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Oppfølging av UAG-arbeidet og ulykkesanalysens plass i vegvesenet

8. Erfaringer fra 2014

8.3. Oppfølging av UAG-arbeidet og ulykkesanalysens plass i vegvesenet

FIGURA 10 – Ruínas da Capela do Pico do Pião - Foto: Bruno Bedim, abril 2007.

Construída por volta de 1915, a história da Capela está envolta por uma série de con� itos e disputas judiciais entre a Igreja e o Estado, já que ambos reivindicavam o domínio das terras que, posteriormente, foram transformadas em Parque. Em 1932, o Estado obtém parecer judicial favorá- vel no respectivo processo. Poucos anos depois (1938-39), a capela encontrava-se destruída, dando margem a várias inter- pretações acerca desse episódio. Seria uma estratégia do Estado para que a Igreja não mais reivindicasse a posse da área? Ou a sua destruição teria sido um ato praticado pela própria Igreja no intuito de incitar a população local contra as apropriações institucionais que o Estado faria daquele território? Ou ainda, a capela ruíra sozinha a partir das intempéries do tempo?

FIGURA 11 – O lugar do rito I/ Missa na Gruta dos Viajantes - Foto: Acervo pessoal do agricultor José Fortes.

Tem-se o registro de uma das missas realizadas na Gruta dos Viajantes, na década de 1960. Na ocasião, o padre e botânico alemão Leopoldo Krieger segura a lanterna para que um outro sacerdote proceda ao ritual litúrgico.

FIGURA 12 – O lugar do rito II/ A Cruz, a visitante e os líquenes - Foto: Acervo pessoal de Maria de Fátima Ávila.

A Cruz, a visitante e os líquenes (O mais antigo regis- tro iconográ� co encontrado sobre a Cruz do Morro do Cruzeiro, 1983).

A Serra Grande, na concepção popular, pertencia a Nossa Senhora da Con- ceição de Ibitipoca. Ainda hoje os terrenos dos arraiais do entorno pertencem “à santa”: os moradores de Conceição de Ibitipoca ou Mogol não têm escritura dos terrenos ou registro dos imóveis. Consequentemente, não pagam IPTU. Tal situa- ção possui explicação histórica: em 1836, a porção de terra do arraial de Concei- ção de Ibitipoca foi doada à Nossa Senhora, “a quem deviam pagar alguma cousa

[sic.] os que � zessem casas, pois esta era a condição apresentada pelos doadores”

(DELGADO, 1962, p.113). Atualmente os próprios moradores ligados à igreja é que de� nem a forma de distribuição dos terrenos. Os “nativos”, por sua vez, ganham os lotes, enquanto que os “forasteiros”143 devem pagar “à santa” uma quantia por eles.

Em 1822, Saint-Hilaire (1974, p.33) observara que o Paredão de Santo Antô- nio era “objeto de veneração em toda a zona. Todos quantos perderam animais na serra vão rezar o terço diante da imagem e os encontram infalivelmente [...] Em ro- maria e de vela em punho, visitam o rochedo onde está representado o santo e ali fazem penitência”. Quase um século depois, Silveira (1921, p.123), ao perpassar por Ibitipoca em 1912, descreve a existência de paredes rochosas cobertas de líquenes 143 O uso dos termos “forasteiro” e “nativo” será explicitado nos capítulos seguintes.

O paredão há mais de 2 séculos é tido como paisagem sacralizada. Assim um integrante da Comissão Cientí� ca descreve o signi� cado místico do Paredão para a população local, em 1906: “Visitamos novamente a Ponte de Pedra e o túnel, já descritos, pas- sando por outro caminho, com o � m de ver o Santo Antônio, gravado na rocha, a respeito do qual corre inte- ressante lenda. Há muitos anos, existe aí uma imagem de Santo Antonio, de madeira, num rústico altar de pedra. Do arraial de Conceição da Ibitipoca três vezes vieram buscá-lo, três vezes o santo abalou a igreja, voltando à sua morada na Serra. E, para não mais ser incomodado, recorre a um expediente decisivo (que os santos também são � nórios e ladinos...): – de- saparecer, quando sente que alguém se aproxima. E até hoje assim procede, com a cautela de quem conhece a fundo a maldade, a ronha dos humanos: Lá avistamos, de longe, a sua � gura veneranda, na rocha lisa, parecendo ter numa das mãos um livro. Outros acham que é o menino que ele sustenta no braço, tal qual nô-lo representam imagens que por aí correm. Não nos aproximamos para evitar a desfeita de não sermos por ele recebidos”.

(Autor anônimo integrante da Comissão Cientí� ca citado por Delgado, op.cit., p.126).

FIGURA 13 – Paredão de Santo Antônio - Foto: Bruno Bedim, jan.2005.

onde “o povo enxerga � guras de santos milagrosos de grande utilidade para a sa- tisfação de suas utilidades terrenas”.

Ao longo de todo o século XX, as terras devolutas da chamada Serra Grande – onde mais tarde seria implantado o Parque Estadual do Ibitipoca – essas terras eram usadas como alternativa para as atividades de extrativismo da população rural local:

Então você entrava lá, você buscava orquídea, buscava...tinha muita – isso era coisa da pobreza, não é só a pobreza, a pobreza catava pra vender, né – vendia a macela pra fazer travesseiro, uma � orzinha, né. Então tinha uma porção de preta-velha aí que mês de julho ia pra serra pra catar semana inteira. Catava a macela pra vender e encher travesseiro. Vendia pro pessoal de Lima Duarte. Dava dinheiro. Era pinhão, macela e vassoura do campo.

(produtor rural, 73)

Dentre as formas de representação simbólica da população ibitipoquense para com o mundo natural, destaca-se o “Mito da Mãe do Ouro”, também identi� - cado pelos camponeses como “o mistério da bola de fogo”, ao qual são atribuídas signi� cações sobrenaturais e míticas144. Contudo, segundo Resende (2004), a física

de� ne a “bola de fogo” como fenômeno natural, o “relâmpago globular”, cuja ocor- rência é comum em lugares de formação rochosa quartzítica com elevação145 – um

tipo de descarga elétrica de origem atmosférica que se sustenta e mantém-se para- do no ar durante vários segundos, oscilando sobre si mesmo, com alta luminescên- cia e que eventualmente produz “sons sibilantes, similares a zumbidos”.

Quanto às relações de identi� cação territorial para com o lugar, os entrevistados utilizam a expressão “nosso lugar” quando aludem à Serra Grande ou à vila de Concei- ção de Ibitipoca e adjacências. O território que atualmente constitui o Parque é identi- � cado pelos camponeses mais antigos como “Serra Grande” ou então “Parque da Serra Grande” – di� cilmente é utilizada a terminologia “Parque do Ibitipoca” para se referir àquele espaço: “O Parque da Serra Grande pertencia à igreja da Ibitipoca, foi doado pelos índios... o Parque da Conceição”.146 Observa-se também, nessa fala, o quão forte

era o poder da Igreja na região, uma vez que a população lhe atribuía a posse das terras devolutas da Serra, bem como a propriedade do arraial, inclusive a� rmam ainda hoje que “a vila pertence à santa” – em alusão a Nossa Senhora da Conceição.

144 “Chama-se mãe do ouro que eles falava. Antigamente não era bola de fogo não, era mãe do ouro. Essa

luz até pouco tempo ainda aparecia ali, aí na região aí. Ela cercava até carro, ninguém suportava ela, a caloria dela e a fortidão que era a luz – a vista nossa não conseguia dobrar, não podia olhar nela não” (agricultor aposentado, 79).

145 Há registros na literatura cientí� ca de relâmpagos globulares que já atingiram 1 metro de diâmetro

(RESENDE, 2004).

146 Outras expressões como “o parque nosso aqui” ou “o parque da santa” também são utilizadas pelos

nativos ao se referirem àquele espaço, mesmo após a Igreja perder o processo no qual demandava a posse das terras devolutas da Serra de Ibitipoca, nos anos 1930.

...hoje nós falamos “parque”, mas até 60, 62 [1962] por aí assim ali se chamava Serra Grande. Você entrava lá sem dar obediência a quem quer que seja. Ali onde é a portaria era uma porteira muito da sem-vergonha...você entrava lá e pronto: era a cavalo, de moto – nesse tempo não tinha moto ainda, né? – a cavalo ou a pé, a maioria.

(agricultor aposentado, 73)

A Serra Grande para os camponeses possui uma simbologia própria: lugar de representação simbólica e religiosa – procissões147, rezas de terços, rituais sa-

grados e devoções populares. Dentre os lugares da serra sacralizados, destacam- se o Pico do Pião, o Morro do Cruzeiro e o Paredão de Santo Antônio. A Serra Gran- de representa, no plano simbólico, a experiência do lugar rei� cado como aspecto da ancestralidade camponesa. Suas representações sociais são estruturadas pelo

ethos da terra que se estendera ao longo das gerações. Território de caça, coleta,

recreação e extensão de práticas agropecuárias, laços históricos delineavam a rela- ção entre o homem e a Serra:

Lá na Serra Grande era assim...lá tinha um mijolo [monjolo], um mijolo da- queles de fazer farinha, sabe. Na virada da Serra, ali na prainha, tem muitas queda d’água, sabe, muitas queda. Então lá tem uma quedinha, aí tinha um mijolo ali, chama “O Campinho Mijolo”, e o povo fazia...tinha um mijolo lá de secar farinha do morador do Tanque – a primeira fazenda que existia aqui no Tanque, onde é que morava o tal de Olavo. É lá, eles fazia, sentava o mijolo lá, agora tu imagina rapaz... só para ter o contato de ir na serra, gostava de ir lá caçar codorna, caçar passarinho – ainda existia.

(agricultor aposentado, 79)

147 O ritual religioso de maior devoção realizado na “Serra Grande” é a Procissão de Santa Cruz, quando

os ibitipoquenses sobem o Morro do Cruzeiro para rezar um terço anualmente, sempre no dia 03 de maio.

Prossegue a tradição A mesma cruz, hoje des- gastada pelas intempéries naturais como sol, vento e umidade, compõe o cenário da devoção popular em Ibi- tipoca. Atualmente, o IEF/ MG tornou-se colaborador do ritual, chegando inclusi- ve a oferecer alimentação, água e transporte para os romeiros do Terço de Santa Cruz. Mesmo assim, a maioria dos devotos prefere subir a pé até o cume do Morro do Cruzeiro, parte integrante do ritual de puri� cação. No calendário católico con-

vencional, o dia de Santa Cruz é celebrado no mês de agosto. Em Ibitipoca, contudo, a data foi realocada para maio, muito provavelmente para coincidir com a época da � orescência da macela, que era coletada pela população local.