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3.6 Oppsummering av teori
A noção de tópico vem sendo discutida no Brasil por vários autores, entre esses, Marcuschi (1991); Jubran et al (1991), Jubran (2006), Fávero (1999); Galvão (1996; 2004); Pinheiro (2005); Galembeck (2012). Esses estudos tiveram maior preocupação com o desenvolvimento das pesquisas sobre o tópico no interior do subgrupo Organização Textual- Interativa, na Gramática do Português Culto Falado no Brasil.
Partimos de uma noção mais geral na literatura acerca de tópico discursivo como elemento foco da conversação para situar que o engajamento de pessoas em uma interação se dá pela via do assunto, “aquilo acerca do qual se está falando” (BROWN E YULE, 1983, p. 73) e a organização tópica do discurso é fundamental e inerente a qualquer evento discursivo, no qual os falantes partilham enunciados.
Sobre isso, Fávero (1993) ressalta que o tópico é, antes de tudo, uma questão ligada ao conteúdo e que se desenvolve dentro de um processo colaborativo no qual se envolvem os participantes da interação. Assim, o sentido construído em uma interação se embasa numa sequência de fatores contextuais, nos quais estão envolvidos conhecimentos de mundo partilhados e as circunstâncias nas quais acontecem as conversações.
Nessa discussão, a autora ressalta que nem sempre a identificação do tópico é clara, pois é possível a ocorrência de um tópico implícito, oriundo do conhecimento partilhado pelos interactantes.
Há trabalhos, no âmbito dos estudos interacionais que discutem a questão de tópico, partindo de perspectivas voltadas para a interação, para o discurso entre outras. Mesmo em diferentes perspectivas, essas noções de tópico podem ser compreendidas de maneira não antagônicas, mas como complementares aos estudos nessa área.
Dedicando todo um capítulo da obra Discourse Analysis14 à noção de tópico,
Brown e Yule (1985) iniciam sua exposição sugerindo, alicerçados nos trabalhos de Keenan e Schieffelin (1976), que o tópico discursivo é uma questão de preocupação imediata e haveria, em qualquer texto, diferentes maneiras de expressar o tópico. Cada maneira representaria julgamentos do que está sendo escrito ou falado sobre o texto:
Há, em qualquer texto, um número de maneiras diferentes de expressar 'o tópico'. Cada maneira diferente de expressa-lo vai representar efetivamente uma opinião diferente do que está sendo escrito (ou falado) em um texto (BROWN E YULE, 1985:73) 15
Com base nesse excerto, somos levados a afirmar que o tópico recobre o que se fala. Contudo, com base nos mesmos autores, é possível afirmar que as definições dadas ao tópico não é algo fechado, hermético, havendo certa dificuldade em se estabelecer uma conceituação única para o tópico. Observa-se, no entanto, posicionamentos que, se não são comuns, pelo menos trazem similaridades entre os posicionamentos dos autores.
Brown e Yule (1985) dizem ser o tópico uma maneira intuitiva de se descrever um trecho sobre o que se fala.
Fávero (1993) ressalta que a noção de tópico é de importância vital para a compreensão dos processos de organização conversacional, sendo consenso entre os estudiosos dessa área que os usuários da língua têm noção de quando estão discorrendo acerca de um mesmo tópico, assim como têm igual noção quando os tópicos mudam, são cortados, criam digressões ou são retomados.
Segundo Jubran (2006a), a noção de tópico discursivo16 tem seu início nas abordagens que estão situadas no nível da frase e do enunciado, em conjunto com as oposições de tema/rema, dado/novo, figura/fundo e tópico/comentário. A partir desses estudos vieram à tona outras reflexões que ressaltaram a existência de maior dinamicidade do tópico como ativação/desativação de referentes e passa a abranger questões de ordem sintática e cognitiva.
Esse olhar permite visualizar um campo mais amplo que aborda o tópico em um universo que permite compreender sua estruturação em uma organização tanto global quanto local. É nessa estrutura que podemos observar as organizações estruturais do tópico, apresentando elementos hierárquicos e lineares.
Também Marcuschi (1991, p. 134) faz referências ao tópico na perspectiva discursiva, ressaltando:
15
[...] there is, for any text, a number of different ways of expressing ‘the topic’. Each different way of expressing ‘the topic’ will effectively represent a different judgment of what is being written (or spoken) about in a text. (Brown e Yule 1985:73) (tradução nossa)
16
Concordamos com Marega (2009) que há diferenças teóricas entre tópico discursivo e tópico frasal. Pinheiro (2005a) afirma que o tópico frasal não corresponde a um elemento que é o tópico da frase, mas uma frase que é o tópico do parágrafo – noção que respalda textos escritos. Já o tópico discursivo é uma categoria textual- interativa, identificada em textos falados e escritos.
[...] aspecto importante é que o tópico discursivo não é um dado a priori, mas uma construção realizada interativa e negociadamente. Assim, em qualquer interação verbal espontânea entre indivíduos em qualquer situação da vida diária, apesar de alguém propor um tópico, esse alguém nunca terá a certeza de conduzir o tópico até o final por conta própria, pois sempre haverá que contar com a participação do outro.
Em outras palavras, a condução do tópico não reside apenas na intencionalidade de um dos interactantes, mas na negociação de sentidos que é empreendida no transcurso da interação. Quando dois ou mais falantes encontram-se em situação interativa através da fala, estão, necessariamente, com suas atenções voltadas para um ou mais focos de atenção, os quais serão abordados a partir de suas concepções de mundo e de seus conhecimentos partilhados.
Parafraseando Marcuschi (2006), podemos dizer que um dos aspectos importantes do tópico discursivo é ser construído de e pela ação da interação negociada entre os participantes do evento interativo. Assim sendo, podemos dizer que o tópico é engendrado de maneira cooperativa através de sucessivas intersecções, desmembrando-se enquanto construção de enquadres de um todo textualizado.
Ao interagir, as pessoas colaboram mutuamente para o estabelecimento do tópico; há sempre um tema a se discutir e, com base nisso, os participantes constroem uma rede de significâncias, norteada por pontos focais da interação. Assim sendo, o tópico discursivo constitui elemento essencial em qualquer forma de interação falada ou escrita: as pessoas falam ou escrevem por terem algo a dizer, nem que sejam amenidades ou considerações apenas para preencher o tempo. Dessa forma, o tópico – aquilo de que se está falando – constitui o elemento que pode desencadear e manter a interação entre os interlocutores (no texto falado) ou entre o autor e o leitor (no texto escrito).
Por sua vez, Jubran et al (1991, p. 360) apontam que tópicos são “fragmentos textuais, de extensões variadas, recobrindo determinado assunto (tema), em pauta no segmento recortado para análise”. Galembeck (2012, p. 100) sugere considerações de essencialidade para o tópico discursivo, por este abranger princípios que são norteadores para sua compreensão:
O tópico discursivo pode ser considerado um dos elementos essenciais na produção da fala e, por conseguinte, dos estudos de língua falada, por abranger dois aspectos, ou melhor, dois princípios fundamentais para o estudo da fala: o princípio fundamentador e o organizador. O primeiro deles relaciona-se com o fato de o tópico (aqui entendido como ideia, assunto, alvo) constituir o ponto referência ou, simplesmente, o referente (ideia, assunto, alvo), algo imprescindível para a elaboração da fala. O princípio organizador, por sua vez, diz respeito ao próprio desenvolvimento dos referentes.
Jubran et al (1991) ressaltam ser o tópico discursivo uma categoria na qual se apresenta, de forma simultânea, os planos hierárquico (vertical) e linear (horizontal), além de duas abordagens basilares – sintática e discursiva – como partes integrantes de um mesmo conjunto no qual função e forma se comungam, permitindo ver o dito projetar-se no como é dito.
Para Pinheiro (2005, p.7), a topicalidade é tomada como princípio organizador do texto. A análise da conversação tópica considera a identificação e delimitação de segmentos e dos procedimentos pelos quais esses segmentos se distribuem na linearidade textual e se recobrem hierarquicamente, possibilitando, assim, a depreensão de dois planos: um horizontal, correspondendo à progressão dos tópicos, e outro vertical, decorrente de uma sucessiva especificação do tópico em pauta. Esses planos constituem estratégias de montagem do texto.
Fávero et al (1999) afirmam que na centração, o tópico é basicamente uma questão de conteúdo e que tal implica a utilização de referentes explícitos ou inferidos que se somam para o desenvolvimento do texto, seja falado ou escrito. Ressaltamos que o tópico na língua falada está sempre na dependência de um processo de colaboração entre os participantes da atividade interacional.
Tal dependência carece de um assunto a ser discutido entre os partícipes da interação, sendo esse assunto que marca o teor do evento interativo, uma vez que ocorre um processo de negociação no desenvolvimento deste ato em prol de algo comum. Entendemos que esse direcionamento consolida-se, na interação, como foco do evento de modo coerente permitindo aos interactantes construírem uma teia de significância ordenada.
Nesse sentido, compreendemos que foco e a coerência são elementos relevantes para a definição de tópico, já que estão imbricados nessa definição, uma vez que o tópico discursivo não é uma noção atribuída de maneira isolada. Assim sendo, buscamos desenvolver uma discussão sobre essa questão na seção a seguir.