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OPPLEVELSEN AV GEIRANGEROMRÅDET – ET DYPDYKK

Será que Thomas More faz parte dessa tradição? As diversas interpretações feitas sobre Utopia podem indicar uma resposta positiva – comprovada pelo fato de que More continuou a usar o diálogo platônico em seus escritos da maturidade, como Diálogo sobre as Heresias (1529) e Diálogo do Conforto contra a Tribulação (1535)301. Mas também devemos fazer uma outra pergunta: será que, em 1515,

300Cf. Ibid, pág. 33. A lista certamente mostra toda uma filosofia da história peculiar à obra de Leo Strauss. 301 A conexão não é feita por mim, mas por Leo Strauss em seu The City and Man (Chicago University Press,

2001) no seguinte trecho que pode ser encontrado nas páginas 60-61: “Neste ponto, temos de recorrer não apenas a um autor que não seja Platão, mas a um autor que Platão não poderia conhecer pois viveu muitos anos após a sua morte A razão é a seguinte. Temos acesso a Platão principalmente através da tradição platônica e é através desta tradição que nós devemos as interpretações, traduções e edições habituais. Esta tradição foi, por muitos séculos, uma tradição do platonismo cristão. Devemos a esta tradição ao fato de que existe uma diferença entre o platonismo cristão e o platonismo primitivo. Não é surpreendente que quem pode nos ajudar a ver essas diferenças seja um santo cristão. Tenho em mente Sir Thomas More. Sua Utopia é uma imitação livre da República de Platão. A comunidade perfeita de More é muito menos austera do que a de Platão. Como More entendia muito bem a relação entre o discurso e a ação, ele expressou a diferença entre a sua comunidade perfeita e a de Platão por ter o seu mundo ser explicado logo após o jantar, enquanto a explicação de Platão ocorre durante o jantar. No capítulo treze de seu Diálogo do Conforto contra a Tribulação, More diz: ‘E para provar que esta vida não é uma temporada de risos, mas sim uma temporada de lágrimas, descobrimos que nosso salvador chorou duas ou três vezes, mas nunca soubemos se ele riu bastante. Não jurarei que ele nunca fez isso, mas, pelo menos, não nos deixou nenhum exemplo. Por outro lado, nos deixou um exemplo de lágrimas’. More deveria conhecer de que o oposto era verdadeiro no Sócrates de Platão: este não nos deixou nenhum exemplo de choro, mas, por outro lado, nos deixou exemplo de riso. A relação entre lágrimas e risos é similar a da tragédia e a da comédia”.

quando estava a serviço do rei Henrique VIII, More já sabia que seria vítima de perseguição ou tinha medo de que algo pudesse acontecer com ele? Como vimos, ele já tinha sido vítima de algumas reprimendas por Henrique VII, inclusive com retaliações dirigidas ao seu pai, John302. E é bom lembrar a famosa conversa que William Roper teve com seu sogro a respeito da amizade com Henrique VIII:

“E ele [Henrique] tomava a sua companhia como agradável, pois assim aparecia subitamente na casa de Chelsea para se alegrar. Um dia surgiu sem aviso para jantar com More; e depois da refeição, em um belo jardim, caminhou com ele pelo espaço de uma hora, segurando seu braço pelo pescoço.

Assim que Sua Majestade se despediu, eu me regozijei; disse a Sir Thomas More como o rei parecia estar feliz e como parecia estar tão em família, como nunca tinha visto antes, talvez somente com Cardeal Wolsey, com quem vi Sua Majestade andar uma única vez de braços dados. ‘Agradeço ao Senhor, meu filho’, ele me respondeu, ‘creio que Sua Majestade é de fato um bom homem; e eu acredito que ele me favorece de forma singular neste reino. Contudo, caro Roper, tenho de lhe dizer que não me orgulho disso pois se a minha cabeça o fizesse ganhar um castelo

na França (era então guerra entre esses dois países), isso aconteceria sem falta”303.

Se o relato não comprova que havia um ambiente de perseguição na Inglaterra antes de 1529 (momento em que se dá a conversa com Roper e em que More se encontra no auge de seu prestígio humanista), então não temos mais palavras para expressar o vácuo moral predominante. Ainda assim, persiste a primeira pergunta: More faz parte da tradição de escritores que usaram as “entrelinhas” para falar sobre verdades fundamentais, verdades que, se fossem proferidas explicitamente, teriam sido declamadas no vento seco do deserto? Sem dúvida, “o discurso provocado pelo amor” foi o que motivou More em suas obras de juventude, não por uma vontade pedagógica tipicamente humanista, mas sim pela obrigação cristã de dizer a verdade acima de qualquer custo. Contudo, dizer ou revelar a verdade não significa que isso deve ser feito abertamente – até porque

302

Ver primeiro parágrafo do sub-capítulo “O pai como primeiro exemplo” do segundo capítulo desta dissertação.

303 ROPER, William. The Life of Sir Thomas More, in: St. Thomas More – Selected Writings, Vintage Books,

poucos a entenderiam. É nesse ponto que os artifícios dos diálogos platônicos são observados para que se entenda o motivo de incluir Utopia nessa tradição: a conversa entre Tomás Morus (a persona de More que permeia o livro)304 e Raphael Hitlodeu não é apenas o relato de um divertissement entre dois homens que divergem em assuntos políticos; trata-se de um verdadeiro problema da alma que ocorria na própria consciência de More, de um drama que o consumia existencialmente e que ele, como é de hábito em escritores de gênio que procuram seus leitores atentos, tentou comunicar através das ironias que só o discurso provocado pelo amor à sabedoria permite.