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4.4 Oppsummering
Os cenários apresentados anteriormente referem-se a usos da terra alternativos que poderiam ser implantados em 1,0 ha de terra, onde seria possível a prática da agricultura de forma convencional. O manejo de açaizal, uma das principais demandas entre os agricultores familiares do Pólo Rio Capim, por outro lado, costuma ser implementado em áreas com açaizal nativo, isto é, entre açaizeiros que ocorrem naturalmente.
O açaí é um alimento que faz parte dos hábitos alimentares das populações locais e existe mercado consumidor, com possibilidades de expansão, tanto em nível nacional quanto internacional, podendo compor também importante fonte de renda (ENRIQUEZ, SILVA e CABRAL, 2003; NOGUEIRA, FIGUEIREDO e MÜLLER, 2005; SILVA, SANTANA e REIS, 2006).
Dentre as famílias de agricultores pesquisados, o açaí é um produto importante: 100% (n = 20) das famílias coletam açaí, 55% (n = 11) para autoconsumo e venda e 45% (n = 9) apenas para autoconsumo, em áreas de várzeas ou igapós com, em média, 3,0 ha, atingindo uma produtividade média anual de aproximadamente 500 kg/ha. A mão-de-obra gasta na coleta é de origem familiar e alcança aproximadamente 24 diárias/ha/ano, distribuídas entre os meses de julho a dezembro. Essa atividade origina uma renda bruta média de R$ 291,00/ha/ano e, considerando-se a valorização do autoconsumo (R$ 156,00/ha/ano), obtém-se uma renda total de R$ 447,00/ha/ano. Os custos com transporte e acondicionamento somam cerca de R$ 16,00/ha/ano, resultando como renda líquida média R$ 431,00/ha/ano, próxima dos R$ 400,00/ha mencionados por Nogueira, Figueiredo e Müller (2005).
Na implantação de sistemas de manejo, devem ser avaliados os estoques disponíveis, as taxas de incremento e a regeneração natural de espécie a ser explorada. Os procedimentos para manejar populações naturais de açaizeiros incluem roçagem, para eliminar plantas de porte e cipós; e a retirada de galhos, a fim de facilitar o deslocamento das pessoas para dar prosseguimento às técnicas de manejo. Depois, é feito o raleamento da vegetação, quando são identificadas e eliminadas as espécies consideradas de baixo valor comercial, mantendo aquelas capazes de produzir madeira, frutos, sementes, fibras, óleos e fitoterápicos. Esse procedimento mantém o açaizal mais limpo e reduz a concorrência por água, luz e nutrientes, tornando-o mais produtivo. Também se realiza o remanejamento do plantio de açaizeiro e de outras espécies. Na entressafra, são feitos o desbaste para eliminar o excesso de estipes que se apresentam finos, defeituosos, muito altos ou com baixa produção de frutos; e a limpeza das touceiras, retirando-se as bainhas presas nos estipes após a morte da folha, para que os estipes do açaizeiro cresçam em diâmetro (ENRIQUEZ, SILVA e CABRAL, 2003; NOGUEIRA, FIGUEIREDO e MÜLLER, 2005).
É recomendado que as famílias de agricultores recebam treinamento nessas técnicas de manejo, além de assistência técnica, para que elas próprias sejam capazes de manejar seus açaizais.
No preparo de 1,0 ha de açaizal nativo para manejo, ocorre produção desde o primeiro ano, sem investimento inicial. A partir do quarto ano, os custos e as rendas originadas com o manejo tendem a se estabilizar, quando então a produção de frutos pode até dobrar; após o sétimo ano, a produção apresenta tendência à estabilização (NOGUEIRA, FIGUEIREDO e MÜLLER, 2005). A Tabela 4.17 inclui os custos com contratação de mão-de-obra, mas, como suposição do cenário, a mão-de-obra é de origem familiar, gerando os custos e as rendas apresentados na Tabela 4.18.
A Tabela 4.19 traz a renda líquida anual gerada na implantação e na manutenção de 1,0 ha de açaizal nativo, ao longo e dez anos. Do Ano 1 (ano de implantação) ao Ano 3, é gerada a renda de R$ 1.700,00/ha/ano e, partir do Ano 4, a renda tende a se estabilizar em torno de R$ 3.400,00/ha/ano, quando supera o custo de oportunidade médio do uso da terra tradicional (R$ 2.450,00/ha/ano).
Ainda, a renda líquida obtida no manejo de açaizal mostra-se superior à renda líquida média derivada do extrativismo de açaí sem manejo – R$ 434,00/ha/ano – como mostra a Tabela 4.20, que indica o potencial de acréscimo de renda possibilitado pela transição de 1,0 ha de açaizal sem manejo para 1,0 ha de açaizal manejado. A partir do quarto ano de manejo de açaizal, a diferença entre o potencial de renda (R$ 2.969,00/ha/ano) supera o custo de oportunidade médio de 1,0 ha de terra usado de forma tradicional.
Tabela 4.17 – Custos e rendas gerados na implementação e na manutenção de manejo de 1,0 hectare de açaizal nativo (cerca de 400 plantas/ha) para a produção de frutos, ao longo de quatro anos.
Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4
Discriminação Unidade Preço (R$)
Qtde.a Valor (R$) Qtde. Valor (R$) Qtde. Valor (R$) Qtde. Valor (R$)
Raleamento e Roçagem diárias 12,00 15 180,00 - - - Transplantio de mudas diárias 12,00 2 24,00 - - - Roçagem semestral diárias 12,00 - - 20 240,00 20 240,00 10 120,00 Desbaste diárias 12,00 4 48,00 1 12,00 1 12,00 1 12,00 Coleta kg 0,10 2.000 200,00 2.000 200,00 2.000 200,00 4.000 400,00 Acondicionamento kg 0,02 2.000 40,00 2.000 40,00 2.000 40,00 4.000 80,00 Transporte kg 0,03 2.000 60,00 2.000 60,00 2.000 60,00 4.000 120,00
Total dos Custos (A) 552,00 552,00 552,00 732,00
Produção (B) kg 0,90b 2.000 1.800,00 2.000 1.800,00 2.000 1.800,00 4.000 3.600,00 Renda Líquida (B - A)
(R$/ha/ano) 1.248,00 1.248,00 1.248,00 2.868,00
Nota: a) Qtde = quantidade. b) Preço médio local obtido pelo quilograma do açaí, no Pólo Rio Capim, em agosto de 2006. Fonte: Dados da pesquisa (agosto/2006); e Nogueira, Figueiredo e Müller (2005).
Tabela 4.18 – Custos e rendas gerados na implementação e na manutenção de manejo de 1,0 hectare de açaizal nativo (cerca de 400 plantas/ha) para a produção de frutos, ao longo de quatro anos, considerando-se que a mão-de-obra é familiar.
Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4
Discriminação Unidade Preço (R$)
Qtde.a Valor (R$) Qtde. Valor (R$) Qtde. Valor (R$) Qtde. Valor (R$)
Acondicionamento kg 0,02 2.000 40,00 2.000 40,00 2.000 40,00 4.000 80,00 Transporte kg 0,03 2.000 60,00 2.000 60,00 2.000 60,00 4.000 120,00
Total dos Custos (A) 100,00 100,00 100,00 200,00
Produção (B) kg 0,90b 2.000 1.800,00 2.000 1.800,00 2.000 1.800,00 4.000 3.600,00 Renda Líquida (B - A)
(R$/ha/ano) 1.700,00 1.700,00 1.700,00 3.400,00
Nota: a) Qtde = quantidade. b) Preço médio local obtido pelo quilograma do açaí, no Pólo Rio Capim, em agosto de 2006. Fonte: Dados da pesquisa (agosto/2006); e Nogueira, Figueiredo e Müller (2005).
Tabela 4.19 – Renda líquida anual (R$) por hectare, gerada no manejo de açaizal, ao longo de dez anos.
Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5 Ano 6 Ano 7 Ano 8 Ano 9 Ano 10
Renda Líquida
Anual (R$/ha/ano) 1.700,00 1.700,00 1.700,00 3.400,00 3.400,00 3.400,00 3.400,00 3.400,00 3.400,00 3.400,00
Deve-se observar que a área onde pode ser introduzido o manejo de açaizal, em geral, é maior. No caso das unidades de produção familiar do Pólo Rio Capim, essa área tem 3,0 ha, em média. Supondo-se, então, que o manejo de açaizal fosse implementado em áreas com 3,0 ha, do Ano 1 ao Ano 3, a renda líquida anual poderia alcançar R$ 5.100,00/ha/ano e, a partir do quarto ano, seria de aproximadamente R$ 10.200,00/ha/ano. Dessa forma, as rendas líquidas anuais geradas no manejo de açaizal cobririam o custo de oportunidade da atividade agrícola praticada de forma tradicional, já no curto prazo.
Além de possibilitar o aumento da renda no curto e no longo prazo, o manejo de açaizal pode contribuir para sua estabilidade ao longo dos anos. Permite ainda a manutenção da renda ao longo do ano, maior durante a época da safra do açaí (julho a dezembro), e contribui para a diversificação de fontes de renda, além ser importante para a segurança alimentar da família.
A remuneração da mão-de-obra familiar fica em torno de R$ 44,70/dia de trabalho, do primeiro ao terceiro de ano de introdução do manejo de açaizal; a partir do quarto ano, alcança R$ 77,30/dia de trabalho (TABELA 4.21). Ambos os valores encontram-se acima da remuneração na atividade agrícola tradicional (R$ 11,30/dia de trabalho) e da diária média local (R$ 12,00).
Com o manejo de açaizal, a produtividade da terra pode ser dobrada, o que não ocorre com a produtividade da mão-de-obra, porque não há como mecanizar o processo de coleta de frutos (NOGUEIRA, FIGUEIREDO e MÜLLER, 2005). As necessidades de mão-de-obra alcançam 38 diárias/ha/ano, do primeiro ao terceiro ano, e 44 diárias/ha/ano, do quarto ano em diante (TABELA 4.21). Com base na disponibilidade média de mão-de-obra familiar para o uso da terra tradicional (304 diárias/ano), pode-supor que a coleta de açaí não necessita de contratação de mão-de-obra auxiliar.
Tabela 4.20 – Potencial de acréscimo de renda na transição de 1,0 ha de açaizal sem manejo para 1,0 ha de açaizal manejado, ao longo de dez anos.
Renda Líquida (R$/ha)
Açaizal Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5 Ano 6 Ano 7 Ano 8 Ano 9 Ano 10
Manejado (A) 1.700,00 1.700,00 1.700,00 3.400,00 3.400,00 3.400,00 3.400,00 3.400,00 3.400,00 3.400,00 Sem manejo (B) 431,00 431,00 431, 431,00 431,00 431,00 431,00 431,00 431,00 431,00
Diferença A – B (R$/ha/ano) 1.269,00 1.269,00 1.269,00 2.969,00 2.969,00 2.969,00 2.969,00 2.969,00 2.969,00 2.969,00
Fonte: Dados da pesquisa (agosto/2006); e Nogueira, Figueiredo e Müller (2005).
Tabela 4.21 – Remuneração da mão-de-obra familiar e necessidades de mão-de-obra para a implantação e a manutenção de manejo de açaizal (1,0 ha), ao longo de dez anos.
Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5 Ano 6 Ano 7 Ano 8 Ano 9 Ano 10
Remuneração da mão-de-obra
familiar (R$/dia de trabalho) 44,70 44,70 44,70 77,30 77,30 77,30 77,30 77,30 77,30 77,30 Mão-de-obra (diárias/ha/ano) 38 38 38 44 44 44 44 44 44 44
Açaizais nativos manejados proporcionam maior rendimento econômico que os açaizais nativos não-manejados e limitam-se às áreas onde já existem, que não necessitam ser ampliadas e podem ser aproveitadas de forma permanente. Assim, evita-se o desmatamento e o abandono da terra após exploração com cultivos anuais, onde então se desenvolve capoeira sem espécies valorizadas, o que normalmente ocorre na região amazônica (NOGUEIRA, FIGUEIREDO e MÜLLER, 2005).
Ao favorecer a permanência de cobertura vegetal, o manejo de açaizal também contribui para a diminuição das emissões de gases do efeito estufa (GEEs), que poderiam ser liberadas durante desmatamentos, bem como para a diminuição de processos erosivos, de degradação do solo e de assoreamento dos corpos de água (KOSOY et al., 2006).
O manejo da floresta para a coleta de frutos aumenta a produtividade da terra, mas também traz risco da “colonização extrativa”: com a valorização do açaí, o adensamento da espécie é estimulado, podendo reduzir a biodiversidade local, com eliminação de plantas sem valor econômico e desaparecimento de recursos genéticos importantes para o ecossistema, levando à homogeneização da paisagem. Assim, o açaizal deve ser manejado e explorado juntamente com o maior número possível de espécies, de maneira a evitar a formação de populações homogêneas de açaizeiro, contribuindo para a promoção da biodiversidade e para o ressurgimento de espécies vegetais nativas, o que permite manter as características funcionais e estruturais da floresta. Deste modo, o manejo pode contribuir para a manutenção de áreas com vegetação nativa e até seu enriquecimento (NOGUEIRA, FIGUEIREDO e MÜLLER, 2005).