6. Sosialpolitiske konsekvenser
6.7 Oppsummering - sosialpolitiske konsekvenser
A entrevista televisiva-interativa configura-se como uma prática social complexa por acionar, ao mesmo tempo, duas relações de comunicação entre os diferentes participantes que têm objetivos distintos. Vemos que nesse quadro complexo de interação o jornalista representante da emissora cumpre o duplo papel de gerenciar as trocas, dentro do quadro de entrevista e de gerar um produto que atenda às expectativas do telespectador. Esse duplo papel do EU (jornalista e mediador) remete a duas identidades comunicacionais distintas, situação essa a que Burger (2000) chamou de polifonia na entrevista midiática. Segundo esse autor, a entrevista midiática coloca em jogo apostas de comunicação que se opõem: a livre expressão do entrevistado e a informação midiática, que, para se tornar mais compreensível e interessante para o público, se constitui normalmente como uma limitação para a expressão do entrevistado. O quadro abaixo, adaptado de Burger (2002, p. 204), nos ajuda a representar essa complexidade:
QUADRO 4
Polifonia na entrevista televisiva-interativa Informação midiática
Informar Ser informado
Entrevista
Regular
Suscitar o discurso (fazer falar, perguntar)
Falar (responder)
Vemos acima, no quadro de informação midiática, a relação de comunicação unilateral que acontece entre o jornalista, representante da emissora, e o público ser representada por uma flecha simples. Nessa relação, esses parceiros estão engajados em uma atividade na qual o primeiro informa o segundo, convida-o a participar por meio de perguntas, orienta-o quanto à dinâmica do programa e ainda divulga o programa. Esses comportamentos do jornalista constituem-se como traços de ativação do quadro midiático.
Retomando os exemplos 4, 5 e 6, vemos que a saudação feita pelo jornalista, que se dirige para a câmera, e a forma pronominal [você] em Para você participar, presente nos três exemplos, e em como você sabe, no exemplo 5, evidenciam a interlocução unilateral entre o jornalista e o telespectador, simbolizada pela fecha simples no nosso quadro 4 acima, como também aproxima a instância midiática da sua audiência. O pronome de primeira pessoa do plural em nós convidamos, bem como as desinências verbais também de primeira do plural em convidamos e em temos também a participação, presente nos três exemplos, patenteiam a identidade comunicacional do jornalista como porta-voz da instância midiática aqui em questão, revelando que ele fala não em seu nome, mas como profissional o que significa dizer que as informações e as opiniões ali presentes não são de sua responsabilidade pessoal. O uso de prosopopéia em o Roda Viva convida, no exemplo 5, marca também essa característica do quadro midiático. A apresentação do entrevistado feita pelo jornalista é direcionada ao público, constituindo-se, assim, como uma marca implícita desse público, uma vez que tais
Jornalista Audiência/telespectador
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informações são redundantes tanto para os entrevistadores como também para o entrevistado, evidentemente.
Já a relação de comunicação recíproca que ocorre entre mediador- convidados, mediador- entrevistado e convidados - entrevistado é representada por fechas duplas. Num sentido mais geral, a finalidade de um sujeito ao buscar entrevistar o outro é fazer-saber, é suscitar o discurso do outro. Entretanto, como veremos nas seções seguintes, esse quadro de entrevista pode se arrefecer e aí as finalidades podem se transformar em acusar, criticar, insinuar.
Como se trata de um gênero fortemente marcado pela subjetividade e interatividade, a argumentação, tanto dos entrevistadores quanto do entrevistado, configura-se também como uma restrição discursiva importante. É a partir desse jogo retórico entre o que é perguntado e o que é respondido que o público vai construindo o seu ponto de vista.
No quadro interacional de uma entrevista como prática social os interactantes agem segundo papéis que lhes são imputados. Segundo Goffman (1973, p. 23), papel é concebido como um modelo de ação pré-estabelecido que se desenvolve durante uma representação. Desse modo, falar de uma entrevista televisiva-interacional, por exemplo, é tratar das formas dessa atividade, o que supõe uma dimensão mais ou menos genérica de comportamentos, o que significa dizer que os interactantes em uma entrevista televisiva agem de forma mais ou menos convencional. Conforme afirma Burger (1999, p. 36) une activité préforme de ce fait la valeur des actes e la responsabilité des sujets comunicants.13 Nesse sentido, cabe ao jornalista-mediador, por exemplo, o papel de ativar o quadro midiático, como vimos em parágrafos antecedentes. Além disso, como salientamos anteriormente, cabe a ele também ativar o quadro de entrevista, pois é ele quem saúda o entrevistado e lhe faz a primeira pergunta. Como podemos ver nos exemplos abaixo:
7(1- 1-4) PM – Boa noite, Ministro!
JD – Boa noite, Paulo Markum. Boa noite, Brasil.
PM – Se o senhor fosse ainda o líder do PT, o deputado federal combativo que o
senhor foi e o senhor pegasse a revista Veja desta semana, ia ser uma festa, não ia?.
8(2- 1-5) PM – Boa noite, Deputado! RJ – Boa noite, Paulo!
PM – Queria começar com o seguinte aonde que o senhor pretende chegar com as
afirmações que o senhor tem feito, com a sua participação no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, enfim, com as suas últimas atuações na política Brasileira?
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9(3- 1-9) PM – Boa noite, Genoíno! JG – Boa noite, Paulo Markum!
PM – É, eu conheço um pouco da trajetória do senhor e fiz um perfil para Revista
Playboy, acho que em 1996, e acompanhei o senhor mais de uma semana em que estivemos juntos no guichê do Banco do Brasil na Câmara dos Deputados em que o senhor acompanhava cuidadosamente o seu extrato bancário, preocupado com a possibilidade de que alguém depositasse algum dinheiro na sua conta e que isso de alguma forma comprometesse o senhor. Eu pergunto: Como é que o senhor assina um documento desses aparentemente sem saber o que estava assinando?
É o mediador quem suscita o discurso do entrevistado e coloca-o em cena ao lançar a primeira pergunta do quadro de entrevista. Essa primeira pergunta também inaugura o bloco temático daquela seqüência. Isso ocorre também a cada retomada do programa após o intervalo.
Aos convidados, nesse momento, compete o papel de escutar, perguntar e relançar outros questionamentos. Cabe a eles insistir numa pergunta não respondida e para isso dispõem de atos de discursos variados como a reformulação de uma questão, a retomada literal de um elemento do discurso do entrevistado, ou a abertura de uma troca meta- comunicacional de pedido de complementação de informação. E ao entrevistado, por seu turno, resta o papel de responder o que for solicitado, como também expor seu ponto de vista. Podemos verificar, assim, que o gênero entrevista televisiva se constrói sobre a base de assunção de papéis. Tomemos, então, um exemplo, para ilustrarmos essas questões:
10a (1- 1-46) PM – Boa noite, Ministro!
JD – Boa noite, Paulo Markum. Boa noite, Brasil.
PM – Se o senhor fosse ainda o líder do PT, o deputado federal combativo que o
senhor foi e o senhor pegasse a revista Veja desta semana, ia ser uma festa, não ia?
JD– Acho que o Governo tomou as medidas necessárias. Tanto a Controladoria
Geral da União que vai não só investigar os fatos revelados, mas os contratos em geral da empresa de Correios e Telégrafos e a, Polícia Federal vai/ já abriu inquérito e todos foram afastados. O próprio Procurador Geral da República, Cláudio Fonteles, já disse que o Ministério Público vai acompanhar o inquérito da Polícia Federal. Acredito que o Governo fez o que tinha que fazer.
PM – Como é que o senhor viu a notícia?
Dirceu – Eu disse e quero repetir: esse é o Governo que não rouba, não deixa
roubar e combate a corrupção. E se nós observarmos as operações/ações da Polícia Federal nesses últimos 30 meses em todos os setores, as prisões de servidores públicos, de policiais federais, prisões de políticos, prisões de empresários e a ação da Polícia Federal em todas as frentes e da Controladoria Geral da União, os municípios e também na Administração Pública e a ação do Ministério Público e da Justiça, nós vamos ver que se combate a corrupção no Brasil.
No trecho transcrito acima, o mediador saúda o entrevistado e este, por seu turno, o cumprimenta e se dirige também ao telespectador: Boa noite, Paulo Markum. Boa noite, Brasil. Como vimos anteriormente, a entrevista televisiva-interativa se configura como uma
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comunicação de massa e realiza uma atividade midiática. Aqui, ao cumprimentar o mediador e o público, o entrevistado nos lembra da complexidade do quadro interacional aqui em análise, a sua duplicidade dos quadros de interação: a midiática e a entrevista.
O marcador referencial Ministro, a referência nominal Paulo Markum e o pronome de tratamento senhor Ministro que aparece na seqüência, indicam a relação hierárquica que há entre os interlocutores.
Após os cumprimentos, o mediador ativa o quadro de entrevista ao formular a primeira pergunta, que na seqüência será o tema a orientar as intervenções dos convidados. A pergunta do mediador se estrutura no esquema se p, q?. Ducrot (1992, p. 183), ao estabelecer uma definição ilocucional para o SE, verifica que esse componente lingüístico, nas frases interrogativas, pode assumir duas interpretações: a de implicação, quando “p” é considerado como uma condição favorável a “q”; e a de ambigüidade, se admitir-se que “p” contraria “q”. No caso aqui analisado, temos a interpretação desse SE como de implicação, pois o interlocutor somente pode considerar “p” como uma condição favorável a “q”, ou seja, a condição de ter sido líder combativo favorece a situação de [fomentar polêmicas] diante de uma revelação. Ou melhor, diante de um escândalo como o que foi denunciado pela revista Veja, revelando o esquema de indicação de empresas fornecedoras de material para os Correios mediante pagamento de propina e a divulgação de fotos de Maurício Marinho, chefe, na época, do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios e apadrinhado do Deputado Federal, e da base aliada do Governo, Roberto Jefferson, recebendo “bolos” de dinheiro, um líder de governo da estirpe de como foi José Dirceu, diante de uma denúncia dessa referente ao Governo opositor, faria o maior estrondo. O mediador ao lançar mão de uma pergunta confirmativa em tom irônico ia ser uma festa, não ia?, dá mostras do rumo que a entrevista vai tomar e esse tom provocativo, até certo ponto, gera um produto que agrada o telespectador. O uso metafórico do item lexical festa torna a linguagem acessível para o telespectador e cria um clima de confrontação que serve bem para gerar produto- espetáculo, modalidade apreciada pelo público em geral.
O entrevistado não entra nesse jogo provocativo e, ao que foi perguntado, responde de modo objetivo e sério, algo que pode ser assim parafraseado [diante das denúncias, o governo mandou investigar]. Diante dessa reação, o mediador, na seqüência, com um tom menos incitante, reformula sua pergunta e a transforma num pedido de informação Como é que o senhor recebeu a notícia?. Em sua resposta, o entrevistado deixa claro o papel que pretende assumir na entrevista, ou seja, o de membro do governo e, assim, cabe-lhe a função de porta-voz e defensor desse governo. Desse modo, ele não faz mérito da
matéria da revista, como foi solicitado, e, com isso, não se mostra como pessoa física, mas sim como pessoa instituída, ou seja, ele se posiciona conforme o cargo que ocupa, assim não interessa a referência a um outro tempo em que ele ocupava outro cargo e tinha outra forma de agir.
A partir daí os convidados entram em cena e assumem o papel de entrevistadores. Vejamos na seqüência dessa troca, como isso se deu:
10b( 1- 19-46 )FM – Mas com a lei do foro privilegiado que o governo acabou
defendendo, Ministro?
JD – Veja bem, o foro privilegiado não significa impunidade em alguns casos, pelo
contrário, vou dar um exemplo concreto. Muitas vezes você tem processos que estão há 8/7 anos na justiça em 1ª e 2ª estância. Quando alguém é eleito e passa a ter um foro privilegiado, e esse processo vai para Supremo Tribunal Federal, ele rapidamente é julgado. Acredito que a sociedade/ a população precisa ter essa informação. Foro privilegiado só significa que o parlamentar, ou chefe de executivo ou a chefe terá que ser julgado numa instância que diga respeito a sua função pública, isso não significa impunidade.
VC – Mas, senhor Ministro, o Markum no início disse que se o senhor fosse ainda
líder do PT, num momento desse, eu acho que o senhor estaria fazendo coro com o que a oposição está dizendo agora, pedindo CPI para investigar esse caso de corrupção que chegou ao nosso conhecimento. Então retomando a pergunta do Markum, o senhor pediria a CPI hoje?
JD – Eu não sou líder do PT. Eu sou Chefe da Casa Civil. Eu sou Ministro. VC – Não, mas como disse o Markum, se o senhor fosse líder do PT. JD – Se não vale em política.
VC – Hein?
Dirceu – Se não vale em política.
VC – Bom, então, o senhor concorda com a tese da oposição de que é necessário
CPI para investigar esse novo caso.
JD – Não, não concordo. VC – Por que Ministro?
JD – Porque todas as providências foram tomadas.
TG – E com a tese do PTB de que o assunto foi uma armação para tentar afastar o
PTB da aliança com o presidente Lula?
JD – Isso as investigações podem trazer fatos e indícios que provem. Fora disso, é
uma conjectura.
O primeiro deles, FM, ao usar o marcador de oposição mas replica o que foi dito pelo entrevistado. Este por sua vez recupera o conteúdo proposicional da pergunta foro privilegiado e passa a dar a definição do que seja isso.
Na seqüência, outro convidado, VC, recupera o questionamento do mediador, dando mostras de que o que foi perguntado não foi satisfatoriamente respondido então retomando a pergunta do Markum. Em sua resposta, mais uma vez, o entrevistado deixa claro que o papel assumido por ele é de ministro e é sob essa perspectiva que se propõe a participar do quadro de entrevista Eu não sou líder do PT. Eu sou Chefe da Casa Civil. Eu sou Ministro.
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O convidado ainda insiste com a réplica Não, mas se o senhor fosse líder do PT ao que o entrevistado responde com a máxima Se não vale em política. Essa resposta do entrevistado nos faz, mais uma vez, recorrer a Ducrot que vai dizer que “perguntar q, se p? é solicitar ao ouvinte que admita a hipótese ‘p’” e, neste caso, seria o mesmo que entregar-se ao julgamento que o locutor fez do entrevistado.Nessa passagem vemos o contrato que vai sendo instituído entre os interlocutores, ou seja, o entrevistado deixa claras as sanções às quais ele propõe submeter-se e os convidados, por sua vez, tentam negociar esse propósito.
O entrevistador, no ensejo de cumprir o seu papel de obter do seu interlocutor a informação desejada, reformula o conteúdo proposicional de sua pergunta, chamando o entrevistado para o confronto com o marcador argumentativo Bom, então e lança mão de uma pergunta confirmativa o senhor concorda com a tese da oposição de que é necessário CPI para investigar esse novo caso?. O entrevistado reage com a negativa Não, não concordo e, solicitado a dar suas razões, responde com a asserção Porque todas as providências foram tomadas. Na seqüência uma terceira convidada, TG, entra em cena com uma pergunta confirmativa, algo como [concorda ou não com a tese do PTB] ao que o entrevistado responde mais uma vez de forma impessoal Isso as investigações podem trazer fatos e indícios que provem. Fora disso, é uma conjectura.
Nesse exemplo vimos que a gestão da entrevista funciona de forma determinante para a definição dos papéis a serem assumidos pelos interlocutores. À medida que a concorrência entre as diferentes apostas de interação vai se instaurando, vão se revelando esquemas subjacentes à entrevista. Ao iniciar com uma provocação, o mediador deixa evidente o caráter de debate que a entrevista, em certos momentos, assume, como também deixa clara a imagem de acusado, ou de pessoa supostamente comprometida com escândalos denunciados pela mídia que querem imputar ao entrevistado. E para isso, os convidados aderem ao discurso do mediador e passam a ser fiadores dessa proposição. No entanto, ao recusar esse emblema, o entrevistado se firma como pessoa pública, que tem um cargo importante e que não está muito preocupado com esses fatos, pois acredita na investigação que vai esclarecê-los.
Desse modo, podemos afirmar que é no e pelo discurso que os interactantes negociam suas imagens identitárias. Nesse ponto, a dimensão cívica da mídia, abordada anteriormente, se satisfaz à medida que uma questão atual e de interesse público é debatida por meio de opiniões, contrárias e legítimas, de pessoas que se mostram e se comprometem, pelo menos aparentemente, de modo sincero. Por outro lado, essa confrontação de opostos e
esse exercício de instigar o outro, no caso uma personalidade, funciona como uma estratégia de captar audiência, revelando, assim, a dimensão, digamos assim, mais comercial da mídia.
Essas duas dimensões, a cívica e a comercial, evidentemente, também interessam ao entrevistado e também regulam o seu discurso. A dimensão cívica dentro da qual a mídia se insere é a garantia para o entrevistado de que lhe está sendo oferecida uma oportunidade de expor seu ponto de vista. E a dimensão comercial, aqui especificamente, de caráter metafórico, significa a chance de vender uma imagem que lhe interessa.
Por fim, vimos que, sob a perspectiva interacional proposta por Burger, a entrevista resulta de uma co-construção negociada em que os papéis interacionais e os atos de discurso são essenciais. Desse modo os aspectos situacionais, discursivos bem como a dimensão psicossocial que envolvem são fundamentais para compreensão do nosso corpus, como para qualquer outro discurso. Nesse sentido o escopo da Semiolingüística é um referencial importante para o estudo que pretendemos realizar.