No Brasil as análises da atmosfera urbana tiveram destaque no início da década de 1970. Mas foi durante a década de 1990 que tais estudos se distribuíram em todo o território nacional.
O título de pioneiro desse campo de estudo é dado ao pesquisador Monteiro (1976), que se destacou tanto no Brasil como fora dele com sua proposta teórico-metodológica do Sistema Clima Urbano (S. C. U.), para análise dos climas das cidades. O S. C. U. permite ao pesquisador fazer uma análise científica por meio do método indutivo e/ou dedutivo, com dinamismo dentro de uma abordagem adaptativa e sistêmica, podendo assim, desenvolver um sistema de análise de acordo com a necessidade do objeto estudado. Ele se baseia em três canais de percepção humana, são eles:
Conforto térmico (subsistema termodinâmico) – Englobando as componentes termodinâmicas que, em suas relações, se expressam através do calor, ventilação e umidade nos referenciais básicos a esta noção. É um filtro perceptivo bastante significativo, pois afeta a todos permanentemente. Constitui, seja na climatologia médica, seja na
tecnologia habitacional, assunto de investigação de importância crescente.
Qualidade do ar (subsistema físico-químico) – A poluição é um dos males do século, e talvez aquele que, por seus efeitos mais dramáticos, atraia mais a atenção. Associada às outras formas de poluição (água, solo, etc.), a do ar é uma das mais decisivas na qualidade ambiente urbana.
Meteoros do impacto (subsistema hidrometeórico) – Aqui estão agrupadas todas aquelas formas meteóricas, hídricas (chuva, neve, nevoeiro), mecânicos (tornados) e elétricos (tempestades), que assumindo, eventualmente, manifestações de intensidade são capazes de causar impacto na vida da cidade, pertubando-a ou desorganizando-lhe a circulação e os serviços. (MONTEIRO, 2003, p. 24).
No quadro 1 são apresentados os fatores de influência na formação do clima urbano.
Quadro 1 – Fatores que influenciam na formação do clima urbano Fonte: Adaptado de Fernández García (1995, p. 254)
O clima urbano se forma por meio dos diferentes impactos que a urbanização realiza nos elementos climáticos da atmosfera próxima. Assim, entende- se que a urbanização e seus impactos caracterizam o clima urbano, pois com o desenvolvimento e expansão do meio urbano, o meio natural é alterado com desmatamento, impermeabilização do solo, modificações no relevo, interferência na circulação do ar, canalização dos rios, lançamento de poluentes na atmosfera, aumento das precipitações e queda da umidade relativa do ar. Dentre tantas modificações o citadino acaba por sofrer com o desconforto térmico, má qualidade do ar e inundações.
O clima urbano se configura a partir da superfície urbanizada, onde as suas características se apresentam diferentes das demais coberturas terrestres. Apesar de se delimitar a uma área específica, ele recebe influência dos sistemas atmosféricos regionais em que se insere. Desta forma, o clima urbano é resultado de um espaço urbanizado mais as características dos sistemas regionais em que ele se encontra. Pode ser subdividido em mesoclima (cidade grande, bairro ou subúrbio de metrópole), topoclima (pequena cidade, fácies de bairro/subúrbio de cidade) e microclima (grande edificação e habitação), resultantes das diferentes características do sítio urbano (MONTEIRO, 1976).
O t a alho de Lo a do , Ilhas de Calo as et poles: o e e plo de S o Paulo , teve destaque no campo da climatologia urbana brasileira. Nesse trabalho, a autora comprovou a relação do uso e ocupação do solo com as variações de temperatura no interior da cidade. Lombardo utilizou imagens de satélites do Landsat e trabalhos de campo para caracterizar o uso e ocupação do solo de São Paulo. Assim, constatou que as ilhas de calor se configuram em áreas densamente construídas, com ausência de vegetação, destacando-se no centro e nas zonas i dust iais. E eas o o pos d gua e o egetaç o o fenômeno não é tão recorrente. A autora encontrou ilha de calor com intensidade de até 11,5°C na metrópole estudada e destacou que a substituição da cobertura de solo original por materiais construídos faz com que a energia fique mais disponível para o aquecimento urbano.
Mendonça (1994) estudou o clima urbano de Londrina (PR). As coletas de dados para a pesquisa ocorreram durante o verão e o inverno. O autor encontrou uma
ilha de calor de 10°C de intensidade. Mendonça apresentou uma proposta metodológica para se estudar o clima urbano de cidades de médio e pequeno porte de forma a melhorar o planejamento urbano.
Pitton (1997) analisou as cidades de Araras, Cordeirópolis, Rio Claro e Santa Gertrudes, analisando o campo térmico das mesmas a partir das proposições de Monteiro (1976), e considerou a cidade um sistema singular. As áreas menos a ue idas fo a as p i as aos o pos d gua e eas o egetaç o. Os a ie tes mais aquecidos foram áreas densamente edificadas.
Amorim (2000) investigou o clima urbano de Presidente Prudente (SP), cidade que tem aproximadamente 200.000 habitantes, sendo classificada como de médio porte. A pesquisa foi desenvolvida a partir de dois eixos, que são: análise temporal, através de dados coletados em estação meteorológica e análise espacial, a partir de pesquisa de campo intraurbana e área rural circunvizinha, para explicitar como os diferentes condicionantes geoecológicos e urbanos respondem à atuação dos sistemas atmosféricos. A partir de dados coletados (janeiro – verão e julho – inverno), acerca da temperatura e umidade relativa do ar, a autora concluiu que a cidade estudada possui diferenças intraurbana e rural que apontaram a existência de um clima urbano específico, decorrente da combinação do tipo de uso e ocupação de solo, presença de vegetação, altitude e exposição de vertentes.
Sa t A a Neto o ga izou a olet ea Os li as das idades asilei as , e ap ese tou estudos das segui tes idades: S o Luís MA , A a aju SE , Campo Grande (MS), Petrópolis (RJ), Sorocaba (SP), Penápolis (SP) e Presidente Prudente (SP).
Amorim (2005) analisou a intensidade e a forma da ilha de calor em Presidente Prudente (SP), a partir da coleta de dados de temperatura por meio de dois transectos móveis. O trabalho de campo ocorreu no mês de julho de 2002 entre às 20h e 20h45. Nesse trabalho, foram identificadas ilhas de calor com intensidade de até 9,6°C.
Cruz (2009) pesquisou o clima urbano da cidade de Ponta Grossa (PR), por meio de trabalho de campo, coleta via pontos fixos e transectos móveis, tratamentos estatísticos e geoprocessamento. Através do material cartográfico produzido o autor concluiu que a cidade, como outras áreas urbanas, tem seu clima urbano condicionado
às construções, pelo trânsito, pela ausência ou presença de vegetação arbórea, pela altitude e exposição de vertentes, como também pelos sistemas atmosféricos atuantes.
Fialho (2009) investigou a hipótese da configuração de um clima urbano em Viçosa (MG), cidade de pequeno porte localizada na Zona da Mata Mineira. Para tanto, o autor analisou uma série histórica da estação climatológica de Viçosa entre 1968 e 2006, também realizou transectos móveis com termo-higrômetros em diferentes estações do ano. Assim identificou ilhas de calor, em especial, no período noturno.
Souza (2010) analisou a cidade de Presidente Epitácio (SP), com o objetivo de detectar possíveis alterações no clima urbano, devido à formação de um lago artificial próximo da área de estudo. O autor realizou mensurações de temperatura e umidade relativa do ar em diferentes escalas (temporal e espacial), e concluiu que a presença do lago não contribuiu para o aumento dos elementos analisados, mas funciona como um regulador térmico e higrométrico.
Amorim (2010) relatou alguns resultados obtidos no projeto temático Di i as So ioa ie tais, Dese ol i e to Lo al e Suste ta ilidade a Raia Di is ia S o Paulo, Pa a , Mato G osso do Sul , ue te e o o p oposta a a lise integrada da paisagem. Dentre os objetivos do projeto mais amplo, foram realizados estudos de clima em cidades localizadas na raia divisória. Os resultados desse estudo apontaram ilhas de calor, tanto na cidade de Presidente Prudente, de médio porte, como nas de pequeno porte (Teodoro Sampaio, Euclides da Cunha Paulista e Rosana). As ilhas de calor se formaram devido os traçados urbanos, diferenças na rugosidade e utilização do solo, que favoreceram o armazenamento do calor e o consequente aumento da temperatura.
Ugeda Júnior (2012) comprovou a hipótese de que a cidade de Jales (SP) apresentava um clima urbano específico, através de diferenças térmicas e higrométricas significativas entre a área urbana e rural. Por meio de trabalhos de campo com mensuração de dados via transectos móveis, pontos fixos e imagens de satélite no canal termal, o pesquisador encontrou diferença maior que 10°C.