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6. Regnskapsregler for ideelle organisasjoner

6.2 NRS(F) God regnskapsskikk for ideelle organisasjoner

6.2.5 Oppstillingsplaner

Por que é que assim, com suas caras móveis e simiescas, Os vivos nos devassam, num cínico impudor? Por que nos olham assim – como se fôssemos cousas –

Quando nossos traços vão repousando, enfim, Na tranqüila dignidade da morte? Por que é que eles, com sua obscena curiosidade, Não respeitam o ato mais íntimo de nossa vida?

(Mário Quintana)

O fenômeno da morte, na contemporaneidade, é permeado pelos mais diversos sentidos e movimentos, seja a partir de sua aparição, seja de seu ofuscamento. Nos “causos” de assombração relatados pelos mais antigos, na elaboração do luto ou na entrada das tecnologias no cenário da morte, percebemos que o homem às vezes realiza

movimentos de aproximação com o espectro da finitude, mas, por outro lado, em várias ocasiões e por diversos meios, ele se distancia dela.

Se a morte atualmente é distanciada do homem pelo seu confinamento no hospital, no seu domínio por especialistas e nas práticas de cuidado com o morto, ela também emerge na mídia e em outros espaços sociais, na forma de espetáculo. Para Greiner (2007, p. 14), “[...] por mais que se tente banir a morte da cultura, testando substituições por simulação, ela retorna e serve-se desses mecanismos realizando críticas nos ambientes mais inusitados”.

Velada, escondida e distanciada, a morte reaparece em cena por meio de um movimento de espetacularização em torno dela que, no fundo, paradoxalmente, é a forma mais eficiente de se tentar dissimulá-la. A morte de pobres anônimos ou de celebridades é exibida abertamente nos canais de comunicação, por exemplo. Presente diariamente no meio jornalístico sensacionalista, a morte do estranho, desnudada, analisada por especialistas e formadores de opinião e exibida muitas vezes sem grandes pudores, provoca tanto comoção nacional quanto um certo alheamento social, tamanha sua exposição, pois se torna banal. Nesse sentido, Greiner (op. cit., p. 12) sustenta que “[...] uma das estratégias de relacionamento com o outro é, inevitavelmente, a exposição ao outro e isso, em situações extremas, deflagra a exposição à morte e à violência” (grifos da autora). Ainda de acordo com a autora, o movimento de exposição à morte tem sido exibido incessantemente através de diferentes maneiras, como a exposição do cadáver alheio, reiterando seu aspecto violento, performativo e comunicativo.

Outros movimentos de superexposição da morte podem ser identificados, na atualidade. Em alguns editoriais de moda da alta costura, por exemplo, a forte tendência no ano de 2010 foi a de fotografar modelos como se estivessem mortas. A simulação da morte era retratada em diferentes cenas. Em uma dessas fotos, como a que segue, a

modelo, com aparência cadavérica, aparece estirada entre a calçada e a rua, simulando uma morte por acidente de trânsito urbano.

Fonte: http://colunas.epoca.globo.com/mulher7por7/2010/05/30/a-nova-tendencia-modelos-que-posam- de-mortas/ Acesso 06 jun. 2011

Outros fotógrafos renomados e revistas de alta costura que ditam tendências da moda têm ainda retratado cenas relacionadas à morte, para vender roupas de grife. As simulações são várias, como imagens de um corpo coberto de sangue (fotógrafo americano Tyler Shields); mulheres mortas pela obsessão com a comida (fotógrafa americana Daniela Edgurg) e vestidas, não para matar, mas para morrer (fotógrafa alemã Monica Menez).

Fonte: http://www.tylershields.com/portfolio/portraits/. Acesso em 06 jun. 2011

Fonte: http://www.monicamenez.de. Acesso em 06 jun. 2011

Não deixa de ser interessante que a moda, na sua estratégia de ditar tendências de consumo, se valha da imagem da morte. Se o morrer, hoje, se coloca, de alguma forma, distante do homem, suas imagens mórbidas rondam a propaganda e a mídia em geral, como fantasmas pós-modernos. Além das roupas de alta costura, a morte aparece em produtos cosméticos. Uma renomada empresa canadense de produtos de beleza e maquiagem em nível mundial, a MAC, utilizou como tema da coleção de sua campanha de outono de 2010 o povoado mexicano Ciudad Juarez, no Estado mexicano de Chihuahua, conhecido mundialmente pelo alto índice de violência sexual e assassinatos de mulheres18.

18 Disponível em:

http://operamundi.uol.com.br/noticias/LINHA+DE+COSMETICOS+SE+DESCULPA+POR+LANCAR +PRODUTOS+INSPIRADOS+EM+VIOLENCIA+NO+MEXICO_5145.shtml. Acesso em: 19 jul. 2010.

A inspiração de uma linha de maquiagem e a campanha publicitária em torno das mortes de mulheres mexicanas, representadas por modelos de aparência mórbida, em propagandas para venda dos produtos da marca, levantaram forte polêmica em todo mundo. A empresa, ao constatar que a estratégia não fora devidamente assimilada pelo público em geral e representava um enorme prejuízo à imagem da marca, pediu desculpas aos habitantes do povoado e prometeu reverter uma parcela do lucro dos produtos para a cidade. Ou seja, além do fato da empresa usar a morte de mulheres para obter ganhos financeiros com a venda de cosméticos, a companhia se propôs repartir os dividendos obtidos pela exploração da imagem da violência e assassinato com os próprios moradores de Ciudad Juarez.

Enfim, são acontecimentos próprios do sistema capitalista e da lógica do homo sacer e da vida nua, uma vida “[...] reduzida ao seu estado de mera atualidade, indiferença, disformidade, impotência, banalidade biológica” (PELBART, 2007, p. 34). Um corpo que, tal como no uso de modelos fúnebres na moda ou do cadáver violentado como inspiração de linha de maquiagem, é corpo para o espetáculo (SIBILIA, 2008), para a exibição, propaganda e consumo – assim como a morte.

Diante da visibilidade do fenômeno da morte, transformada em objeto “cult” e “pop”, por meio de suas aparições na fotografia, na moda, em produtos, na imprensa e em filmes e seriados televisivos, vemos que a arte

[...] está lidando com imagens da morte que, mesmo não sendo imagens da morte real, nos levam a uma exposição diante desta. Por ser um instinto e a materialização de um pensamento, a arte usa seu vocabulário para transformar as imagens de corpos em figuras: usa volumes, massa e luz, transforma o sangue em tinta e pigmentos, e cria novas imagens para representar velhos temores. (AMORIN, 2007, p. 85)

São novas imagens para velhos temores, mas que, diante desse fenômeno da superexposição da morte, esta acaba sendo despotencializada e transformada em espetáculo. Conforme salienta Debord (1967), já na abertura de seu célebre livro A

sociedade do espetáculo, o homem atual parece preferir a imagem à coisa, a cópia ao original. A lógica do espetáculo se funda na aparência. Não se trata de mais de um sujeito calcado em uma “essência” ou na “propriedade”, mas sim na “aparência”. A questão não é mais “ser” ou “ter”, mas sim “parecer”.

Nem a morte escapa à sua transformação em aparência, na sociedade do espetáculo. Aparência, é necessário enfatizar, que não é construída pela simples dissimulação, como denunciavam Freud e Marx as ilusões enganadoras criadas, respectivamente, para encobrir os desejos inconscientes ou as práticas de exploração econômicas irreveláveis. Na sociedade do espetáculo, a aparência surge na extrema crise da representação, na qual o representante se desprende totalmente do representado e assume plena autonomia. O representante (a imagem) passa a ser a coisa.

A espetacularização da morte significa precisamente isto: as imagens pelas quais ela é veiculada são autônomas, não se prendem a qualquer referente e, com isso, distancia completamente o sujeito dela enquanto algo concreto. Com plena autonomia, a morte pode ser veiculada como mercadoria (como fazem os negociantes da morte), como espetáculo estético (como fazem os publicitários) e assim por diante. Sua extrema abstração a distancia das experiências mais imediatas e das elaborações do sujeito. As formas de apreendê-la são fornecidas a ele como subjetividade fabricada que pode ser adquirida no mercado ou que é posta ali de graça, para livre consumo, como acontece com os anúncios comerciais e outras veiculações das imagens da morte pela mídia.

Desligada até mesmo daquelas imagens clássicas que a vinculavam a referentes metonímicos, como a caveira e a foice, a morte, o mais anuviado dos referentes construídos na práxis, se transforma em simulacro, conforme concebe Baudrillard (1991) os objetos do mundo, na sociedade da informação. O simulacro é totalmente forjado, fabricado e independe de qualquer referência exterior. Não tem morada, forma

definida ou propriedades fixas. É completamente maleável, errático e fluido, vive em constante movimento, alimentado pelos fluxos de informação cada vez mais potencializados pela internet e pela informática.

Os simulacros engolfam o sujeito, transformando-o em um espectro que circula pelas redes de informação e colocam a morte no mesmo cenário. Mais uma vez, ambos perdem sua potência e capacidade de se empoderarem mutuamente.

A espetacularização e a simulação da morte ainda trazem como consequência sua superexposição. A morte está e pode aparecer como espetáculo ou simulacro, em qualquer lugar, em qualquer momento. O exagero de sua presença ou sua inserção na condição de superestimulação enfraquecem sobremaneira sua capacidade de afetar o homem.

O excesso ultrapassa a capacidade de reação do sujeito, ultrapassa seu limiar de percepção e sensibilidade, e o deixa esgotado, aniquilado, sem tempo para acumular energias e desejos em um nível que possa impulsioná-lo significativamente. No mundo do excesso, paradoxalmente, a vida é mantida numa condição de baixa intensidade, num estado de sobrevivência (PELBART, 2007). E a condição de sobrevivente não tem a morte como problema essencial, mas a sobrevida. A morte só é problema e mobiliza o sujeito quando a vida é incandescente, plena e cheia. Cheia não de objetos de consumo, simulacros e imagens espetacularizadas, mas de sentidos construídos pelo sujeito, na práxis ou na mundanalidade. Como par dialético da vida, a morte também sucumbe com o enfraquecimento da primeira, tornando-se um simulacro fraco, banalizado, ainda capaz de chocar instantaneamente, mas incapaz de mobilizar o sujeito com alguma durabilidade.

3.5. Investigando assassinatos nos cadáveres eletrônicos: imagens da morte em