Apresento, a seguir, a análise de acordo com os conceitos de níveis de atividade proposto Leont’ev (1959,1978). Como ap resentado por Engeström (1987, 1999, 2006), um sistema de ativida de não se caracteriza por sua estabilidade, mas sim pela presença de contradições, que causam conflitos. Observando-se o conceito de níveis de atividade proposto por Leont’ev (1959, 1978), considero as sessões reflexivas presenciais como uma atividade no sistema de atividade. Cada sessão reflexiva se organiza por ações concretizadas por operações realizadas discursivamente pelas participantes em cada um dos encontros.
Nessa atividade, o sistema coletivo é mediado por instrumentos (ex. a exposição oral e os instrumentos semióticos) e orientado a um objeto (reflexão e produção de conhecimento), cuja realização dependeu das ações e operações realizadas pelas participantes. Ao expor seus pontos de vista, seus interesses, suas necessidades, as participantes deixaram transparecer a historicidade, relatadas em suas histórias, experiências, angústias e dúvidas. As contradições que emergiram durante a atividade propiciaram que novos processos fossem iniciados para a construção do objeto.
O quadro a seguir permite a visualização dessa interpretação.
Quadro 7. Níveis hierárquicos na Atividade de Formação na Sessão Reflexiva Presencial
Nível Orientada para Envolvidos
Atividade: Atividade de F
ormação na Sessão Reflexiva Presencial
Objeto/Motivo: Reflexão sobre ensino-
aprendizagem Professora Pesquisadora e
Ação: Conversas
operacionalizadas discursivamente pelas participantes
Meta: Situações que promovam reflexão sobre a ação e prática em sala de aula
Professora e Pesquisadora
participantes gravação, escolhas discursivas
A seguir apresento a discussão do resultado da análise da interação realizada nas sessões reflexivas presenciais.
4.1.1 A Interação nas Conversas realizadas nas Sessões Reflexivas
Presenciais
A análise inicial realizada por meio do levantamento do conteúdo temático na sessão reflexiva presencial ocorrida em 29/04/2005 revelou que a preocupação estava tanto na organização do trabalho de reflexão (ex. explicação do desenvolvimento do trabalho de reflexão, necessidade das leituras para compreensão da ação, definição dos encontros futuros), quanto na organização do trabalho que seria realizado em sala de aula (ex. trabalho com o gênero, organização do trabalho de monitoria).
A análise realizada na SRP de 04/06/2005, que tinha como objetivo promover a reflexão sobre os diários, revelou que a preocupação com a organização dos trabalhos (reflexão e monitoria) ainda permanecia, mas essa preocupação já não era tão patente. Isso porque outros temas emergiram como foco de reflexão, durante as conversas desenvolvidas: a questão de ensino-aprendizagem de língua inglesa no ciclo básico, a dificuldade de se trabalhar em grupo, a rejeição de aluno, a solução de problemas ocorridos durante a aula, entre outros.
No que diz respeito à interação, os resultados da análise parecem demonstrar, pela organização dos turnos analisados na SRP de 29/04/2005, que os participantes não se encontravam em uma posição de igualdade, o que dificilmente ocorre, na interação (Kerbrart-Ore cchioni, 1996). Essa afirmação pode ser percebida por meio do levantamento do tamanho do turno, que mostra quem fala mais e/ou domina a conversação. Dos 331
turnos transcritos, 165 (4216 palavras, 68%) são da pesquisadora e 166 turnos (1978 palavras, 32%) são da professora.
A análise qualitativa, todavia, revela que das sobreposições/intrusão ocorridas durante a conversa, 103 sobreposições são da professora e 30 sobreposições são da pesquisadora. Uma análise mais detalhada das sobreposições e intrusões revelou que as produções e/ou sinais gerados por Neiva, tais como: “ta, ah.. ta, ah:::, sim, sei, é, então ta bom, tudo bem, isso mesmo”, entre outros, expressavam sinais de concordância e/ou endosso do que lhe era colocado e permitiam o monitoramento por parte da pesquisadora, conforme exemplificado no trecho a seguir:
Recorte da SRP de 29/04/2005
96.Márcia: então voltando aqui... rapidinho na(não dá para compreender).. o que eu quero é o seguinte.. que você .. então que você prepare pra essas duas semanas
[ 97.Neiva: ah... ta
[
98.Márcia: além das leituras... se você puder éh... adiantar as leituras .. porque assim... Neiva.. como a gente éh::: eu quero fazer isso pra... esse ano e você também .. aí ahn::: claro que se a escola quiser estender para o ano que vem ... seria ótimo .. né... só que .. daí eu queria assim.. fazer toda essa parte que a gente ta fazendo agora.. de leitura.. pra gente poder começar as discussões em cima das suas aulas
[ 99.Neiva: ta
Análogo à SRP-29/04/05, a análise realizada nos turnos da SRP de 04/06/05, em seu aspecto quantitativo também evidencia uma natureza assimétrica (Kerbrart-Orecchioni, 1996) entre os pa rticipantes do discurso. Dos 653 turnos analisados, 330 turnos (8680 palavras, 56%) são da pesquisadora e 323 turnos (6705 palavras, 44%) são da professora. No que se refere aos aspectos qualitativos, a análise revelou também existir um número elevado de produções desenvolvidas por Neiva como sinais de concordância ou endosso do que lhe era colocado (113 sobreposições, 44%), e sobreposições de intrusão/interrupção (80 s obreposições, 31%)
Conforme apresentado por Kerbrart-Orecchioni (1996 ), a relação vertical entre pesquisadora e professora se reflete por meio das escolhas lexicais utilizadas, que revelam a posição elevada (dominante) da pesquisadora em relação à posição baixa da professora. Essa relação pode
tarefas para que fossem realizadas, e Neiva responde utilizando um verbo “poder” com modalidade deôntica, seguido do verbo “ deixar” no indicativo, indicando sua concordância.
Recorte da SRP de 29/04/2005
84.Márcia: eu deixei a minha em casa.. então .. vamos pensar no seguinte.. eu vou deixar aqui novamente (pesquisadora vai buscar as anotações em seu caderno) .... eu vou deixar tarefinhas pra você
[
85.Neiva: é agora pode deixar que eu vou....
É importante notar que o uso do diminutivo nesse momento adquire um papel de modalizador do discurso, entretanto, ele não diminui a obrigatoriedade de realização da tarefa. Ao contrário, nesse momento, o uso do diminutivo adquire a função de acentuar e/ou reforçar o sentido daquilo que seria pedido.
A posição vertical também pode ser percebida pelos usos constantes que faço das expressões não modalizadas “eu quero que você....”, “você vai ter que...” no decorrer das trocas conversacionais durante as sessões reflexivas, e pela escolha lexical utilizada por Neiva, por meio do adjetivo “lógico” para expressar sua concordância, como apresentado no trecho a seguir:
Recorte da SRP de 29/04/2005
244.Márcia:.. tudo isso que você ta falando .. esse diário que você ta escrevendo .. é .. eu quero que você faça ...é... não somente aquele diário que fique assim.. fechadinho.. “ah.. a Márcia pediu pra que eu fizesse .... descrever a aula “.. isso você vai ter que fazer
245.Neiva: lógico
246.Márcia: certo?.. mas tudo isso que você ta me f alando .. você entendeu ?... eu quero que você coloque também.. faça assim.. como se você estivesse escrevendo o seu diário de adolescente .. que você põe tudo ali no ...
A posição vertical pode, ainda, ser percebida pela preocupação que Neiva tem em não passar a imagem e/ou ser compreendida como uma pessoa relapsa, que não cumpre os acordos firmados, ao procurar justificar a não leitura dos textos que haviam sido escolhidos para a sessão reflexiva que se realizaria no dia 29/04/2005. Isso fica evidenciado pelas escolhas lingüísticas utilizadas por ela para explicar/justificar a não leitura dos textos
em razão de ter que estudar para a semana de provas na faculdade “foi semana de provas aqui”, da necessidade de realização de trabalhos “trabalho pra entregar”, e, principalmente, pela expressão modalizadora iniciada por contra argumento “mas...eu não queria que você tivesse essa imagem minha”, para fortalecer sua argumentação.
Recorte da SRP de 29/04/2005
8.Neiva: éh.... esse aqui eu não li (aponta para uns dos textos na pasta)... eu... eu ... o que aconteceu essa semana ... eu até queria te falar... né.... eh.. nós tivemos muito.. foi semana de provas aqui e... trabalho pra entregar e eu não costumo deixar pra depois o que eu posso fazer agora... mas... eu não queria que você tivesse essa imagem minha
9.Márcia: não... (não dá para compreender o que a pesquisadora fala)
10. Neiva: ta::?... mas é que eu....não deu mesmo... inclusive eu tava muito interessada porque