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Apresentaçãopresentaçãopresentaçãopresentação::::
Este projeto foi concebido no ano de 2004, para ser implantado em um terreno pertencente ao Condomínio Ponta Negra Boulevard, cuja localização e prescrições urbanísticas já foram explicitadas na apresentação do projeto analisado no item 6.1, na página 48.
A parcela situa-se na primeira via no lado Sul do condomínio, de frente para o território do Ministério da Marinha. A vizinhança imediata (laterais e fundos) é totalmente construída, e a testada do lote está voltada para o muro do condomínio (lado Sul) que faz divisa com a já referida “Barreira do Inferno”. (Figura 62)
Figura 62 – Planta de situação aproximada da parcela
O terreno possui 420m² e o projeto 302,79m² de área total a ser construída, estando dividida em dois pavimentos, o que resulta numa taxa de ocupação do solo igual a 39%
Análise AnáliseAnálise Análise::::
Eis o primeiro comentário feito pelo arquiteto, com relação à concepção deste projeto: “o elemento gerador do desenho foi o sítio onde o projeto ia ser implantado”. Segundo ele, as reduzidas dimensões do térreo, o posicionamento do lote de frente para o Sul e a vista para a reserva da Barreira do Inferno foram pontos cruciais na definição do projeto e, inclusive, para a criação do
elemento formal mais marcante da casa: a “grande boca de madeira”, cujas referências, como se verá adiante, foram de ordem sócio-cultural.
Percebe-se, então, uma relação de co-determinação entre as
escalas geográfica e de visibilidade na inicialização desta concepção. Ambas,
justapostas à escala sociocultural, constituíram o partido arquiteturológico da proposta.
A primeira escolha do arquiteto foi uma atitude contra a clausura oferecida pelas dimensões reduzidas da parcela, aliada à vizinhança já densamente ocupada. Sua intenção foi criar um espaço arquitetural que oferecesse uma sensação mais ampla e aberta que a oferecida pela limitada espacialidade já definida pelas condições locais. A partir disso surgiram duas idéias. A primeira foi a de um elemento arquitetônico que acabou por constituir um centro de gravidade (ponto focal) na composição volumétrica frontal deste projeto: uma trama de troncos de eucaliptos, suspensa no hall de entrada, apelidada, pelo arquiteto, de “paliteiro” (Figura 63 e Figura 64) O elemento foi originado a partir de uma referência às armadilhas de pegar passarinho, um artefato tradicional do universo lúdico infanto- juvenil no interior nordestino, não deixando também de fazer referência aos trançados de fibras naturais feitos pelos artesãos locais. Portanto, esse elemento que foi concebido para funcionar como um captador da ventilação dominante e oferecer visão para a reserva florestal, também pode ser considerado um símbolo
formal.
Figura 63 - Croquis da concepção do paliteiro
A segunda idéia, ainda relacionada à intenção de criar um espaço mais amplo, agora no tocante ao interior do espaço arquiteturológico, em especial no pavimento térreo onde se concentra a parte social da casa, foi buscada a integração visual e espacial entre todos os cômodos e deles com o exterior. Os escalemas desta operação de dimensionamento foram: adoção de pé-direito duplo; ausência de paredes divisórias e da presença de grandes esquadrias vazadas nas paredes limítrofes (Figura 65 e Figura 66).
Figura 65 - Planta baixa do pavimento térreo
Figura 66 - Corte longitudinal
Nós buscamos também a questão do olhar que traspassa todo o projeto, ou seja, ao entrar na casa, se você quiser, pode ver o quintal. Veio também a questão do resguardo da intimidade familiar e, por isso, a piscina está atrás e não na frente. A integração entre espaços internos e externos através da simples abertura de portas que formam grandes espaços: salas+terraço+lazer+jardim. Essa casa tem essa característica de se fechar e abrir ao mesmo tempo (BRITO, 2007).
O espaço externo a que o arquiteto se refere na citação anterior, como nos projetos anteriormente analisados, é uma paisagem criada que também se configura como um atrativo visual para onde a casa converge, uma opção de
convívio social com a privacidade desejada pelo cliente (Figura 65 e Figura 67). Neste projeto, esse espaço foi concebido através da sobredeterminação de duas escalas arquiteturológicas: a sócio-cultural e a geográfica. A função do terraço aqui, segundo o arquiteto, está fortemente relacionada aos hábitos da família gaúcha que considera a churrasqueira como o principal lugar da casa e, ao mesmo tempo, faz referência aos alpendres e terraços da cultura nordestina que, na realidade, representam uma atitude de adequação às características climáticas da região. A adoção do modelo de cobertura em telha canal (Figura 68) e da janela balcão no quarto dos filhos, por sua vez, está ligada ao mesmo resgate cultural de pertinência geográfica.
Figura 67 - Maquete eletrônica (vistas Sul e Norte)
Figura 68 - Croquis do telhado
Um recorte, no espaço de concepção, foi dado especificamente
para o planejamento da escada. Elemento arquitetônico de forte cunho funcional, uma vez que, originalmente, tem destinação clara, precisa e limitada, mas que recebeu tratamento especial neste projeto, justificado por duas pertinências. Primeiro era preciso que a escada não impedisse a possibilidade do olhar capaz de enxergar toda a extensão longitudinal da casa em um só golpe visual, para isso, ela teria que ser sutil, a fim de parecer transparente ao olhar. A escada “leve” começou a ser concebida a partir da combinação de aço e madeira, mas diante da percepção
de que o resultado estético poderia se tornar bastante interessante, o elemento passou a ser visto, mesmo com sua transparência, como um atrativo visual no meio de espaço social (Figura 66).
O último nível de concepção, percebido dentro deste sistema, foi gerado a partir de uma pertinência de ordem ótica. Uma das expressões mais citadas pelo arquiteto, durante a entrevista sobre este projeto, foi “leveza” e, não por coincidência, grande parte dos croquis desenvolvidos na concepção, representa estudos figurativos de fachada que, segundo o arquiteto, foram o caminho para se chegar à leveza desejada (Figura 69).
Figura 69 – Croquis da concepção das fachadas (focando os efeitos figurativos)
[...] muitas vezes uma série de rabiscos figurativos em uma fachada, representa a busca por torná-la mais leve (BRITO, 2007).
Durante essa busca, o processo é permeado pelo jogo de justaposição entre as escalas: semântica, geométrica, ótica e de representação. As figurações partem da utilização de princípios geométricos de ordem visual como simetria, hierarquia e ritmo (CHING, 1999), e os desenhos ligam o efeito planejado no espaço arquiteturológico à impressão futura que será causada pelo objeto arquitetural. Dentre estes efeitos óticos estão: 1) A diferença na espessura dos revestimentos entre o volume inferior e o superior da residência, favorecendo a ilusão, principalmente na fachada posterior, de uma forma prismática retangular suspensa do chão, apoiada por espessos pilares na lateral (Figura 67); 2) Na fachada lateral, através do mesmo recurso construtivo anterior, pode-se ter a impressão de que o volume geral da residência foi resultante da união simétrica de
dois prismas trapezoidais a um prisma retangular alongado verticalmente, hierarquicamente posicionado e dimensionado (Figura 64 e Figura 69); 3) O terceiro efeito ótico está na aparência externa dada às janelas dos quartos dos filhos. Interiormente existem duas janelas de abertura reduzida, exteriormente elas foram unidas visualmente e foram alongadas em direção às paredes laterais, dando a impressão de formarem um único janelão (Figura 67).
A casa não tem balanço, não está apoiada em pilotis, mas mesmo assim, pela aplicação de materiais, nós conseguimos dotá-la de certa leveza. (BRITO, 2007).
Figura 70 - Planta baixa do pavimento superior
Na concepção do segundo efeito ótico, outras escalas atuaram conjuntamente com a ótica: a técnica e a geográfica. Segundo o arquiteto, foi criado, na cobertura, uma espécie de terraço técnico a partir do qual se pode ter acesso facilitado à caixa d´água, pode-se instalar um sistema de aquecedor de água e outros equipamentos; também, nas paredes limítrofes deste espaço, estão dispostas esquadrias que favorecem de saída de ar da sala e dos banheiros.
Enfim, percebe-se que as mesmas cinco escalas destacadas na análise do projeto anterior, pela maneira como se relacionaram com as demais dentro do sistema, também serão aqui destacadas: a humana e de visibilidade que ocuparam papel dominante dentro do processo; as escalas sócio-cultural e de
modelo que se relacionaram de maneira estruturante; e a escala funcional que,
considerada como principal. Acrescenta-se a informação de que os efeitos figurativos buscados neste projeto, através do trabalho com a escala ótica, fizeram com que esta escala estivesse ao lado das outras duas que possuem valor de explicação global do projeto.
8.3 RESIDÊNCIA COLAÇO