O estudo de caso dessa pesquisa utilizou como instrumentos de coleta de dados três questionários semiestruturados, contendo perguntas fechadas e abertas, as transcrições dos áudios gravados durante os encontros do grupo 1 e mensagens postadas nas redes sociais relacionadas ao blog e trocadas entre esta pesquisadora e os alunos produtores do blog.
5.4.1 Questionários semiestruturados
Utilizamos três questionários semiestruturados contendo perguntas fechadas e abertas por se tratar de uma técnica de investigação e produção de material empírico na qual o pesquisador recolhe por escrito informações dos inquiridos através de perguntas também escritas, sobre determinado tema de interesse do pesquisador, adequando-se as necessidades dessa pesquisa. (LAVILLE e DIONNE, 1999). Além disso, permitiu-nos coletar um grande número de informações de vários participantes ao mesmo tempo.
Em um questionário, as perguntas podem ser abertas, fechadas ou mistas. As abertas delegam ao investigado maior liberdade de expressão e comunicação, prezando pelo livre pensamento e liberdade. Já as fechadas dão ao respondente algumas opções para ele escolher. Este tipo de questionário permite atingir maior número de investigados, além de agilizar a obtenção de dados e facilitar a categorização das respostas. Existem ainda os questionários mistos com perguntas fechadas e abertas (AMARO, A. et. al, 2004/2005).
Uma limitação do uso de questionários está relacionada à coleta de dados, que são declarados e não observados, afora a amostragem referir-se a opinião declarada em determinado período. Além disso, podem não corresponder àquilo em que o participante acredita e sim no que ele acredita ser socialmente aceito. No caso dessa pesquisa, o aluno pode tender a responder de acordo com o que ele imagina que seria mais aceito pela professora/pesquisadora, pelos colegas de grupo ou mesmo que seja movido por emoções momentâneas.
Os três questionários foram passados aos alunos das mesmas quatro turmas em períodos distintos. O Q1 foi aplicado na segunda semana de fevereiro de 2012, o Q2 quinze dias depois e o Q3, na última semana de outubro de 2012. O número de respondentes de cada
questionário variou em virtude de terem sido aplicados em datas distintas, podendo ter ocorrido falta de alunos ou mesmo a inclusão de novos alunos.
O Q1 teve por objetivo caracterizar, em relação às NTICE, os grupos 1 e 2. Constou de 15 perguntas de múltipla escolha, sendo que na última foi solicitado aos alunos que declarassem se gostariam de participar da elaboração de um blog educativo e justificassem o motivo da participação ou não. Pretendeu-se também identificar se utilizavam a internet, onde acessavam, com que frequência e propósito. Buscou ainda verificar se utilizavam redes sociais, quais eram elas e se acreditavam que o uso das NTICE auxiliava na aprendizagem.
A partir dos dados coletados foi criado o Q2, constituído de cinco perguntas, sendo a primeira de múltipla escola e as demais abertas. Teve como foco investigativo compreender a concepção dos alunos em relação ao ensino/aprendizagem de Biologia. Os dados coletados inicialmente serviram de subsídios para a elaboração do blog como para posterior análise de conteúdo.
De posse dos dados coletados nos questionários 1 e 2 e das transcrições das discussões ocorridas com o grupo 1, elaboramos o Q3. Este possuía 11 questões semiestruturadas e buscou responder às questões relacionadas às concepções que os alunos tinham sobre o uso do
blog de Biologia criado pelo grupo 1 e de outras redes sociais usadas como recurso
pedagógico.
Os resultados dos questionários não serão apresentados seguindo a sequência cronológica. Faremos a análise e discussão dos dados coletados de acordo com as categorias descritas. Os questionários podem ser vistos nos apêndices C, D e E.
5.4.2 Grupo focal
Conhecer e explorar o universo das redes sociais como ferramenta pedagógica se apresenta como um evento que merece ser investigada em toda sua plenitude, a fim de buscar propostas que colaborem para o ensino-aprendizagem.
Cruz (2009, p.128) aponta como vantagem do estudo de caso justamente o aprofundamento que pode ser dado aos estudos que envolvem um processo social, seja total ou parcial, bem como a simplicidade do processo em si e o potencial estimulador de descobertas dessa técnica. O autor ressalva, porém, que esta abordagem não permite ao
pesquisador fazer generalizações com os dados obtidos, pois trata-se de um grupo que representa uma determinada população. Além disso, exige do pesquisador uma grande habilidade de condução e delineamento investigativo.
Carlini-Cotrim (1996) ressalta que o grupo focal é uma técnica qualitativa de entrevista coletiva. Porém, adverte que esta não deve ser entendida no sentido de entrevistador/ entrevistado e sim como instrumento de coleta de dados gerados da interação entre os participantes, na qual existe um moderador das discussões a quem cabe a função de mediar as discussões, promovê-las, garantindo o envolvimento de todos os participantes e a possibilidade de todos testemunharem, não privilegiando nenhum dos envolvidos. No caso da nossa pesquisa, a professora/pesquisadora foi o mediador, sendo que em muitos momentos os próprios alunos assumiram esse papel, estabelecendo contrapontos, indagando e sugerindo novas discussões.
De acordo com De Antoni (2001, p.41), a discussão realizada em um grupo focal “promove insight, isto é, os participantes se dão conta das crenças e atitudes que estão presentes em seus comportamentos e nos dos outros, do que pensam e aprenderam com as situações da vida, através da troca de experiências e opiniões entre os participantes.” Dessa forma o pesquisador tem condições de explorar e avaliar as dimensões subjetivas do coletivo e como esses valores interferem nas escolhas feitas.
Sobre a aplicação dessa técnica, algumas considerações devem ser feitas, como:
- Número de participantes: não pode ser nem muito pequeno (inferior a 4), nem muito grande (acima de 12). (BARBOSA, 1999; GONDIN, 2003 e BONI, 2005).
- Local dos encontros: ser de fácil acesso, neutro, silencioso e com recursos para desenvolver as atividades. (SIMÃO, 2006, BARBOSA, 1999 e CARLIM-COTRIM, 1996).
- Homogeneidade da amostra: não privilegiando determinado grupo, como, por exemplo, um grupo apenas de meninas, a não ser que se esclareça os motivos dessa seleção.
Diante das vantagens apresentadas e considerando suas limitações, as técnicas exploratórias de grupo focal demonstraram ser adequadas a este estudo de caso que foi realizado com o grupo 1, produtor do blog de Biologia. Esse grupo foi constituído por 8 alunos voluntários do 2º ano do Ensino Médio, pertencentes a turmas diferentes, incluindo alunos de turmas para as quais a pesquisadora não lecionava.
Realizamos, a partir de março de 2011, 12 encontros, marcados semanalmente no laboratório de informática do CMB, exceto em períodos de avaliações. Esses encontros
acompanharam o grupo do planejamento do blog até a sua divulgação. Depois desse período e de acordo com o interesse dos alunos envolvidos, os encontros passaram a ser realizados quinzenalmente a fim de manter o blog atualizado até o final do ano letivo.
Com relação à sequência das atividades desenvolvidas em um grupo focal, Boni (2005) orienta que o mediador deve realizar as seguintes etapas: apresentação de todos os envolvidos, dos objetivos da pesquisa e em seguida a entrevista coletiva guiada por roteiro semiestruturado. Devido às adaptações necessárias à condução dos encontros do grupo produtor do blog, esses roteiros foram utilizados apenas em 5 encontros. Percebemos que os alunos estavam ansiosos requerendo uma maior dinamicidade na sua atividade, ou seja, elaborarem o blog ao invés de ficarem discutindo sobre o tema. Considerando que essa pesquisa incluiu uma abordagem qualitativa, devemos admitir que
existem diferentes métodos para realizar pesquisas dessa natureza e sua escolha vai variar em função do que vai ser estudado, da realidade que se busca compreender, entre outros fatores que determinam essa escolha. Essa possibilidade de mudança no decorrer do processo, ou seja, no momento em que o pesquisador já está envolvido com a pesquisa, é fundamental, pois pode trazer inovações a partir da adequação que pode ser necessária quando se está vivenciando uma determinada prática em um dado contexto social. (JARDIM e PEREIRA, 2009, p.2).
Nesse sentido e no intuito de atender à necessidade de proporcionar um clima de maior interação entre os participantes do grupo 1 e garantir que a coleta de dados ocorresse de forma criteriosa, optamos por conduzir as indagações durante os encontros tendo como foco os objetivos desta pesquisa à luz das temáticas anteriormente estabelecidas. São elas: “NTICE”, “o Ensino de Biologia”, “motivação e protagonismo juvenil”, “interação” e “letramento científico”.
Os encontros intercalaram momentos de discussão calcados em roteiros semiestruturados e momentos de produção do blog nos quais as discussões surgiam e eram conduzidas a partir das situações que se apresentavam, não se pautando em um roteiro previamente definido.
Gomes (2005) destaca que o grupo focal é concebido de forma diferenciada entre as áreas de conhecimento, sendo utilizado nas pesquisas de marketing, publicidade, saúde, planejamento e gestão de forma mais estruturada e metódica, enquanto nas áreas das ciências sociais e na educação privilegia mais a interação sendo, portanto, mais flexível. Ainda por se tratar de uma técnica qualitativa, foi se modelando à medida que surgiram novas informações
e de acordo com as necessidades do pesquisador e da própria pesquisa em si. Dessa forma a técnica se adequou ao objeto e aos objetivos da pesquisa, considerando o grupo e os fatores de ordem prática.
Para melhor compreensão dos discursos produzidos, todos os encontros foram gravados com a autorização prévia dos alunos, sendo posteriormente transcritos e analisados de acordo com a análise de conteúdo de Bardin (1977) sobre as categorias já mencionadas.
Atendendo as potencialidades apresentadas e reconhecendo as limitações impostas pela técnica, acreditamos que esta metodologia foi adequada a nossa investigação, pois nos permitiu melhor explorar nuances dos temas que poderiam não ser reveladas utilizando questionários. Como observado por Gomes (2005), essa metodologia de coleta de dados fomenta a participação reflexiva dos envolvidos, proporcionando informações detalhadas e em pouco tempo.