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Decorridos 33 anos da assinatura do Acordo Brasil-Alemanha pode-se dizer que o que resta desse acordo é a usina de Angra 2, que ficou pronta 25 anos após a assinatura do chamado “acordo do século”, e Angra 3, ainda nas fundações.

O setor nuclear, na esteira das dificuldades da crise energética de 2001, conseguiu incluir, novamente na pauta energética, a discussão da retomada das obras de Angra 3, embora a construção dessa usina, que demandaria ainda cerca de cinco anos e meio para entrar em operação, não poderia ser apresentada como solução de curto prazo para os problemas de racionamento de energia elétrica.

Angra 3, levando-se em conta os equipamentos já adquiridos, é considerada pela ELETRONUCLEAR como estando com um progresso de 30% na construção, mas não foi incluída nos relatórios mundiais da AIEA de 2002 (dados até dezembro de 2001), como usina "em construção", talvez devido à indefinição quanto à retomada das obras.

Após a apresentação ao Comitê Técnico nº 2 do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), em cinco de dezembro de 2001, foram aprovados os estudos preliminares para a conclusão da obra da usina nuclear de Angra 3, iniciada em 1983, paralisada após três anos e na qual foram consumidos US$ 750 milhões, devendo ainda demandar cerca de outros US$ 1.75 bilhões para entrada em operação dentro de cinco anos e meio, caso se consiga um cronograma sem restrições financeiras. O custo da manutenção da obra parada era de US$ 20 milhões por ano. Esta aprovação foi obtida após a quebra de resistências de membros do Governo, como o ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), David Zylberstajn, do ex-presidente da Petrobras, Henri Reichstul e finalmente o ex-ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, que acabou através do Conselho Nacional de Meio Ambiente aprovando o projeto e selando a questão no Governo do Presidente da República Fernando Henrique Cardoso.

Com a eleição de um novo Governo, com uma política energética divergente da política do Governo anterior, essa aprovação não foi suficiente para determinar-se uma data para o reinício das obras, até mesmo porque a aprovação, no âmbito do Governo do Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, dependia de aprovações complementares dos Ministérios da Fazenda (MF), Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), Minas e Energia (MME) e Meio Ambiente (MMA).

No ano de 2003 esperava-se selar, definitivamente, o destino das obras de Angra 3. A partir daquele ano, se ela fosse construída, já arrebataria de Angra 2 o título mundial de usina nuclear com maior tempo em construção.

O debate ainda não teria chegado ao fim. Luiz Pinguelli Rosa, então presidente da ELETROBRAS, afirmou no dia 19/09/2003 que, na nova matriz energética, não tinha absoluta convicção de qual seria a posição de Angra 3 e propôs que a iniciativa privada viabilizasse tal usina, com participação da estatal na gestão. Segundo explicou5:

"A idéia é fazer uma empresa que teria um contrato com ELETRONUCLEAR para que toda a energia de Angra 3 fosse dessa empresa e comercializada por ela. Seria uma empresa comercializadora, mas não como as existentes aí. Ela seria criada para viabilizar o investimento e teria a garantia de que por 20 anos, ou pelo tempo acordado, toda a energia produzida seria dela. A empresa ganharia vendendo energia!".

Pinguelli Rosa disse não saber se a proposta era factível, devido às complicações contratuais, pois os custos de transações disso é que poderiam ser impeditivos, mas há exemplos anteriores, como no caso de Serra da Mesa, que inspiraram essa possibilidade.

A idéia se baseava na possibilidade de que a FRAMATONE, empresa francesa que adquiriu o capital da SIEMENS, investi-se os US$ 1.8 bilhões necessários à conclusão de Angra 3.

As Comissões de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias e de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados realizaram audiência pública no dia 24/09/2003 para debater a política nuclear brasileira. O encontro atendeu a requerimentos aprovados nas Comissões de autoria dos deputados Ronaldo Vasconcellos (PTB-MG), Edson Duarte (PV-BA), Sarney Filho (PV-MA), Fernando Ferro (PT-PE), João Pizzolati (PP-SC) e Renato Cozzolino (PSC-RJ).

O objetivo foi discutir a retomada do PNB e a construção de Angra 3, comparecendo representantes dos MCT, MMA, MME, da ELETROBRAS, da

ELETRONUCLEAR, da CNEN, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), além de organizações não-governamentais ambientalistas e sindicalistas. As primeiras informações publicadas na página eletrônica da ELETRONUCLEAR indicaram que esse foi um movimento de um grupo de “pressão” pró-Angra 3.

Esse grupo bastante ativo, programou em seguida um novo evento, o Seminário em Brasília Tecnologia Nuclear - Soberania e Desenvolvimento, realizado nos dias 30/09/03 e 1/10/03, com o objetivo de despertar a atenção das autoridades e da sociedade para a necessidade de dar prosseguimento ao PNB. Organizado pelas Comissões de Relações Exteriores, de Defesa Nacional, de Minas e Energia, de Ciência e Tecnologia e Comunicação e Informática, o encontro reuniu conferencistas que discutiram a importância da continuidade do PNB. Entre os temas, encontravam-se o Impacto dos Programas Nucleares no Mundo e o Impacto da Energia Nuclear na Indústria, na Medicina e na Agricultura. Finalmente, 2003 ainda não foi o ano da decisão tão defendida pelo setor nuclear5.

Em 2007, o CNPE, órgão de assessoramento do Presidente da República para a formulação e diretrizes de políticas públicas para o setor de energia, aprovou a conclusão da usina termonuclear Angra 3 e o início dos estudos de localização de uma quarta usina, indicando uma retomada do PNB. Estudos da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE) do MME, apresentam a necessidade de construção de quatro a oito usinas nucleares até 2030. Nesse contexto, no âmbito do MCT, foi iniciada a ampliação das ações relacionadas à viabilização do PNB, incluindo o fortalecimento institucional da CNEN, responsável pelas pesquisas e regulação do setor, e ainda, ações voltadas à capacitação da NUCLEP, para a fabricação de componentes destinados às novas usinas nucleares.

Com relação ao ciclo do combustível nuclear, foram ampliados os investimentos para a finalização da primeira fase da planta de enriquecimento de Urânio da INB, instalação da planta-piloto de produção de hexafluoreto de Urânio por conversão gasosa, no CEA e o aumento da produção de Urânio. Essas ações estão destacadas no Plano de Ações 2007-2010 de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento (PACTI), em que o Programa Nacional de Atividades Nucleares (PNAN) é considerado estratégico.

Ainda na INB, em sua Unidade de Enriquecimento de Urânio, foram em 2007 concluídas as obras de infraestrutura relativas ao Módulo I, que compreende as cascatas de ultra centrífugas 1, 2, 3 e 4. Tais iniciativas fazem parte da estratégia para criar a capacidade industrial de suprir as futuras expansões da geração núcleoelétrica com um

produto de alto valor agregado, além de dotar o país de autonomia tecnológica e industrial no fornecimento de combustível para as usinas nucleares Angra 1 e 2.

Em 2008, no Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), em Belo Horizonte (MG), foram concluídas as instalações da nova unidade produtora de radioisótopos de meia-vida curta, que permitirá a ampliação da produção de radioisótopos e radiofármacos para diagnóstico e terapia de várias doenças.