O debate em torno da questão aventada pelo título desta seção é rico e digno de análise, visto que reflexões acerca dos artefatos tecnológicos, sobretudo as tecnologias de informação e comunicação, constituem-se em um dos pilares deste trabalho.
Por falar em comunicação, uma abordagem pertinente refere-se à comunicação do professor para o aluno. O papel do professor, ao longo do tempo, tem sido transformado. No passado, a transmissão do saber , assim como dos ritos e tradições, era feita oralmente, em uma época que havia a primazia do que Levy (2008a) chamou de oralidade primária. Neste contexto específico, a narrativa era uma estratégia adequada à transmissão de conhecimentos, havendo, portanto, a necessidade da coexistência cronológica e espacial entre os parceiros da comunicação; em outras palavras, o conhecimento repousava na figura do narrador – pode-se dizer “professor”. Como relatado no capítulo três, este tipo de sociedade tinha uma grande
dependência da memória dos indivíduos, visto que ela repousava em pessoas e não em registros externos.
Em um segundo momento histórico, encontra-se o “pólo da escrita” (LÉVY, 2008a). Com a invenção da escrita, a memória, que antes repousava na pessoa, amplia-se por meio dos relatos que eram produzidos sobre tábuas de argila, papiros, entre outros suportes. Contudo, a figura do transmissor de conhecimento continuava sendo essencial, já que a reprodução destes escritos era extremamente trabalhosa. O ensino substancialmente ocorria por intermédio de um locutor, fato que centralizava o conhecimento na figura do professor.
Com a invenção da prensa de Gutenberg, esse paradigma começa a ser alterado. Segundo Lévy (2008a), a prensa permitiu que um novo estilo cognitivo se instaurasse. Surge a figura do autodidata, como relata o pensador francês: “a inspeção silenciosa de mapas, de esquemas, de gráficos, de tabelas, de dicionários encontra-se a partir de então no centro da atividade cientifica.” (2008a, p. 99). Não existe mais, a partir de então, a necessidade de uma sincronia física e temporal entre quem comunica e a quem é comunicado.
No século XX, a mudança acentua-se ainda mais. Dentre as inovações tecnológicas, a mais significativa relaciona-se com a invenção do computador, e consequentemente, o desenvolvimento da Internet. Como relatado no capítulo 2, Lévy (2008a) considera o computador como um dos dispositivos técnicos pelos quais percebemos o mundo. Na visão do autor, os pólos da oralidade primária e da escrita passam a coexistir juntamente com o pólo informático-midiático, com preponderância deste último. Neste pólo, a memória social encontra-se objetivada em dispositivos técnicos, a velocidade da comunicação é impressionante e a rede de interlocutores estende-se por todo globo terrestre.
Esta intensa disponibilidade de dados, evidentemente necessitando de crítica e de seleção adequada, desloca e despersonaliza a possibilidade de ter acesso aos elementos que subsidiam a construção do conhecimento. Para Lévy (2008a), a utilização de um determinado tipo de tecnologia intelectual coloca ênfase particular em certos valores. Como conseqüência, diferentes formas de atividades cognitivas cristalizam formas culturais particulares. É neste ponto que voltamos a figura do professor, este já não é mais a fonte exclusiva do conhecimento: novos hábitos foram adquiridos e vão sendo disseminados entre as pessoas que aprendem, como conseqüência de a memória social encontrar-se no ciberespaço.
Essa nova realidade vem sendo percebida com freqüência no discurso dos alunos: é possível observá-los buscando novos meios de aprendizado. Falam sobre tutoriais e vídeoaulas, cheios de motivação. Participam de comunidades virtuais nas quais encontram outras pessoas e a memória de suas interações. Buscam estes espaços com o objetivo de
resolver um determinado exercício ou de resgatar certo material de estudo, cujo assunto havia sido tratado em sala de aula.
Percebe-se, assim, que os alunos fazem uso das tecnologias de informação e comunicação e que estas não estão à margem de suas escolhas, mas que ocupam posição de destaque. Retornando à terceira afirmação do questionário descrito na seção anterior, “o desenvolvimento da sociedade é condicionado pelo desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação”, notamos que a grande maioria dos alunos concordava com ela. Porém, naquela seção, estávamos tratando de percentuais, e como dissemos, estes tem caráter complementar em uma pesquisa qualitativa. Como afirma Oliveira (2007) palavras e/ou imagens são mais adequados à descrição do que os números. Com este entendimento, reproduziremos algumas das respostas produzidas pelos alunos, ao comentarem a terceira afirmação do questionário:
1) Com certeza, a tecnologia da informação e comunicação promove a mentalidade da sociedade e desenvolve ela (sic) como um todo;
2) A sociedade como um todo é profundamente impactada pelos avanços tecnológicos, pelo fato destes avanços terem proporcionado a globalização, fazendo com que povos adotem costumes de outras nações, que geralmente são as mais industrializadas;
3) Acredito que o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação facilite o desenvolvimento da sociedade, pois acelera a comunicação e aumenta a disponibilidade das informações;
4) Sem dúvida, pois os meios de comunicação influenciam diretamente no desenvolvimento da sociedade;
5) Sim a evolução social sempre aconteceu no ritmo dos avanços tecnológicos e com a velocidade com que a informação se propaga.
Esta questão foi comentada por vinte alunos, todas as respostas de uma forma ou de outra expressam uma visão favorável à afirmação. Isso deixa claro que os alunos entendem que as tecnologias de informação e comunicação são fatores condicionantes para o desenvolvimento da sociedade. Mais do que um simples entendimento, esses alunos utilizam os recursos tecnológicos objetivando seu próprio desenvolvimento. Esta conclusão emerge a partir das respostas à quarta questão, “os mecanismos de busca na Internet, o google por
exemplo, são aplicações de importância relativa, pois é possível selecionar dados provindos da Internet manualmente”, para a qual seguem algumas respostas:
1) O mecanismo de busca é de muita importância, pois a busca é rápida e eficiente;
2) Todos os dias eu uso o Google ele é um meio rápido de obter informações;
3) Nem sei como fazer uma pesquisa manual na internet; 4) É possível sim selecionar dados manualmente na internet,
mas desmerecer a facilidade no uso desses mecanismos é absurdo. Todos nós usamos o Google ou outro site de busca;
5) Dada a quantidade absurda de informação na internet é quase impossível localizar uma informação sem um mecanismo de busca;
6) Discordo totalmente. O Google é líder em buscas na internet. A internet é uma imensa biblioteca, repositório necessário, útil à sociedade;
7) Para mim, o único meio de obter dados na internet é através de sites buscadores (Google, Bing, cadê...). Sempre que preciso de alguma informação recorro a eles.
Dezesseis alunos comentaram esta questão. Todos eles, a exemplo dos acima retratados, expressaram-se de forma favorável aos mecanismos de busca na Internet, assumindo, inclusive, que utilizam estes mecanismos como fonte de informações. É importante observar que em nenhum momento o questionário sugeria alguma utilização pessoal da Internet como fonte de consulta para obtenção de informações. Não obstante, os alunos voluntariamente relataram que fazem uso freqüente da Internet com esse fim.
Não obstante as percepções levantadas nesta seção, ainda não era possível aventar, até este momento, se a importância atribuída às tecnologias e, por extensão, aos mecanismos de busca, alimentava qualquer correlação com o uso de ferramenta matemática, tanto no contexto social quanto no profissional, em particular. A análise em outras categorias permitiu, ao mesmo tempo, comparar e intervir neste aspecto.