A direção da REG coube, de início, a Théodore Reinach. Dois fatores tornam hoje essa nomeação intrigante. Em primeiro lugar, Théodore estava longe de ser um antiquisant consagrado em 1888. Tratava-se, em verdade, de um jovem de 28 anos de idade, apenas no início de sua carreira como pesquisador. Além disso, ele havia trilhado uma formação atípica se comparada à dos grandes helenistas de sua geração, não tendo sido nem aluno da École Normale Supérieure (ENS) nem membro da É ole F a çaise d’Ath es (EFA). Mas o que, então, tornou-o apto a assumir esse papel que ele desempenhou por vinte anos? Uma resposta a tal questão deve ser procurada em sua própria trajetória profissional e em seu círculo familiar.
Nascido nos arredores de Paris, em Saint-Germain-en-Laye, Théodore foi o mais novo dos três filhos do banqueiro alemão Hermann Reinach (1814-1899), instalado na França em 1843 e naturalizado francês um ano depois. Escorado por um casamento vantajoso com Julia Büding, proveniente de uma família de banqueiros alemães, e tendo realizado uma carreira comercial de sucesso, a qual incluiu missões diplomáticas oficiais na Península Ibérica, Hermann logrou fazer de sua casa um espaço frequentado por personalidades como Adolphe Thiers e Ernest Renan. Esses contatos com os mundos político e letrado, associados à fortuna da família, foram mais tarde mobilizados para promover as carreiras dos filhos5.
Joseph Reinach (1856-1821), o varão, tornou-se um dos maiores publicistas da Terceira República. Graduado na Faculdade de Direito de Paris, ele foi direcionado, primeiro por Thiers e depois por Léon Gambetta, para o mundo da política e da grande imprensa. Diretor, por indicação direta de Gambetta, do jornal La République Française a partir de 1882, ele foi eleito para o primeiro de seus quatro mandatos não consecutivos de deputado nacional em 1889. Joseph destacou-se ainda por ocasião do Affaire Dreyfus, quando assumiu a defesa processual do capitão acusado, ajudou a fundar a Ligue des D oits de l’Ho e et du Cito e e atuou nos
4 Entre o segundo semestre de 1906 e o terceiro de 1907, Jules Petit-Jea àapa e eà o oà ge e te àdaà
REG ao lado de Théodore Reinach. No quarto semestre de 1907, o mesmo Petit-Jean transforma-se em se et io àdeàGustavoàGlotz.àOàe e pla àdaà‘EGà ueà i ulouà oàp i ei oàt i est e de 1908 trouxe Albert Cuny nessaàfu çãoàdeà se et io ,àse doàsu edidoà osàdoisàvolu esàsegui tesàpo àLouisàGe et.à Difícil saber ao certo em que consistiam as atribuições desses cargos sem cruzar as correspondências dos envolvidos.
115 jornais cotidianos em favor da causa. Dos três irmãos, ele foi o último a aderir a AEEG, justo no momento em que a REG estava sendo criada.
Quanto a Salomon Reinach (1858-1932), o filho do meio, ele trilhou a via régia dos universitários. Educado no Liceu Fontaine, depois rebatisado Condorcet, obteve seis prêmios de primeiro lugar no concours général, ingressando mais tarde em primeiro lugar na ENS, de onde saiu agrégé de grammaire (em 1879, também em primeiro lugar). Na sequência, Salomon obteve um posto na EFA e participou da abertura da frente de escavações francesas no norte da África. Embora tenha se revelado um polígrafo, escrevendo sobre filosofia, filolofia, história da arte, gramática e história, ele seguiu institucionalmente a carreira de arqueólogo, estando ligado desde meados da década de 1880 à École du Louvre, ao Musée des Antiquités Nationales (do qual foi nomeado diretor em 1902) e à Revue Archéologique (da qual se tornou codiretor a partir de 1903)6. Na vida pública, destacou-se também como dreyfusard. Dos membros de sua família, ele foi o primeiro a ingressar na AEEG (1878), vindo a ser seu presidente entre 1902 e 1903.
Experimentando desde cedo um ambiente de intensa emulação em casa, o caçula Théodore (1860-1928), à sua maneira, combinou elementos das trajetórias de seus irmãos. Cursando também o Liceu Fontaine, ele superou Salomon ao conquistar em três anos consecutivos dezoito prêmios de primeiro lugar no concours général, feito que, lembram os necrológios a ele dedicados, renderam-lheà aà fa aà a io alà deà p odígio 7. Quanto aos seus estudos superiores, Théodore seguiu os passos de Joseph, cursando direito em Paris. Ao ofício de advogado, contudo, agregou a atividade de pesquisador e de artista (tradutor e compositor). Em 1880, tendo então apenas vinte anos, publicou uma tradução comentada do Hamlet, de Shakespeare, e uma memória jurídica intitulada De l’e ti tio des p ivil ges et hypothèques8. Quatro anos depois, lançou pela Hachette uma história do povo judeu, discutindo o período que abarca a dispersão judaica sob o domínio romano e o presente do autor (REINACH, Th., 1884). Em 1885, por fim, obteve seu primeiro doutorado, em direito,
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A trajetória de Salomon Reinach será discutida com mais detalhes no item 3.2 da presente tese.
7 Veja-se GLOTZ, 1928 e JAMOT, 1928. E tal fama atravessou gerações: em uma passagem polêmica de
suas memórias, o escritor Julien Benda se referiu ao sucesso escolar dos irmãos Reinach como um dos alimentos do antissemitismo f a s.àáàpassage àdizàoàsegui te:à Oà ueàtodaàu aà u guesiaàjudai aà mostrava então como modelo aos seus filhos eram os três irmãos Reinach, os quais acabavam de obter todos os prêmios no concours général. Bem natural em seres aos quais se acaba de dar a liberdade (...), estaàp essaàdosàjudeusàe à ost a à ue àelesàe a à– a se encaminhar às escolas do governo, nas quais eles entravam frequentemente em primeiro lugar, e ao Conselho de Estado – terá sido uma das causas principais de suas futuras infelicidades, das quais o Caso Dreyfus deveria ser o símbolo mais claro. O triunfo dos Reinachs no concours général me parece uma das fontes essenciais do antissemitismo, tal como ele deveria aparecer quinze anos mais tarde. Que os judeus se dessem conta ou não, tais sucessos e a àse tidosàpo àout osàf a esesà o oàu àatoàdeàviol ia à BENDá,à :à -43).
116 defedendo uma tese sobre o dispositivo legal do estádio de sítio em Roma Antiga e na França Moderna (REINACH, Th., 1885).
Foi nesse momento preciso que a trajetória de Théodore se orientou para os estudos gregos. Tornado membro da AEEG em 1884, ele iniciou em seguida estudos de história antiga e de filologia, dessa vez na École Pratique des Hautes Études e sob supervisão de Henri Weil, helenista judeu-alemão radicado na França9. Decorrem dessa nova fase seus primeiros trabalhos voltados à numismática antiga – Les Monnaies Juives (1887) e Trois Royaumes de l’Asie Mi eu e (1888) –, bem como o início da pesquisa de doutorado, na qual ele reconstituiu, a partir de diversos suportes documentais (epigráficos, numismáticos e literários), a história de Mitríades Eupator, o rei do Ponto. Embora a tese só tenha sido defendida na Sorbonne em 1890, é possível inferir que, diante de tal cenário, o nome de Théodore deveria soar bem aos ouvidos dos membros mais velhos e influentes dentro da AEEG. Jovem, com uma incrível disciplina de trabalho atestada desde os tempos de colégio, versado em vários idiomas, rico e dotado de contatos importantes em diversas esferas sociais: a aposta dificilmente poderia ser mais segura. E, de fato, ela surtiu efeitos positivos para a associação.
Uma vez elevado ao posto de diretor da REG, Théodore ocupou rapidamente o centro dos estudos gregos, destacando-se também na abertura de novos campos de trabalho. Ele estabeleceu de pronto relações com a EFA, publicando no BCH e trabalhando lado a lado com a referida instituição na análise dos materiais arqueológicos por ela encontrados10. Quanto a isto, Théodore se notabilizou por examinar os primeiros grandes conjuntos relativamente completos de notações musicais da antiguidade, os então recém-descobertos hinos délficos a Apolo11. O diretor da REG ainda atuou em favor da EFA para ampliar os sítios arqueológicos franceses no oriente, em particular no território sob domínio otomano. Some-se a essas atividades a atuação como docente livre, ou seja, sem vínculo efetivo, em instituições como a Faculdade de Letras de Paris (curso de numismática antiga entre 1894-97 e em 1901) e a École Libre de Sciences Sociales. Antes de desvincular-se de seu cargo na REG, Théodore assumiu ainda a direção da Gazette des Beaux-Arts em 1906, bem como publicou traduções de obras gregas ainda inéditas em francês de Plutarco (1900) e de Aristóteles (1891).
9 Henri Weil (1818-1909) foi também um dos fundadores da AEEG. Veja-se, sobre ele, a longa
homenagem publicada na REG (1909: 373-385) e a notícia, assinada por Salomon Reinach, na RA (1909/2: 459).
10 Entre 1888 e 1920, Théodore Reinach publicou quatorze artigos no BCH. Seus temas principais
versavam sobre inscrições encontradas em escavações, adaptações modernas das partituras musicais antigas de Delfos e o sistema financeiro antigo. Veja-se BCH, 1890: 571-545; 1893: 34-39 e 584-610; 1894: 363-389; 1896: 251-256 e 523-548; 1900: 324-328; 1904: 5-19; 1905: 257-258; 1906: 46-51; 1908: 499-513; 1909: 547; 1910: 429-431 e 431-432.
11 Théodore Reinach, com a ajuda de Gabriel Fauré, ainda orquestrou e executou o primeiro deles.
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