Dentre os assediadores, a Jennyffer foi a descrita de maneira mais ‘negativa’, tanto pelos assediados quanto pelas testemunhas:
(...) é muito descontrolada, totalmente descompensada, despreparada... Infelizmente... (Vickie)
Ela é uma pessoa complicada, no sentido de não saber liderar, não saber tratar o seu subordinado (...). (Ronny)
(...) a ignorante era ela, (...). (Vickie)
(...) é totalmente ‘perdida da cabeça’, né? (Vickie)
A Jennyffer é totalmente desequilibrada, totalmente desequilibrada (...). (Fanny) (...) ela é uma pessoa difícil! Isso é, viu? É muito difícil. (Vickie)
Eu acho que ela é uma pessoa mal-resolvida... (Vickie)
(...) é mal-resolvida, é mal-amada, acho que tudo isso engloba tudo nela, é descompensada demais! (Vickie)
(...) é uma pessoa encrenqueira, (...) arrogante, mal-educada (...) (Vickie)
Muitas das avaliações que os dois assediados de Jennyffer (Vickie e Ronny) fazem da mesma, em especial as de Vickie, evidenciam uma das repercussões naturalmente surtidas em situações de assédio – sentimentos que mesclam raiva, revolta, mágoas, ressentimentos e mesmo vontade de vingar-se, conforme já salientado por Barreto (2003), expressos por ‘pensamentos agressivos’, tal como as verbalização de Vickie no transcorrer da entrevista, bem como a de Ronny registrada em nosso diário de campo no mês de março de 2006, sugerem:
Ela me humilhou tanto que... Hoje eu a trato, mas eu não gosto, não gosto dela, (...) no que eu posso eu faço a caveira dela, faço mesmo... E olha que não é falando nenhuma mentira para ninguém... É só mostrando a verdadeira ‘face’ dela.
(Vickie)
A vontade que eu tinha, muitas vezes, era de matar ela. Ou então, num daqueles ataques de absoluto descontrole emocional que ela fazia contra mim, que ela tivesse um infarto e não retornasse mais... Assim teríamos um ‘monstro’ a menos no mundo para nos infernizar. (Ronny)
Alguns autores fazem menção à existência de assediadores que poderiam ser enquadrados como verdadeiros ‘assassinos em série’ organizacionais, tal como Piñuel y Zabala, (2001/2003) ao apelidá-los de ‘psicopatas organizacionais’ e Abajo-Olivares (2004) ao denominá-los ‘Hannibal Lecters organizacionais’. Com tais denominações, ambos os autores querem retratar que há assediadores que, se investigado o seu passado profissional, revelarão já possuírem ‘cadáveres no armário’, no sentido de já terem feito vítimas anteriores. O fato de Jennyffer ter feito duas vítimas consecutivas, num intervalo de alguns poucos anos, talvez a enquadre no perfil de assediador mencionado pelos autores, classificação esta que pode ser corroborada pelas avaliações de Vickie e a Fanny acerca da referida assediadora:
Eu acho assim, conforme vai entrando gente nova, aquele ali vai virando vítima dela, vítima dela até ela saturar, apesar de que não satura, né? (Vickie)
A saturação dela é infinita, não acaba, não satura, não satura (...). (Vickie)
Acho que, na verdade, a Jennyffer sempre precisa de um... E assim que a Vickie saiu entrou o Ronny... Aí foi ele que passou a apanhar... (Fanny)
Na percepção de Derick, enquanto testemunha do assédio moral no trabalho infligido por Gregory contra Eloy, o assediador talvez também apresentasse uma espécie de ‘tendência’ a ‘sempre’ fazer uma vítima:
No caso do Gregory, eu acho que ele precisava escolher alguém (...). Então ele escolheu Eloy. (Derick)
Outro aspecto apontado por Ronny como correlato à Jennyffer referiu-se a ‘habilidade da assediadora em seduzir pessoas’ (Hirigoyen, 1998/2003; Piñuel y Zabala, 2001/2003; Abajo-Olivares, 2004), o que ocasionava, conforme de fato testemunhamos e registramos em nosso diário em algumas ocasiões, perplexidade em pessoas externas à divisão ao escutarem relatos dos assediados (Ronny e Vickie) acerca da agressividade com a qual Jennyffer os havia tratado (e continuava a tratar no caso de Ronny):
Quem vê aquela pessoa, que é a nossa chefa, fala assim – “Nossa, é a melhor pessoa no mundo para trabalhar”... Mas quem trabalha ali sabe que não é. (Ronny)
Vickie ainda fez leituras acerca da personalidade de Jennyffer que parecem sugerir um traço de megalomania, tipicamente apontado como comum entre os assediadores (Hirigoyen, 1998/2003; Guedes, 2003, Piñuel y Zabala, 2001/2003; Abajo-Olivares, 2004):
Ela se considera muito poderosa, a postura dela, sabe? A postura dela de estar sempre falando – “Eu fiz, Eu faço, Eu vou fazer”. É sempre assim, ela tem que estar em evidência, ela é o máximo! Ela sempre tem muita história pra contar, muita vivência, mas sempre se colocando em evidência, sempre se colocando como sendo o máximo, né? Ah... E tem mais, né? Todo homem olha pra ela, todo mundo paquera ela! (risos) (Vickie)
E outra coisa... Ela se considera muito sabida pra tudo! É uma coisa que me chama a atenção... (...). Então tudo dela é melhor, diferente, tudo ela sabe, tudo ela entende... (Vickie)
Gregory foi designado muitas vezes por Eloy, em especial em momentos subseqüentes a agressões que havia sofrido, como uma pessoa ‘bronca’, adjetivação esta que o assediado complementava ao afirmar que ele realmente ‘não tinha condições de se portar de maneira decente para com as pessoas’. Fanny parece fazer uma avaliação similar de Gregory ao afirmar:
O caso do Gregory, eu acho que é mais falta de tato mesmo... O Gregory é bem ‘grosseirão’... Assim, sai da característica dele de personalidade, criação, sei lá o que... (Fanny)
Já em relação ao Eloy enquanto assediador de Derick, tanto o assediado quanto a Fanny, na posição de testemunha da situação, recorreram com freqüência à imagem que faziam de Gregory para retratá-lo, mesmo porque acreditavam que o Eloy acabou por, inconscientemente, assediar Derick justamente por reproduzir as atitudes de seu assediador:
Como o Gregory é intolerante, acaba que o Eloy também é... (Fanny) O Eloy... Ele tem muita ‘coisa’ assim... Do Gregory, sabe? (Fanny)
(...) muita coisa que ele faz contra o Derick... Sei que é inconsciente, é repetir modelo, né? (Fanny)
O Eloy, ele se foca no Gregory... O ‘espelho’ dele é o Gregory (Derick)
Como não era o foco do presente trabalho, não se realizou uma análise aprofundada das possíveis estratégias defensivas utilizadas por Eloy em vista de ‘suportar’ o provável sofrimento advindo das práticas de assédio moral no trabalho que Gregory lhe infligiu. Entretanto, as leituras de Derick e Fanny acima ilustradas, podem conduzir à interpretação de que o mesmo estava a recorrer a um dos mecanismos de defesa elencados por Freud (1946/1968): a ‘identificação com o agressor’, que caracterizasse por um mescla dos mecanismos de introjeção e projeção.
Derick, ainda se referindo ao Eloy, relatou um ‘habilidade’ que este último, na percepção do assediado, possuía – a ‘habilidade de manipular as pessoas’, à qual já havíamos feito menção quando tratávamos das ações de Eloy que visavam isolar Derick e que de fato é descrita por alguns autores como corrente entre os assediadores (Hirigoyen, 1998/2003; Piñuel y Zabala, 2001/2003; Abajo-Olivares, 2004):
O Eloy tava manipulando a minha chefa direta pra que ela... Como é que eu vou falar?... Me constranger perante o pessoal da minha área (...). (Derick)
Ele teve o poder de manipular ela quando eu já tava lá... Pra ela me atacar sem eu poder me defender (...). (Derick)
O Eloy tava manipulando ela pra ela me constranger, já que ele não tava conseguindo me afetar mais... (Derick)