“O centro republicano federal de Ponta-Delgada, sauda reverente, nestas paginas, a memoria secular do reformador portuguez, que tão poderosamente contribuiu para o bem estar social”392
.
Passados dois anos, e ainda sob o efeito emocional que os festejos camonianos exerceram na juventude e nas escolas, impõem-se novas celebrações. O Centro e o seu jornal voltariam a ter um papel preponderante, aquando das comemorações do centenário da morte e homenagem ao Marquês de Pombal393.
390 Ao longo deste período comemorativo, são da autoria de Teófilo um conjunto de artigos sobre “Os estímulos
conscientes: Centenário Camões – Previsões Políticas”, integrado na sua obra, A História das Ideias Republicanas em Portugal e a Síntese Afectiva nas Sociedades Modernas, sendo esta a mais representativa na qual Camões merece destaque.
391 Teófilo Braga, Os Centenários como Synthese Affectiva […], p. 51.
392 Cf. Anexo 7, “Centenário do Marquês de Pombal”, A Republica Federal, Ponta Delgada, 3º ano, nº 107, 8 de
Maio de 1882, p. 1. As referências a Pombal encontram-se plasmadas em diversos artigos, nomeadamente, nº 107, de 6 de Maio de 1881, nº 108, de 16 de Maio de 1881 e o nº 114, de 27 de Julho de 1882, este último da autoria de Pinheiro de Chagas.
393
Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782). Foi 1º conde de Oeiras e secretário de Estado no reinado de D. José. Viveu no período marcado pelo iluminismo e, em Portugal foi o representante do Despotismo esclarecido. Responsável por várias reformas administrativas, sociais e económicas, sendo as mais marcantes, o
À semelhança do que se passa na Metrópole, também nos Açores se vive uma época de grande exaltação patriótica e nacionalista, cujo auge ocorre no dia 8 de Maio de 1882. Assim, A Republica Federal é novamente é agraciada com outro evento comemorativo, desta vez, a homenagem ao Marquês de Pombal, através da publicação de um artigo, tal como acontecera com Camões, embora num registo mais modesto. “Este número foi tirado em melhor papel que o ordinário da folha. A primeira página a duas colunas e emoldurada”394, no qual são exultados os seus feitos e o seu contributo para o bem da sociedade e da nação.
Além do número comemorativo, o periódico republicano dedicou espaço a este estadista ao longo de várias semanas, com memórias biográficas e referências aos serviços prestados ao país e às reformas preconizadas, bem como com discursos e conferências proferidas, essencialmente, por vultos republicanos395.
Pombal foi um personagem controverso e, um século após a sua morte, era por alguns encarado como herói, pelas reformas encetadas, aquele que estabeleceu as primeiras condições de liberdade, o precursor da revolução liberal396. Porém, para outros, era símbolo de repressão e perseguição (referimo-nos, em particular, ao caso da Igreja).
Estas comemorações foram, severamente contestadas pela Instituição Religiosa, que se considerava uma das principais vítimas do celebrado Marquês, a quem responsabilizava pela reforma mais radical alguma vez perpetrada contra a Igreja portuguesa, contestando, por isso
fim da escravatura e a expulsão dos Jesuítas do território português. Ainda durante a sua administração e após o terramoto de 1755 encetou a reconstrução de Lisboa, numa arquitectura completamente inovadora. Cf. Jorge de Macedo, Pombal (Marquês de), Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, vol. 15º, Lisboa, Editorial Verbo, 1973, colns. 483-487.
394 Cf. “Bibliografia Pombalina dos Açores por ocasião e posterior ao Centenário”, A Epoca, Ponta Delgada, 2º
ano, nº 93, 13 de Outubro de 1883, p. 1.
395 Das várias manifestações que ficaram expressas neste periódico, em 1882, temos: no nº 105 de 25 de Abril,
no qual consta a proposta do programa para os festejos em Lisboa, e proposta à Comissão Executiva de Ponta Delgada; o nº 106 de 2 de Maio, continua com o programa e dá notícia do entusiamo nacional e conferências associadas; de Camilo Castelo Branco vem um artigo no nº 108 de 16 de Maio, e uma conferência de Alves da Veiga no Porto, além de ter ainda um espaço dedicado aos eventos que ocorreram em Ponta Delgada. O nº 109 de 23 de Maio dá conta das manifestações ocorridas na Terceira e no Pico. Um artigo de Joaquim Martins de Carvalho é publicado em 30 de Maio, extraído de O Conimbricense; no nº 110 de 30 de Maio há notícias dos festejos no Porto e na polémica que envolveu a conferência de Emídio Garcia, refere ainda as notícias de outros periódicos açorianos e festejos nas Flores. Pinheiro de Chagas surge-nos no nº 114 de 27 de Junho, com um artigo sobre a instrução popular e superior, à qual os republicanos pretendem dar continuidade e reformar integralmente. No nº 115 temos uma carta de Ramalho Ortigão e inevitáveis são os textos de Teófilo Braga “Marquês de Pombal, Fragmento”, O Diário da Manhã, e “Depois do Centenário”, publicado em O Século, que foram apresentados no nº 112 de 13 de Junho. Finalmente o nº 107, número especial, dá conta do programa e festejos públicos que ocorrerão em Ponta Delgada ao longo de três dias, (7, 8 e 9), promovidos pela Associação Académica.
396 Cf. “Centenário do Marquês de Pombal”, A Republica Federal, Ponta Delgada, 3º ano, nº 107, 8 de Maio de
mesmo, e de forma veemente, Pombal e mantendo-se assim à margem das celebrações. Os católicos mais conservadores consideravam Pombal anti clericalista, responsável pela expulsão dos Jesuítas de Portugal e afirmavam que tais comemorações eram “uma desonra e ignomínia ao nosso patriotismo”397
. Viam-no como a vergonha, a causa da degradação dos princípios religiosos e morais da sociedade, aquele que durante trinta anos de governo exerceu o poder de forma hostil e tirânica, aproveitando tudo para atingir os seus funestos fins. Assim, a Igreja não poderia aplaudir nem pactuar com estes festejos, nos quais os republicanos incorrem na propagação dos mesmos erros do ministério pombalino e, tal como Pombal, pretendiam retirar toda a energia ao povo português, à vida católica e à Nação, encaminhando o Estado para o abismo, ao unirem-se em ódios contra a Igreja e o Papa, representantes da Autoridade Divina: “A significação particularmente democratica e anti-clerical que se deve dar a este acto, contribuiria poderosamente para apressar a sahida do nosso povo do seu longo periodo de inactividade”398
.
Não obstante a ausência de algumas autoridades, o vasto programa promovido em Ponta Delgada pela Comissão Académica, foi-se cumprindo. Houve lugar ao cortejo, onde a Câmara Municipal se fez representar, ao descerramento de um busto em memória do promotor das artes, no largo Marquês de Pombal, que tal como refere, Susana Serpa Silva: “[…] por suprema ironia, mesmo em frente à Igreja do Colégio dos Jesuítas […]”399
.
397 Em vésperas dos festejos cívicos, A Civilização, jornal de cariz religioso dedica praticamente todo o seu
número ao Marquês de Pombal, com artigos de vários representantes da Igreja. Cf. A Civilização, Ponta Delgada, 6º ano, nº 299, 7 de Maio de 1882, pp. 1-4.
398 A. P. da Silva Lisboa, op. cit., p. 2.