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Oppsummering, konklusjon og egne synspunkter

3. Avslutning

3.3. Oppsummering, konklusjon og egne synspunkter

As pesquisas sobre cultura no Brasil também se iniciaram a partir de uma perspectiva instrumental. A classificação de Smircich (1983) não é muito adequada para classificá-las, pois, como vários já perceberam, há muitos trabalhos que caem no meio das divisões entre cultura como variável e cultura como metáfora (MARTIN, 1992, ALVESSON, 1995), como seria o caso de Schein (2004). Levantamento realizado por

Rodrigues e Carrieri (2000), durante a década de 1990, aponta que Gareth Morgan e Edgar Schein eram os dois autores mais citados nos trabalhos sobre cultura publicados no Enanpad.36 Gareth Morgan chamando a atenção para a importância das metáforas na análise organizacional e Edgar Schein reforçando o papel dos líderes e fundadores, em uma perspectiva funcionalista, ainda que baseada em conceitos oriundos da antropologia, como ritos, mitos e histórias. Ao longo da década, aumentou a influência de Geert Hofstede nos estudos sobre cultura no Brasil (RODRIGUES E CARRIERI, 2000).

O trabalho de Fleury e Fischer (1996), relacionando cultura e poder, é influenciado diretamente por Edgar Schein e trata a cultura claramente como uma variável da gestão, embora busque incorporar a questão do poder na análise da cultura. Rodrigues (1991), em uma perspectiva mais interpretacionista, focou mais os indivíduos e grupos, chamando a atenção para a diversidade nas organizações. Fleury (1993) apresenta um artigo com o título “Cultura da qualidade e mudança organizacional”, instando as empresas brasileiras a tornarem-se mais qualificadas, adotando novos padrões culturais. Denison (1996) demonstrou como, no Brasil, as pesquisas de Geert Hofstede sobre a cultura nacional foram aceitas sem grandes questionamentos, o que é também retomado por Carrieri (2001).

O livro de Motta e Caldas (1997) é tomado como uma primeira tentativa de se fazer, do ponto de vista brasileiro, uma relação entre cultura organizacional e cultura nacional. No entanto, os autores não questionam a “cultura como variável” em si, na

vertente que estava mais em voga, a da cultura como “gestão comparativa”. O livro é

mais voltado para criticar determinados pontos dentro dessa perspectiva. Embora eu não concorde com a visão de “gestão comparativa”, é importante dar destaque para esse tópico, pois ele aparece com frequência na fala dos entrevistados ao se referirem à

“Cultura Usiminas”. Além disso, embora os autores brasileiros já tenham ultrapassado a

discussão sobre a cultura comparativa, que surgiu no bojo da discussão sobre o “sucesso

japonês”, este é, também, um conceito que vingou no mundo empresarial e que tem sido

retomado, no conjunto das discussões sobre os reflexos mais atuais da globalização, como a expatriação (PAULA, 2005; PAULA, STAUB, 2005).

36 EnANPAD - Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração

(ANPAD) que se realiza anualmente, no mês de setembro, e é hoje o maior evento da comunidade científica e acadêmica de administração no Brasil (ANPAD, 2011).

Alcadipani e Crubelatte (2003) fizeram críticas contundentes ao estudo da cultura no Brasil, avançando nas discussões sobre se os pesquisadores brasileiros

constituiriam ou não uma “comunidade de discurso” (FISCHER e MACALLISTER,

2001; CARRIERI, 2001). Embora o título do artigo se refira a dois problemas:

“generalizações improváveis e conceituações imprecisas”, Alcadipani e Crubellate

(2003) fazem três críticas aos estudos de cultura organizacional. Primeiro, à utilização do referencial de Hofstede (1980) sem o menor questionamento – o que não estaria de acordo com uma visão pós-moderna de análise de cultura. Concordo, mas não vejo uma relação direta entre esses dois fatores. Considero o trabalho de Hofstede (1980) questionável por si mesmo, por tratar uma cultura nacional como uma totalidade, independentemente de não se alinhar, como de fato não se alinha, a uma perspectiva pós-moderna. E, ainda, Martin (1992), Alvesson e Berg (1992) e Alvesson (1995), citados como representantes do grupo de pós-modernistas pelos autores não se assumem necessariamente (ou o tempo todo37) como pós-modernos. Martin (1992), especificamente, não aborda uma perspectiva pós-moderna nesse livro e Alvesson (1995) é extremamente crítico em relação a essa perspectiva. Ou seja, ao criticar um balaio de gatos, é preciso tomar cuidado para não montar outro.

A segunda crítica de Alcadipani e Crubellate (2003) diz respeito à utilização pelos pesquisadores de cultura no Brasil de um conjunto de antropólogos brasileiros, que não necessariamente estão de acordo entre si, para construir um conceito reducionista e fechado de cultura brasileira. E, terceiro, o juízo de valor que foi feito naquela época, por vários autores, sobre a cultura brasileira, naquela época pelo menos considerada pior, pouco moderna, subdesenvolvida, e não adequada para o novo cenário de globalização. Caldas (1997) aponta, por exemplo, para uma espécie de subserviência cultural do brasileiro, que tenderia a valorizar tudo o que fosse estrangeiro, o que explicaria o sucesso das tecnologias de gestão importadas.

Embora Alcadipani e Crubellate (2003) façam uma crítica a vários dos autores do livro organizado por Motta e Caldas (1997), o professor Prestes Motta (Motta, 1997) é, ele próprio, poupado. O que é compreensível, diante da importância do autor no desenvolvimento da área de administração do País e sua própria tradição crítica. Alcadipani e Crubellate (2003) se resumem a comentar que Motta (1997)

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Retomando, Martin (1992) comenta o hábito de vários pesquisadores cruzarem as fronteiras entre as várias perspectivas, com alguma frequência.

[...] analisa os autores que tratam de culturas nacionais e os autores clássicos sobre a formação da cultura brasileira – Gilberto Freire, Roberto DaMatta, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro –, bem como psicanalistas (Calligaris, 1993) que desenvolveram investigações sobre o Brasil, e conclui que nosso país é uma terra de contrastes e que nossa cultura é marcada por heterogeneidade e complexidade, caracterizando-se como multifacetada (ALCADIPANI E CRUBELLATE, 2003, p. 68). Com efeito, a segunda parte do artigo de Motta (1997) é voltada para essa tentativa de compreender a cultura brasileira e essa é a sua conclusão, mas, na sua primeira metade, o autor basicamente relaciona os resultados de Hofstede (1980) sem questioná-los. Motta (1997), nesse artigo, diz, por exemplo, que “[...] o Brasil é, para Hofstede, mais coletivista que o Japão, país geralmente tido como coletividade por excelência; da mesma forma, nosso país é caracterizado por uma distância de poder

muito grande” (MOTTA, 1997, p. 30) (Grifo meu).

Ao retomar o trabalho de Hofstede (1980), sem criticá-lo, Motta (1997) pode ter contribuído para reforçar as percepções naturalizadas desse autor, tanto em relação à cultura brasileira quanto à cultura japonesa – o que é importante na discussão que farei

sobre a “Cultura Usiminas” – na comunidade científica da administração no Brasil. Penso que um livro organizado por Motta (1997), como “Cultura organizacional e

cultura brasileira”, mesmo tendo sido em parte criticado pelo viés da “cultura como

variável”, possa ter sido considerado como um norte seguro, no que dizia respeito tanto

às conclusões de Geert Hofstede, quanto à cultura brasileira, mesmo na perspectiva mais crítica. Considerando a importância desse autor na Administração no Brasil, o que me pergunto é: se nem Motta (1997) criticou Hofstede (1980) e se, ao longo do livro organizado por ele, não se questionava, substantivamente, a cultura como variável, na perspectiva da Cultura Comparativa, quem haveria de?

Esta é uma suposição minha – friso – e não uma afirmativa. E, se a faço, com o devido respeito à Prestes Motta, e especificamente com relação ao livro organizado por ele e Miguel Caldas e a introdução feita por ele, é apenas para chamar a atenção de que, a partir daí, muitas das críticas feitas aos estudos de cultura se deram em um mesmo terreno (acho que não cabe falar aqui em paradigma).

Ou seja, criticou-se a “cultura como variável” e a “gestão comparativa”, sempre em referência ao Japão, não em seu cerne, mas do ponto de vista ideológico e metodológico. Exemplifico com algumas críticas:

 o Brasil não deveria importar modismos de outros países, pois isso seria

 quando a organização brasileira importa tecnologias de gestão, tendências e inovações, muitas vezes o faz de forma mal feita, ou “para inglês ver” (CALDAS, 1997);

 a introdução de novas técnicas deveria ser feita a partir de um

conhecimento mais profundo da realidade brasileira, para evitar resistências e problemas de adaptação (FREITAS, 1997);

 para garantir sucesso na implantação de novas técnicas de gestão,

trazidas de outros países, era preciso mudar a cultura nacional, antes de mudar a cultura organizacional, porque a nossa não estava adequada (BARROS, PRATES, 1997);

 os esforços para mudar a cultura e introduzir novas técnicas de gestão

eram mais uma forma de manipulação do trabalhador (AKTOUF 1993, 1995, 1996).

E, por fim, uma proposta: a se mudar a cultura, que fosse para o bem, isto é a favor dos trabalhadores, incorporando práticas de gestão participativas, mais humanas etc (CHANLAT, 1996). Essa é a visão de Aktouf (1993, 1995, 1996), outro autor muito utilizado no Brasil por aqueles que partem de uma perspectiva crítica. Critica a manipulação porque nela acredita, e seus questionamentos são voltados para a busca de um polo oposto. Não seria possível usar a cultura para o “bem comum”, ele pergunta. Nesse sentido, Aktouf (1993, 1995, 1996) dá exemplos de empresas que ele considera bem-sucedidas, canadenses e brasileiras, que modificaram sua cultura para torná-la mais humana, participativa, enfim, melhor.

Bom, não é difícil concluir que, quando alguém faz uma crítica a como algo está sendo feito ou aponta os verdadeiros interesses por trás de alguma coisa, é porque se parte do princípio de que essa coisa pode ser efetivamente feita. Assim, quem critica a cultura como variável, na perspectiva da cultura comparativa, está também reificando a cultura e concordando que ela é passível de ser tratada como variável, embora não necessariamente concorde que isso deva ser feito.

Em resumo, pouco se criticou a própria noção de cultura como variável em si, mas a (má) intenção dos gestores a utilizarem a cultura como variável. Considero que tanto os que aceitam a cultura como variável, quanto os que criticam por considerarem espúria essa manipulação podem ser colocados no mesmo grupo – o grupo dos que

consideram possível. São autores que têm posições epistemológicas diferentes e até antagônicas. Enquanto Barros e Prates (1997) representam a vertente funcionalista, Aktouf (1995, 1996) se posiciona como um estruturalista radical, só para ficar em dois extremos. Mas o agrupamento foi proposital, para mostrar que, mesmo os críticos, pelo menos com parte de sua produção, contribuíram com suas críticas para reforçar a noção de que a cultura é manipulável, bem ou mal, para o bem ou para o mal.

De qualquer forma, o livro de Motta e Caldas (1997) colocou a questão da cultura nacional na agenda da discussão sobre cultura. E esse é o ponto mais diretamente relacionado com esta tese. Novamente, buscou-se aporte na antropologia. Desta vez, em antropólogos brasileiros, que tivessem se ocupado do estudo da cultura nacional. A partir daí, com muitas generalizações, como apontam Alcadipani e Crubellate (2003), começa-se a discutir, nos Estudos Organizacionais, a cultura brasileira, a partir de retratos traçados por antropólogos de diversas correntes.

Gilberto Freire, Roberto DaMatta, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro, mas sobretudo DaMatta, passaram a ser usados nos Estudos Organizacionais, juntos ou separados, da forma como melhor convinha aos pesquisadores no momento.

Muzzio (2010) divide os estudos antropológicos sobre a cultura brasileira em dois grupos. De um lado, estariam Holanda (1995), Freyre (2002) e Ribeiro (2006). Este

primeiro grupo, que adotaria uma “perspectiva evolucionista”, analisaria a cultura

[...] sob uma ótica linear, temporal e racial, marcada por traços culturais (personalismo, formalismo, valorização do estrangeiro, hierarquia, paternalismo, etc.), originados ainda nas raças formadoras do país ou na confluência dessas ao longo do tempo, os quais definem a maneira de ser do brasileiro (MUZZIO, 2010, p. 8).

Essas análises, segundo o autor, partem de abordagens históricas, sociológicas e antropológicas que estudam a formação da matriz cultural do País a partir da contribuição e influência de portugueses, indígenas e africanos. O segundo grupo, formado por DaMatta (1985; 1986; 1987) e Barbosa (2001) focaria mais os aspectos

simbólicos das relações sociais, enfatizando “particularidades e idiossincrasias da sociedade brasileira”, como o afamado “jeitinho” brasileiro.

No entanto, Roberto DaMatta, um autor utilizado para dar um suporte antropológico em estudos de cultura organizacional (MOTTA, 1997; FREITAS, 1997; BARROS, PRATES, 1997), atualmente, tem seus trabalhos criticados na própria área da antropologia por tratar a cultura brasileira de forma homogênea (CAVEDON, FACHIN, 2008).

Além de usar a metáfora da moeda, “algo que tem dois lados.”, que me parece bem empobrecedora, DaMatta (2001) tem frases como:

 “nós, brasileiros, que não nos formamos nessa tradição calvinista,

achamos que o trabalho é um horror” (DAMATTA, 2001, p. 32).

 “O que é negado em casa – como o sexo e o trabalho – tem-se na rua”

(DAMATTA, 2001, p. 29).

“em casa e no código da família brasileira, existe uma tendência de

produzir sempre um discurso conservador, onde os valores morais

tradicionais são defendidos pelos mais velhos e pelos homens”

(DAMATTA, 2001, p. 27).

 “sou membro perpétuo de uma corporação (a família brasileira) que não

morre e que, com sua rede de compadres, empregados, servidores e

amigos ...” (DAMATTA, 2001, p. 27).

Enfim, acho que não tenho condições de fazer uma leitura crítica dos estudos antropológicos brasileiros, mas considero esse arrazoado para lá de simplificador, mostrando a visão não de um país, mas de um pesquisador branco, homem, machista e com dinheiro suficiente para ter servidores, no plural. Mesmo considerando que o livro foi escrito em 1984, em que o País vivia uma inflação altíssima, antes da abertura econômica, antes mesmo da eleição de Tancredo, que marcou definitivamente o fim da ditadura, quando o País era chamado de “Belíndia”, são muitas as generalizações na fala de Roberto DaMatta para sair utilizando suas referências nos Estudos Organizacionais como se fossem um ponto seguro em função de sua condição de antropólogo respeitado.

Só gostaria de ressaltar que, a partir desses antropólogos, passou-se a usar

“traços culturais” brasileiros, segundo Cuche (1999), um termo questionado na própria

antropologia, para auxiliar a discussão de cultura organizacional no Brasil.

Freitas (1997) e Barros e Prates (1997) fazem um apanhado de características brasileiras. A preocupação de Freitas (1997) era com os modelos importados pelas

multinacionais. Para ele, o fato de “[...] modelos e práticas gerenciais serem concebidos

em suas culturas natais [com] pressupostos e valores culturais diferentes e até conflitantes com os nossos [pode gerar fracassos, em função de] uma reação natural de autodefesa [pois não tem] respaldo em alguns traços básicos de nossa cultura” (FREITAS, 1997, p. 38). Nesse sentido, ele afirma que “se desejamos uma mudança

efetiva, devemos centrar-nos nos pressupostos básicos dessa cultura organizacional, e

para isso, devemos entender suas origens e raízes” (FREITAS, 1997, p. 38).

Como se vê, o autor já parte do princípio de que “nós”, um “nós” não explicito,

mas arrisco-me a dizer que seria nós todos, pesquisadores da área de administração, profissionais, consultores, queremos uma mudança. E efetiva, claro.

Motta (1997) destacou as seguintes características dos brasileiros, já levantadas por outros autores citados por ele: “ambiguidade”, ou busca de “caminhos alternativos”,

como o “jeitinho”, proposto por DaMatta (1983), e “paixão pelo jogo”, “horror à solidão”, desigualdade entre os sexos caracterizada por uma distinção entre “a casa” e “a rua”, “busca da felicidade no presente”, “intensa expressão das emoções”, “amor ao

espetáculo”, “exaltação de paixão amorosa”, “dramatização da morte”. “Em suma, um

quadro de intensa latinidade e africanidade” (MOTTA, 1997, p. 33).

Freitas (1997) contribui para ampliar as ultrageneralizações sobre os brasileiros e a cultura brasileira. Diz ele:

[...] evitamos ao extremo as soluções violentas, preferimos a conciliação, a amizade. Os estrangeiros que nos visitam se sentem entre nós quase como em sua pátria. Somos definidos como um povo acolhedor, hospitaleiro e generosos no afeto. Ao cumprimentarmos pessoas que fazem parte de nossa rede de relações, não economizamos beijos e abraços apertados, o que pode parecer totalmente absurdo para muitas culturas: no Brasil, se um homem é apresentado a uma mulher que não conhece, provavelmente dará um beijo no rosto para selar a apresentação. Parece que temos um horror às distâncias e um desejo contínuo de estabelecer um mínimo de intimidade. Buscamos, nas relações que deveriam supostamente ser cobertas de rigores e formalismos, um núcleo familiar, um elo pessoal (FREITAS, 1997, p. 48).

E, ainda, que “os brasileiros [...] são avessos a qualquer tipo de ritualismo ou formalidade” (FREITAS, 1997, p. 48).

Barros e Prates (1997) listam os principais traços culturais presentes na empresa brasileira. São eles:

 concentração de poder;  flexibilidade;  paternalismo;  dependência;  lealdade às pessoas;  personalismo;  impunidade;

 evitar conflito;

 postura de espectador;  formalismo.

Caldas (1997) lista alguns traços do brasileiro descritos por Freitas (1997) como autoritarismo, paternalismo, necessidade de protecionismo, dependência, e postura de

expectador, além da “atração pelo sensual e exótico”, referidos por Freitas (1997).

Enfim, a discussão sobre cultura de empresa, a partir do sucesso japonês, na vertente comparativa, traz consigo a discussão sobre a cultura brasileira e os traços dos brasileiros. E os autores da área de administração fizeram uma mistura de tudo o que encontraram. Juntando um pedacinho de um ensaio antropológico aqui, com outro ali, mais a visão do próprio Geertz Hofstede sobre a cultura brasileira contribuíram para tipificar o trabalhador brasileiro, o gerente brasileiro, a cultura organizacional brasileira, instaurando uma nova discursividade das organizações.

3.4 “Cultura japonesa” x “Cultura mineira”: a construção de imaginários

Como visto no tópico anterior, a discussão sobre a cultura organizacional se

inicia em função do “sucesso japonês”, e a comparação Brasil-Japão é muito reforçada na vertente da “cultura comparativa”. Ao se popularizarem, por meio da literatura

gerencialista, os estudos sobre cultura organizacional podem ter contribuído para aumentar a visão simplificada e tipificada não só dos brasileiros, mas também dos japoneses. Na Usiminas, os japoneses ganham ainda mais relevo nas narrativas porque a Empresa foi fundada a partir de capital misto: nacional e japonês. Ao falarem dos japoneses, os contadores da história Usiminas se referem também, por oposição, aos brasileiros e, especialmente, aos mineiros, falando da cultura de dois países e da cultura de um estado como se as três tivessem o mesmo estatuto.

É possível que isso ocorra porque, segundo Arruda (1990), as considerações sobre Minas e os mineiros registradas pelos primeiros viajantes europeus que vieram ao Brasil contribuíram para a construção dos tipos culturais do próprio brasileiro. Estas

aparecem na obra de Sérgio Buarque de Holanda” quando este aponta para a

cordialidade como a contribuição brasileira à civilização (ARRUDA, 1990 p.83). Antes de iniciar a história da Usiminas, então, recupero a construção desses imaginários38 e faço um breve compilado dos chamados “traços” dos mineiros e dos japoneses, não na perspectiva de aceitá-los como estanques ou definitivos, mas apenas

para trazer à tona duas “construções intelectuais” (ARRUDA, 1990) que circulam na

sociedade brasileira e são de conhecimento dos narradores.

No final do século XIX, quando o Japão encerra a era feudal, a cultura japonesa

teria sido marcado por um forte movimento de ocidentalização, “[...] decorrente do

ardente desejo pelas novidades comportamentais e tecnológicas vindas da Europa e dos

Estados Unidos” (NAKAGAWA, 2008 p. 23). Uma dessas novidades era o pan-óptico,

pensado por Jeremy Bentham e muito discutido por Michel Foucault. Esse sistema, difundido na Europa, chegou ao Japão na segunda metade do século XIX, para a construção de prisões (NAKAGAWA, 2008). Em 1871, o Japão enviou uma delegação aos EUA e à Europa, para conversas diplomáticas e para “[...] pesquisar sobre as instituições, empresas, fábricas e as culturas desses países (NAKAGAWA, 2008 p. 93). (Grifo meu).

Ao mesmo tempo em que buscava conhecer outras culturas, o Japão se dedicou a

apresentar sua “cultura milenar” aos olhos curiosos do mundo, fato que ocorreu de

forma mais significativa em 1889, na Exposição Universal de Paris (GONÇALVES, 2008).

Dezem (2005) traçou o percurso do imaginário sobre os japoneses no Brasil, desde o final do século XIX. Segundo ele, entre 1903 e 1905, os japoneses foram retratados na mídia com muita euforia e entusiasmo. É nessa época que se começa a

construir o “mito do „país dos samurais‟” ou de um Japão imbatível, de um povo bravo

e heróico que vai ser tão utilizado mais tarde na Usiminas. No entanto, esse ideário acaba por se misturar com a visão anterior que se tinha do Japão mesclando duas

imagens: “[...] a da gueixa, associada ao exótico e frágil, personificando os mistérios da

mulher japonesa, a do samurai, associada ao guerreiro e ao militar, modelo de força e

disciplina” (DEZEM, 2005 p.11).

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Imaginários, a partir da acepção proposta por Castoriadis (1982), está sendo usado como mundo de significações compartilhadas.

Woortmann (1995 p. 4) se refere à entrada no Brasil dos primeiros imigrantes japoneses, em 1908, que desembarcaram no porto de Santos para trabalharem na agricultura cafeeira do estado de São Paulo, como “[...] um ato fundante na memória de

seus descendentes”. A imigração dos japoneses foi maior, entretanto, entre 1925 e 1935,

com o subsídio do governo japonês (WOORTMANN, 1995, p. 4).

Para Dezem (2005), a chegada dos japoneses “de carne e o osso” pôs fim a esse

amor platônico dos brasileiros, e velhos preconceitos, associados aos “amarelos”,

chineses, foram resgatados.

[...] as imagens e os discursos se fazem carregados de marcas negativas inspiradas em questões raciais, religiosas, culturais, sem falar nas questões de concorrência trabalhista, onde o japonês aparece como um sério concorrente do trabalhador nacional por conseguir “sobreviver” com salários mais baixos. A imagem desse imigrante em solo