Apesar das conquistas realizadas e os avanços do ER, isso não deixa de ser preocupação para todos que defendem um ER que respeite a diversidade religiosa existente em nossas escolas públicas. Este é um dos motivos de apresentarmos algumas considerações sobre esta temática a partir de alguns estudiosos a respeito do ER. Segundo Oliveira et al. (2007, p.111):
“É no exercício do diálogo com o diferente que o ser humano engendra a possibilidade de flagrar-se também como um diferente e um outro diante de alguém outro. Quando o eu e o outro se percebem, nasce a ética. [...]”.Nesta perspectiva, o elemento comum é o diálogo, é onde possibilita não só para educadores, mas
proporciona aos educandos maiores interações no processo educativo. Freire, (2007, p. 118) afirma:
O diálogo tem significação precisamente porque os sujeitos dialógicos não apenas conservam sua identidade, mas a defendem e assim crescem um com o outro. [...]. Implica, ao contrário, um respeito fundamental dos sujeitos neles engajados, que o autoritarismo rompe ou não permite que se constitua.
Estes são significados fundamentais para se refletir diante de tantas polêmicas e, assim, caminhar na busca de desmistificar preconceitos sobre esta temática. Por outro lado, compete às escolas se manterem atentas em relação a este Componente Curricular e incluí-lo no seu Projeto Político-Pedagógico (PPP) de acordo com a LDB, a fim de que possa contribuir entre os demais componentes na formação cidadã, respeitando a diversidade cultural religiosa.
De acordo com Oliveira (2007, p.131):
A introdução e a implementação do Ensino Religioso nas escolas públicas de ensino fundamental provocam e reclamam a organização de um projeto educativo historicamente diferenciado, tanto pela índole de seus conteúdos, quanto pela carga cultural envolvida, caracterizando-se como um agente propiciador de programa educacional de natureza trans, inter e disciplinar. Na verdade, a escola necessita caminhar para a busca de um projeto onde esteja inserida uma proposta que englobe toda a sua diversidade cultural, envolvendo todos os componentes curriculares numa dimensão não só de interdisciplinaridade, mas numa visão holística de um trabalho transdisciplinar, desafiador, capaz de envolver toda comunidade escolar, numa perspectiva responsável pelo respeito ao outro. Viesser (1995, p. 37) afirma:
Logo, a concepção holística da vida traz à Escola a transdisciplinaridade que, indo além do enfoque disciplinar, aponta para totalidade, sem veicular certezas absolutas. Mas pelo permanente questionamento do real, chegar a uma abordagem aberta, sempre buscando mais e recolocando a vida, a totalidade, no centro das preocupações do Ser Humano.
De acordo com a nossa investigação observamos que, quando os professores se referem nesta pesquisa à contribuição do ER na formação dos educandos, eles afirmaram por unanimidade que: “O Ensino Religioso contribui para a formação cidadã”, e dois deles completaram que “ajuda os educandos a ser mais religioso”. Em conversa com essas pessoas, esta pesquisadora perguntou: Como assim? A resposta foi de que, “a partir do momento que o educando conhece as outras culturas, ele passa a respeitá-las e a valorizar a sua tradição religiosa e,
consequentemente, ter mais compromisso com sua religião, vivenciando-a na prática”. (Ver Gráfico nº 1) Quanto à sua importância na escola eles afirmam:
[...] esta disciplina ajuda o aluno a conviver com o diferente, isto é, aceitar seu colega da maneira que ele é, e cria laços de amizades, isto é muito bom para nossa convivência, assim fica mais fácil estudar, trabalhar, crescer e fazer amigos. “Os alunos gostam porque dialogam. São poucos os que não gostam”. “Os alunos aceitam bem e procuro cativar os mais difíceis”. “Como ensino a disciplina de História, eles dão preferência ao ER, procuro dinamizar as aulas e torná-las participativas, porque ensino com alegria e dialogo com os meus alunos”. “A maioria é bem participativa e estão aprendendo a respeitar o próximo”. “É importante porque trabalha com a diversidade religiosa”. “Os alunos percebem o conhecimento do professor e porque também trabalha com a diversidade e os valores humanos”. Acho importante valorizar as diferenças [...].
Oleniki e Daldegan (2004, p. 22) asseguram o seu ponto de vista a respeito dessa temática: “As situações de aprendizagem precisam promover a abertura para conhecer e dialogar com as diferentes tradições religiosas. [...] o diálogo que não „coisifica‟, mas que possibilita o respeito ao outro em sua plenitude”.
Notamos que diante desses referenciais estabelecidos por esses autores há uma sintonia em seus posicionamentos, o que se encaixa com as falas dos educadores e educandos. Conforme os conceitos dos discentes do 8º e 9º Anos, quando responderam ao questionário aplicado na pesquisa, eles afirmaram o seu entendimento sobre o ER em algumas falas como:
[...] Porque nos ensina a respeitar a cultura dos outros; porque vai me ajudar a ser uma pessoa direita; “[...] aprendemos religiões de outros lugares”; “[...] que ela mostra que todo mundo é precioso aos olhos de Deus” ; “[...] mim ajuda muito, eu abri minha mente entendi mais sobre o Ensino Religioso (sic); [...] “forma nosso carácter é aceitação perante as pessoas”; [...] nos ensina a não ter preconceitos com outras religiões; [...].(sic).
Essas afirmativas traduzem para nós que nossos educandos aos poucos estão assimilando esta aprendizagem e, ao mesmo tempo, demonstram o respeito pelo outro. Segundo Oleniki e Daldegan (2004, p. 23)
[...] as situações de aprendizagem no Ensino Religioso são instrumentos para localizar, analisar, sistematizar e integrar o conhecimento, tecendo uma teia que possibilite ao educando compreender o todo das partes e as partes do todo, construindo o seu conhecimento, sem distanciar-se da sua identidade religiosa.
Isso não deixa de ser um desafio para a escola, porém mostra que a mesma precisa repensar e incorporar em sua identidade referenciais para que possam desenvolver um trabalho coletivo, considerando e dando prioridades às identidades
pessoais, para que possam caminhar para além de seus muros, onde educandos, educadores e outros profissionais que lá trabalham possam desenvolver habilidades que propiciem uma relação de respeito consigo, com o outro, com a coletividade e com o planeta.