Para responder a questão proposta; ou seja, “como ocorre a dinâmica do desenvolvimento da CTT em IES públicas brasileiras?”; e alcançar os objetivos desta pesquisa foram adotados estudos qualitativos, numa ótica interpretativista (BURREL; MORGAN, 1979; ORLIKOWSKI; BAROUDI, 1991; HOWCROFT, 1995; KLEIN; MYERS, 1999; POZZEBON, 2004; BERGER; LUCKMANN, 2004; MERRIAM, 2009), de dois casos estendidos de modo histórico e em profundidade com o intuito de reconceituar e prolongar a teoria (BURAWOY et al., 1991; BURAWOY, 2009). Entre os casos, foram selecionados, conforme a classificação de inovação do Ranking Universitário Folha (RUF, 2015), os da USP, primeira colocada, e da UNICAMP, segunda colocada, por serem instituições-referência em termos de proteção por patente e transferência tecnológica no Brasil (SANTANA; PORTO, 2009; LOTUFO, 2009; DIAS, 2011; CLOSS; FERREIRA, 2012; DIAS; PORTO, 2013a; 2014).
A opção por essas grandes universidades, com produção tecnológica de ponta e NIT bem estruturados, deveu-se porque se pressupunha que elas já tivessem desenvolvido plenamente a CTT. Como o foco da pesquisa foi saber como ocorre o desenvolvimento da
referida capacidade, não faria sentido dedicar esforços de pesquisa em outras IES públicas brasileiras de perfil médio, sem NIT estruturados ou pouco atuantes no que se refere à transferência tecnológica.
A abordagem adotada nesta pesquisa foi a do método de caso estendido que envolve quatro atributos: visita ao local, dimensão temporal estendida, extensão do macro para o micro e reconstrução de teorias preexistentes (BURAWOY, 2009). O referido método se caracteriza pelos ciclos de confronto entre os dados e as teorias em cada repetição, permitindo o acesso a dados adicionais e fornecendo novos ou remodelados conceitos e teorias (DANNEELS, 2010).
Conforme Burawoy et al. (1991), o método de caso estendido envolve duas confrontações (ou execuções de troca): a primeira ocorre entre a análise dos dados e a revisão da literatura; a segunda, entre a análise dos dados e a coleta de novos dados. Haveria, assim, uma triangulação circular que seria a interatividade simultânea entre revisão da literatura, análise dos dados e nova coleta de dados; todos em constante renovação, remodelação e revisitação até a saturação (BURAWOY, 2009).
A primeira execução de troca, ou confrontação, envolveu a interação de conceitos e teorias existentes com os dados empíricos; isso ocorrendo em conjunto. A análise dos dados apontou para conceitos relevantes e teorias disponíveis na literatura, enquanto que a teoria forneceu, ao mesmo tempo, diferentes modelos conceituais para auxiliar na interpretação dos dados (BURAWOY, 2009; DANNEELS, 2010). Esse refino teórico, em conjunto com o material empírico, permitiu a avaliação do que se deveu ser mantido, modificado ou substituído (McCRACKEN, 1988; EISENHARDT, 1989).
A segunda execução de troca exigiu um contínuo movimento de “idas e vindas” entre análise e coleta de dados (STRAUSS, 1987). Dito de outro modo, a análise dos dados iniciais demandaram novas informações adicionais que foram coletadas e posteriormente analisadas sucessivamente e de forma cíclica até a saturação. Esse movimento, como se percebe, incluiu a interação com a teoria existente, ou seja, foram dois ciclos “teoria-coleta- análise” interconectados entre si (BURAWOY et al., 1991; BURAWOY, 2009).
Quando se busca saber como se dá determinados fenômenos idiossincráticos e intangíveis, os métodos qualitativos são particularmente apropriados (DEY, 1993; ROUSE; DAELLENBACH, 1999; BETTIS et al., 2015). Conforme Lockett e Thompson (2001), em determinadas pesquisas é necessário sacrificar um pouco a generalidade da investigação quantitativa em busca dos detalhes de um determinado fenômeno, ou seja, para uma maior atenção qualitativa do objeto de estudo. Estudos de amostras qualitativas menores tendem a
ser mais apropriados para compreender a sutileza de processos de criação e de regeneração de recursos e capacidades (AMBROSINI; BOWMAN, 2009).
Pesquisas que adotam estudos de casos qualitativos podem favorecer a obtenção de informações valiosas sobre as capacidades dinâmicas que de outra forma não seria possível (BARRETO, 2010). Esse método, por exemplo, foi adotado em outras pesquisas, o que confirma sua importância para a área (ROSENBLOOM, 2000; GALUNIC; EISENHARDT, 2001; LAMPEL; SHAMSIE, 2003; PABLO et al., 2007; DANNEELS, 2008). Sendo assim, investigações de “granulação fina” favorecem a obtenção de dados ricos e contextualizados (GODFREY; HILL, 1995), bem como contribui para a identificação da ação das capacidades dinâmicas (GRANT; VERONA, 2015).
De modo equivalente, a USP e a UNICAMP foram exemplos de IES públicas brasileiras que, neste caso em particular, desenvolveram a capacidade de transferir suas tecnologias. Em todos os casos, além do destaque internacional em termos de suas pesquisas, elas são proeminentes em nível nacional quando se trata de proteção da propriedade intelectual e da transferência tecnológica (DIAS, 2011; MCTI, 2015).
Quanto aos primórdios do desenvolvimento da CTT, eles puderam ser evidenciados, nas IES públicas brasileiras investigadas, no início do Século XXI: a Agência USP de Inovação, a partir de 2003; e a Agência de Inovação Inova UNICAMP, a partir de 2003. Ou seja, por serem NIT recentes os tomadores de decisão da última década puderam ser localizados e entrevistados. Além da memória e dos documentos que puderam ser acessados com relativa facilidade.
Quanto aos sujeitos desta pesquisa, partiu-se dos integrantes dos NIT que estiveram envolvidos em “contextos” de transferências tecnológicas, que podem ser entendidos como a composição de todos os eventos que direta ou indiretamente influenciaram na assinatura de um contrato de licenciamento, cessão ou incubação tecnológica. Assim, o fator determinante inicial para a seleção dos indivíduos foram os contratos de transferência, esses que fizeram emergir, por meio de indicações, os envolvidos como uma espécie de “bola- de-neve”. Apenas foram escolhidos os sujeitos que tiveram participação direta, como é o caso das tomadas de decisão, a exemplo dos principais inventores e dos servidores da universidade, em especial os que atuaram no NIT (BOEHM; HOGAN, 2014). Dito de outra forma deu-se preferência aos gestores das universidades durante as entrevistas, além dos próprios inventores e outros atores importantes em determinado macro processo de transferência.
Foram considerados como servidores os trabalhadores públicos de carreira, os comissionados, os em cargo de confiança, de direção ou em função gratificada, os bolsistas e
os estagiários. Além disso, puderam ser considerados servidores os lotados em outros setores como, por exemplo, os atuantes em Parques Tecnológicos. Contudo, o NIT foi o setor “âncora” por suas características e funções descritas na legislação nacional.