Essa usina localiza-se na região de Ribeirão Preto, moendo na safra 2001/2002 acima de três milhões de toneladas de cana-de-açúcar, sendo, portanto, caracterizada como de grande porte. De acordo com a CSPE (2001), a usina termelétrica, implantada em 1945, apresenta oito caldeiras, onde se queima bagaço de cana-de-açúcar, produzindo o vapor necessário ao acionamento das turbinas de preparo e moagem.
A energia elétrica gerada por essa usina termelétrica atende à demanda da planta industrial, sendo o excedente vendido a CPFL, por meio de paralelismo, fato que promove a segurança no fornecimento contínuo à usina sucroalcooleira, pois se a termelétrica necessitar promover paradas, a concessionária local imediatamente entra fornecendo energia elétrica em paralelismo.49 A tensão de geração era de 2,2 kV e foi elevada para 13,8 kV, por meio de uma subestação local. Todavia, com a expansão na venda de excedentes à CPFL houve necessidade de investimentos na construção de uma subestação e de uma linha de transmissão de 138 kV.
Em 1973, a empresa instalou dois geradores de 3.125 kVA e dois de 5.000 kVA cada, ainda sem estar em paralelo com a CPFL e sem comercializar excedentes. Em 1994, a empresa promoveu investimentos em paralelismo e passou a comercializar excedentes com a concessionária local. Na oportunidade, foram instalados
mais dois geradores de 10.000 kVA cada um, com 42 quilos de pressão por cm2 (até
então, a usina trabalhava com pressão de 21 quilos por cm2).
Até 2001, o vapor movimentava seis turbogeradores com turbinas de contrapressão, aos quais se acoplavam seis geradores elétricos síncronos trifásicos, com potência de 3.125, 3.125, 5.000, 7.500, 10.000 e 10.000 kVA, totalizando uma potência instalada de 38.750 kVA.
A Figura 4.3 apresenta um diagrama simplificado de produção da referida usina.
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De acordo com VASCONCELLOS (2003), a princípio, a geração própria pode operar isoladamente da rede pública. Entretanto, na prática, considerações econômicas e de confiabilidade favorecem a operação em paralelo, num sistema denominado justamente de paralelismo.
Numa primeira fase, durante 2,5 anos, a usina comercializou cinco MW com a CPFL. Em 1998, a empresa instalou mais um gerador de 7,5 MWA, gerando uma potência adicional de 6,5 MW. No total, passou a comercializar entre oito e dez MW à concessionária local. Em março de 2003, a usina realizou nova expansão com o desejo de comercializar um total de 30 MW.
O parque gerador ficou da seguinte forma: dois geradores de 15 MVA (vapor contrapressão, consumo de 5,8 kg vapor/KWh), dois geradores de oito MVA e mais dois de seis MVA (condensação – mais eficiente que a contrapressão – consumindo 4,8 kg/vapor por kWh), totalizando 58 MVA. Em termos de potência instalada, 58 MVA equivalem a aproximadamente 48 MW. Desse total, a empresa pretendia consumir 18 MW e comercializar 30 MW com a CPFL.
Açúcar
líquido Cliente
Escape Açúcar Cliente
Cana Moenda Caldo Fábrica
Caldo e mel Destilaria Álcool Bagaço Cliente Água Caldeiras Bagaço no pátio Vapor Escape Gerador de energia Excedente p/CPFL
Fonte: Resultados de pesquisa (2003).
A razão de eficiência da usina, em termos de aproveitamento do combustível, tem sido, na média, de 2 a 2,1 toneladas de bagaço para cada MWh gerado. Todavia, quando se considera somente a eficiência do sistema em condensação, a eficiência média aumenta, pois duas toneladas de bagaço passam a gerar em torno de 2,5 MWh.
A empresa, historicamente, vem comercializando bagaço com as indústrias citrícolas e usinas sucroalcooleiras locais. Porém, na safra 2003/2004, a empresa está planejando não comercializar bagaço in natura. Planeja estocar o insumo e gerar na entressafra entre seis e sete MW. Nesse período, a unidade industrial costuma consumir em torno de dois ou três MW. Havendo sobra na entressafra, a usina comercializará o excedente.
O aproveitamento da palha também está sendo testado pela empresa. De acordo com o entrevistado, num raio de 15 km da usina, a palha será recolhida, sem enfardamento e transportada à unidade termelétrica. Sem o enfardamento, o volume será elevado, mas o peso será extremamente reduzido, em contrapartida, não haverá o custo de enfardamento, de “desenfardamento”, de “afofamento” e de investimento em máquinas para tais atividades. A palha, que apresenta um poder calorífico semelhante ao do bagaço, será misturada ao bagaço e queimada nas caldeiras. O raio de 15 km foi determinado como sendo o espaço onde os benefícios são superiores aos custos de obtenção e transporte da palha.
Em relação ao custo de oportunidade na formação da cama de proteção ao solo, a empresa investiu em um equipamento norte-americano que retira a cana e a palha deixando o mínimo necessário para a proteção do solo (retira 50% da cana, mas não retira toda a forração). Dessa forma, retira apenas o excesso de palha, não havendo necessidade em investimentos em proteção ao solo. A mecanização na colheita está em torno de 50%, representando uma boa capacidade para expansão no aproveitamento da palha como insumo na geração.
Segundo o entrevistado, a empresa apostava que a venda de excedentes ao mercado de energia elétrica seria uma estratégia interessante no longo prazo. Por isso, investiu em equipamentos mais eficientes (antes havia equipamentos que consumiam 13,8 de vapor, quase três vezes mais do que a configuração em condensação). Assim, com a mesma quantidade de bagaço, após atender as necessidades
industriais, sobra mais vapor para geração de energia elétrica e, por conseguinte, para comercialização de excedentes. A empresa também se preocupa em manter uma tecnologia de geração eficiente, pois com máquinas de ponta, apesar do elevado investimento, ocorre uma eficiência energética maior, menor espaço físico, custos menores de manutenção etc.
As estratégias da empresa têm obedecido dois objetivos principais:
a) Garantir a auto-suficiência futura para suas unidades industriais; e b) Garantir uma receita estável com a venda de excedentes para o setor elétrico.
Com referência ao primeiro objetivo, a empresa acredita que os mercados de açúcar e álcool são promissores e há necessidade de garantir o fornecimento de energia para as unidades industriais no futuro, havendo, portanto, necessidade de investimentos preventivos. No caso, esses investimentos em capacidade de geração aquém da auto-suficiência podem significar uma vantagem competitiva no futuro, conforme cenários de escassez de oferta de energia elétrica se apresentem ou seja necessária expansão na produção de açúcar e álcool. Considerando que investimentos em energia elétrica demoram geralmente, no mínimo, seis meses para serem efetivados, a necessidade de energia poderia ser um fator impeditivo para uma rápida expansão na produção de açúcar e álcool.50
Assim, a necessidade de investimentos preventivos fez com que a empresa fosse conduzida à comercialização de excedentes. De acordo com o entrevistado, devido ao efeito escala, a diferença era pequena entre o valor dos investimentos necessários para garantir a auto-suficiência e à geração de excedentes, conduzindo a empresa à opção por um parque termelétrico capaz de gerar excedentes. Essa economia de escala foi potencializada com o advento da crise energética em 2001, que promoveu a melhora na remuneração do MWh. No último trimestre daquele ano, a empresa fechou um contrato com a CPFL no qual o MWh foi estabelecido em R$ 70,00.
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De acordo com o entrevistado, caso a empresa necessitasse de dobrar a capacidade instalada demoraria cerca de um ano. Ademais, os investimentos são sempre implementados na entressafra.
Com a correção desse valor pelo IGPM, o MWh para 2003 estava cotado em R$ 100,00, considerado acima da média do mercado.
Desse modo, na safra 2003/2004, a usina está com um contrato firme de 27 MW, por dez anos, e três MW em energia interruptível. Esses três MW são considerados estratégicos, pois conforme se apresentem novas oportunidades de melhoria no preço da energia elétrica, os contratos fechados sob essas novas condições servem para pressionar a concessionária a fornecer melhores condições para o contrato firme, quando de sua renegociação.
Apesar do preço ter sido influenciado pela crise energética, a decisão de investimento, com financiamento do BNDES (primeira usina a conseguir este tipo de financiamento), foi tomada antes do racionamento, mostrando a estratégia da empresa em garantir a auto-suficiência, mas considerando também uma aposta no mercado de energia elétrica. Para concretização da linha de financiamento do BNDES, a CPFL garantiu o contrato de longo prazo (PPA) e parte da receita gerada pelo PPA vai diretamente para a amortização do financiamento concedido pelo BNDES.
A empresa já comercializou no Mercado Atacadista de Energia - MAE (via comercializadora), todavia, até a data da entrevista (março/2003), não havia recebido pela energia disponibilizada no MAE, representando uma quebra contratual. Considerando um preço conservador de fechamento de R$ 60/MWh, a empresa teria de R$ 2 a 3 milhões para receber à época. Essa energia foi entregue em 13,8 kV, vendida diretamente a CPFL comercializadora, inserindo-a no sistema da CPFL concessionária. Para tanto, a CPFL comercializadora cobrou 10% de comissão sobre o total faturado.
Em 1999, a empresa foi a primeira do setor sucroalcooleiro a comercializar com o consumidor livre, localizado na área de concessão de outra distribuidora de energia. Para tanto, foram também utilizados os serviços de uma comercializadora. Na oportunidade, o consumidor necessitava de uma energia excedente por três meses para atendimento a um contrato de exportação e a concessionária local não tinha capacidade para atendimento imediato. A usina sucroalcooleira pagou os custos de conexão e transporte à CPFL e a mais duas outras concessionárias. Com a CPFL, na época, a usina tinha um contrato de cinco MW e estava gerando oito MW. A CPFL pagava o equivalente a cinco MW com tarifa firme e os três MW restantes com tarifa interruptível (entre R$ 2,00 a R$ 3,00 por MWh). Na
tarifa interruptível não havia um compromisso de fornecimento continuo à CPFL. Assim, a usina pôde fechar um contrato de fornecimento com o consumidor livre, no qual a receita líquida da empresa foi de R$ 16/MWh (já retiradas as comissões da comercializadora que elaborou a operação e os custos de transporte). Em seqüência ao fechamento desse contrato, a CPFL passou a oferecer a mesma receita líquida à usina, tentando forçar um rompimento do contrato com o consumidor livre, fato que reforça a idéia de manter parte de seu total disponível para comercialização sem contratação de longo prazo, possibilitando aproveitar eventuais oportunidades que surjam.
A empresa aposta na tendência de que, conforme as necessidades energéticas do país aumentem, o bagaço será naturalmente aproveitado para geração de excedentes comercializáveis. Todavia, para o entrevistado, para acelerar esse processo, haveria necessidade de políticas públicas especificas para inserir a biomassa sucroalcooleira na matriz energética nacional. Outra opção para que a geração de excedentes seja dinamizada, poderá ser a falta de um planejamento energético, conduzindo novamente à escassez de energia elétrica no futuro, fato que poderia tornar a energia sucroalcooleira competitiva, conforme ocorrido em 2001.
Outros aspectos importantes na estratégia de geração de excedentes para o setor elétrico são a questão da imagem social e a garantia de fornecimento na entressafra. De acordo com o entrevistado, a geração de excedentes de energia elétrica contribui para a imagem social da empresa. Mesmo antes da crise energética, a empresa comercializava entre oito e dez MW a CPFL, significando o abastecimento de uma cidade com aproximadamente 170 mil habitantes (assumindo consumo médio de 170 KWh/mês e cinco habitantes por unidade consumidora).
Adicionalmente, a empresa também acredita que, sendo um agente produtor de energia elétrica e não somente consumidor, num eventual racionamento, a determinação dos órgãos normativos deverá ser promover o corte no fornecimento primeiramente de agentes somente consumidores de energia elétrica e, por último, aqueles que contribuem simultaneamente para o fornecimento de energia elétrica ao sistema, como os produtores independentes sucroalcooleiros. Desse modo, pode-se inferir que há motivação estratégica ligada ao risco de racionamento de energia elétrica.
A empresa está entrando em negociação com a Ecoenergy para promover a venda de certificados de créditos de carbono. Na opinião do entrevistado, as
dificuldades residem na burocracia na medição/contabilização das toneladas evitadas de carbono, realizada por auditoria externa credenciada pelo Banco Mundial. O entrevistado sugere que não haveria necessidade de medição, pois poderiam ser utilizados os registros do volume comercializado com o sistema elétrico para medição dos excedentes e dados da safra para medição do auto-suprimento, entre outras formas. Para o entrevistado, por bom tempo esse mercado vai ainda apresentar-se ilíquido e a empresa receia que, uma vez incorrido em todos os custos de certificação (inclusive os das comissões às consultorias e auditorias), possa encontrar dificuldades na comercialização dos créditos obtidos.
Em relação ao preço do MWh, o preço ideal seria em torno de R$ 120 ou R$ 130/MWh, para obtenção de uma rentabilidade atraente. A usina tem condições de fornecer entre 80 MW e 90 MW, com aproveitamento da palha e uso integral do bagaço. O entrevistado considera inadequado a usina ficar parada durante a entressafra, apresentando um fator de carga muito baixo em relação a sua capacidade de geração, significando investimentos sub-aproveitados.
Para preços do MWh muito inferiores ao julgado ideal, a empresa poderia até abandonar a produção de excedentes, desligando as turbinas de condensação (duas de seis MWA), sem interrupção no processo de geração de vapor de escape – necessário para produção de açúcar e álcool, poupando, assim, bagaço (que poderia ser destinado à comercialização in natura). Porém, uma vez realizados os investimentos, tal estratégia é considerada inviável, até porque se a unidade produtora não consume todo o vapor gerado, o excedente é jogado na atmosfera, o que significaria desperdício de bagaço. Esse fato motiva a que empresas aceitem valores inferiores ao ideal, pois o sistema foi equilibrado para geração de excedentes e, nesses casos, os custos associados à geração de excedentes são inferiores ao das usinas entrantes, que ainda necessitam realizar os investimentos para tornarem-se produtores independentes de energia elétrica.