Estudos pautados em perspectivas higienistas no âmbito da saúde sexual de HSH têm investigado sistematicamente as motivações que os levam a optar pela prática sexual sem preservativo com parceiro casual, diante dos riscos (CROSSLEY, 2004), em busca de informações que possam ser usadas na elaboração de programas de prevenção apropriados a esse segmento. Esses fatores podem estar relacionados também a questões circunstanciais e transgressoras. Circunstanciais porque, de acordo com vários autores (VASCONCELOS DA SILVA, 2008, 2009; FERNANDES 2009; SERONNI NETO, 2006; ELFORD, 2006; SHERNOFF, 2006; HALKITIS; PARSONS; WILTON 2003), os avanços no tratamento da HIV/aids, a facilidade de acesso ao
tratamento, a concepção da doença como crônica provocam otimismo32 entre os homens que, por sua vez, relatam que a expectativa de vida é supostamente igual a de pessoas que não vivem com HIV. Transgressivos porque os discursos podem seguir pela lógica da liberdade individual, da escolha (VASCONCELOS DA SILVA, 2009, 2008; SERONNI NETO, 2006;), do rompimento com as normas morais (SERONNI NETO, 2006; VASCONCELOS DA SILVA, 2008; CROSSLEY, 2004), com as normas de prevenção ligadas à saúde (VASCONCELOS DA SILVA, 2008; MENSERGH, 2002), bem como pelo “tesão” vivido por meio do medo, da aventura, da possibilidade de contrair alguma doença, da experiência de entrega, da maior intimidade ou contato com o parceiro sexual, muitas vezes desconhecido, do incômodo da camisinha e do prazer do contato com o esperma (VASCONCELOS DA SILVA, 2008).
Nesse sentido, Seronni Neto (2006), ao analisar artigos com discursos de alguns HSH, percebeu certa resistência e subversão ao modo hegemônico de se viver na sociedade atual, nos quais os sentidos de vida, morte e prazer são ressignificados diante da possibilidade de se infectar e, também, da forma de viver com o HIV. No que se refere à resistência e aos modos de subversão, estes estão intimamente ligados às políticas “persecutórias” de prevenção à saúde que tendem a categorizar os comportamentos individuais em “bons” e “maus”, além de atribuir responsabilidade e valor moral às pessoas, culpabalizando-as pelas escolhas arriscadas na forma de expressar a sexualidade (CASTIEL; ALVAREZ-DARDET, 2007).
A respeito dessa questão, Gabriel fala de sua convivência com pessoas que vivem com HIV e a liberdade vivenciada por elas como um dos fatores de sua opção de transar sem preservativo. Diz ele:
por já ter convivido com pessoas que são soropositivas e por enxergar que:::e ↓ literalmente elas têm uma liberdade maior do que pessoas que (x) não são soropositivas, e que tem um medo mórbido de se contaminar. É::::é elas usufruem de uma certa liberdade que é como se não tivesse um determinado peso na consciência.
Adiante, acrescenta:
32 Este otimismo poderia ser mais bem debatido ao pensarmos na possibilidade das campanhas de prevenção
estabelecerem diálogos entre pacientes que vivem com HIV/Aids e a comunidade de HSH. Por exemplo, em forma de depoimentos – que não seja demagógicos ou ufanistas, abordando as dificuldades de se viver com uma doença crônica.
é o fato de ↓ já ter convivido de perto, com o dia-a-dia de um soropositivo, e de enxergar que hoje (.) tu não tens mais aquela coisa figura = e aqueles modos viventes = aquele dia-a-dia = aquele cotidiano das pessoas do final da década de 1980 e início dos anos 1990 (.) <que apareciam na TV>.
No que se refere à suposta melhora da qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV, destaca-se que boa parte dos discursos sobre o tema não é contextualizada. Isso porque estes homens são de classe média e, portanto, têm acesso à boa alimentação, espaços de esporte, lazer. Essas questões são fundamentais para que o tratamento do vírus da aids alcance bons resultados e consequentemente o prolongamento da vida. Além disso, quando ficam doentes, desaparecem da frente dos amigos, para não contradizer o discurso “positivado” sobre os riscos da aids. Entretanto, é possível que outros segmentos populacionais, com restrições de acesso aos serviços descritos acima, talvez, tenham outras versões sobre a vivência da aids.
Para Aristóteles, a questão de sua opção por não usar preservativo está associada diretamente ao
cansaço da hipocrisia, acesso a informação (.) desmistificação e ao mesmo tempo uma conduta meno:::s hã:::ã passiva em relação ao que se deve fazer? Como se dever fazer? Que os governos, as autoridades, a sociedade (.) hã:::ã (x) continue sendo a grande responsável pela maneira como as pessoas devem agir. Não é bem assim.
Já Edu segue pela lógica de não aceitar ser ratinho de laboratório de programas do governo que, segundo ele, visam controlar a sexualidade da população. Argumenta:
Se for prestar atenção nesses casos, nessas doenças novas o:::::u velhas ou mutantes >e não sei o que<, só faz a gente perceber uma situação: a gente virou ratinho de laboratório em:::::m algumas coisas que é interessante para as políticas públicas da saúde.
As falas de Aristóteles e Edu remetem para ao campo do controle da vida por meio de normas, entre as quais destaca-se a necessidade de usar preservativo em detrimento de possíveis infecções, como as DST e/ou o HIV. Nesse jogo de poder entre o governo – que tenta sensibilizar a população sobre a importância do uso do preservativo –, e a população – que sustenta argumentos distintos para não usar a camisinha –, Rosa, Vicentin e Catroli (2009) relatam que Arendt, Foucault, Derrida e Agambem convergem para demonstrar como as relações de poder abalam a experiência compartilhada entre os sujeitos, diluindo a história do sujeito na sociedade.
Daniel destaca ainda que sua relação com a camisinha é anterior ao advento da aids em função da sua idade. Quando ele iniciou sua prática sexual, a camisinha era usada apenas como método contraceptivo entre casais heterossexuais. Contudo, ele argumenta que no período pré-aids sentia-se atraído pela camisinha:
é::::é claro que antes da aids, a (x) prática sexual de quase todo mundo ↓ era praticamente sem camisinha. E:::E curiosamente eu ficava muito excitado <quando> eu via uma camisinha. ↓ Eu achava que aquilo era uma coisa diferente ↑ e isso me deixava muito excitado.
Entretanto, depois do surgimento da aids, ele mudou de ideia, pois não existia a cura dessa doença, e muitos dos seus amigos morreram acometidos pela moléstia. Então, esse acontecimento motivou Daniel a incorporar o uso do preservativo. Diz ele: <E eu me preservava> ↑ o máximo.
Atualmente, diante do fato da camisinha ter se tornado o principal método de prevenção à aids, ele relata que a lógica do seu interesse inverteu-se. Estávamos a encerrar nossa conversa quando fui interpelado pela seguinte fala:
[Só um minuto] = só cortando = é:::é (x) o interessante que eu gostaria de falar é o seguinte, que hoje em dia eu fico muito mais excitado em praticar o sexo (x) sem camisinha do que quando ele era uma coisa normal. É:::É não sei se é pelo fato de:::e (x) do proibido. Isso me deixa ↑ muito mais excitado ↓ hoje em dia.
George: E o que é proibido?
Daniel: É proibido porque as pessoas falam: “TOMA CUIDADO” = “NÃO PODE” = e:::e (x) “OLHA”! CUIDADO”! e::::e (x) isso é:::é (x) o que eu acredito que até não é o meu caso = mas (x) é o que levam as pessoas a beberem, se drogarem = “OLHA, NÃO FAZ ISSO”. É aquela coisa = a cabeça do bicho homem é aquela coisa.
Nesse caso, com o surgimento da aids, a camisinha passou a ser vista como uma tecnologia obrigatória para as diretrizes das políticas de prevenção à aids e, portanto, marco da normatividade no campo da sexualidade. Quem não adere a tal método preventivo está fadado a infectar-se com o vírus da aids. Consequentemente, tal noção passou a circular no nosso cotidiano, sendo naturais os discursos de aconselhamento de profissionais de saúde, pais, amigos, que visam estimular o uso da camisinha. E é nesse contexto de referência que Daniel se apresenta como um homem transgressivo. No período anterior à aids, quando as pessoas não tinham a obrigatoriedade de usá-la, mesmo diante da possibilidade de infecção por DST, Daniel relata que, ao ver uma camisinha, sentia muito
excitado. Entretanto, com o advento dessa doença, a camisinha passou a ser o símbolo principal de proteção, o elemento da norma, único meio provado cientificamente capaz de prevenir a infecção por DST e HIV, aquele que protege a si e ao outro. Porém, é justamente nesse momento que Daniel destaca perder seu interesse pelo uso do preservativo. Quanto mais as pessoas dizem: TOMA
CUIDADO = NÃO, PODE = e:::e (x), OLHA”! CUIDADO, maior é o seu interesse por uma
prática tida socialmente como “proibida”.
Portanto, o grito de alerta dado pela sociedade configura-se como um estímulo a mais para Daniel sentir-se excitado. Há prazer no proibido, na quebra das leis e da norma. É interessante notar que o seu tom de voz chega a níveis altíssimos quando explicita o alerta das pessoas sobre os riscos implicados nas práticas sexuais desprotegidas. Assim, quanto mais intenso o discurso a favor da necessidade do uso do preservativo, maior a excitação de Daniel pelo não-uso da camisinha. E aproveita para ampliar o sentido “transgressivo” aplicado ao contexto sexual para outras situações que implicam estímulos a atitudes contrárias a “norma social”, tais como no caso do uso de álcool e drogas. De acordo com Schirmer (2010), a fantasia por não usar a camisinha parece ter outros sentidos para além de contrariar as normas, conduz à reflexão de que as normas estão em contraversão ao desejo das pessoas. Ou seja, as campanhas ignoram que beber, fumar, usar drogas, transar sem camisinha estão em plena consonância com a busca sem limites do prazer, o mesmo que faz consumir e sustentar o capitalismo.
Em suma, ao longo deste capítulo, enfatizei a complexidade da sexualidade humana, a qual é fragmentada e transformada em categorias epidemiológicas pautadas por frequência de comportamentos. Esta discussão foi fundamental para identificar alguns elementos relevantes para a compreensão de práticas sexuais arriscadas, mesmo diante de altos níveis de informações sobre prevenção. Em síntese, pode-se elencá-las como sendo: relações de poder, de gênero, construções simbólicas acerca da aids, questões geográficas como produção social do risco, fatores econômicos, implicações psicológicas, perspectiva de vida em função dos avanços científicos no campo da aids, valores, etc.
Por esse viés, concordo com Parker (1994) ao sugerir que a resposta ao HIV/Aids deve pautar em aspectos mais amplos da dimensão humana, ao invés de levar em conta apenas questões comportamentais. Para ele, a gestão dos riscos está ligada às relações de poder, gênero, valores, crenças, desejo, fatores econômicos, os quais condicionam a formação de parceiros sexuais. Todos
esses itens são importantes e devem ser considerados no desenvolvimento de estratégias mais eficazes para a prevenção da aids (PARKER, 1995).