarios, ao colocar o Inefável totalmente separado.
tríade inteligível no nível da primeira hipótese,22 elevando e simplificando as hipóteses, ao passo que Jâmblico propõe justamente uma ampliação deste espectro.
O Um (destes extremos) está no topo e é transcendente e perfeito, enquanto o outro está no fundo, deficiente e relativamente imperfeito; o um pode realizar todas as coisas simultaneamente, no instante presente, unitariamente, ao passo que o outro não é capaz de realizar nem todas as coisas nem todas de uma vez nem repentinamente nem invisivelmente. [...] Tal sendo, então, a natureza das diferentes propriedades que se manifestam nas classes extremas, não será tão difícil assim, como já disse, conceber as propriedades intermediárias dos daemons e heróis, uma vez que eles são aparentados (akin) quer a qualquer um destes extremos e, no entanto, desviando-se deles rumo ao meio, tecendo uma combinação harmoniosa advinda de ambos, e, por sua vez, tecida com ela em medida adequada. Permitamos, então, que estas sejam concebidas como sendo as propriedades das classes divinas primárias.23De Mysteriis I, 7 [21-22]
A proposta de Jâmblico com relação à terceira hipótese é criticada tanto por Proclo como por Damáscio. Sua ousadia, entretanto, repercutiu ao longo da história, como veremos. O Livro VIII do tratado De Mysteriis de Jâmblico busca esclarecer indagações relativas às causas primeiras. É interessante notar como, no Capítulo I, ele acentua o fato de não haver consenso em relação a este assunto, desde sua época e, diríamos, nem antes nem depois dele. No Capítulo 2 do De Mysteriis Jâmblico nos brinda com uma síntese de sua posição sobre a questão, de difícil solução, dizendo:
2. Anterior aos verdadeiros seres e aos Princípios universais há o deus único, causa anterior mesmo do primeiro deus e rei, permanecendo não-movido na singularidade de sua própria unidade. Pois nenhum objeto de intelecção está ligado a ele, nem qualquer outra coisa. Ele está estabelecido como um paradigma do auto-genitor, auto-gerador e único Deus genitor que é o Verdadeiro Bem; pois isso ele é algo maior, e primário, e fonte de todas as coisas, e raiz básica de todos os primeiros objetos de intelecção, que são as formas. A partir deste Um jorrou autonomamente o deus auto-suficiente, razão pela qual ele é denominado “pai de si mesmo” e “Princípio de si”; pois ele é o primeiro Princípio e deus dos deuses, uma mônada lançada do Um, pré-essencial e primeiro Princípio da essência. Pois dele jorra a essencialidade e essência, razão pela qual ele é denominado “pai da essência”; ele mesmo é ser pré-essencial, o primeiro Princípio da esfera inteligível, razão pela qual ele é denominado “Princípio de intelecção”. Estes são, então, os Princípios mais antigos de todos, que Hermes tem como anteriores aos deuses etéreos e empíreos, e àqueles celestiais; ele legou, de qualquer maneira, uma centena de tratados dando conta dos deuses empíreos e de igual número sobre os etéreos, e um milhar sobre os celestiais.24 De Mysteriis, VIII 2 [261-262]
22 Ver Pierre HADOT. Porphyre et Victorinus I, p. 258. Em Jâmblico ver COMBÉS-WESTERINK. Damascius:
Traité des Premiers Principes. Tome II, p. 1 (R I, p. 86) e em PROCLO, In: Parm. 1070, DILLON-MORROW,
Proclus’ Commentary on Plato’s Parmenides, pp. 423-424.
23 Emma C. CLARKE & John DILLON & Jackson P. HERSHBELL. Iamblichus: On the Mysteries. Atlanta:
Society of Biblical Literature, 2003, p. 27. Utilizaremos sempre a versão de CLARKE-DILLON- HERSHBELL. Há uma versão primeira em francês de E. des PLACES, Les Mystères d’Égypt. Paris: Les Belles Lettres, 1993. Doravante abreviaremos o título nas citações como De Mysteriis, seguido do número do livro em algarismo romano e do capítulo. Entre colchete, segue a indicação da numeração do original grego.