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O período colonial brasileiro apresenta um rico material iconográfico que nos dá a ideia de como eram as paisagens e modos de vida da colônia. Este material encontra-se nos álbuns de artistas viajantes, quadros, gravuras e esculturas que foram produzidos significativamente a partir do século XIX com a abertura dos portos às nações amigas da Coroa portuguesa, o que facilitou o acesso e deslocamento pela colônia à vinda de expedições científicas, diplomatas, negociantes, engenheiros militares, e, entre estes, alguns talentosos artistas que retrataram o cotidiano da colônia brasileira.

Os três primeiros séculos da colonização apresentam uma iconografia mais escassa que foi sendo ampliada progressivamente à medida em que cresciam o interesse e acesso às terras brasileiras. Encontramos, nesta dissertação, apenas um documento ilustrando a presença do pandeiro no século XVII e nenhum para o século XVI. Devido a esta escassez de material iconográfico voltada para um tema tão específico, optou-se aqui por avançar um século adiante em busca de mais algum documento que pudesse ilustrar a presença do pandeiro no Brasil colônia, o que resultou em uma escolha positiva.

Apresentamos a seguir três documentos iconográficos que ilustram a presença dos pandeiros no período colonial brasileiro. O primeiro deles, representado pela figura 21, é de autoria de Johann Nieuhoff (1618-1672) e nos mostra em primeiro plano um casal de escravos negros tocando instrumentos de percussão. O homem toca um reco-reco de cabaça e a mulher toca um pandeiro redondo com platinelas enquanto dança.

21. Johann Nieuhoff. Negers Speelende op KalabaSen, 1682. Gravura29

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O autor da imagem, Johann Nieuhoff, chegou ao Brasil em 1640 a serviço da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais e aqui permaneceu por nove anos, experiência que relatou em Memorável viagem marítima e

As aquarelas das figuras 22 e 23 são de Carlos Julião (1740-1811) que, mesmo tendo nascido na Itália, serviu à Coroa Portuguesa como militar expedicionário nas colônias do Marrocos, China, Brasil e Índia. São cenas de cortejo e coroação de rainha e rei negros ocorridas na cidade do Rio de Janeiro na segunda metade do século XVIII. Entre tantos instrumentos musicais de origem europeia e africana, há um pandeiro redondo e outro quadrado em cada figura, tocados por escravos negros. O quadrado se toca com uma baqueta, como vemos hoje em algumas congadas mineiras, chamado pelos congadeiros de “tamburim”.

22. Coroação da rainha negra na Festa de Reis, 1776 (MOURA, 2012, p. 296)

24. Adufe e pandeiro juntos – detalhe da figura 22

25. Adufe e pandeiro juntos – detalhe da figura 23

As figuras 21, 22 e 23 mostram pandeiros redondos com platinelas e quadrados tocados com baqueta, entre os séculos XVII e XVIII no Brasil colônia, tal como estiveram presentes na Península Ibérica medieval, como vimos no capítulo 2, todos ainda sustentados na vertical, segundo a maneira tradicional de se tocar um frame drum (Anexo B).

Vendo esses pandeiros representados nas mãos de escravos negros, poderíamos supor que tenham origem africana, posto não havermos encontrado documentação iconográfica que os apresente em mãos de colonizadores portugueses. Como vimos, os documentos literários fazem o contraponto dessa suposição, mostrando que o pandeiro chegou ao Brasil com os primeiros navegantes e jesuítas, ainda na primeira metade do século XVI – antes, portanto, dos escravos negros.

Estes provinham de diferentes regiões da África e com idiomas, hábitos e costumes muito distintos. Entre os diferentes grupos culturais de escravos negros trazidos ao Brasil, vieram também aqueles de cultura islamizada como os Peuhl, os Mandinga e os Haussa, do norte da Nigéria, conhecidos na Bahia como negros malé e no Rio de Janeiro como negros alufá (RIBEIRO, 2006, p. 102). Grande parte dos povos africanos que vieram ao Brasil não contam, tradicionalmente, com um frame drum como instrumento musical presente em sua cultura, à exceção dos negros islamizados que fazem uso dos frame drums em suas atividades musicais como herança cultural do domínio árabe em seus territórios. Sabendo-se que os negros trazidos ao Brasil como escravos eram transportados sem nenhum dos seus pertences, apenas com a roupa do corpo, podemos supor que os negros islamizados teriam aqui se reencontrado com o pandeiro trazido pelos portugueses e mantido com este instrumento uma relação de identidade e aproximação cultural e musical observada nas figuras 21, 22 e 23.

Não contamos com informações que atestem a origem islâmica dos negros retratados nestas gravuras, apenas podemos supor que estes sejam escravos islamizados devido a localização das imagens, região de colonização holandesa na figura 21 e Rio de Janeiro nas figuras 22 e 23, locais de maior concentração de escravos islamizados na colônia. É possível também que estes personagens das gravuras pertençam a outras etnias, visto que estavam todas misturadas nas senzalas conforme a estratégia praticada de desestabilização da identidade cultural dos povos africanos que para o Brasil vieram, e que eles tenham ainda incorporado o pandeiro a suas práticas conforme ocorreu com tantas outras apropriações culturais devido às condições de convivência.

No terreno das suposições, aberto a pesquisas futuras, imagina-se que o pandeiro possa ter sido incorporado nas senzalas tanto pelas mãos de escravos islamizados, que apresentavam maior intimidade cultural com o instrumento, quanto por escravos de outras etnias que passaram a assimilar o uso dos instrumentos musicais europeus, como nos mostra as aquarelas de Carlos Julião (figuras 22 e 23). Em ambos os casos, mesmo que o pandeiro tenha sido incorporado pelos escravos negros, como nos mostra a iconografia da época, o pandeiro chegou ao Brasil junto aos primeiros colonizadores e jesuítas, ou seja, pelas mãos dos ibéricos portugueses.

COMENTÁRIOS FINAIS

Após apresentarmos o percurso que marcou a trajetória dos pandeiros ao Brasil desde a antiguidade histórica, passando pela idade média na Península Ibérica até chegar ao Novo Mundo no século XVI, retomaremos alguns pontos apresentados com o propósito de alinhá- los e conectá-los.

Iniciamos esta trajetória levantando algumas referências contemporâneas sobre o que podemos considerar como frame drums e pandeiros. Esta primeira etapa foi importante para apresentar ou esclarecer algumas ideias e conceitos sobre estes instrumentos, tão citados no decorrer dos capítulos posteriores. Observamos que o termo frame drums representa o conjunto de instrumentos de percussão caracterizados por sua forma de construção que inclui, basicamente, uma pele esticada a uma estrutura de profundidade menor do que o raio desta pele. Historicamente o termo frame drums trata de agrupar os instrumentos a partir de uma visão organológica e, o que pudemos observar é que, necessitamos acrescentar aspectos socioculturais para que estes instrumentos tanto continuem a formar uma família, um coletivo, quanto possam ser reconhecidos por suas identidades. Atualmente contamos com tecnologia suficiente para construirmos instrumentos que dispensam o corpo ressonador para a projeção sonora, sem descaracterizar seu timbre original, conforme foi apontado no exemplo de construção de uma conga cubana sem o corpo ressonador do tópico 1.2. Este novo formato de uma conga cubana atende a descrição organológica de um frame drum (pele presa a um aro ou a um corpo de proporção menor do que o raio de sua pele) e, caso não considerássemos os aspectos socioculturais e históricos envolvidos na classificação destes instrumentos, teríamos um moderno protótipo de conga cubana integrando a família de frame drums. Com relação aos pandeiros encontrados no Brasil, estes estão incluídos na categoria de frame drums tanto por seu aspecto organológico quanto pelos socioculturais e históricos que o caracterizam e identificam como instrumentos brasileiros. Todo o levantamento feito acerca da conceituação de frame drums, levou-nos a decisão de, nesta dissertação, manter este termo como forma de nos referirmos genericamente a este conjunto instrumental. Esse primeiro capítulo serviu a intenção de nos preparar para os capítulos posteriores, apresentando-nos a uma nomenclatura, conceituação e reflexões acerca dos instrumentos que viriam a ser citados, os frame drums e pandeiros. O Anexo A serve como material complementar a esse capítulo, pois nos introduz a alguns pandeiros e frame drums contemporâneos por meio de seu local de origem, nome, formato e a algumas particularidades e aspectos sócioculturais dos instrumentos levantados.

Após as reflexões e considerações sobre os frame drums e pandeiros na contemporaneidade expostas no capítulo 1, recuamos alguns séculos em busca de pistas sobre a origem ibero medieval dos pandeiros, expostas no capítulo 2. Este recuo foi necessário para a compreensão de aspectos históricos e culturais sobre o povo que, logo após o período Medieval, aportou em terras brasileiras, provindos da Península Ibérica e trazendo consigo muito de seus hábitos e costumes, entre estes os pandeiros. Os testemunhos da presença de

frame drums e pandeiros na Idade Media Peninsular foram representados, principalmente, por

registros iconográficos que ilustraram a utilização de frame drums quadrados e redondos, desde a antiguidade clássica, sendo tocados especialmente por mulheres em ocasiões cerimoniais, festivas, palacianas e religiosas. Notou-se que estes instrumentos fizeram parte da cultura do povo árabe que dominou a Península Ibérica por 780 anos, coabitando com judeus, muçulmanos e cristãos, todos fazendo uso de frame drums. Estes instrumentos eram chamados por diversos nomes que variavam de acordo com a sua origem árabe (duff), judaica (tof), ou galaico-portuguesa (pandeiro). Para efeito de compreensão o conteúdo desse capítulo foi dividido de forma a apresentar um panorama sociocultural do povo árabe à época da dominação da Península Ibérica e sua contribuição para a construção cultural deste território ocidental. Além dos árabes, representados especialmente pelos muçulmanos, a presença judaica e cristã, coabitando o mesmo território, foi muito significativa para esta construção cultural e, consequentemente, para a destacada presença dos frame drums e pandeiros. Ao final do século XV a palavra galaico-portuguesa pandeiro era frequentemente utilizada para representar especialmente os frame drums redondos em situação cotidiana, nas ocasiões formais o mesmo instrumento era chamado de tympanum, seu nome em latim, a língua culta do período. Os pandeiros passaram e ter, cada vez mais, elementos ressonadores como platinelas, o que apontava para uma mudança de padrão da estética sonora da época e para o protótipo do que hoje conhecemos como pandeiro no Brasil. Foram estes os instrumentos, já denominados pandeiros pela sua utilização popular, não formal, em idioma galaico-portugues, que aportaram ao Brasil no período colonial trazidos por aqueles que vieram de Portugal e anteviram a forma arredondada e a utilização popular do que hoje conhecemos como pandeiro no Brasil.

A trajetória dos pandeiros ao Brasil proposta por esta dissertação encerra-se com a chegada destes instrumentos pelas mãos dos primeiros colonizadores e sua permanência, desenvolvimento e utilização nos primeiros duzentos anos em território brasileiro, conforme apresentado no capítulo 3. Foi preciso reconhecer quem teriam sido estes primeiros

colonizadores que aportaram ao Novo Mundo vindos da Península Ibérica no final do período Medieval, repletos de remanescentes influências culturais herdadas pela permanência árabe de quase oito séculos no território peninsular conforme apresentado no capítulo 2. Estas influências fizeram com que os árabes viajassem ao Brasil colônia por meio da memória, hábitos e costumes do português que trouxe consigo os pandeiros em sua bagagem. Se por um lado não se contou com a presença física de árabes no início da colonização brasileira, o mesmo não se pode dizer dos judeus, cristãos-novos que aqui chegaram e que em muitos casos seguiram com seus costumes de forma cripto-judaica. Este povo contava com um frame

drum chamado tof como um representativo instrumento de sua cultura, conforme abordado no

capítulo 2, e, desta forma, devem haver colaborado para a permanência e disseminação do pandeiro no Brasil desde os primeiros anos de colonização. O pandeiro também chegou a servir aos propósitos cristãos como instrumento de catequização jesuíta em terras brasileiras, conforme relatos levantados por cartas da época. Nesta etapa contou-se novamente com alguns testemunhos iconográficos e outros textuais como forma de documentar a presença e utilização dos pandeiros em território brasileiro desde o início da colonização. A iconografia em território brasileiro nos mostrou pandeiros redondos, com ou sem pele, com platinelas ou quadrados tocados com baqueta em posição vertical sendo utilizados por uma massa popular, basicamente de escravos e em ocasiões de festividades na rua. Aqui vemos cumprir a promessa de utilização do pandeiro galaico-português como instrumento popular em lugar do

tympanum latim, tal qual ocorria no final do século XV na Península Ibérica. As mãos dos

índios catequizados ou dos escravos negros serviram para propagar a cultura e o gosto por tocar estes instrumentos que, se chegaram ao Brasil pelas mãos de colonizadores ibéricos impregnados da memória cultural árabe, por cristãos-novos e por padres jesuítas aqui se disseminaram no gosto popular. Vale considerar também a forte contribuição que os escravos islamizados vindos para o Brasil colônia exerceram pela permanência, desenvolvimento e propagação do pandeiro, pois, mesmo não trazendo consigo nenhum dos seus pertences na viagem dos navios negreiros, estes escravos islamizados carregaram a memória de sua cultura e se reencontraram com o pandeiro em território brasileiro, um representativo instrumento da cultura árabe e muçulmana.

De acordo com tudo o que foi apresentado pudemos notar que o pandeiro galaico- português do final do século XV encontrou no Brasil um terreno fértil para sua propagação e permanência. Os judeus e cristãos-novos, a memória cultural árabe do colonizador, os escravos islamizados e os índios e crianças catequizados foram os personagens que trouxeram

e/ou mantiveram o pandeiro e o interesse pela sua difusão em território colonial como instrumento de aceitação popular. Os pandeiros são hoje encontrados de norte a sul do Brasil, utilizados em diversas manifestações populares como na Folia de Reis, Congadas, Bumba- meu-boi, Capoeira, Cavalo Marinho, em gêneros musicais como o Choro, o Samba, o Frevo e, mais recentemente, na música pop. Cada uma destas manifestações e gêneros conta com um pandeiro diferente em sua forma de construção, tamanho, forma de sustentação para a execução musical e contexto sócio cultural, mas a todos chamamos pandeiro e possuem a mesma origem que teve início com os povos da antiguidade, passando para a Península Ibérica medieval e chegando ao Brasil e às terras do Novo Mundo de acordo com o que foi apresentado nesta dissertação. Aqui se abre um espaço para o desenvolvimento desta pesquisa que aponta para a continuidade desta trajetória dos pandeiros em território brasileiro após os primeiros duzentos anos de colonização, sua disseminação nacional e utilização em tantas e diferentes manifestações culturais da atualidade. Na primeira parte do Anexo A, apresentam- -se sucintamente alguns dos atuais pandeiros brasileiros, contextualizando a trajetória, a permanência, a transformação e a disseminação dos pandeiros, além de confrontar algumas das diferenças entre eles.

O conteúdo levantado e as reflexões geradas ao longo de toda a construção desta dissertação me levaram a perceber o quanto é possível se conhecer sobre um povo partindo de um instrumento, neste caso musical, que o represente. O pandeiro é considerado um dos instrumentos de maior identidade nacional e, por este motivo, o levantamento de fontes históricas e culturais envolvendo este instrumento representou um mergulho na história cultural do povo brasileiro. A trajetória dos pandeiros ao Brasil não se deu apenas por meio de uma viagem transatlântica em caravanas portuguesas, é uma trajetória que percorreu séculos e milênios viajando por muitos caminhos, regiões e culturas pelas mãos das pessoas envolvidas com o fazer musical, artístico e cultural em que foram envolvidos os pandeiros.

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