As escolas são espaços sociais de acomodação, reprodução, resistência e contestação. A construção de significados que se processa em seu interior é marcada tanto por premissas políticas e normativas quanto libertárias. Há sempre um jogo dialético entre interesses, poder político e econômico, conhecimento e prática escolar (GIROUX, 1986, p. 68). Assim, a função da escola está vinculada a este jogo dialético em que dependendo das circunstâncias sociais e políticas, ela pode atuar hegemonicamente ora para reprodução social ora para mobilização cultural ou até articulando conflituosamente estas duas tendências intrinsecamente.
Se as estruturas determinantes econômicas e políticas de dominação e opressão disseminam ideologicamente que seu poder é demasiado forte ao ponto de nunca ser dizimado, cabe à escola de viés transformador ou, especificamente, ao professor emancipador entrar em cena e trabalhar socialmente pela mudança construindo uma contra-ideologia de mobilização humana para sucumbir às atuais relações sociais dominantes.
A escola atual brasileira tanto a pública quanto a privada continua sendo, salvo raríssimas exceções, positivista, fragmentada e tecnocrática. Ela transmite muitos conhecimentos disciplinares sem se preocuparem se os mesmos são absorvidos de forma satisfatória. Não há aprendizagem significativa. Enfatizando bons rendimentos, ou seja, notas azuis nos boletins escolares e razoáveis resultados nos exames nacionais de verificação do ensino: ENEM, SPAECE, SAEB, a escola rejeita o processo complexo e demorado de uma aprendizagem qualitativa, ou por não fazer parte de seu interesse enquanto instituição ideológica estatal de reprodução das relações de dominação social e cultural ou por se encontrar perdida em meio às grandes transformações globais de uma nova era pós-moderna.
As recentes pesquisas divulgadas em mídia nacional atestam uma crise que vem se arrastando há anos e talvez por causa da nova conjuntura sócio-cultural global- era líquido- moderna ou pela ambientação do país - busca desenfreada por desenvolvimento, ou melhor,
imitação dos países ricos, é que os debates sobre o que fazer para melhorar a educação brasileira se tornaram tão acirrados. Neste ínterim ocorre um forte apelo muito interessante para a função intrinsecamente vital da educação para a construção de uma nova sociedade ou para enfrentar os desafios de uma nova ordem econômico-tecnológica que se legitima velozmente.
Neste contexto de crise nos deparamos com uma crescente derrota dos educadores familiares e escolares, no sentido de adaptar as novas gerações à lógica capitalista global de trabalho, socialização e vivência grupal, que é disseminada de forma bem sucedida. Como também no objetivo de promover a interiorização de novos valores, atitudes e relações que transformem tal lógica, caracterizada excessivamente pela idolatria ao consumismo, individualismo, poder, materialismo e contrária a qualquer sentimento altruísta ou comunitário de existência humana.
Os educadores familiares foram derrotados por não possuírem tempo necessário para cuidar e educar seus filhos haja vista que, a única saída para sobreviver no mundo explorador capitalista, são todos, pai e mãe, senão filhos, trabalharem para, ao menos, terem alimentação e alguns bens imprescindíveis como água, luz, teto e vestimentas tanto as classes populares quanto as classes médias. Estas últimas no afã de manter a posição financeira que possuem.
Os educadores escolares, além de enfrentarem uma realidade de trabalho precária sem valorização, disponibilidade de formação e condições materiais concretas de realização de suas funções, são bombardeados pelos educadores familiares como uma nova exigência, além de propiciar o sucesso no ensino-aprendizagem das novas gerações no tocante aos saberes e conhecimentos culturais a serem socializados, devem acertar naquilo que os primeiros erraram por não terem mais tempo ou por já terem se autocondenado no que se refere a uma educação alheia aos valores de destruição e autodestruição disseminados na atualidade pelos mais variados agentes: mídia, indústria cultural e os incontáveis grupos capitalistas de ideário lucrativo.
Resgatar a importância da educação familiar e escolar na construção social constitui o ponto de partida para uma real transformação. E o segundo passo é reconhecer que todos os seres humanos são resultados de um processo de transmissão e interiorização de princípios e leis de controle ideológico e cultural no âmbito de um determinado grupo social desde os primeiros anos de vida.
Da mesma forma que “nosso processo de ‘humanização’ é marcado pelas relações de aprendizagem que vivenciamos ao longo de nossa história de vida” (FREIRE, 2008, p.61), o processo de ‘desumanização’ ocorre. Formas de sociabilidade bárbaras são ensinadas e
incorporadas para as futuras gerações culturais. A reprodução institucionalizada das relações sociais reificadas pelo espírito individualista, egocêntrico e mercantil do capital está levando a ‘civilização’ à sua destruição ou, no mínimo, a sua bestialização. A ‘desumanização’ resultante desta ‘indústria’ de fabricar seres desprovidos de amor próprio e ao seu semelhante, de carinho, afetividade, cuidado e solidariedade genuínos, precisa ser dizimada e não há melhor instrumento para tal feito do que uma escola democrática que lute pela transformação social.
Não é se deixando escravizar pela racionalidade positivista ou pelas políticas educacionais de especulação de bons resultados que a escola se efetiva enquanto espaço social de desenvolvimento intelectual e humano. Não é atuando como um prolongamento da classe dominante no processo de reprodução social e cultural de práticas de subordinação no cotidiano escolar (BOURDIEU, 1970), ou como um aparelho ideológico do Estado (ALTHUSSER, 1971) com a finalidade de consentir tacitamente as relações de dominação existentes, que a escola transformará a sociedade.
A característica fundamental de uma educação crítica é a total negação desta estrutura social edificada pelo capitalismo dominador e excludente através da conscientização dos seres humanos de sua condição de serem os únicos agentes transformadores do processo social vigente, pois foram eles próprios que o construíram. Mas, para que esta conscientização adquira o caráter de mudança do social é necessário que o processo educativo seja intrinsecamente emancipatório.
É lógico que a conseqüência da educação crítica e emancipatória é a mudança ou ruptura com a estrutura social estabelecida mesmo que seja atingida a médio ou longo prazo. Dada situação de crise civilizacional que passamos com o iminente perigo de destruição da natureza e da humanidade pelo homem, comandado pelo paradigma conquista-dominação- exploração, surge uma questão crucial: até quando a humanidade pode esperar por resultados libertários e transformadores no contexto de uma educação tradicional, conservadora e neoliberal-capitalista? É uma ilusão cruel tal espera. Os discursos ideológicos são inúmeros, mas o objetivo da educação neoliberal não é e talvez nunca será a igualdade, libertação e emancipação, principalmente da classe oprimida.
Além da educação crítico-emancipatória, que mecanismos podemos utilizar, justamente agora, para sanar a crise? Talvez a resposta desta última indagação esteja nas gerações de jovens que serão formadas por este tipo de educação: seres humanos de pensamento livre, críticos-reflexivos e socialmente comprometidos.