• No results found

Apesar da intensa experiência de Osasco, acrescida daquelas de Minas Gerais em abril de 1968, o POC ainda tinha ainda, efetivamente, muitas dificuldades em se fazer presente no movimento operário. E, por volta do final de 1968 no exato momento em que as direções estaduais e a nacional

procuravam tirar as lições de toda essa movimentação que se deu, na ótica delas, à base de muito empirismo, veio o AI-5.

Neste momento do AI-5, o POC tinha células operárias em várias regiões industriais do país. Osasco, Guarulhos e no ABC em São Paulo; em Porto Alegre; em Recife; no Rio de Janeiro – Niterói; e em Salvador-Camaçari. As respectivas lideranças dos comitês de empresa tiveram que abandonar o local e serem deslocados para outros estados.

E, o seu impacto foi duplamente sentido. Em primeiro lugar, as lideranças populares do partido tiveram que entrar para a clandestinidade. E, sem que se tivesse previsto essa condição, quer dizer, o partido não tinha uma estrutura de retaguarda montada para dar conta dessa situação. Com efeito, a alternativa foi o deslocamento dos militantes entre os estados, e consequentemente, a perda de boa parte do trabalho desenvolvido ao longo do ascenso dos movimentos. O segundo impacto pode ser sentido com o prevalecimento das teses militaristas – e a evasão de militantes experientes para as organizações engajadas na luta armada. No POC isso foi fortemente sentido no Paraná, com a vinculação de militantes à VPR; no Rio Grande do Sul, com o surgimento do MCR; e no nordeste, com a perda de militantes para o MR-8 e o PCBR.

Em fevereiro de 1969, com a nova situação criada pelo AI-5, a Direção Nacional delegou às Secretarias Regionais que definissem os locais onde o partido concentraria sua atuação, privilegiando aquelas com maior potencial explosivo e onde o partido mantinha uma base segura. E a ênfase foi dada ao trabalho nos bairros e nos comitês clandestinos de empresa. E, acompanhada da orientação de “ganhar” aos poucos os operários – com toda a segurança possível.

Exemplo disso foi a mobilização de militantes para Osasco, onde foram montados dois aparelhos para a residência fixa desses militantes que se empregaram em indústrias locais, e também a montagem do aparelho em SCS, para fortalecer a célula do ABC. Nesses aparelhos foi montada uma imprensa própria.

Em Guarulhos o POC enfrentava particular dificuldade. A presença do PCB era intensa e atuante, além da existência de inúmeros informantes da polícia infiltrados entre os operários. Por essa razão, o POC, apesar de ter mantido militantes no município, não conseguiu enraizar-se no operariado local. A repressão que se seguiu às greves de 1968, acirrada no decorrer de 1969, fez com que o movimento operário refluísse. Para Szermeta, “com o golpe, o pessoal acabou se afastando um pouco do sindicato e se organizando paralelamente, porque não havia clima para organizar uma chapa”.228 E, neste

momento, o POC se via em dificuldades para organizar os comitês de fábrica. Analisando essa conjuntura, às vésperas da Conferência Regional paulista, de fevereiro de 1970, os redatores do “Caderno Regional de Debates” avaliavam que a política de arrocho salarial e a repressão política permitiam “prever zonas de tremenda explosividade, que seriam pólos de agitação de movimentos de massa”, situação esta considerada como “uma fase anterior à guerrilha”.

Formulada desde sua tese de doutorado (1989) por Daniel Aarão Reis Filho, a idéia de que várias organizações da esquerda supunham de que a ditadura seria incapaz de conseguir debelar o surto inflacionário e dar um novo impulso de desenvolvimento ao país, e, muito menos, equacionar as distorções

228

Depoimento de Stanislaw Szermeta à “Comissão da Verdade” do município de Osasco. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=T2m_B6l2esI. Acesso em 29/7/2015.

estruturais históricas da economia e sociedades brasileiras – essa tese é chamada de “utopia do impasse”.

Esta, para melhor aproveitar essa conjuntura, no sentido de se fortalecer sua posição de partido de vanguarda da luta de classes, seria necessária a realização de “ações especiais, ações concretas de propaganda armada”. Esta foi a saída encontrada. 229

A cisão do início de 1970 se deu em função da aproximação com a luta armada. Szermeta, reconhecendo que o POC não era propriamente uma organização militarista, mas sentia a necessidade de apoiar-se em armas para fazer a propaganda. “Os dois propunham as comissões, só que um propõem um coisa mais pura: não relacionamento com os movimentos a luta armada. E o outro propunha o relacionamento com a luta armada.”230

No entanto, o que se observava era um gradativo aumento da popularidade do governo Médici, certamente motivado pelo crescimento econômico verificado nos anos do seu governo, e também pelo eficiente trabalho de marketing político. O “milagre” apoiava-se em obras de infra- estrutura, que dinamizavam a construção civil e atraíam capitais externos para as indústrias de bens de capital e de consumo. A agroindústria de exportação também era estimulada. E tudo isso respaldado por um arrocho salarial que garantia elevadas taxas de lucro para as empresas.231 A situação de pleno emprego nos grandes centros urbanos desestimulava o enfrentamento mais radical com o regime.

229 POC-SP – “Caderno Regional de Debates”, fevereiro de 1970. CEDEM, Fundo POLOP,

documento 01219.

230 Depoimento a Américo de Moura, op. cit.

231 O crescimento do PIB foi nos seguintes índices oficiais: 1970

– 9,5%; 1971 – 11,3%; 1972 – 10,4%; 1973 -11,4%. REIS FILHO, 2014, p. 80.

A fase mais violenta da ditadura, chamada por alguns de “anos de chumbo”, 1968-1973, coincidiu com o “milagre brasileiro”, quando o PIB nacional crescia anualmente a índices superiores a 10%. Esse surto de intenso desenvolvimento econômico foi usado pelo regime para sua auto-afirmação através de eficientes campanhas midiáticas. E, setores do operariado industrial das grandes cidades, e da classe média, inegavelmente, se beneficiaram com a condição de pleno emprego que se estabeleceu para esses segmentos.232

Agravando os obstáculos políticos, as dificuldades operacionais do partido, que eram patentes, e se mostravam com toda força em atividades as mais prosaicas, como mostra essa análise de uma coordenação de células por ocasião dos festejos do primeiro de maio de 1971. Os panfletos que deveriam ter sido distribuídos para os trabalhadores na ocasião foram impressos com atraso e não puderam ser entregues; as pichações previstas não ocorreram devido “à inércia que a célula se em relação ao trabalho externo”.233

Aliado a isso, as células consideravam que boa parte das dificuldades encontradas se deviam ao desânimo que se abateu sobre parte do operariado após o golpe e a posterior inatividade do PCB. A resposta de parte da vanguarda operária foi, ainda nessa avaliação, o esquerdismo, manifestado, sobretudo, com o militarismo.

Nesta linha de raciocínio, Marcelo Ridenti avaliou que, excluído o PCB, que insistia na política de alianças, e os trotskistas do POR(T), adeptos ferrenhos do trabalho junto ao proletariado, todas as demais organizações da

232 Conf. ALMEIDA, Maria Hermínia Tavares de & WEIS, Luiz

– “Carro zero e pau-de-arara”, in SCHWARCZ, Lilia (org.) - História da Vida Privada. vol. IV. São Paulo: Cia das Letras, 1998, p. 332.

esquerda pagaram em armas contra a ditadura.234 Porém, a progressiva violência da repressão fez com que essas organizações se afastassem cada vez mais dos movimentos sociais – por isso o justo título da obra de J. Gorender, “Combate nas Trevas”. Na escuridão da clandestinidade, as organizações invariavelmente caíam na roda-viva das ações de expropriação apenas para fins de sobrevivência. As expropriações, como eram denominadas estas ações pelos guerrilheiros, eram cometidos muito mais com o objetivo de dar uma sobrevida às organizações do que agredir ao inimigo.235

Dentre as causas que teriam levado à opção por essa forma de luta, Ridenti rapidamente descartou o fechamento definitivo do regime quando do AI-5. Até porque, o início das ações armadas (COLINA, ALV, VPR), como já dissemos, lhe foram anteriores. Para este autor, que identificou um caráter libertário e de rebeldia de boa parte dos militantes da esquerda – fenômeno social típico do final dos anos sessenta - é uma das chaves explicativas.236

Tratava-se daquilo que Herbert Marcuse chamou de “a grande recusa”. Quer dizer, neste período, em escala global, parcelas da juventude se recusavam a aceitar as regras de uma sociedade que consideravam hipócrita e cerceadora das liberdades individuais. E, como dissemos acima, no Brasil, essa onda contestatória coincidiu com a ditadura. Em certo momento, até o POC – acusado por muitos de “intelectualista” e de “obeirista” - se viu envolvido nessa ciranda.

Estávamos pressionados pela ditadura, pelo regime militar, pela violência. Todas as panfletagens, todas as ações que o POC fazia, ele tinha que fazer, quer queira quer não armado. Mesmo não sabendo muito o manuseio das armas, mas tinha que ter....você ia de madrugada e ia encontrar uma “baratinha”, você ia ser parado, tinha que sair fora. Então, todas as panfletagens que se fazia tinha que ser armado, e como era um partido, se

234 RIDENTI, op.cit., p. 45.

235 GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas. 6ª edição. São Paulo: Editora Ática, 1999, 49. 236 RIDENTI, op. cit., p. 64.

fazia as panfletagens nos lugares mais diversos, na Ford, na Volks, em qualquer lugar que era possível, então a idéia era fazer isso. E nesse processo, o POC acabou estabelecendo relações com os setores, vamos dizer assim, da luta armada e acabamos, em 1970, caindo; o aparelho caiu. Nessa relação acabamos tendo que fugir. Alguns ficaram presos, o Arsenio, o Jaime, o pessoal que não conseguiu escapar da célula de Presidente Altino. E o pessoal da célula da Bela Vista acabou saindo e eu acabei caindo na clandestinidade. Foi em 70, e fiquei até 71 na clandestinidade, só que fui deslocado para o Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Acabei sendo preso em agosto de 71. 237

E, para ex-militantes, essa aproximação do POC com a “turma da pesada”, não significou apenas o “racha” de 1970, mas a queda do partido em 1971. Está é, expressamente, a opinião, por exemplo, de Leane Ferreira. Em seu depoimento ao autor, ela relatou que na sala de tortura, o coronel Carlos Brilhante Ustra, que chefiava o “interrogatório” berrava repetidamente o nome “Hiroaki Torigoe... Hiroaki Torigoe... Hiroaki Torigoe...”, sem que ela soubesse do que se tratava. Anos, depois, já em liberdade, veio a saber que era o nome de um membro de GTA (Grupo Tático Armado) da ALN, de quem Luiz Eduardo Merlino havia recebido um bilhete solicitando contato. Para ela, essa aproximação precipitou a queda do partido. Não consegui apurar a consistência dessa afirmação, nem mesmo da tentativa de contatos por parte de ALN com o POC. Hiroaki Torigoe foi morto poucos meses depois, no início de janeiro de 1972, quando militava no MOLIPO, ao que tudo indica, após violentas torturas. Permanece como um dos desaparecidos políticos. 238