Rodger relata as primeiras viagens proporcionadas por seu pai na qualidade de aviador. O mundo dos pilotos e passageiros é internalizado no agente e será exteriorizado, consciente ou inconscientemente, no futuro músico que terá a coragem, ainda muito jovem, de rumar para o Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. É importante lembrar que na década de 1960 e início de 1970 nem todos os artistas que estavam no mesmo grupo no Ceará, frequentando os mesmos lugares em Fortaleza, na Universidade Federal do Ceará (UFC), nos bares e nas residências, ainda amadores e ensaiando seus primeiros voos através dos festivais de música, tiveram a disposição de enfrentar a estrada. Pedro Rogério Aguiar, o pai de Rodger, deixou esta herança para seu filho; e o mesmo utilizou-a no momento de decidir botar o pé na estrada, lembrando que o agente sempre retornava à cidade natal em decorrência ―do outro lado da herança‖, a morte do pai em viagem.
Essa primeira experiência paterna se confunde com um ambiente de brincadeira, de diversão, de alegria que Rodger guarda na lembrança e também de momentos de dificuldades com a saúde. É possível perceber no depoimento de Rodger as dimensões da dor e do prazer nos momentos de deslocamento, o que imprime sentido para as lembranças do entrevistado:
Viagem para Itapipoca. Acho que foi a 1ª viagem que fiz. Fomos na boleia de um caminhão, Dona Monavon9 e eu. Saímos de Fortaleza à
noite cedo e chegamos pela madrugada. A estrada era tipo carroçável, sacolejava demais e fazia frio. Falei agora com a mãezinha e ela acha que eu tinha 4 anos na época dessa viagem. Lá em Itapipoca fui acometido de uma coqueluche o que me garantiu uma terapia com voos diários toda manhãzinha. Não sei quanto tempo passamos lá, me parece uns dois ou três meses. Apesar das dolorosas noites de muita tosse, guardo ótimas lembranças. Só viajei com seu Pedro Rogério pilotando quando fomos morar em S. Luiz do Maranhão. Voei muito com ele a passeio, sobrevoando Fortaleza. Em Itapipoca, além dos sobrevoos, íamos sempre às praias comprar peixes, muitos peixes que ele soltava de pára-quedas para a garotada que fazia grande algazarra correndo pelas ruas da pequena cidade10.
Nas três próximas viagens Rodger Rogério narra justamente a diferença que existe entre uma rápida viagem que não tem o tempo necessário para acumular experiências significativas e sua primeira viagem de duração mais longa que proporciona a inserção em um outro meio. A primeira foi uma viagem para o Rio de Janeiro, de férias onde ficou hospedado na casa de uma tia, permanecendo por volta de 3 meses, com 6 anos de idade. A segunda viagem foi para o Maranhão, pois seu pai, que era aviador comercial, foi transferido para aquele estado. Rodger, sua mãe e seu pai ficaram hospedados pouco tempo na casa de uns amigos, mas não chegaram a fixar residência, pois seu genitor faleceu em decorrência de um acidente de voo. Já na terceira viagem Rodger passou um ano no Rio de Janeiro, e neste momento ele narra que sentiu que realmente havia saído de Fortaleza:
A primeira viagem que eu me lembro eu tinha 6 anos de idade11, fui
pra o Rio de Janeiro, mas foi uma viagem que eu saí de dentro de casa e fui pra dentro de um apartamento. E do Rio de Janeiro mesmo, além das imagens gerais da cidade, eu vi muito pouco do Rio de Janeiro. [Quanto tempo ficou lá nesse período?] Deve ter sido 3 meses, fiquei na casa de uma tia (Angelina). [Foi motivada pelo quê, essa viagem?] Fui com a minha mãe, eu acho que foi férias, não sei. Outra viagem foi para o Maranhão12, que a minha família, meu
9 Dona Monavon se chama Maria José Franco Pereira. O sobrenome Pereira é do segundo
casamento. Quando era casada com Pedro Rogério Aguiar, Dona Monavon assinava Maria José Franco Aguiar.
10 Rodger relata que seu pai, Pedro Rogério Aguiar, confeccionava vários pequenos paraquedas e
amarrava um peixe a cada um deles; ele, então, sobrevoava a cidade e soltava os peixes que caíam nesses paraquedas, causando muita alegria nas crianças. Depoimento enviado por e-mail em: 15 ago. 2010.
11 Esta é uma transcrição da entrevista filmada na Rádio Universitária FM da UFC. Após esta
entrevista Rodger enviou por e-mail informações sobre uma viagem anterior que fez à cidade de Itapipoca (cidade do interior do Ceará).
pai tava se transferindo pra lá, ia ficar sediado lá, ele era piloto comercial e ia ficar sediado lá, ia ficar mais lá do que aqui, então a gente tava se mudando pra lá e nós ficamos lá, também foi pouco tempo, por que ele morreu e nós retornamos pra cá. [E chegaram a fixar residência lá?] Não, chegamos não, ficamos lá ainda meio acampados na casa de um amigo dele, não chegamos nem a montar casa. Então, nós retornamos pra cá, na sequência eu fui atropelado e precisei me tratar no Rio de Janeiro13 com um problema no braço e
fiquei com uma sequela no braço, tive que... [Atropelado por um carro?] Foi... E aí sim, fiquei um ano, estudei lá, fiz o terceiro ano primário lá. E enquanto fazia um tratamento prolongado de fisioterapia e tal, que eu fiquei com uma paralisia no braço, aí depois do acidente acabei me recuperando. Foi assim... Aí eu senti que tinha saído de Fortaleza mesmo, por que eu estudei, tinha colegas, tinha amigos, tinha o pessoal do prédio e tal, quer dizer, foi uma viagem mesmo.14
A quarta viagem de Rodger, ainda que ele não perceba conscientemente, utilizou um pequeno capital de mobilidade advindo das primeiras viagens em Itapipoca, com o pai pilotando o avião; para o Rio de Janeiro aos 6 anos de idade; para o Maranhão aos 9 anos de idade; e logo em seguida para o Rio de Janeiro. Ainda um pequeno capital de mobilidade em termos de volume, mas certamente uma importante familiaridade com os aspectos da viagem, ao ver e participar com a mãe dos preparativos: arrumar as malas, checar bagagem, comprar passagens, embarcar, se instalar em um novo ambiente, uma nova culinária, conhecer pessoas novas, entre outras atividades. Estamos, assim, identificando um capital de mobilidade no futuro músico viajante.
Outra peculiaridade na trajetória de Rodger são as ocorrências de alguns acontecimentos particularmente graves. Primeiro, uma coqueluche que o proporcionou viagens matinais frequentes de avião, pois se acreditava que as mesmas seriam uma forma de tratamento para a tosse do então garoto filho de Rogério (o aviador) e Dona Monavon (a professora). O segundo acontecimento foi a morte de seu pai em um acidente de avião, que fez com que o projeto de mudança de residência de Fortaleza para São Luiz fosse muito rápido obrigando o filho e a mãe a retornarem à cidade de origem. O terceiro foi o atropelamento em Fortaleza que o garoto Rodger de 9 anos de idade sofreu, obrigando-o a um tratamento fisioterápico no Rio de Janeiro durante um ano. E o quarto foi uma tuberculose
13 Quarta viagem de Rodger.
14 Todos os depoimentos de Rodger Rogério para esta pesquisa foram dados em uma entrevista
realizada no dia 30 de março de 2010. Portanto, não colocaremos a referência em cada fala dele, a fim de não repetir essa informação. As referências aparecerão apenas nas falas de outros agentes.
contraída em São Paulo, em 1973, que fez o artista, em vias de consagração, retornar à Fortaleza para o tratamento da doença.
O segundo acontecimento nos chama atenção pela gravidade envolvida em dois aspectos. O primeiro é toda a preparação que envolve um projeto de vida completamente novo: morar em outro Estado, arrumar as malas para residir definitivamente em outro lugar. Essa preparação que não é apenas objetiva, pois arrumar as malas, nesse caso, é também arrumar toda a bagagem subjetiva, se preparar para se inserir em um novo ambiente, com novas amizades – deixando as antigas amizades na distância física –, novas relações, novas formas de sentir, de perceber, enfim, de viver. O segundo aspecto refere-se ao fato de toda essa energia investida em um sentido, ser violentamente abortada por um trágico evento – o acidente de avião que levou o pai de Rodger a óbito. Ainda hoje a genitora de Rodger, aos 90 anos de idade, narra este acontecimento com muita emoção.
Interessa-nos compreender que esse aspecto é determinante ou determina em grande medida a trajetória desta pessoa que ficou órfã de pai. A morte de seu genitor aos 9 anos de idade em meio à mudança de endereço residencial para outro estado, no caso o Maranhão e, no mesmo ano – já de volta à Fortaleza em decorrência do trágico acontecimento familiar –, Rodger é atropelado e, por esse motivo, muda-se com sua mãe para o Rio de Janeiro. Esses eventos na rota de Rodger estão temporalmente muito próximos: a orfandade e um acidente com o futuro artista. A orfandade obrigando-o a retornar de São Luiz para Fortaleza e o acidente obrigando-o a um tratamento no Rio de Janeiro, isso no período de um ano. Para nos localizarmos na trajetória do agente no que se refere à música é importante registrar que o futuro compositor começou seus aprendizados musicais ouvindo sua mãe cantar e também por influência do rádio. Rodger conta que quando ouviu João Gilberto pela primeira vez, entendeu que queria tocar e cantar igual ao bossa-novista – considerado por muitos como um revolucionário das harmonias que imprimia um novo jeito de tocar samba combinando as progressões harmônicas com divisões rítmicas executadas pela sua mão direita no violão em contraponto rítmico com as divisões melódicas do seu canto. Sobre isso, Miranda (2009, p. 123) diz:
A grande contribuição de João Gilberto foi suprimir o lado dançante do samba, minimalizando sua batida básica, para valorizar o conjunto indissociável voz/violão, obtendo um novo balanço pelo
―desencontro‖ dessa batida (repedida homogeneamente), com sua forma peculiar de dividir o fraseado da canção, com grande plasticidade.
Existia um grupo de amigos no seu bairro que também estava conhecendo a mais nova música do Brasil que encantava então o campo musical mundial: a bossa nova. Um deles, em especial, o Edvardo Moraes de Oliveira – irmão da Téti, com quem Rodger iria se casar anos depois – tinha uma facilidade acima da média dos amigos para reconhecer os mais novos acordes violonísticos. Edvardo, que é mais conhecido pelo seu codinome Vavá, conseguia identificar cada uma das notas do acorde em cada corda do violão, de maneira a montar os acordes exatamente na mesma inversão executada pelos músicos da bossa nova, além de conseguir reproduzir com fidelidade os arpejos da mão direita15. Na companhia dos amigos interessados em música, Rodger começou a se desenvolver chegando a tocar em bailes com outros músicos. Logo, paralelamente aos estudos, o futuro artista alimentava seus interesses musicais.