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Prezado Senhor, Prezada Senhora.

Vossa Senhoria deve recordar-se que em outras correspondências já tive a honra de apresentar e informa-lhe sobre a obra Lettres a une Princesse d'Allemagne sur divers sujets de physique e de philosophie, que é o livro de referência desta pesquisa acadêmica. Somente para poder retomar o assunto ora antes tratado, lembro-lhe que os três volumes constituintes do trabalho de Euler são resultantes da coletânea de cartas tutoriais remetidas a jovem princesa alemã Anhalt-Dessau, sobrinha do rei da Prússia, Frederico II, o Grande no século XVIII.

Convido a partir de agora, Vossa Senhoria a adentrar um pouco mais no universo de Lettres a une Princesse d'Allemagne, tendo como ponto inicial as impressões emitidas por vários matemáticos, filósofos e estudiosos da Matemática ou da História da Matemática sobre a obra, tanto os que vivenciaram o século das luzes quanto os que a conheceram em outros períodos seculares.

O matemático Guilherme de La Penha (1942 – 1996) é detentor de no mínimo uma dúzia de trabalhos sobre Euler, estudioso sobre história das ciências, particularmente, sobre história da Matemática. Seu método de pesquisa utilizava informações históricas para a manutenção dos argumentos favoráveis à elaborações teóricas e a constituição de conexões matemáticas. Tinha Euler como seu ídolo e espelho para sua carreira científica, é considerado um expressivo estudioso sobre a temática, “principalmente por ter analisado as Cartas a uma Princesa Alemã” (D’AMBROSIO apud CHAQUIAM, 2012)

As Lettres a une Princesse d'Allemagne tornaram-se muito conhecidas na Europa até o fim do século XVIII, com traduções em quase todas as línguas europeias e diversas reimpressões. La Penha (1984, p. 47) comenta sobre estas edições e ressalta que até o presente momento de seu artigo não havia tradução para a língua portuguesa. Atualizo a informação do matemático, informando que a situação permanece inalterada.

Publicadas em S. Petersburgo pela primeira vez em 1768 concomitantemente em francês e em russo, suas edições se multiplicaram abrangendo todos os idiomas da Europa; as referências à edição alemã de 1769 são enganosas pois as cartas escritas no período de 19 de abril de 1760 ao final de maio de 1762 o foram em Berlim. Inexistente em português, a edição espanhola publicada em Madri é de 1798. (LA PENHA, 1984, p. 47)

É bem provável que a notoriedade das Lettres a une Princesse d'Allemagne esteja associada a sua riqueza de ideias e conteúdos que podem ser lidas com a leveza de quem ensina ao leitor sobre quase tudo nas ciências, que é tratada de forma unificada sem a atmosfera austera que pairava sobre os livros científicos da época e que acumulavam a função de serem didáticos também. “Essa obra, que nada tem em comum com as demais produções de Euler deve ter se constituído em um repouso para seu espírito, destinando-se a iniciar nas altas concepções da física uma pessoa desprovida de conhecimento em qualquer das ciências” (LA PENHA, 1984, p. 46).

La Penha (1984) segue fazendo uma análise breve sobre as disposições em que as cartas estão editadas na obra e sugere que de maneira bem superficial que Euler abordara tópicos variados que podem ser classificados como música e ciência em geral (Nas Cartas de I a LXXIX); teologia, lógica e filosofia (da Carta LXXX até a CXXXII) a física (Carta CXXXIII a CLIV) e a última parte com a navegação, astronomia, magnetismo, ótica e tecnologia (CLV-CCXXXIV).

No seu Éloge de Euler de 1983, posteriormente publicado em 1984, em formato de texto com estilo erudito, escrito em homenagem ao bicentenário da morte de Euler, La Penha (1984, p.47) reportou-se ao século XVIII e procurou ilustrar por meio de determinados comentários de cientistas da época algumas impressões no meio científico causadas pela publicação destas cartas.

Em quase todo trabalho científico a unanimidade de opiniões é algo praticamente inalcançável. As Cartas de Euler não se enquadraram nessa categoria de raras exceções, receberam críticas de Voltaire, Lagrange e D’Alembert, como exemplifica a troca de correspondência entre os dois últimos citados sobre o lançamento de Lettres a une Princesse d'Allemagne. Lagrange envia o irônico entusiasmo suas impressões: “Tenho satisfação de enviar-lhe as Lettres d' Euler à une princesse d'Allemagne; porém como constituem um pacote volumoso, eu as remeterei em outra ocasião, tanto mais que não possuem outro mérito que o de haverem saído da pena de um grande geômetra."

Como é de conhecimento de Vossa Senhoria e de toda a sociedade, D’Alembert era desafeto científico de Euler e já havia tomado ciência da obra em Paris. Para manter as

querela existentes entre os dois estudiosos, respondeu bem à altura de suas divergências com o autor da obra e a acidez de crítico impiedoso:

Quanto as Lettres d'Euler à une princesse d' Allemagne, é inútil me as enviar, a menos que já tenham partido; neste caso cederei meu exemplar a qualquer amigo, e lhe remeterei o reembolso postal. Tendes razão em dizer que ele não deveria por sua honra fazer imprimir essa obra. É inacreditável que tão grande gênio como ele em geometria e álgebra seja em metafísica inferior ao menor dos estudantes, para não dizer tão ensosso e tão absurdo. É bem o caso de dizer: Non omnia eidem Dii

dedere12. (LA PENHA, 1984, p.48)

Em uma linha de pensamento completamente contrária a de D’Alembert, o matemático Condorcet, cujo o Éloge a Euler de 1783 passou a ser parte constituinte de várias edições posteriores da Lettres a une Princesse d'Allemagne, incluindo a edição de Pérez (1990), a mesma que foi utilizada nesta pesquisa como aporte de tradução, exalta o vanguardismo do matemático, qualificando a publicação de modo exuberante:

obra preciosa por sua clareza singular com a qual expõe as mais importantes verdades da mecânica, da astronomia física, da óptica e da teoria dos sons. [...] A grandiosidade do nome de Euler para a ciência impõem a ideia de que suas obras são destinadas para o desenvolvimento do que a análise tem de mais espinhoso e mais abstrato. Entretanto, estas Cartas proporcionam de forma tão simples e tão fácil, um encantamento único. Aqueles que não estudaram matemática por acharem-na assustadora, talvez estejam lisonjeados por entender uma obra de Euler e obrigados a sentirem-se confortáveis pelo seu alcance, e esses detalhes elementares das ciências adquirem uma espécie de grandeza pela abordagem que é feita com a glória e o gênio do homem ilustre que os traçou. (CONDORCET apud PÉREZ, 1990, p. 44, tradução livre)

No segundo tomo de Lettres a une Princesse d'Allemagne Euler dedicou meia dúzia de cartas ao Silogismo. La Penha discorre sobre este aspecto, argumentando que o texto de Euler é de fácil compreensão e muito simples, características que talvez o levaram a ser rejeitado nas escolas, um fator de incoerência visto que poderia ser readequado ao nível de estudantes. (CHAQUIAM, 2012)

La Penha dá continuidade aos seus comentários sobre as Lettres, referindo-se ao lado filosófico de Euler e de suas cartas sobre o assunto, (LXXXV a XCII), que as considerava como relevantes contribuições à filosofia alemã. “Euler emerge das cartas não apenas como um pensador original e sintético que exibe um espírito de inquisição crítica, mas também de um líder em si e não um seguidor de qualquer corrente filosófica”. (LA PENHA apud CHAQUIAM, 2012, p. 220)

12Expressão em latim que significa “Nem todos os deuses eram”, em que D’Alembert ironiza e compara a ‘falta

Em relação à intencionalidade das Cartas, La Penha conjectura que Euler as escreveu direcionadas para o público geral e leitor europeu, tendo em vista que sua essência e o nível de complexidade dos assuntos explanados procuram esclarecer sobre pensamento científico e filosófico vigente no período, ultrapassando os limites da instrução básica recomendada apenas na fase da adolescência.

E de fato, se os critérios utilizados para mensurar a penetrabilidade das Cartas de Euler for a quantidade de traduções e o número de edições sucessivas, pode-se considerar que seus propósitos foram alcançados em relação à instrução científica e filosófica da sociedade letrada da Europa no século XVIII.

Deixo aqui um encontro marcado com Vossa Senhoria para continuar tratando sobre assuntos relacionados à opiniões e comentários emitidas por outros estudiosos acerca das Cartas de Euler a princesa alemã.

CARTA XII: OUTROS MATEMÁTICOS TAMBÉM ESCREVERAM SOBRE AS