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Como esta pesquisa tem seu foco no EC, serão descritas aqui apenas as características dos professores de Ciências Naturais/Biologia, cujas aulas foram acompanhadas. São eles: Cássia, Bárbara, Cláudio, Marília, Hélio e Alexandre. Destaque especial será dado para a descrição da professora Marília, com quem foi estabelecida uma sólida parceria após a primeira fase deste estudo e com quem houve maior contato, através de entrevistas e conversas informais.

A professora Cássia, formada em Biologia e Fonoaudiologia, dedicava-se às aulas de Ciências Naturais/Biologia no turno da manhã e à profissão de fonoaudiologia à tarde. Acompanhei apenas duas de suas aulas, ministradas para a turma A, por motivo de incompatibilidade de horários com disciplinas que eu estava cursando na universidade. Além disso, o perfil dos alunos, a maioria adolescentes, não era o desejado para este estudo.

A professora Bárbara, também formada em Biologia, logo no início da pesquisa, afastou-se da escola por problemas de saúde, retomando suas atividades no final de outubro de 2008. Durante o período de seu afastamento, ela foi substituída, na turma C, pela professora Marília. Acompanhei uma aula da professora Marília e quatro aulas da professora Bárbara nessa turma. Bárbara deixou a Escola Educar no primeiro semestre de 2009, não participando mais da pesquisa.

O professor Cláudio, formado em Química, trabalhava em duas escolas. Na Escola Educar ele era o responsável por trabalhar conteúdos de Física e Química no último ano do EF e pela disciplina de Química nas turmas de EM. Nos meses anteriores ao início da pesquisa, ele trabalhou os conteúdos de Física na turma D e, durante o trabalho de campo, quando acompanhei suas aulas nessa turma, ele abordou os conteúdos de Química. Embora o professor Cláudio tenha se

mostrado bastante receptivo à pesquisa, o acompanhamento de suas aulas aconteceu somente na primeira fase deste estudo, uma vez que, na segunda fase, os conteúdos selecionados para serem trabalhados com abordagem histórica e filosófica pertenciam à área de Biologia, não abordada por esse professor em suas aulas.

A professora Marília, também formada em Biologia, é aposentada pela SEE-DF e lecionava apenas na Escola Educar. No noturno, era responsável pelo Ensino de Biologia para todas as turmas do EM e ainda ministrava essa disciplina em turmas do vespertino. Acompanhei algumas aulas da turma B, do vespertino, e, com maior freqüência, aulas da turma E, do noturno.

Marília passava muito de seu tempo no laboratório planejando suas aulas; sempre buscava informações atualizadas em sites de universidades e outros; produzia textos para seus alunos; mantinha um mural com notícias de divulgação científica; realizava projetos em parceria com o professor Cláudio e, muitas vezes, utilizava de seus próprios recursos financeiros para comprar materiais para aulas práticas e para fazer cópias de textos para os alunos. Estava sempre disponível para conversar comigo e discutir os acontecimentos das aulas, mostrando-se muito aberta e pronta para colaborar com a pesquisa.

Em entrevista, ela mostrou conhecer o universo da EJA, em virtude de sua larga experiência com essa modalidade de ensino. Graduou-se em uma instituição privada, no interior do Estado de Minas Gerais e começou a lecionar em 1975. Durante sua formação inicial, não teve disciplinas dedicadas à modalidade de EJA, todavia, relatou ter participado de cursos de formação continuada depois que iniciou sua carreira no magistério. A maioria desses se referia ao Ensino de Biologia, mas não diferenciavam orientações para EJA ou ER. Ela relatou ter participado apenas de um curso específico para a EJA, mas que não contribuiu muito para a sua prática. Marília destacou que informações recebidas durante algumas “Semanas Pedagógicas”, realizadas na Escola Educar, contribuíram muito para sua prática.

A maior parte da carreira de Marília desenvolveu-se no DF, para onde ela se mudou alguns meses após se formar. No DF, ela trabalhou simultaneamente com ER e EJA na rede pública de ensino. Em 2002, dois anos após aposentar-se como professora da rede pública, ingressou na Escola Educar. Ao longo de sua experiência, ela vivenciou diferentes modos de funcionamento da educação para

jovens e adultos. Ela disse que houve uma fase em que eram usados “telecursos”; outra em que os alunos iam à escola apenas para receber orientações e tirar dúvidas, enquanto se preparavam para fazer provas ministradas pela SEE-DF e assim obter certificação; fases de aulas presenciais, com ou sem avaliação no processo e uma fase em que o aluno escolhia entre o curso com aulas presenciais ou o curso preparatório para as provas da SEE-DF, sem necessidade de assistir aulas. Destacou que, mesmo nas fases em que não havia obrigatoriedade presencial, alguns professores se organizavam para oferecer aulas e explicações, visto que os alunos apresentavam muita dificuldade para aprenderem autonomamente. Os cursos eram, em sua maioria, supletivos, ou seja, cada etapa de escolarização era cumprida em menos tempo do que seria necessário para concluí-la no ER. Todavia, participou, por um curto período, de uma organização anual para EJA, semelhantes aos cursos regulares. Marília relatou que havia muita evasão nos cursos para jovens e adultos, principalmente nos cursos preparatórios para as provas da SEE-DF. Esses cursos não faziam avaliações durante o processo de escolarização e ela achava muito difícil trabalhar sob esse sistema. Declarou preferir o sistema de cursos presenciais, com avaliação ao longo do processo de escolarização, como acontece na Escola Educar.

Durante a entrevista com essa professora, e nas diversas conversas informais que tivemos, foi possível perceber sua reflexão sobre os problemas vivenciados em sua prática. Ela, além de ver limitações do sistema de ensino, como a pouca carga horária disponível para trabalhar os conteúdos programados com os alunos, reconhece limitações em sua própria atuação. Por exemplo, ela menciona sua dificuldade em lidar com recursos tecnológicos, embora, ao mesmo tempo demonstre sua vontade de superá-la.

Professora Marília: [Agora eu], aí tem, eu (+) eu preciso:: me corrigir nesta parte porque eu, pra eletrônica, eu tenho muita dificuldade, então eu sinto assim, que eu poderia (+) eu ainda quero adquirir meu, porque eu sou um pouquinho enjoada, eu gosto do meu material, né, meus vídeos, é, DVDs, né, porque eu tenho um pouquinho de dificuldade ainda na eletrônica pra colocar, né, e:: ah! Interessante! Semestre passado, chegou um aluno aí que é doutor na, na info, né, ele, ele até tava querendo me vender o o notebook dele (+) aí ele falou, “professora, vou preparar uma aula aqui para você (+) dar sobre:: (+)” ele falou inclusive de temas da atualidade, assim (+) (EProfM413-420)

De fato, no início de 2009, foram observadas ações implementadas pela professora para superar suas limitações tecnológicas. Ela adquiriu um notebook,

diversos DVDs, e buscava auxílio dos colegas para utilizar esses recursos. Entretanto, no final do mês de março de 2009, após ter se estabelecido uma relação de parceria sólida e afinidade entre nós, e ela ter se mostrado bastante motivada e envolvida com a proposta de incluir a HFC em algumas aulas, Marília sofreu um acidente e teve que se afastar da escola. Isso representou uma grande perda para este estudo, que precisava continuar em função do prazo para sua conclusão. Dois professores se sucederam na substituição da professora até o final do semestre e como não tive oportunidade de ter tantos diálogos e entrevistas longas com esses professores, suas descrições serão breves.

O primeiro a chegar, após uma semana de afastamento da professora Marília, foi o professor Hélio. Ele estava cursando o Mestrado Acadêmico em Educação e desistiu de continuar a ministrar as aulas após uma semana de substituição. Durante esse período, por solicitação do professor, permaneci à frente das aulas da turma F, para que ele pudesse ficar a par do trabalho feito anteriormente.

Em seguida, as aulas foram assumidas pelo professor Alexandre, um jovem professor, graduado em Biologia em uma instituição privada do DF. Antes de iniciar suas aulas na Escola Educar, dedicava-se ao trabalho de pesquisa com morcegos e também trabalhava com divulgação científica. Ele relatou ter tido experiências com a EJA e com o ER, apesar de estar afastado das salas de aula há algum tempo.

Quando lhe apresentei os resultados obtidos na primeira fase deste estudo e a proposta que estava em andamento com a professora Marília, de inclusão de HFC em algumas aulas, especialmente nas de evolução, ele disse que os dados apresentados estavam “abrindo sua mente” e aceitou a proposta de parceria, dizendo que aprenderia muito com a experiência. No entanto, muito atarefado na escola, acabou não participando do planejamento conjunto de todas as aulas, ficando a parte de abordagem histórica e filosófica sob minha responsabilidade. Durante suas aulas, continuei bastante atuante, inclusive o auxiliando na produção de materiais didáticos.

CAPÍTULO 4 – VISÕES PRÉVIAS DOS ALUNOS SOBRE ENSINO DE CIÊNCIAS