Segundo Fernandes et al (2005), o autoconceito é a percepção que o indivíduo possui sobre si mesmo, originadas diretamente de suas experiências na relação com os outros e na valorização que tem de sua própria conduta. Uma vez compreendendo que as interações entre as pessoas e seu meio contribuem para a construção dos modos com que desenvolvem suas relações, é também a partir do convívio social que se pode pensar os auto-conceitos como um sistema de autoconhecimento (FREITAS, 2009).
Nesse sentido, o autoconceito corresponde tanto às percepções, como às imagens, os conceitos, os juízos e os raciocínios que cada sujeito constrói sobre si próprio a partir dos processos de interação na sociedade. Os jovens pesquisados, ao adotarem referenciais de autodefinição, em geral, atribuíram características positivas a si mesmos. Eles se descrevem como sendo comunicativos, esforçados, solidários e dotados de potencial de crescimento. As narrativas de situações desagradáveis em que se sentiram diminuídos por parentes ou colegas de trabalho, em geral, foram seguidas pela evocação de conceitos sobre si como dotados de potencialidades, capazes de ir além das possibilidades oferecidas no presente, alguém que luta e que não desistirá dos sonhos, mesmo que não acreditem em suas capacidades.
Victor, após narrar as dificuldades encontradas em prosseguir na vida de cantor, verbalizou: “Tô aí tentando, mas eu não vou desistir!” (VICTOR, GF1, p.12). Chico e Chiquinha, durante grupo focal, compartilharam se sentirem desacreditados por seus familiares. A ‘resposta’ para tamanho menosprezo, para os jovens, seria ascender socialmente e integrar seus familiares nesta empreitada.
Ninguém nunca apostou em mim. Eu quero mostra r assim, que eu vou consegue, que eu me levantei, que eu cheguei lá em cima e todos eles subiram comigo, eu não deixei nenhum lá em baixo. (CHIQUINHA, GF2, p.16).
Eu também. Porque muita gente não acreditou em mim. Não acreditava. Meu pai, principalmente, e minha irmã. Metade lá de casa, quando souberam que eu ia pra uma entrevista de emprego... Eu pesquisei muito, fui na internet, porque eu não sabia o que fazer em uma entrevista de emprego. Eu tremi muito, fiquei suado, mas quando chegou na hora! Quando meu pai e minha irmã soube que eu tinha passado na entrevista de emprego, todos dois ficaram de boca aberta. Meu pai falou assim: ‘eu não acreditava em você não, que tu ia passar nessa entrevista de emprego’. Eles pensavam que eu não ia passar porque eu sempre fui daqueles que não tava nem aí pra nada. Se eu começava uma coisa, eu parava. Nunca ia até o final. Aí se eu chegar onde eu quero, eu vou... Não passar na cara, mas eu vou mostrar onde eu cheguei. (CHICO, GF2, p.16).
A jovem Karla, contudo, se definiu como alguém explorada pelos familiares. É dela a expressão: “Eu sou quase a escrava lá de casa! (Risos)” (KARLA, GF1, p. 4).
Ela se apresenta também como reservada, capaz de proferir escuta atenta às queixas dos amigos, mas com dificuldades de entrar em contato com seus próprios sentimentos por medo de magoar com falas ríspidas. Contudo, após a vivência de conflitos no ambiente de trabalho, acrescenta a jovem, novas formas de estabelecer relações, agora de modo menos passivo, vão sendo experimentadas.
Pelo fato de eu ser ouvinte, eu sou muito de obedecer. Eu não contesto. Mas eu aprendi que eu tenho que saber o porquê. Até porque em muitos desses momentos eu posso estar certa, não posso só abaixar a cabeça (KARLA, E1, p.8).
Sobre a dificuldade de impor limites por meio da negação, Luana (E2, p. 4) coloca: “(...) Eu mesma me estranho. Às vezes, eu quero dizer não, mas não posso. Por medo”. Trata-se de duas formas distintas de expressar o receio das jovens de não serem
aceitas pelas pessoas de sua convivência. Isto impõe limites que vão além do mal-estar momentâneo por elas experimentado. Afinal, as jovens entram em contato com barreiras afetivo-emocionais que as impede de vivenciar sentimentos genuínos como a raiva. Rogers (1997) coloca que, diante de situações em que os sujeitos são submetidos a situações de aceitação positiva baseada em condicionalidades ao longo da vida, este modo de estabelecer relações pode causar o adoecimento psíquico dos sujeitos23.
Em situações marcadas pela pobreza, o silenciamento dos jovens, de seus incômodos e divergências, contribui para a perpetuação de ideais desvirtuadas de suas necessidades crítico-reflexivas. Por conseguinte, uma estratégia percebida para a evocação de auto-conceitos positivos pelos jovens, pautadas no desejo de alcançar
futuros promissores, foi a adoção de referenciais positivos na comunidade. Neste sentido, o termo ‘identificação positiva’ alude às pessoas de referência na família (irmão mais velho, mãe, tios e tias), na comunidade (professor de Karatê) e no trabalho (colega). São pessoas que compartilharam a mesma realidade sócio-econômica dos jovens (moradores da periferia, 'de família carente') e servem como referência por terem conseguido vencer as adversidades e adquirido uma boa colocação profissional segundo critério dos jovens.
Yara narra a história de um colega de trabalho que, mesmo diante de situações inoportunas, alcançou o objetivo pretendido: a ocupação de um posto de trabalho efetivo no lugar em que foi jovem aprendiz.
Tem um rapaz lá que é tipo um exemplo, ele entrou como Jovem Aprendiz, o Gledson, a família dele tinha pouca possibilidade dele entrar lá, que era de família carente, e aí entrou como jovem aprendiz. Saiu, que o contrato dele era de um ano. Fez de tudo, de tudo. Vendia coisas na feira, vendia tudo pra poder pagar a faculdade dele. Fez a faculda de de administrativo. Aí foi prum concurso do banco, não passou. Foi pra 5 concursos. Ele me contando né lá... Ele é bem legal. Fez 5 concursos e aí passou no banco, e tá na mesma cadeira que ele foi jovem aprendiz, entendeu? Então pra mim isso é um exemplo de vida (...) (Yara, GF1, p.13).
O uso da tecnologia também aparece como alternativa de expressão dos incômodos e sentimentos dos jovens. A jovem Karla, que declarou seu receio de se expressar, possui um blog que utiliza como estratégia para confidenciar como se sente. Ela declara: “Aqui é ‘confidência’, porque a partir do momento que eu fiz no blog, aí
digamos que as pessoas escrevem o que sentem, aí eu junto o que eu sinto, aí vou e reblogo. Às vezes eu não estou com coragem de falar, escrever, aí eu fico reblogando”
Fotografia 16 - Karla: ‘Confidências’
Os autoconceitos apresentados pelos jovens, em certo sentido, possuem similaridades com suas concepções sobre a vida.
3.4.3 “Se você quer, você consegue!”: concepções sobre a vida
Os jovens pesquisados anunciam concepções sobre a vida permeadas de possibilidades, embora no presente tenham que conviver com circunstâncias limitadoras. Conforme já mencionado, eles se descrevem como capazes de realizar sonhos. Contudo, estas possibilidades são compreendidas como comuns a todos os outros sujeitos. Não desistir diante dos obstáculos, tentar quantas vezes for preciso, ter força de vontade e querer 'vencer na vida' são ingredientes da formula do sucesso para os jovens. Marina (GF1, p.19) acrescenta: “Tem que ir em busca de outra coisa, pra não ficar saturado. Tem que correr atrás de outras coisas também, nunca abaixar a cabeça, levantar e a vida continua, vai atrás”.
João (GF1, p.19) menciona a história de um ex-mendigo como exemplo de força de vontade e superação das adversidades.
“Eu acho que se você tem um sonho, você consegue. Uma vez eu vi um depoimento na internet, dum cara que era um mendigo, vivia na rua, aí ele começou a se interessar por medicina e a faculdade de medicina é a mais difícil que tem, porque exige muito da pessoa. Aí um cara que dorme na rua, mendigo, num tinha nada, num tinha uma mesa, estudava com a luz do poste, essas coisas e conseguiu passar. (...) Um cara desse que... Ele teve uma coisa que muitas pessoas não teve: a força de vontade, de querer vencer na vida. Se você tiver isso, eu posso dar a certeza de que você consegue. Se você
quiser lutar pra isso mesmo, você consegue. Eu creio que vou conseguir, eu tenho certeza”.
A auto-responsabilização presente nas falas dos jovens, segundo a qual somente depende deles a melhoria de vida, contribui para a dissimulação dos elementos cotidianos e da realidade laboral que lhes impõe limitações. Os jovens, então, passam a reproduzir a visão neo-liberal de culpabilização dos sujeitos por seus fracassos (EUZÉBIO FILHO; GUZZO, 2006). A auto-responsabilização pelo curso da vida, apesar de estar relacionada a um importante papel de busca por ações protagônicas pelos jovens, pode incorrer no risco de mascarar os tensionamentos vividos por compartilharem uma vida marcada pela pobreza e pela desigualdade social. A busca por caminhos melhores, nesse sentido, é encarada como uma batalha, uma guerra travada todos os dias nas vidas dos jovens. Luana (E2, p.3) esclarece que “você pra ter alguma coisa hoje, você tem que batalhar né?”.
Os jovens não manifestam análises sociais mais profundas e a vida, fluxo que segue, somente tem alterações caso intentem transformações nas esferas individual e familiar. Em certo sentido, eles se sentem impotentes de realizar transformações sociais mais profundas e, embora relatem a prática de trabalhos voluntários que os colocam diante da realidade de suas comunidades, a inserção no mercado de trabalho e a busca da auto-sustentabilidade financeira os distanciam destas esferas comuns. Frente a essas questões, o cotidiano dos jovens fornece elementos que contribuem para a compreensão de como a vida em condições de pobreza, ao impor modos peculiares de estabelecimento de relações e desenvolvimento de aspirações, pode incidir na constituição psíquica dos jovens que compartilham essa realidade.