Lancemos luz, então, nesse primeiro momento, sobre o lugar de produção. Consideramos esse lugar como uma instância da arquitetura do produto midiático, realizando, com uma licença metafórica, a comparação com a construção de uma casa. Uma empresa de arquitetura e engenharia se assemelha ao lugar de produção. Os arquitetos envolvidos elaboram a planta pensando estrategicamente de acordo com as necessidades dos futuros moradores e/ou do mercado imobiliário local. Como será a divisão dos cômodos, o estilo da casa, o cronograma para construção, o orçamento da obra e toda sorte de detalhes que o planejamento da construção demande.
Dessa forma, a instância da arquitetura do produto midiático é configurada pelas empresas de mídia, os veículos de comunicação. Essa instância interfere no produto midiático assim como o escritório de arquitetura interfere na atividade diária dos pedreiros e, logo, no produto final e na relação do futuro morador com a nova casa. Assim, por interferir na tecitura das matérias jornalísticas, dedicamos esse espaço reflexivo nesta tese.
Charaudeau (2013) justifica a importância da análise dos discursos midiáticos não apenas a partir dos interesses de uma máquina econômica, que visa tornar o produto mais competitivo em um mercado empresarial. Para Charaudeau (2013, p.17), a análise dos discursos midiáticos compreende o estudo do universo simbólico, como detalha na citação abaixo:
[...] por que analisar o discurso midiático, se as mídias parecem viver uma lógica comercial onde só haveria lugar para estudos econômicos, tecnológicos ou de marketing? Seria para torná-las mais performáticas e mais rentáveis nos mercados mundiais? É claro que a resposta é negativa para quem acredita que, para além da economia e da tecnologia, há o simbólico, essa máquina de fazer viver as comunidades sociais, que manifesta a maneira como os indivíduos, seres coletivos, regulam o sentido social ao construir sistemas de valores.
Os questionamentos levantados no trecho acima podem ser melhor investigados ao observamos atentamente o lugar de produção. A instância da arquitetura do produto midiático apresenta um duplo papel, o de fornecedor de informação e de propulsor do desejo de consumir as informações. Sobre o fornecimento de informação podemos relacionar com alguns princípios. Segundo o Código de Ética da Radiodifusão Brasileira9, de 1993, Art.1º – “Destina-se a radiodifusão ao entretenimento e à informação do público em geral, assim como à prestação de serviços culturais e educacionais”.
Acrescentamos também alguns princípios presentes no Código Internacional de Ética dos Jornalistas10, de 1983:
The foremost task of the journalist is to serve the people's right to true and authentic information through an honest dedication to objective reality whereby facts are reported conscientiously in their proper context, pointing out their essential connections and without causing distortions, with due deployment of the creative capacity of the journalist[...]
O trecho acima consagra o direito da população à informação e à responsabilidade ética dos jornalistas e, também, das empresas de mídia. Além disso, o
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FENAJ. Código de ética da radiodifusão brasileira. Disponível em:
<http://fenaj.org.br%2Farquivos%2Fcodigo_de_etica_da_radiodifusao_brasileira.doc&ei=FekBVJytEK_ nsAT6qYKADg&usg=AFQjCNHCoUhDGCtgwgAs7DX7GdWJQEDXIQ&bvm=bv.74115972,d.cWc>. Acesso em: 20 julh.2014.
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FENAJ. Código internacional de ética dos jornalistas. Disponível em:
<http://www.fenaj.org.br%2Farquivos%2Fcodigo_de_etica_internacional_dos_jornalistas.doc&ei=S- oBVNHHI6XIsATXuILoBg&usg=AFQjCNFONezivMA4GVzoksch5bOfn19Y6A&bvm=bv.74115972, d.cWc> . Acesso em: 21 julh.2014.
Nos trechos citados, tradução nossa, encontramos: “A principal tarefa do jornalista é servir o direito das
pessoas à informação verdadeira e autêntica através de uma dedicação honesta para realidade objetiva em que fatos são relatados conscientemente em seu próprio contexto, apontando suas conexões
essenciais e sem causar distorções, com a devida implantação da capacidade criativa do jornalista [...]”
e “Informação, no jornalismo, é compreendida como bem social e não como uma mercadoria, o que
significa a responsabilidade dos jornalistas para com a informação que é transmitida e, além disso, uma responsabilidade para com os que controlam os meios de comunicação e, em última análise, para com o público em geral, incluindo vários interesses sociais [...]”.
trecho abaixo identifica o trabalho do jornalista, o produto midiático como um bem social, não como uma mercadoria.
Information in journalism is understood as social good and not as a commodity, which means that the journalists shares responsability for the information transmitted and is thus accountable not only to those controlling the media but ultimately to the public at large, including various social interests[...]
Tanto o Código de Ética da Radiodifusão Brasileira, como o Código Internacional de Ética dos Jornalistas apontam que um dos papéis da instância de arquitetura do produto midiático é fornecer informação de interesse público, seguindo princípios éticos que norteiam as empresas e os profissionais envolvidos.
Ao mesmo tempo, o papel de gerar o desejo de consumir essas informações pode ser investigado a partir de uma lógica econômica. Tal lógica pode apresentar a produção de discursos com intencionalidade orientada para fins econômicos. Por fins econômicos entendemos o intuito de conquistar cada vez mais um público consumidor, de leitores, ouvintes, telespectadores, internautas, entre outros. Para conquistar uma audiência cada vez maior a empresa de mídia precisa conhecer os comportamentos e as opiniões do público.
A produção das matérias jornalísticas, obedecendo a essa lógica, ocorre numa organização hierarquizada do modo de trabalho. Tal organização envolve os mais diferentes atores da empresa, da contratação de um novo colaborador até a escolha daquilo que será veiculado. Bourdieu (1997) ressalta a presença da intencionalidade econômica nos discursos midiáticos. Especificamente sobre a televisão, mas que a nosso ver pode ser replicada para qualquer meio de comunicação, o autor entende que a programação, ou a escolha do conteúdo veiculado, passa por uma pressão econômica.
Bourdieu afirma que essa pressão pode ser oriunda tanto dos receptores, que expressam o que querem ver, como por outros atores como o proprietário da emissora, anunciantes e, até mesmo, o Estado, provocando tanto uma intencionalidade política, como uma intencionalidade econômica.
Assim, um dos efeitos pretendidos com a veiculação dos produtos midiáticos é a conquista de um grande público. Para Charaudeau (2013, p.60), “os acontecimentos que surgem no espaço público não podem ser reportados de maneira exclusivamente factual [...]. Sendo assim, as mídias recorrem a vários tipos de discursos para atingir seus objetivos”.
Tais considerações de Charaudeau e Bourdieu são pertinentes, mas podem limitar a análise do discurso a uma visão simplista, na qual toda matéria midiática tem como premissa básica só a intencionalidade econômica ou, como disse Bourdieu (1997, p.20), uma “censura econômica”. A intencionalidade econômica existe, mas é apenas um dos aspectos da produção das matérias jornalísticas. A produção midiática que respeita o interesse público e o bem social também é uma realidade.