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O reuso industrial de têxteis no setor de moda, objeto de estudo dessa pes- quisa, foi apontado pelo Estudo Prospectivo Setorial Têxtil e Confecção como uma das estratégias para se chegar ao desenvolvimento sustentável baseado em pesquisa, desenvolvimento e inovação. uma macro-tendência apontada pelo documento é o crescimento de consumidores com consciência ecológica, que priorizarão a compra de produtos certificados e/ou de marcas que tenham claro posicionamento e ações sustentáveis.

O reuso evita a destinação de resíduos têxteis à lixões e aterros sanitários, prolonga a vida útil dos materiais, postergando a necessidade de se fabricar novas matérias-primas e de se utilizar mais recursos. lee (2009, p. 45) reforça que:

As roupas que recebem uma segunda vida poluem menos – elas poupam energia, diminuem a pressão sobre recursos virgens e re- duzem a necessidade de espaço para lixão. se todo mundo na in- glaterra comprasse uma peça de lã reutilizada por ano, economi- zaríamos cerca de 1.686 litros de água e 480 toneladas de matérias corantes químicas.

O reuso de têxteis é uma iniciativa relativamente comum, mas em uma esca- la muito menor, realizada principalmente por indivíduos e não por empresas.

útil, evitando a fabricação de novas. lee (2009, p. 46) cita o British Women at

War, um livreto do Ministério de informação Pública britânico publicado em

1944, que ressaltava a importância do reuso na época:

A dona de casa tem a satisfação de saber quão diretamente seus sacrifícios de energia e os triunfos de sua perspicácia contribuem com a guerra, com a economia, graças a um cupom de roupas, que liberou trabalho e matéria-prima suficientes para equipar meio mi- lhão de soldados.

A figura 4.11 apresenta uma peça dessa campanha.

Campanha Make do and mend.

Figura 4.11:

Fonte: Mendes e haye, 2003.

berlim (2009) mostra exemplos de reuso de têxteis no brasil. Tais iniciativas têm caráter artesanal e, em sua maioria, social. A autora descreve o trabalho da Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da Rocinha ltda. (COOPA- ROCA), que utiliza reciclagem de rejeitos da indústria têxtil em técnicas artesa- nais. Todos os produtos são feitos por mulheres e jovens moradoras da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. é um trabalho com cunho social e ecológi-

co, que vem firmando parcerias com importantes nomes da moda nacional e internacional, como M. Oficcer, Osklen e Jeannie Koja para Paul Smith.

Trabalho desenvolvido pela COOPA-

Figura 4.12:

ROCA para M. Officer e Carlos Miele em 2005.

Fonte: COOPA-ROCA, 2010, disponível em <http://www.coopa-roca. org.br/fotos/parceiros_moda_11_f.html>, acesso em 10 jan. 2010.

Outro exemplo similar é o trabalho da OnG Florescer, atuante na favela Paraisópolis em São Paulo, e sua ação Recicla Jeans. Os moradores que parti- cipam do projeto confeccionam peças usando jeans reciclado e outros resíduos

Trabalho desenvolvido pela OnG

Figura 4.13:

FlOReSCeR em seu projeto Recicla Jeans. Fonte: OnG FlOReSCeR, disponível em <http://www. ongflorescer.com.br/reciclajeans.htm>, acesso em 10 jan. 2010.

na europa há o exemplo da produção de helen Storey, designer e profes- sora do London College of Fashion, que também empregou o reuso como alter- nativa sustentável, em pequena escala e de forma artesanal. em 1992 a designer introduziu a reciclagem na alta moda. Para sua coleção Second Life, Storey personalizou roupas de loja de segunda mão e as vendeu juntamente com seus modelos ecléticos (figura 4.14).

imagem de divulgação da coleção de

Figura 4.14:

moda Second lifede helen Storey (1992). Fonte: <http://www.helenstoreyfoundation.org/

fashion_mem.htm >. Aceso em 10 jan. 2011.

Os casos acima mostram como o reuso de materiais têxteis é possível e vi- ável. Contudo, para que seja realizado em larga escala, é necessário estabelecer alguns parâmetros, a fim de que os produtos tenham qualidade homogênea e possam ser distribuídos em mercados muito maiores do que aqueles atendidos por produções artesanais ou focadas em nichos de mercado.

d e s I g n s u s t e n t á v e l

C a p í t u l o 5 :

O design tem papel fundamental no desenvolvimento sustentável, uma vez que lida com matérias prima e processos de transformação. Guelere Filho et al. (2008, p. 17) usam o termo “eco-design”, e o definem,

como uma abordagem que visa desenvolver produtos ecológicos sem comprometer critérios como desempenho, funcionalidade, tempo de desenvolvimento, segurança, estética, qualidade e custo, critérios esses essenciais ao êxito comercial de qualquer produto. Os autores defendem o eco-design como uma abordagem pró-ativa da sus- tentabilidade, uma vez que trata das questões ambientais nas fases iniciais de desenvolvimento de novos produtos, onde se encontram maiores oportunidades de melhorias de projetos com objetivos de minimizar impactos ambientais ao longo de todo o ciclo de vida do produto. Grande parte (60% a 80%) do im- pacto ambiental do produto é estabelecido nas fases iniciais de desenvolvimento (lee, 2009, p. 83).

no entanto, o desenvolvimento sustentável acarreta mais do que apenas projetar produtos sustentáveis. é preciso modificar o estilo de vida atual. Vezzoli (2010, p. 32) alerta que nos próximos anos será preciso que as pessoas sejam capazes de mudar de uma sociedade na qual o bem-estar e a qualidade de vida são medidos em termos de crescimento de produção e consumo material, para uma sociedade na qual estejamos aptos a viver melhor, consumindo muito me- nos. Além disso, necessário se faz o desenvolvimento da economia, reduzindo-se a quantidade de produtos materiais.

neste contexto o design amplia seu raio de ação: do eco-design, que tra- balha o ciclo de vida do produto, para o design de sistemas eco-eficientes, que envolve produtos e serviços, e tende a desmaterializar o consumo e até mesmo questionar a posse individual.

um sistema de inovação (Product-Service System, ), segundo o Programa Ambiental das nações unidas (apud.Vezzoli, 2010, p. 37), é o “resultado de uma estratégia inovadora que desloca o centro dos negócios do projeto e da venda de produtos físicos para a oferta de produtos e de sistemas de serviços que, conjuntamente, podem satisfazer demandas específicas”. Desta maneira, a inovação de sistemas no design trabalha competências mais estratégicas e me- nos tecnológicas, em que parcerias e interações entre os atores sejam capazes de convergir interesses ambientais e econômicos, atendendo a uma demanda particular de satisfação do cliente.

O objetivo do design passa a ser a satisfação, ampliando seu escopo de pro- jeto de um único produto para o projeto do sistema de produtos e serviços, bem como a conexão entre atores que, juntos, satisfazem uma determinada demanda de necessidades e desejos.

O design de sistemas para a sustentabilidade tem como referência a satisfa- ção do usuário; como foco, a interação entre atores e como objetivo, a sustenta- bilidade. é uma proposta calcada no ganha-ganha, há ganhos para produtores/ fornecedores, usuários e meio ambiente.

no contexto específico do setor de moda, Vezzoli (apud. Schulte, 2006) mostra quatro cenários distintos baseados na tríade do design de sistemas para a sustentabilidade: a satisfação como referência, a interação de atores como foco e a sustentabilidade como objetivo. Os dois primeiros cenários têm foco no “compartilhamento”.

no cenário 1 os consumidores compram peças de vestuário e compartilham com outras pessoas. um exemplo seria uma rouparia coletiva para uma família ou até mesmo para um condomínio residencial.

no cenário 2 as roupas são alugadas. O próprio estabelecimento se en- carrega da manutenção das peças. O usuário tem a vantagem de vestir sem- pre roupas diferentes de acordo com sua necessidade e desejo. Vezzoli (2010)

se atribuem mais significação são mantidos por mais tempo junto a quem os obteve, ou seja, apresentam maior durabilidade.

no cenário 3 o consumidor participa do processo de desenvolvimento dos produtos, personalizando as peças, possibilitando a geração de vínculo afetivo, comprometimento, interação e responsabilidade para com o produto.

Finalmente, no cenário 4 as empresas oferecem serviços de manutenção e restauração das peças, além de roupas sob medida. A criação da marca em- pregaria os mesmos recursos utilizados pelas demais grifes de moda, a saber, diferenciação, excelência, exclusividade, além de adicionalmente mencionar a sustentabilidade dos produtos.

M a t e r I a I s e M é t o d o s

C a p í t u l o 6 :

Material e metodologia