5 Analyse
5.4 Oppsummering av analysen
A dinâmica dos fatos desenvolveu-se de forma tão acelerada que mesmo os idealizadores deste projeto reconheciam que, na perspectiva de “controle do eleitorado”, tornara-se impossível prever os resultados políticos advindos das grandes imigrações. Homens de longa data da ARENA e do PDS94, absolutamente hegemônicos no estado durante o todo o regime militar95, atestam que o ambiente político durante e após as imigrações era completamente novo, o que os obrigava a repensar suas velhas táticas e estratégias de “convencimento eleitoral” diante da massa de novos eleitores que chegavam ao Araguaia e ao norte do Mato Grosso.
Júlio Campos, ex-senador e governador do estado (1983-1986), ao responder numa entrevista sobre as consequências deste processo, em meados da década de 1980, revela não só o seu desconhecimento frente aos novos colonos, como também esclarece as “concepções de cidadania” que ainda dominavam o pensamento político das elites mato- grossenses mais conservadoras (a dele, inclusive) até o final do século XX:
[...] Hoje tá difícil até saber! E que migração intensa! Quem quiser falar do comando político em MT é besteira, porque eleição muda de ano pra ano. A eleição de 78 foi diferente da de 82, e a de 86 vai ser totalmente diferente. Só para você ter idéia: no pleito passado (1982), MT tinha 580 mil eleitores inscritos. Agora (1986) tem quase 1 milhão ... quatro anos depois! E de onde veio esse povo? O Nortão tinha 45 ou 50 mil eleitores, em todos os municípios: Sinop, Colíder, Alta Floresta. Hoje, tem 200 mil, aumentou cento e tantos mil eleitores em três anos e meio – e são todos migrantes! Não tem mato-grossense no Nortão. Esse eleitorado novo, que vem para MT, ninguém sabe o que pensa. Não é um favorzinho pessoal que vai funcionar. [..] “Não, agora a troca é mais em termos de obras e benefícios. Por exemplo: o pessoal no novo MT quer estrada, quer energia elétrica, quer bens para a comunidade. Não adianta, lá não pedem emprego. É diferente, você não acha funcionário público lá, ou ter que implorar para a pessoa trabalhar. Isso porque todo mundo tem emprego, todo mundo quer ter asfalto, quer a rede de esgoto, quer a unidade sanitária, que escolas boas... quer todos esses benefícios, é claro.[...] Então, a reivindicação maior hoje é a comunitária. A troca continua, mas só que é a troca das obras e benefícios para a região, e não a troca pessoal. (Entrevista com Jaime Campos, apud NEVES (b), 2001:221)
A surpresa e o desconhecimento diante de toda essa movimentação não eram sem razão. As migrações não só trouxeram um acréscimo quantitativo à população do estado, relativamente estabilizada até a primeira metade do século XX, como também lhe
94 Partidos de sustentação ao regime militar (!964-1984). A ARENA (“Aliança Renovadora Nacional) nasceu com a reforma partidária implementada logo após o golpe militar de 1964. Em 1980, uma nova reforma partidária, ainda sob jugo militar, a transforma em PDS (“Partido Democrático Social”). Deste sairá a mais famosa “dissidência continuista”do regime militar, o “Partido da Frente Liberal” (PFL), que sobreviveu até 2006. Com a vitória da reeleição do presidente Lula (PT) neste mesmo ano, principal opositor da agremiação, o “Velho PFL”, em rápido descenso eleitoral (de 105 deputados federais em 1998 cai para 56 em 2010), torna a mudar sua denominação para DEM (“Democratas”), no ano de 2007.
95 Tornou-se conhecido o fato de que o Mato Grosso foi o estado da federação que menos contribuiu para a expressiva vitória
do PMDB (partido de oposição ao regime militar) nas famosas eleições de 1974, quando a oposição alcançou a margem de 74% dos votos. (Quanto a isso, ver NEVES, 2001: 23, 277 e 290; CARVALHO, 2007: 209-215)
imprimiram uma nova estrutura e configuração histórica. Iniciadas como projetos de assentamentos agrários, as migrações tornar-se-iam rapidamente em movimentos de urbanização a partir da década de 80, o que acabou por estabilizar a população rural na faixa de 500.000 habitantes durante as três décadas seguintes:
Gráfico 5: Crescimento populacional do Mato Grosso, 1940-2010; população total, rural e urbana:
População do Estado de Mato Grosso
0 500.000 1.000.000 1.500.000 2.000.000 2.500.000 3.000.000 3.500.000 1940 1950 1960 1970 1977 1980 1991 2000 2010 População rural População urbana
Fonte: IBGE 1952; 1956; 1967; 1971 2000. O ano de 2010 é uma estimativa da Secretaria de Planejamento do Estado de Mato Grosso. Todos os dados já são referentes ao atual território do estado de Mato Grosso, mesmo os registrados antes da divisão com o Mato Grosso, ocorrida em 1977
Tal estabilização, porém, de forma alguma impediria os planejamentos governamentais e empresariais para o estado. Pelo contrário; com uma rede relativamente numerosa de novas cidades de apoio, o estado adquiriu um perfil típico das áreas mundiais de produção moderna de grãos para abastecimento nacional e exportação, isto é, economias de base agrícola com populações de residência urbana. Com isso, Mato grosso superou os problemas econômicos decorrentes dos primeiros anos da divisão do estado (1977-85) e pode então se tornar, mediante aplicação intensiva de capitais externos à sua economia (bem como a expansão da área agrícola em mais de 800%), numa das maiores áreas do agronegócio brasileiro e mesmo mundial, perfazendo atualmente 8% da produção internacional de grãos com uma população atual de apenas 3,000.000 de habitantes.
Como bem se sabe pelo conjunto do noticiário nacional e regional, esse modelo trouxe o céu e o inferno às populações mato-grossense que já residiam no estado ou que para lá se dirigiram. Se, por um lado, ele promoveu sucessivos recordes de crescimento econômico e oferta de empregos, bem como de determinada ascensão social para contingentes expressivos da população, por outro construiu um cenário de enorme desigualdade social e sérios problemas ambientais. O gráfico a seguir demonstra bem a dimensão deste cenário. Ao cabo de uma década, o “tigre pantaneiro” - como tem sido usualmente chamado nos meios midiáticos locais, numa alusão, neste caso real, ao crescimento econômico dos países do sudeste asiático - bateu recordes sucessivos de
exportação: de U$ 652 milhões em 1998, atingiu 8 bilhões e 637 milhões em 2009, um crescimento de 1325%:
Gráfico 6 : Exportações do estado de Mato Grosso: 1998-2009.
Exportações de Mato Grosso (em US$ bilhões)
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 1998 1999 2000 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 R $ B ilh õe s
Fonte: “Revista RDM”, 13/09/2008: 36; “Jornal A Gazeta”, 09/01/2010, 1º caderno: 2; “Diário de Cuiabá”, 09/01/2010, Caderno 2: 1; “SEPLAN –MT”
Porém, apesar de todas estas transformações, “sobravam” ainda os espaços – e continuam a “sobrar” - para a “política tradicional” das velhas elites oligárquicas. Sob as mais variadas formas, ela acabou por sobreviver à margem (ou dependente) do acelerado mundo do agronegócio, reproduzindo assim, com algumas modificações, os velhos vícios do passado calcados no clientelismo e fisiologismo exacerbados:
Uma outra coisa: em termos de periferia de Cuiabá, Várzea Grande e até o velho MT, ainda funciona mais o agrado, a presença física, o carinho, a relação humana, o presentinho. Mas o pessoal, muitas vezes, está tão sem-vergonha que pega o seu presente e não vota pra você (risos). Antigamente, não. Mas ainda existe aquele tipo que, desde cedo, chegava na sua casa e ficava (...). E, infelizmente, ainda sai muito caro fazer uma eleição. ( Entrevista com Júlio Campos, ARENA, apud NEVES, 2001:222). Prensada entre tradição e o “terremoto socioeconômico” (CARON, 2005: 6-10), Barra do Garças viu seu espaço geográfico modificar-se radicalmente neste período, tanto pelas contínuas emancipações dos velhos distritos como pela fundação das novas cidades que nasceram das mãos dos colonos gaúchos e paranaenses. A área do município, que já diminuíra de 212.000 Km² para 121.936 Km², na década de 1960-70, se reduzirá paulatinamente para 77.849 Km² em 1980, 40.050 Km² em 1985, 30.752 Km² em 1990 até chegar aos atuais 9.141 Km².
No que se refere ao quantitativo populacional, este flutuou de 17. 318 em 1970 para até 130.000 em 1985 (ainda nas sobras da “Grande Barra”), reduzindo-se posteriormente para 66.647 em 1990 (ou 75.000) e decaindo após este ano para os atuais 54.714 (2007). Contudo, no que tange à sede do município, a população permaneceu em crescimento
constante: 6.300 em 1950;. 17.318 em 1970; 33.906 em 1980; 45.606 em 1990 e 47.136 em 2000,96, o que a situa no característico processo de “urbanização interiorana” que marcou o espaço brasileiro nas duas últimas décadas do século XX (FERREIRA, 2001; SANTOS, 2001: 283 e 2009: 52-75). Com isso, Barra do Garças deixou de ser considerada a “Capital
das Agropecuárias” e “o maior centro produtor rizícola do Brasil” (VARJÃO, 1985: 117) para
consolidar-se como importante entreposto comercial regional mato-grossense e goiano. Por conseguinte, a população do município tornou-se majoritariamente urbana (embora ainda conte com uma área rural relativamente extensa quando comparada à zona urbana – Mapa 8), e o setor terciário se consolidou como o principal recrutador da força de trabalho local.
Como conseqüência desta movimentação, sua área urbana sofreu profundas modificações. Com a retirada de parte da população imigrante das áreas centrais para loteamentos distantes e periféricos (RIBEIRO, 2001), a cidade passou a assistir, num sítio urbano com aproximadamente 30.000 a 35.000 habitantes na época, uma reprodução adaptada do traço característico das grandes metrópoles brasileiras e do 3º mundo, isto é, com um centro pujante ladeado de bairros longínquos nos quais reside a população majoritariamente de baixa renda (Mapa 7). Estes, no entanto, ao invés de se transformarem em espaços de resistência e organização popular, tornaram-se os novos “currais eleitorais” a serviço do “exercício clientelista” das velhas oligarquias da cidade. (RIBEIRO, 2001). A município ainda ganhou, em meados da década de 1980, um campus universitário federal da UFMT (que se localizará em Pontal do Araguaia com a emancipação desta, em 198497), ao qual se agregou alguns investimentos federais na melhoria da estrutura urbana. Além disso, Barra do Garças também se incluiu na esteira da privatização do ensino superior na década de 1990, sob a presidência de Fernando Collor de Melo e de Fernando Henrique Cardoso, com a inauguração de instituições particulares de 3º grau. Dessa forma, a cidade passou a atrair toda uma parcela da nova juventude local e regional que não consegue aprovação para o ingresso nas redes universitárias federais.
96 Ressalte-se aqui a problemática das estatísticas populacionais a respeito da população barra-garcense. Em função do
interesse do repasse de verbas, aliado ao processo de modificação territorial comentado, muitos foram os falseamentos das informações destinadas ao IBGE por parte dos dirigentes oligárquicos da prefeitura, hábito que predominou até o ano de 2000 e, suspeitamos, ainda persiste, como veremos no capítulo 5 (RIBEIRO, 2001e CASALDÁLIGA, 1971).
97 Há que se recordar que foi somente em 2008 que a cidade de Barra do Garças ganhou, de fato, um campus univiersitário
federal em sua própria área urbana, o qual encontra-se em funcionamento inicial e com obras em expansão (2010). Mesmo quando Pontal do Araguaia não era ainda um município emancipado, a área em que se encontrava o campus da Universidade Federal de Mato Grosso pertencia ao município de Torixoréu, com sede urbana a 90 Km ao sul de Barrra do Garças.