Ao tratar dos museus e centros de Ciências, este estudo reflete também sobre a divulgação científica, pois esta é uma das funções que esses museus exercem. Fala-se de como eles podem atuar de forma dinâmica para contribuir na reprodução e divulgação do conhecimento produzido nas academias. Nota-se que o
conhecimento que o público adulto tem sobre os temas científicos mais atuais e relevantes não advém das experiências escolares, e sim da ação da divulgação científica, da mídia eletrônica de qualidade e da atuação dos
museus de ciência, que trazem para suas exposições tanto os conhecimentos científicos/tecnológicos quanto as temáticas atuais e/ou polêmicas. (FENSHAM apud CAZELLI; MARANDINO; STUDART, 2003, p. 83-84).
Pode-se dizer que desde a evolução dos gabinetes de curiosidades as então denominadas Academias de Ciências foram se apropriando desse ambiente para expor suas descobertas. Hoje se percebe uma propagação museus e centros de Ciências, na expectativa de que se abram novos espaços para a construção do saber científico. Vale lembrar que, nesses museus, não se trata de expor conceitos científicos profundos, mas de possibilitar o contato com pesquisas, com experiências e objetos que irão estimular a descoberta, devendo, por isso, a vista museal ser uma experiência criativa e produtiva.
A divulgação científica diz respeito às ações vinculadas à produção e à disseminação de informações do conhecimento científico. Observa-se que a dificuldade no diálogo entre cientistas e a sociedade em geral está na ausência de um vocabulário comum capaz de criar o entendimento mais claro das ideias, livre de termos técnicos. Esse diálogo, entendido como a comunicação da Ciência, tem por objetivo estabelecer essa ponte entre o mundo da Ciência e a sociedade por meio de técnicas e canais específicos, ou seja, incorporar ao cotidiano o saber científico por intermédio de uma recodificação da linguagem que alcance o público.
Entre os objetivos da divulgação científica, Albagli (1996) ressalta os aspectos cívicos (incentivando a opinião pública sobre o desenvolvimento científico, ampliando a consciência do cidadão) e de mobilização popular (ampliando a possibilidade de participação da sociedade na formulação de políticas públicas e escolhas tecnológicas, como citado anteriormente por Valente, Cazelli e Alves (2005), destacando a importância do conhecimento científico para a tomada de decisões sociais). Ressalta-se que ambos estão em consonância com a educação em sua dimensão não formal. Isto é, em algumas atividades que configuram uma divulgação científica,
os conteúdos apresentados são flexíveis, contendo diferentes dimensões e são organizados de forma seqüencial, mas não similares àquela apresentada pelos conteúdos programáticos escolares, podendo ser operacionalizados de várias maneiras segundo demandas sociais determinadas. As atividades se dão em situações pouco formalizadas, com seqüências cronológicas diferenciadas e o tempo de aprendizagem não é fixado a priori. O espaço onde ocorre a educação não formal é criado e recriado, segundo os modos de ação previstos nos objetivos maiores e nas vivências promovidas pela socialização. (GOUVÊA et al., 2001, p. 170).
Evidencia-se, assim, que a divulgação científica contempla um conteúdo educacional em si própria, independentemente de sua inserção nas escolas. A divulgação científica, feita por instituições específicas, envolve parcerias entre estas e o sistema educacional. Ao criar espaços extraclasse para a formação de públicos diversos, abre perspectivas de formação para a sociedade como um todo e traz igualmente a possibilidade de construir novos olhares para a Ciência.
Essa perspectiva da divulgação científica em espaços de educação não formal tem sido objeto de um debate recente, pois as formas mais usuais de divulgação científica ainda apresentam uma linguagem especializada de acesso restrito. As formas predominantes acontecem por meio de eventos acadêmicos ou da publicação de livros e periódicos que não são disponibilizados ao grande público. Conforme Souza (2009, p. 165-166), a divulgação científica operada nos museus de Ciências
pode se aproximar do cumprimento de seus objetivos pretendidos de contribuição ao acréscimo da qualidade de vida por meio do acesso e da compreensão ampla da ciência e da tecnologia, somente criando meios para que se perceba a inserção intrínseca dos processos de construção dos produtos e saberes científicos na trama sócio-histórica. É necessário também deixar claro que os discursos científicos refletem interesses do próprio universo da ciência, implicando diretamente no contexto social.
Essa situação tem sido motivadora, na atualidade, da ampliação da função de museus e centros de Ciências, que se têm constituído, então, como meios de transmissão do conhecimento científico para diversas camadas da sociedade.
Mora (2003) ilustra que, no fim do século XIX, o objetivo era adaptar o discurso científico aos leigos que demonstravam tal interesse, além de informar a cientistas de uma disciplina o que se passava em outras, reflexo de uma especialização científica que ali se iniciava. Foi nesse período, também, que surgiram as revistas com conteúdo científico. A autora aponta, ainda, para a outra opção utilizada para a divulgação: os museus, herdeiros dos gabinetes de curiosidades, que se transformavam também em laboratórios de pesquisa e hoje fazem parte da indústria do lazer e do sistema educacional.
No século XX, surgem os divulgadores profissionais, que buscam despertar no leitor o prazer do conhecimento científico (MORA, 2003). Com as transformações socioculturais do pós-2ª Guerra Mundial, a Ciência incorporou-se cada vez mais ao cotidiano de questões políticas e econômicas.
Na atualidade, o uso crescente da tecnologia nas atividades cotidianas também estimula a curiosidade dos leigos. A partir daí, o espaço que a Ciência ganha na mídia (páginas de jornal, revistas, televisão, rádio etc.) consolidou o jornalismo científico. Este tem um alto caráter informativo, porém recebe muitas críticas relacionadas ao produtor do conteúdo. Ou seja, nem sempre são cientistas que redigem o que está sendo divulgado, e as matérias estão sujeitas a uma influência editorial que às vezes não é percebida pelo público.
Observa-se que o debate envolve a questão da democratização do acesso, pressupondo que a divulgação científica seja capaz de ser realizada por meio de uma linguagem mais usual, de modo a ser capaz de recriar o conhecimento deslocando-o da esfera acadêmica para o cotidiano. Mora (2003) indica que a divulgação científica deve se beneficiar de recursos que pertencem muito mais à esfera literária do que à esfera científica. Isto é, para que se torne mais orgânica, favorecendo o diálogo em prol da consciência crítica em relação às teorias científicas, a linguagem da divulgação e as suas formas devem ser repensadas.
Sendo o museu uma instituição que produz, processa e organiza as informações a partir de sua coleção,
visto como artefato ou ‘aparato informacional’, o museu é também capaz de - por meio de suas coleções (fragmentos, imagens e modelos do mundo) e, particularmente, de suas exposições (narrativas do mundo) - dar visibilidade a realidades dispersas no tempo e/ou no espaço e, portanto, naturalmente invisíveis. Idéias e conceitos como ‘espécie’, ‘gênero’ e ‘família’, por exemplo, não são visíveis a não ser através da reunião artificial de espécimes vivos ou de seus ‘fragmentos’, naturalmente dispersos. (LOUREIRO, 2007).
Destaca-se, também, que a divulgação científica nos museus encontra a possibilidade de atingir uma parcela da sociedade cujo acesso a publicações acadêmicas, congressos etc., é escasso, promovendo ações complementares em formas diversificadas, o que os coloca em vantagem em relação às mídias tradicionais de divulgação científica. A recriação da linguagem simbólica da Ciência concretiza-se no museu por meio das técnicas expositivas, como aponta Albagli (1996, p. 401):
a proposta hands-on-science visa estimular a experimentação dos visitantes, a iniciativa individual e a curiosidade. É uma tentativa de apresentar os fenômenos do mundo natural com o emprego de experimentos interativos e de demonstrar como as invenções e descobertas constituem respostas às necessidades e à curiosidade dos homens [...] o que motiva o público adulto ou jovem a visitar um museu ou centro de ciência é a descoberta, a exploração, a aventura; não é a procura por informação ou educação. Embora
o que é aprendido o seja de modo informal ou mesmo não intencional, trata- se acima de tudo de um processo de aprendizado.
Diante disso, uma vez que um dos sentidos da divulgação científica é despertar o prazer – no sentido da emoção pela ciência –, um local como o museu, onde o público é estimulado a reviver as experiências e debatê-las, torna-se um espaço privilegiado.
4 METODOLOGIA DE PESQUISA
Para o desenvolvimento desta dissertação, além da pesquisa teórica, foi realizada uma pesquisa de campo em dois museus da USP com o propósito de identificar as mediações que ocorrem nessas instituições e algumas relações do público com estas. Neste capítulo, apresenta-se a descrição da metodologia utilizada para a coleta e análise dos dados obtidos. Para guiar esta pesquisa, desenvolveu-se um levantamento quantitativo e qualitativo acrescido de registros de observação da pesquisadora.