O MSCC tem crescido à medida que contextos e esquemas de corrupção são evidenciados por adversários políticos e pela mídia, especialmente nos grandes casos de corrupção, como o “mensalão”, ocorrido durante o mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2002-2009), um dos casos de corrupção mais divulgados nas mídias de massa na história recente da política nacional. Uma análise mais aprofundada da história da corrupção no país pode remeter a contextos dos períodos em que o Brasil era colônia de Portugal e à forma como as relações ocorriam, também ao modo como se constituíram as instituições do futuro Estado. Mas não é uma análise que contribui para o que se pretende discutir, pois o enfoque é dado a casos mais recentes, que envolvem corrupção no âmbito da política nacional, especialmente na forma como o MSCC se coloca diante de tais práticas. Percebe-se que ocorre uma reação à crise no aparelho do Estado. Conforma Melucci (1996), ocorre um mecanismo disfuncional do sistema, que pode colaborar para que surjam movimentos sociais como resposta.
O avanço da corrupção no aparelho do Estado e na prática política parece ter gerado um entendimento generalizado de que não se pode agir política e gerencialmente no âmbito do setor público sem utilizar práticas corruptas. Tornou-se praticamente senso comum dizer que a corrupção se alastrou entre instituições e indivíduos brasileiros como parte da cultura e do comportamento. O contexto permitiu que, ao longo da história, se criasse e propagasse o “jeitinho brasileiro”, que, por vezes, é até encarado como elemento positivo pelos indivíduos que buscam se beneficiar às custas de prejuízos de outros e de instituições.
No contexto recente do Brasil, a realização de grandes eventos internacionais, como a Copa das Confederações da FIFA, em 2013, a Copa do Mundo de Futebol da FIFA, em 2014, e as Olimpíadas de 2016, em fase de preparação, tem despertado interesses financeiros de agentes de empresas privadas e governos, criando um ambiente propício a atos de corrupção e utilização ilícita de recursos públicos, já que se trata de projetos nos quais circulam grandes montantes de dinheiro. Por outro lado, a população e o MSCC são despertados por desconfiança e inquietações em relação à corrupção expandida nos casos de superfaturamento de obras de infraestrutura das cidades e dos estádios, bem como em relação a demais atos que sugam as fontes de recursos públicos e ampliam as mazelas sociais no país. Isso se explica pela “coexistência de sistemas de valores contrastantes” (DELLA PORTA; DIANI, 2006) entre grupos sociais e grupos políticos, o que resulta na criação de conflitos.
Existe, pois, um contexto muito propício a transformar as inquietações em manifestações sociais e a apatia política em atitudes contra a corrupção por meio de práticas de ativismo. Tanto é que uma das expressões mais divulgadas nas redes sociais pelo MSCC, nas manifestações recentes, é “O gigante acordou”, fazendo alusão a uma parte do Hino Nacional Brasileiro (“deitado eternamente em berço esplêndido”) e a um comercial de TV19 no qual
aparecem serras da cidade do Rio de Janeiro que se transformam em um gigante que se levanta e sai caminhando.
O fato é que a corrupção tem sido muito evidenciada pela mídia de massa e, de modo especial, pelas mídias sociais, visto que o compartilhamento de informações por redes sociais virtuais tem atingido proporções e possibilidades comunicacionais não imaginadas, nem vivenciadas. No ambiente virtual propiciado pela internet, por equipamentos diversos e pelas ferramentas disponibilizadas pelos mais diversos softwares, os movimentos sociais passam a perceber possibilidades organizativas e comunicacionais que fortalecessem suas ações. O caso do MSCC não é diferente dos demais, porém apresenta consideráveis impactos sociais e políticos na contemporaneidade. Esses impactos resultam de possibilidades das redes sociais virtuais criadas em torno do combate à corrupção, especialmente pela utilização de softwares sociais para levar informações e organizar ações no ciberespaço e nos espaços físicos, criando verdadeiras Redes Sociopolíticas Virtuais.
O MSCC, como grande parte dos movimentos sociais, está sendo estruturado por meio de uma série de organizações de pessoas (institucionalizadas ou não) que se agregam em torno de objetivos semelhantes e são constituídas com objetivos claramente políticos, já que suas ações se colocam de forma antagônica ao modo como a política tem sido praticada, propondo alterações que visam especialmente à redução/extinção da corrupção. Para o alcance de seus objetivos, essas organizações buscam principalmente recrutar pessoas e aglutiná-las, organizar eventos de protesto e manifestações gerais, ensinar repertórios de ação e ideologias políticas, informar sobre ações realizadas e eventos agendados, comunicar ações e casos dos seus antagonistas (políticos e governos).
Visando a compreender melhor os aspectos organizativos e comunicativos que dão bases para o desenvolvimento das ações coletivas do MSCC, apresentam-se, na sequência, dados referentes ao DB, organização do movimento do qual análises são realizadas.
Os organizadores do DB o definem como organização de um movimento social pacífico e sem fins lucrativos e apartidário na luta contra a corrupção e a impunidade, de acordo com o que pode ser encontrado em suas páginas na internet (site, blog, perfis em redes sociais virtuais). Entre os objetivos expostos informam que buscam especialmente resgatar a ética e a moralidade nos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, bem como na administração pública, nos níveis municipal, estadual e nacional.
A atuação se dá especialmente no ciberespaço via internet, mas com extensão para os espaços físicos, como ruas e praças das cidades, nos quais organizam e realizam ações de manifestação contra a corrupção e a impunidade. Uma das grandes conquistas sociopolíticas defendidos pelo DB foi a aprovação da Lei da “Ficha Limpa” ou Lei Complementar n.º 135, de 2010, que parece ter sido impulsionada pelas ações de manifestações nos espaços virtuais e reais, como as realizadas por esta organização. Outros projetos e propostas, cuja realização exige mais capacidade organizativa e comunicacional, se encontram nas pautas do DB. Os interesses e ações coletivas do DB têm sido amparados por espaços e ferramentas propiciados por softwares sociais, a exemplo do Facebook, que reforçam e potencializam ações que realizam. Além disso, outros softwares sociais, como Twitter, Youtube e Google+, têm sido utilizados para aumentar o alcance na sociedade e aumentar o número de seguidores adeptos ou simpatizantes. O uso do Facebook se justifica por ser a rede social virtual mais utilizada por brasileiros e (talvez por esse motivo) pelo DB, uma “rede mãe”, na qual as informações postadas nas demais redes sociais são quase sempre replicadas ou compartilhadas concomitantemente. De acordo com dados da comScore (2014) no Relatório Brasil Digital Future in Focus 2014, com dados de 2013, o Facebook apresentava cerca de 65,9 milhões de usuários no Brasil, sendo a rede social mais utilizada no país, seguida do LinkedIn, com cerca de 11,8 milhões, e do Twitter, com cerca de 11,3 milhões de usuários. Além disso, o domínio virtual do Facebook é o segundo mais visitado no Brasil, com cerca de 66,4 milhões de visitantes únicos, atrás apenas do Google, com cerca de 74,5 milhões de visitantes.
Os dados apontam que o DB está presente no Facebook desde 12 de fevereiro de 2011, antecipando o que viria a ocorrer no Brasil em 2013, especialmente no movimento que tem sido chamado de Jornadas de Junho20 e que uniu centenas de milhares de pessoas nas ruas das
20 Como o tema não é central na discussão, embora importante para compreensão mais aprofundada sobre as Jornadas de Junho no Brasil, sugere-se a leitura de Antunes (2013), Braga (2013), Antunes e Braga (2014), Corrêa e Jobim e Souza (2014), Alzamora e Rodrigués (2014) e Lacerda e Peres (2014).
principais capitais do país e de cidades do interior. Em 2011, no dia 9 de outubro, os administradores do perfil no Facebook postaram a seguinte provocação para os seguidores: “Será que um dia iremos ter 1 milhão de pessoas num local protestando contra corrupção no Brasil?”.
De fato, as redes sociais virtuais têm impactado os movimentos sociais no sentido de torná-los conhecidos e fortalecidos em virtude do aumento da circulação de informações e da agregação de mais aderentes ao movimento, especialmente diante de sua capacidade em impactar cidadãos até então desinteressados ou distantes da política, conforme a visão de Hindman (2009). Mas uma série de dúvidas e indagações sobre o papel dos softwares sociais, em termos organizativos e comunicativos, persistem, demandando esclarecimentos sobre esses recentes fenômenos. Além disso, aspectos relacionados ao papel dessas mídias sobre a formação de cultura, ideologia e comportamentos requerem estudos que visem a esclarecê-los e apontar a importância da formação e do desenvolvimento das Redes Sociopolíticas Virtuais para o MSCC.
Destaca-se que este estudo se insere no contexto que busca criar condições para que essas discussões encontrem caminhos teóricos e empíricos como forma de esclarecer aspectos ainda desconhecidos ou confusos. Na sequência, são apresentados os enquadramentos dos dados, para que se criem, portanto, condições de melhor discutir a temática e os elementos tratados.