Analisamos a entrevista à luz das seguintes categorias: compreensão acerca do caráter crítico da Educação Ambiental; compreensão acerca das deliberações governamentais para a área; identificação pessoal com a temática da sustentabilidade; identificação de empecilhos vivenciados no processo, tanto em caráter administrativo quanto pedagógico.
O professor demonstrou grande conhecimento acerca da Educação Ambiental de cunho crítico, sendo inclusive autor de dissertação de mestrado defendida na Universidade de Brasília (UnB) sobre a temática. Além disso, ele foi o responsável por trazer as deliberações da PNEA para o âmbito da SEEDF. Estes aspectos nos mostram que, além de ser amplo conhecedor do assunto assume envolvimento pessoal e ideológico a esse respeito.
Ele nos explicou que antes da criação do Núcleo, em 2011, os projetos de Educação Ambiental eram desenvolvidos com autonomia pelas escolas, sem contar com nenhum tipo de orientação formal. Os professores que se interessavam pelo assunto da sustentabilidade desenvolviam os projetos conforme seu próprio entendimento de Educação Ambiental.
Ele então ressaltou que não consideraram que estivesse errada a forma de desenvolver EA nas escolas da Rede, mas que era importante apontar uma direção para que pudessem alcançar as diretrizes curriculares nacionais de EA. Por isso o processo de organização da Conferência contou com as orientações da PNEA, das informações coletadas num diagnóstico feito pelo Núcleo com todas as escolas da Rede, para identificar que tipos de iniciativas existiam, e das opiniões e desejos pessoais obtidos nas discussões de um Fórum realizado em 2012 para ampliar o entendimento sobre as dificuldades de se realizar projetos de EA nas escolas.
No início do desenvolvimento destes instrumentos, o professor nos contou que se deparou com um grande problema que, segundo ele, é “o gargalo da EA”. Em suas palavras22:
A grande maioria dos professores que trabalham a EA, muitas vezes trabalham baseados nos seus conhecimentos práticos. Sem embasamento teórico e metodológico. Trabalham dentro do que acham que é EA. Por isso, muitas vezes ficam presos numa EA muito romântica, com caráter mais preservacionista. A gente entende que isso tem pouca repercussão prática nos dias de hoje. Num mundo globalizado, com atrações muito grandes para os alunos. Então ficar falando 45 minutos de conservação da natureza e abraçando árvores, no máximo pode criar uma pessoa mais sensível a esses aspectos, mas não consegue alcançar o objetivo mais amplo do processo educativo, que é a transformação do comportamento do ser humano.
O professor conta que, tendo identificado estas questões, buscaram levar o conhecimento teórico metodológico das orientações formais, como a interdisciplinaridade e o holismo. Mas encontraram enquanto empecilho a disposição dos profissionais docentes, que não se predispunham a participar de ações formativas que durassem mais que um turno. O professor Henrique entende que:
dentro da rede, não há a cultura de criação de PPPs, nem de criação de instrumentos pedagógicos coletivos. Então, a gente está caminhando com um instrumento de construção coletiva do PPP, ou seja, a gente não sabe como fazer aquilo ainda, não sabe como lidar com aquilo. Tem a dificuldade por conta da compreensão de “eu já sei de tudo”, que tem muito.
O professor Henrique também ressaltou que, por ser uma proposta nova, nem mesmo a equipe do MEC tinha clareza sobre como operacionalizar a verba para o financiamento da Conferência, e todo o processo foi desenvolvido com recursos restritos.
Em relação ao desenvolvimento da Conferência do ponto de vista da pesquisadora, que participou como docente no processo, considera-se que há ainda lacunas significativas que impedem ampliar e qualificar a comunicação entre as escolas
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da Rede para atingir de forma significativa os docentes e motivar sua prática. A falta, em termos quantitativos, de profissionais formados sob os preceitos da Educação Ambiental – e não necessariamente com caráter crítico defendido aqui - para atender a demanda das escolas apresenta-se enquanto obstáculo que precisa ser considerado. O próprio Núcleo de Educação Ambiental conta com três professores, enquanto a Escola da Natureza, uma escola de Educação Ambiental cadastrada na Rede para apoiar ações pedagógicas na área, tem oito profissionais atuando. Considerando o quadro total de 664 escolas, torna-se inviável atingir grande extensão.
Além disso, outro aspecto frágil na Secretaria, que não pode deixar de ser considerado na presente análise, é a alta rotatividade de profissionais. A quantidade de professores com atestados de saúde e licenças diversas sendo substituídos por contratos temporários dificulta a realização de processos contínuos nas escolas, tal qual a prática transformadora da EA requer.
Como exemplo, apresenta-se o caso da pesquisadora que, na ocasião da Conferência atuava enquanto contrato temporário em uma das escolas da Rede, e ficou sabendo da Conferência apenas dois meses antes do encontro. Este tempo é bastante restrito para se desenvolver um projeto participativo e vinculado ao diagnóstico da realidade local. Além disso, após a elaboração do projeto não pode permanecer na escola no ano letivo seguinte para torná-lo prático. Sabe-se que fatores como esses não são eventos isolados, ocorrem com frequência e interferem na qualidade dos processos que estão sendo aqui avaliados.
Julgou-se, a partir da entrevista com o ex-coordenador do NEA, que há amplo entendimento por parte dele em relação à Educação Ambiental de cunho crítico e grande empenho para melhorar a qualidade da Educação Pública do DF. O professor ressalta que eles, do Núcleo, não assumem a Educação Ambiental a partir de seu caráter conservacionista, mas julgam que ela apresenta elementos importantes para construir uma “Educação Pública que tenha uma qualidade social voltada para a sustentabilidade” em suas palavras.
A partir da entrevista realizada com o ex-coordenador do NEA, confirmou-se o amplo conhecimento sobre os aspectos aqui abordados. Tanto as políticas nacionais (PNEA) quanto as diretrizes formuladas pelos técnicos do Núcleo demonstram linearidade e coerência com as propostas teóricas aqui discorridas. Parece-nos que do ponto de vista político, houve grande avanço na EA dentro da SEEDF, com o
desenvolvimento de diretrizes alinhadas aos instrumentos políticos instituídos na PNEA.
No entanto, reconhece-se que o processo de aterrissar as políticas para que se façam na prática escolar é complexo e de longo prazo. Além disso, tem-se como empecilho, por vezes, a mentalidade da comunidade escolar e a cultura que ainda é predominante dentro das escolas, na qual os professores é que “sabem”. Além disso, conforme observação de Henrique Torres, o entendimento teórico e metodológico sobre a EA por parte dos docentes ainda é limitado e os procedimentos de construção participativa são mais difíceis de serem feitos, o que em muitos casos, impede que os docentes os assumam.
Tendo todas essas observações feitas, avaliam-se agora os projetos apresentados na Conferência para verificar em que nível eles dialogam com as propostas já demonstradas.