Institusjonell mistillit – personleg tillit?
6.2.1 Domeneoverskridande venskap: Janne og Cecile
6.2.1.6 Oppsummering og diskusjon om to venskapserklæringar
Os modelos de corte constituídos a partir das proposições quatrocentistas de Federico de Montefeltro tiveram continuidade nesta mesma família, com o posterior mandato de Guidubaldo de Montefeltro e de seu sucessor, Francesco Maria della Rovere, nos primeiros meados do século XVI. Este período, condizente com a elaboração do Da Arquitetura e Perspectiva serliano, comporta a presença de uma figura-chave na consolidação dos lugares próprios ao cortesão: a de Baldassar Castiglione, homem político e literato, que compôs O Cortesão104. Nascido em Casatico-Mântova, em 1478, estudou em Milão na escola humanística di Giorgio Merula e Demetrio Calcondila. Segundo Quondam105, Castiglione serviu a Francesco Gonzaga em 1503, depois à corte de Urbino no período de 1504 a 1513, a serviço dos duques já mencionados, sendo que em 1513 foi enviado como embaixador a
101 BRUSCHI (2003, p. 25).
102 Mantive o termo mencionado pelo autor; entretanto, o uso deste termo é anacrônico em relação à arte
renascentista. A noção de cena perspectiva é pensada aqui na chave do verossímil, regrada pelo gênero, operando por meio da persuasão e não do engano ou da função de iludir.
103 Ibidem, p. 25 “[...] l’illusionismo prospettico doveva essere impiegato come mezzo “architettonico” di
qualificazione e risoluzione spaziale riducendo l’ architettura – cosi come farà Bramante – da fatto físico a rappresentazione di se stessa, a “spettacolo di spazialità.”
104 CASTIGLIONE (2009). 105 QUONDAM (2009, p. VI-LI).
Roma, onde ficou até 1516, período em que esteve bastante próximo de Rafael Sanzio. Esta relação deu margem à ideação e elaboração da conhecida carta a Leone X. Teve sua carreira findada após servir ao Estado eclesiástico, período no qual foi criticado por Clemente VII por não conseguir prevenir diplomaticamente o saque de Roma em 1527. Tal situação foi revertida ao dar sua prova de fidelidade à Igreja na requisitória contra Alonso Valdés, em 1528, data próxima à sua morte, ocorrida um ano depois, em Toledo.
O período em que Castiglione serviu a Francesco Maria, duque de Urbino, coincide com o da elaboração do “Tratado sobre as cenas”106 serliano, que emprega um discurso de elogio ao engenho do (agraciado) arquiteto Girolamo Genga na realização de cena teatral bela em “variedade e copiosidade”, enaltecendo, por conseguinte, a liberalidade do príncipe que a patrocinou. O discurso de emulação segue a regra de composição que emprega o sistema de espelhos, efeito este que reproduz a “marca da instância homologante”. O “jogo de palavras” por meio da sequência dialógica, segundo Quondam107, é uma das características principais do “homogêneo” grupo que se reúne na corte de Urbino para “formar com palavras um perfeito cortesão”108. Por esta afirmação, o discurso que forma tal cortesão perfeito constitui-se a partir de uma “regra universalíssima”: a “elegância” (grazia no sentido de dolcezza), aplicada a diversas situações e comportamentos no falar, no vestir, no mover-se, ao dançar, ao comer:
Fugir quanto mais se pode, como [se fosse] um asperíssimo e perigoso obstáculo, às afetações, e ao dizer talvez uma nova palavra, usar em cada coisa uma determinada desenvoltura109, [discretamente] que oculte a arte e demonstre o que se faz e diz, ser [algo] feito sem fadiga [forma de viver do
gentiluomo] e quase sem pensar.”110
Para Quondam111, a “elegância” (grazia) está na delimitação entre o “ocultar e o aparecer”, ponderada pelo bom juízo, que resulta num conjunto de “simulações e representações”, preceito este que funda e institui a cena cortesã, disposta essencialmente sob relações sociais regradas pelo uso da palavra112 e efetuadas (aqui no sentido de ação corporal)
106 SERLIO ([1619] 1964, livro segundo, p. 48). 107 QUONDAM (2009, p. XI).
108 Ibidem, p. XI “formar con parole un perfetto cortigiano.”
109 O termo original empregado é sprezzatura, aqui traduzido por desenvoltura, consistindo na capacidade de
dissimular com natureza o estudo, a fadiga, fazendo qualquer coisa com perfeição, como se fosse um êxito espontâneo do comportamento (CASTIGLIONE, 2009, livro primeiro, cap. XXVI, p. 60).
110 CASTIGLIONE (2009, livro I, cap. XXVI, p. 59). “[...] fuggir quanto più si pó, e come um asperissimo e
periculoso scoglio, la affettazione e, per dir forse una nova parola, usar in ogni cosa una certa sprezzatura, che nasconda l’arte e dimostri cio che si fa e dice venir fatto senza fatica e quase senza pensarvi.”
111 QUONDAM (2009, p. XIII).
112 Aqui, segundo Quondam, o falar e o escrever estão compreendidos no saber conciliar palavras antigas,
sob o signo de uma teatralidade cabal. Desse modo, cabe ao cortesão usar a discrição ou desenvoltura enquanto prática para dissimular o esforço e a fadiga, ocultando o excesso, resultando em verdadeira arte, de modo que esta não pareça ser arte.
O cortesão de Castiglione fornece, por meio de um discurso dialógico, um repertório terminológico encontrado em toda a disposição do discurso serliano com qualidades de beleza, bondade, prazer, cortesia, dignidade, discrição e desenvoltura, prudência, esplendor, honra, valores igualmente exaltados na figura do cortesão: nobre, discreto, gentil, perfeito, sábio. Segundo Quondam113, a cena, nos moldes da elegância (dolcezza) cortesã propõe uma conjunção cultural que envolve as “armas e as letras”, como uma única identidade. Assim, em todas as atividades: nos torneios, nas danças, nas armas, nos jogos (nas partes próprias das conversationi), prevalece a conveniência enquanto forma de representação de uma mise en scène114 que ocorre em público reservado por igual aos espetáculos, torneios, bailes, musicais e também conversas, ou seja, uma “[...] coação ao teatro: referente ao olho de outro, que vê”.115
Mais prolixo e fatigante seria querer discorrer [sobre] todos os vícios que possam ocorrer no modo de conversar, porém para aquilo que eu desejo no cortesão basta dizer, além das coisas já ditas, que de tal forma, não faltem bons e adequados pensamentos, com aquele com o qual se fala, e [ainda] saiba com uma determinada doçura suscitar os ânimos dos ouvintes; e com muito prazer e facécia discretamente induzi-los à festa e ao riso, de sorte que sem vir à tédio, ou por saciar-se, levem por diante o deleite.116
O bom cortesão deve saber envolver seu público, suscitando principalmente o riso, habilidade esta “teatral”, que em Serlio aparece igualmente exaltada no “Tratado sobre as cenas”.
A comédia, exemplo da vida civil, será considerada como gênero passível de transmitir as virtudes necessárias ao bom cortesão. Significativo a esse respeito, que o gênero de cena cômica introduza o assunto sobre os aparatos, atingindo a captação da benevolência
113 QUONDAM (2009, p. XV).
114 Aqui no sentido de organização da representação, aparatos, lugares, movimentos e ação dos personagens. 115 QUONDAM (2009, p. XVIII). “[...]coazione al teatro: rispetto all’occhio di un altro che vede.”
116 CASTIGLIONE (2009, livro segundo, cap. XLI, p. 182). “Ma troppo lungo e faticoso saria voler discorrer
tutti i vicii che possono occorrere nel modo del conversare; però per quello ch’io desidero nel cortegiano basti dire, oltre alle cose già dette, che’l sia tale, che mai non gli manchin ragionamenti boni e commodati a quelli co’ quali parla, e sappia con una certa dolcezza recrear gli animi degli auditori e con motti piacevoli e facezie discretamente indurgli a festa e riso, di sorte che senza venir mai a fastidio o pur a saziare, continuamente diletti.”
dos ouvintes. Ao mesmo tempo, a descrição minuciosa das cenas encontra-se entre a “simulação e a dissimulação” diante do olho de quem as observa.
Em seu último livro, Castiglione afirma que ao príncipe liberal é indispensável, junto às virtudes, fazer minúcias como: “festas, jogos, convites magníficos, espetáculos públicos, ter número de cavalos excelentes para a guerra e por prazer na paz, [ter ainda] falcões, cães e todas as outras coisas que pertencem ao prazer”117, incluindo-se a estas atividades a realização de magnos edifícios e estradas.
E mais, o diálogo do cortegiano se desenrola inteiramente no interior das salas do palácio ducal (Urbino), lugar fechado que propicia a cena para o modo de viver cortesão. Segundo Quondam118, a cena da corte não pode deixar de convocar em seus personagens a forma de percorrer o próprio espaço, em que cada um dos que servem à corte age constantemente (por meio da representação) em conformidade a esta cena que reproduz as hierarquias e “forma de viver” cortesã. A íntima ligação entre o espaço físico e a “representação” (no sentido de espetáculo) acaba por contaminar e regrar também toda espécie de imagem, seja pictórica, arquitetônica, escultórica, relevos ou cenas teatrais que se encontram dispostos neste ambiente, funcionando como reforço para a verossimilhança das ações (do cortesão).