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“A Caridade deve ser o nosso ímpeto, o nosso ardor, a nossa vida”. Com esse

pensamento, Dom Orione, fundador da Pequena Obra da Divina Providência191, resume

o que deveria ser a grande meta dos seus seguidores. Na realidade, a caridade não é apenas a virtude cristã que melhor representa a concepção de misericórdia; ela é o instrumento poderoso de aproximação social e de socialização da doutrina cristã- católica, que promoveu e ainda promove intensa ação sobre indivíduos empobrecidos e desamparados dos mais diversos lugares do planeta e nas mais diferentes circunstâncias.

Desde o período medieval, as ordens religiosas se ocuparam com os pobres. Nas formações urbanas, no aparecimento das cidades medievais européias, a atuação dos clérigos, com as organizações religiosas, foi parte ativa da reformulação econômica e política que estava começando a acontecer naquelas sociedades.192

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Luiz Orione (1872-1940), fundador da Pequena Obra da Divina Providência, nasceu em Pontecurone, Itália. Travou contato com os franciscanos em Voghera (1885-1889) e com Dom Bosco em Turim (1886- 1889). Sua experiência religiosa o levou ao contato com as colônias agrícolas, as escolas profissionais, os artesãos, as casas de caridade, os pequenos cottolengos. Sua obra se estende aos Eremitas da Divina Providência (1898), às Pequenas Irmãs Missionárias da Caridade (1915), às Irmãs Sacramentinas Cegas Adoradoras (1927). Esteve na América do Sul, incluisve no Brasil (1921 em São Paulo e 1937 no Rio de Janeiro) , visitando suas obras missionárias, entre 1921-22 e 1934-37. Em São Paulo, destacam-se as obras orionitas da paróquia de Nossa Senhora da Achiropita, localizada na Bela Vista (Bixiga), com o Centro Educacional Dom Orione, que atende crianças de 7 a 15 anos. Dom Orione foi beatificado, em 1980, pelo Papa João Paulo II. Na obra ORIONE, Luiz. Dom Orione aos seus Religiosos. São Paulo: Editora Pequena Obra da Divina Providência: 1987, o próprio Dom Orione assinala: “Há os religiosos beneditinos, que têm a sua finalidade. Há os franciscanos que tem sua finalidade. Há os dominicanos, que tem a sua finalidade. Há os jesuítas que têm a sua finalidade toda particular. Nós também temos uma finalidade toda nossa (...), uma natureza, uma nota que nos deve diferenciar de todas as outras congregações. E se me perguntas qual é essa nota, (...) eu vos digo que é a dinamite da caridade.” Em, PATTARELLO, Padre Valdástico. Perfil de Dom Orione. 4ª edição. São Paulo: Editora Loyola, 1986, encontram-se informações detalhadas sobre a vida religiosa de Luiz Orione.

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Ver a este respeito LE GOFF, Jacques. Por Amor às Cidades. São Paulo: Unesp, 1998. Este autor menciona, principalmente, as ordens mendicantes como responsáveis pelo contato com os pobres e por mudanças importantes no espaço urbano no final da Idade Média. Outro autor, MOLLAT, Michel. Os Pobres na Idade Média. Rio de Janeiro: Campus, 1989, chega a afirmar que havia uma “Política dos Pobres”, a partir do século XIV.

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Do século XVI em diante, o trabalho de aproximação dos pobres continuou se intensificando. As grandes transformações do cristianismo, com a Reforma Protestante, aliadas ao avanço da urbanização e migração dos camponeses para as cidades, foram sérias ameaças à Igreja Católica, acostumada a lidar com os fiéis nos campos, sem grandes ameaças de cismas, combatendo as heresias com a eficácia de suas forças políticas e inquisitoriais. Entre as medidas tomadas pelo Concílio de Trento (1545- 1563), houve uma que ratificou a necessidade de se manter a evangelização, uma catequese intensiva e extensiva entre os pobres, cabendo especialmente à ordem jesuítica, a tarefa de executar os planos de combate direto às novas idéias, atuando junto à população.193

Durante o século XIX, a situação estava nitidamente mudada. A Igreja tentava reorganizar-se e juntar suas forças com o objetivo de, mais uma vez, aproximar-se dos pobres. Dessa vez, a sociedade urbano-industrial constituía-se no grande desafio. Educar e evangelizar os trabalhadores empobrecidos pela avareza dos patrões, e ensinar a estes que o reino de Deus estava aberto aos ricos misericordiosos, e não aos que apenas acumulavam riqueza sem se incomodarem com aqueles que a produziam; era uma meta importante dos novos missionários, entre eles, os orionitas, ordem que apareceu durante esses embates, fundada por Luiz Orione que, seguindo essa tendência, propôs a criação de uma instituição de caráter catequético-missionário.

Todos os autores que apresentam a obra de Luís Orione, enfatizam a sua aproximação com Dom Bosco. Para um deles, Dom Bosco pode ser considerado o

grande Mestre de Orione194. Com 15 anos, teria mantido contato com os textos da

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A interessante obra de CHÂTELLIER, Louis. A Religião dos Pobres. Lisboa: Estampa, 1995, que investiga a atuação das ordens religiosas no trabalho de catequese entre os séculos XVI e XIX, salienta a importância do trabalho missionário dos jesuítas, e de outras ordens, na formação de uma nova etapa do cristianismo adequado às grandes transformações sociais por que passava a Europa naquela fase.

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pedagogia nova, enquanto aluno de Dom Bosco e mesmo após sua morte, o discípulo continuaria a seguir fielmente suas idéias ao construir a própria Congregação.

A experiência de Dom Bosco que, em resumo, pode ser denominada pedagogia de um pastor de jovens, aponta aquilo que deve conter seu ambiente educativo: luz, paz

fraterna e alegria.195 Assim, não sendo considerado propriamente um teórico da

educação, Dom Bosco lança seu método que se constitui num tratado pedagógico. Embora esse método esteja delineado por uma série de elementos, não diretamente educativos, mas que influem de modo determinante na educação, devemos, de qualquer forma, considerá-lo uma proposta pedagógica .

Dom Bosco, assim como seus seguidores, os salesianos, consideram, um dever, possuir carisma. A pedagogia de Dom Bosco é definida por Joseph Aubry, como um elemento do seu carisma global que, por sua vez, seria fruto de um “santo, fundador

carismático.”196 Portanto, a realização dessa pedagogia dependia de uma qualidade

pessoal trabalhada e desenvolvida pelos educadores.

Embora não existam muitos elementos que ajudem a compreender o que seja exatamente esse carisma, é possível entendê-lo no sentido religioso, que significa possuir uma qualidade especial ou dom próprio dos bem-aventurados, ou daqueles que

se consideram inspirados pela luz divina.197 De qualquer forma, na opinião dos

salesianos, essa qualidade deve ser inerente ao educador.

Uma indício do que significa o carisma em Dom Bosco, pode ser encontrada na explicação de Aubry sobre o sistema preventivo, quando afirma que:

195

Cf. AUBRY, Joseph. Os princípios educativos de Dom Bosco. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1979, p. 7-12.

196

Idem, Ibidem, p. 10. 197

Comentando sobre o carisma, SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, capítulo 12, p. 329, afirma que: “A doutrina do carisma era eminentemente civilizada; era tolerante diante da fraqueza humana, ao mesmo tempo em que proclamava a supremacia da vida religiosa.

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“(...) o sistema preventivo entra como um dos elementos em meio à globalidade do carisma de Dom Bosco fundador; separá-lo deste contexto e querer abordá-lo à parte é como que arrancar um braço de um corpo vivo, é condenar-se a tirar-lhe a vida e a desnaturá-lo.”198

Mais adiante, Aubry conclui:

“Por outro lado, ainda que este sistema possa, por certo, ser estudado cientificamente como qualquer outro sistema, para nós, que o sabemos concebido e aplicado por um santo carismático, ele se apresenta imediatamente iluminado e vivificado por uma inspiração divina.”

Desse modo, o carisma parece originar-se de uma santidade, especial que deve ser parte dos que praticam o sistema preventivo, ou seja a missão de pastor de almas.

Em 1877, ao escrever seu Tratado Sobre o Sistema Preventivo, Dom Bosco elaborou um opúsculo, contendo as principais experiências com os jovens ao longo de 43 anos. Contendo dez páginas, essa obra não é considerada pelos próprios salesianos como científica, ou seja, não a consideram trabalho de cunho acadêmico, salientando que Dom Bosco, em toda a sua vida, nunca foi professor de pedagogia em qualquer

Universidade.199 Entretanto, numa concepção religiosa evangelizadora e missionária

não há como negar a influência dessa obra e de suas idéias sobre teóricos da educação e no caso em questão, a extrema influência sobre o pensamento orionita.

Para os seguidores de Dom Bosco, o “sistema preventivo” é considerado essencialmente teologal, porque agrupa relacionamentos que unificam, “originariamente

entre si, o próprio Deus, o educador e os jovens.”200 A caridade para o educador

salesiano determina o método da amabilidade:

“Esta amabilidade abrange e envolve o conjunto de comportamentos interiores e exteriores do educador inspirado nos comportamentos do Deus Amor: todo rapaz,

198

AUBRY, Joseph, op. cit., 1979, p. 7-12. 199

mesmo e sobretudo o mais miserável ou menos interessante, merece e espera uma grande estima, um respeito absoluto, a compreensão de simpatia, um interesse ativo que dá o primeiro passo e se põe a serviço com paciência e perseverança, e, para dizer tudo através de uma só expressão, um amor pessoal, de pai, de amigo, de irmão, porque cada jovem é um irmão pelo qual Cristo morreu (1 Cor 8,11)” 201

Como explicam, portanto, os salesianos, pelo método da amabilidade, cerne do sistema preventivo, os jovens pobres, abandonados, podiam se tornar bons, porque, segundo Dom Bosco, “traziam em si germes de bondade e de conversão.” Desde a época do Oratório, primórdios da organização religiosa fundada por Dom Bosco, a caridade e o afeto foram as regras anunciadas aos salesianos.

Seguindo essas idéias, a assistência salesiana gera um estilo em que o educador este se torna pai e amigo dos jovens, compartilhando com eles os bons e maus momentos. Como enfatiza Dom Bosco, “os assistentes, como pais amorosos, falam, servem de guia em qualquer acontecimento, dão conselhos e corrigem amavelmente.”202

Esse relacionamento estreito com os jovens devia possibilitar, ao máximo, a aproximação dos assistentes com a família dos jovens, colocando-os em contato com os pais, para adquirirem, junto a eles, a confiança necessária a uma intervenção formal ou informal, na relação entre pais e filhos. Assim, a assistência devia procurar alcançar os relacionamentos dentro da família, zelando pela paz e o respeito dentro dela, já que o sistema preventivo significava manter, antes de tudo, a tranqüilidade social.

Para os seguidores de Dom Bosco, incluindo Dom Orione, a questão central do sistema preventivo é o seu significado de assistência, que não se prende à vigilância e à repressão autoritária e punitiva. Pelo Tratado Sobre o Sistema Preventivo , cap. I:

200 Idem, ibidem. 201 Idem, ibidem. 202 Idem, Ibidem.

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“Deve-se superar o conceito de assistência como pura presença visível e como vigilância, que certamente, em muitas circunstâncias, é sempre possível e necessária ( até por motivos legais e jurídicos), em favor de uma assistência, permanente e substancial, de animação educativa.” 203

A grande diferença entre o sistema repressivo e o sistema preventivo, pelas explicações do próprio Dom Bosco, está nos métodos de um e de outro. No sistema repressivo, o método se vale de uma imposição externa e do temor psicológico, enquanto no sistema preventivo, o educador tem de se valer da convicção interior através da amabilidade, que permite a liberdade progressiva do jovem. Nesse caso, o próprio jovem deve ser o agente responsável por essa liberdade, orientada pelo educador.204

Todos os pressupostos dessa pedagogia proposta pelo sistema preventivo de Dom Bosco ancoram-se na imensa confiança nos recursos do jovem, que depende do “otimismo no diálogo construtivo. Além do mais, esse encontro na concepção de Dom Bosco, é cercado pela presença de Deus e de Nossa Senhora “que amam o jovem e querem ajudá-lo.”205 Conseqüentemente, há um apelo às “riquezas interiores do jovem,”

e nesse sentido, Dom Bosco aponta o seguinte trinômio: razão, coração e fé.

Essa busca da orientação ao jovem, só devia terminar quando este conseguisse entender o papel dos sacramentos, que completava a conversão e nova personalidade, ocupando-se dos verdadeiros encontros com o Cristo vivo, porque na concepção do cristianismo, a liberdade nada mais é senão a capacidade de amar: de encontrar Cristo no ato supremo da sua liberdade, expresso na doação do seu Corpo e de seu Sangue.”206

203

Idem, ibidem. 204

De acordo com AUBRY, Joseph, op. cit., 1979, essas idéias de Dom Bosco encontram-se no Pequeno Tratado Sobre o Sistema Preventivo e, na Carta de 1º de Maio de 1884, que indica São Paulo como inspirador de seu modelo de caridade, quando afirma que: “a caridade é paciente, a caridade é benigna, a caridade tudo desculpa, tudo espera, tudo suporta.”

205

AUBRY, Joseph, op. cit., 1979, p. 19. 206

Aqui encontramos o principal propósito da pedagogia de Dom Bosco: a manutenção de uma paz fraterna que, por sua vez, deveria ser mantida pela pureza, - “Bem-aventurados os puros de coração” – sendo esta representada pela alegria –“Que minha alegria esteja em vós ( Jo 15,11)”- que por sua vez, como método pedagógico de trabalho afastava os aborrecimentos e o cansaço, com jogos, canto, música, declamações, atividades variadas, e solenidades bem preparadas: “Tudo isto criava um clima de alegria que atraía os jovens, e fazia com que eles percebessem que Deus salvador nos criou realmente para a alegria.”207

Esse ar de festa e de alegria necessários à educação dos jovens, foi um dos métodos prediletos de Dom Orione, que, provavelmente, o herdou da experiência com Dom Bosco. Até que ponto essa pedagogia de Dom Bosco influiu sobre a formação de Dom Orione? Que propostas do sistema preventivo foram incorporadas pela pedagogia orionita? A partir daqui, os ideais de Dom Orione serão expostos demonstrando que sua pedagogia está intimamente relacionada àquela criada por Dom Bosco.

Anunciando o objetivo particular e especial dos orionitas, Papásogli, afirma que ele consiste em: “propagar a doutrina e o amor de Jesus Cristo e da Igreja, especialmente entre o povo; atrair e unir, com um vínculo suavíssimo e estreitíssimo de toda a mente e coração, os filhos do povo e as classes operárias à Sé Apostólica”.208

A formação católica da juventude humilde e abandonada, pelo caminho da caridade, traduz-se, assim, no programa essencial da Congregação dos Filhos da Divina Providência. Não por acaso, Dom Orione asseverava: “(...) a juventude será o sol ou a tempestade do futuro.” Para cumprir tal missão, patronatos, atividades extra-escolares, externatos e internatos, pias associações, círculos de ação católica para meninos

207

Idem, ibidem. 208

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aspirantes, jovens, estudantes e operários, eram propostos pelas lideranças da Congregação.209

Tanto o corpo quanto o espírito são objetos da misericórdia. A formação católica da juventude carente propicia a condução das “massas a Jesus Cristo e `a sua Igreja pelos caminhos da caridade”, renovando a sociedade em Jesus Cristo.210 Como se pôde

notar, o corpo devia receber o alimento espiritual e material que o conduziria ao caminho certo. Esse disciplinamento do corpo, realizado pela estratégia da pedagogia assistencial, abrange, em todos os seus aspectos, aquilo que deveria resultar numa situação de docilidade dos assistidos em sua prática social, na família, no trabalho e nas relações em geral.211

Na obra de Sparpaglione,212 há relato de uma intervenção de Dom Orione junto

a uma criança expulsa da aula de catecismo pelo vice-pároco de São Miguel, que demonstra o modo como deviam ser tratados os assistidos pelo clero. Tratar-se ia de uma história comum não fosse a ênfase dada à forma com que Dom Orione modificou a situação do menino: usando a tática de presentear o aluno desanimado e choroso, com uma medalha nova e cintilante, o catequista conseguiu fazer com que aluno retomasse a lição paralisada, levando-o a ler o catecismo, cuja leitura fora abandonada, com a intervenção áspera do vice-pároco.

Em outras passagens dessa obra, há várias informações sobre Dom Orione que sinalizam para a estratégia calcada na idéia de aproximação da criança, pela via do atendimento, a algumas de suas brincadeiras e costumes, porque se acreditava que só

209 Idem, ibidem, p. 402. 210 Idem, ibidem, p. 403 211

Este disciplinamento, refere-se ao que FOUCALT, Michel. Microfísica do Poder. 4ª edição, Rio de Janeiro: Graal, 1984, p. 145-152 e Em Defesa da Sociedade, São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. , considera ser fruto de uma mudança na economia política do poder, que a partir do séc. XIX criaria a mais sofisticada forma de poder, o biopoder.

assim, “ a boa semente do amor de Deus, à família e à Pátria”, seria lançada no coração dos jovens, fazendo reflorescer neles “a vida cristã”. 213

Pode-se afirmar que as atitudes de Dom Orione aliavam o divertimento, entendido como aproximação mais informal com a criança, à prática da catequese. Essa estratégia era, efetivamente, muito mais eficiente do que a tentativa de impor às crianças simplesmente o disciplinamento através de duros discursos moralistas.214

Esse comportamento do clérigo exigia alguns improvisos do jovem catequista: “(...) o pequeno quarto, a mobília pobre, os poucos livros, e quando viessem os meninos arranjaria também aparelhos de ginástica e até balanço.” 215

Sparpaglione sugere que as atitudes de Dom Orione poderiam ser resumidas em uma característica básica: lhaneza, na qual se resumiria a grande estratégia orionita. Ser simples, sincero, e sobretudo afável parece ser a chave mestra dessa Regra na lida com os pobres: “Ama com predileção os pobres, denomina-os seus patrões, torna-se seu amigo, pai e servo fiel.” 216

Portanto, de assistir aos pobres, rejeitados pela sociedade, deve produzir amizade entre os assistentes e assistidos. Quanto ao propósito dessa estratégia que ampara e educa na fé católica, não há o que esconder: “Dom Orione (...) os restitui ao trabalho

212

SPARPAGLIONE, Domingos. Dom Orione, sem local da edição, sem editora e sem data. Está obra foi apresentada pelo Padre Luiz Lazzarin, que dirigiu o Lar Dom Orione, entre 1963-64, trata-se de uma biografia de Dom Orione que, curiosamente, não possui as informações elementares da publicação. 213

SPARPAGLIONE, Domingos, op. cit., p. 86-98. 214

Como foi assinalado anteriormente, a influência de D. Bosco sobre Luiz Orione foi muito forte. No aspecto pedagógico, de aliar as brincadeiras, para obter da criança uma simpatia ao educador, parece que os orionitas seguiram a linha de atuação de D. Bosco. Na REVISTA DO ENSINO, Belo Horizonte: Orgam Official da Diretoria da Instrucção de Minas Geraes, julho-agosto de 1926, p 249-250, encontram- se as seguintes explicações: “D. Bosco quer para seus alumnos toda a liberdade. Que brinquem, saltem, gritem, e façam tudo que na sua edade é permitido fazer. Alegria, intensa alegria deve reinar sempre entre elles. Essa alegria sadia é a melhor prova; ella é ao mesmo tempo um symptoma e um estímulo do bem.” Todo ideário da educação na proposta de D. Bosco, baseia-se no princípio da prevenção ao erro e à falta, educar é preventivo, é preferível ao castigo que humilha: “Ensinar é fácil; difícil é educar. Para educar é preciso não violar as leis naturaes do desenvolvimento physico e mental da criança.”

215

Idem , ibidem, p. 86. 216

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honesto.”217 É essa função regeneradora da caridade que leva aos desamparados o

alento, abrindo a possibilidade de educa-los em seguida, constituindo desde a consolidação da economia política, no século XIX, a aliança entre a religião e o patronato no sentido de preparar os indivíduos para a vida de trabalho, acompanhada dos valores morais cristãos.

Contudo, para aqueles que ofereciam resistência, impedindo o trabalho de catequese, a postura devia ser outra. Quando o assistido não respeitava as regras, e punha em perigo a moralidade, era expulso ou afastado dos outros. Entretanto, mesmo nessa situação extrema, a estratégia de Dom Orione funcionava: aguardando o momento do arrependimento, quando o perdão era imediatamente aceito: “ (...) de juiz severo,

transformava-se em pai compassivo.”218 Esse tipo de atitude, presente no

comportamento cristão, desde tempos primordiais, revela mais uma faceta dos planos orionitas para a educação dos pobres.219 A punição só leva o tempo necessário, para que

o assistido possa arrepender-se, o que significa, não apenas o exercício do sentimento de culpa, vai além disso, levando o indivíduo a pensar nos benefícios perdidos e, se afastado do apoio da assistência, num mundo em que a pobreza deixava sua marca na fome, na doença e no abandono.

A outra parte da estratégia assistencial orionita, ficava explícita, quando Luiz Orione fazia apelo aos seus religiosos, para que procurassem estudar o pensamento católico, tirando proveito espiritual e intelectual desse estudo. O círculo universitário católico era a meta mais importante a ser alcançada. Essa capacitação dos orionitas, voltada para o aprendizado amplo da educação católica, implicava em saber, por