De acordo com as classificações internacionais da Organização Mundial de Saúde de Doença (CID 10) e o manual estatístico de Diagnóstico de Desordens Mentais (DSM-IV) da Associação de Psiquiatria Americana (APA - 1994), a definição de disfunção sexual é um conceito biológico que se define como um bloqueio psicofisiológico total ou parcial que impede o ciclo sexual, pode ser por dor associada com relação sexual, causando sofrimento acentuado e dificuldade interpessoal.
O que caracteriza a disfunção é a recorrência e persistência do sintoma, que pode ser ao longo da vida ou adquirido, generalizado ou situacional. O diagnóstico é eminentemente clínico, baseado na anamnese e avaliação ginecológica.
Em 1998 um painel interdisciplinar da conferência, composta por 19 especialistas de cinco países, expandiu o conceito do sistema de classificação incluindo fisiopatologia psicogênica e orgânica enfatizando “o critério da aflição pessoal”, para a maioria de categorias diagnósticas. Sob este critério, a situação é considerada disfunção quando cria a aflição para a mulher que experimenta a circunstância. A perspectiva do facilitador sozinho não dirige o diagnóstico, não deve impor sua interpretação, mas respeitar a experiência da mulher
As disfunções sexuais são:
• Transtorno do desejo sexual (transtorno do desejo hipoativo, transtorno de aversão sexual);
• Transtorno da excitação sexual (transtorno de excitação sexual feminina, transtorno erétil, masculino);
• Transtorno de orgasmo (transtorno do orgasmo feminino, masculino ejaculação rápida);
• Transtornos sexuais dolorosos (dispaurenia,vaginismo); • Disfunção sexual induzida por substância;
Transtorno do desejo hipoativo
Deficiência ou ausência persistente ou recorrente de fantasias, pensamentos sexuais ou da receptividade à atividade sexual, que causa aflição pessoal.
Transtorno da excitação sexual
Inabilidade persistente ou recorrente em alcançar ou manter o excitamento sexual adequado causando aflição pessoal que pode ser expressa como falta da excitação subjetiva ou resposta genital (lubrificação) ou outras manifestações somáticas.
Disfunção do orgasmo
É a inabilidade persistente ou recorrente, atraso ou ausência de alcançar o orgasmo que segue a estimulação e excitação sexual adequada e causa aflição pessoal. Essa falta de resposta pode ser primária ou secundária, geral ou em situações especificas. Pode ocorrer isoladamente ou concomitantemente com outras desordens sexuais e/ou dispaurenia, entre as causas psicológicas; traumas da infância, traumas relacionados ao primeiro ato sexual, conflitos religiosos, ansiedade, infidelidade conjugal. Entre as causas físicas: tumores (prolactinoma) doenças neurológicas, pélvicas, hipotiroidismo, neuropatia diabética, doenças auto imune e
alterações musculares (flacidez dos músculos vaginal, púbis e coccigeno) vasculares, podem contribuir para desordens fisiológicas, incluindo redução de fluxo vaginal e clitoriano, alteração hormonal, cirurgia pélvica ou uso de medicamentos específicos.
O orgasmo varia na intensidade, tempo e número de contrações, de mulher para mulher assim como de experiência para experiência. Alterações como: tempo inadequado de estimulação, excitação inadequada, comunicação pobre com o parceiro, podem levar a disfunção orgástica (Leiblum, 2003). As principais causas orgânicas da dispaurenia estão no quadro 1.
Quadro 1. Causas da disfunção orgástica
Causas fisiológicas
Lesões vasculares que diminuam a circulação da pelve
Lesão dos nervos espinhais na área pélvica Efeitos colaterais de medicamentos
Remoção do clitóris (mutilação prática cultural na África)
Causas psicológicas
Abuso sexual Auto – imagem
Depressão
Trabalhos mostram que 25% das mulheres durante a idade fértil apresentam disfunção de orgasmo e 20% de mulheres na menopausa.
Em trabalho recente demonstrou-se que 15% das mulheres referiam sempre ser anorgásticas, 22% algumas vezes, e 37,8% raramente. Somente 25%, relataram nunca apresentar dificuldade para o orgasmo (Graziotin, 2002).
Aversão sexual
É a fobia, persistente e recorrente ao contato sexual com o parceiro, que causa aflição pessoal.
Dispaurenia
Dor genital recorrente ou persistente associada ao coito. O sexo doloroso pode ocorrer antes e após o intercurso sexual, a causa pode ser física e emocional, e se apresentar sob forma superficial (dispaurenia de penetração), e profunda (dor de profundidade). A causa mais comum da dispaurenia é a diminuição da exudação que pode ocorrer por circunstâncias clinicas ou estimulação insuficiente pelo parceiro, sendo freqüente após a menopausa. A experiência repetida de dor genital durante o coito faz o individuo evitar experiências sexuais.
A dispaurenia às vezes pode estar ligada a fatores emocionais como memórias e medos de contaminação com doenças sexualmente transmissíveis, experiência sexual negativa como bulinação ou violência sexual, culpa e mulheres receosas de engravidar, todos esses fatores podem interferir no relaxamento para vivência sexual impedindo a excitação e a lubrificação (Quadro 2).
Quadro 2 -Causas orgânicas da dispaurenia Tumores Uterinos Adenomiose Endométriose Infecção Pélvica Tumores Pélvicos Aderências Vulvovaginites Ardência pós-coito Anomalias Anatômicas
Hipertrofia dos pequenos lábios ou ninfas Abscessos da glândula de Bartolini Episitomia
Vaginismo
Espasmos involuntários recorrentes ou persistentes dos músculos do períneo adjacente ao terço inferior da vagina que interfere negativamente na penetração vaginal e causa aflição pessoal.
Deve se levar em conta vários aspectos desde a história clínica, considerando que a experiência sexual tem um significado diferente e único para cada indivíduo (DMS-IV, 1994).
O tratamento de ambas as versões, masculina e feminina, é semelhante em relação ao seu objetivo, que é, conseguir estimulação adequada.
O consenso de 2002 sugere uma integração das fases, o desejo não necessariamente precedendo a excitação e a excitação podendo responder ao despertar do desejo, intimamente conectado, em ambos temos sentimentos subjetivos, fisiológicos e congestão genital.
A disfunção sexual é multifatorial, multicêntrica, requer integridade orgânica e apropriado sistema hormonal, vasos, nervos e músculos. Patologias como: hipertensão arterial, diabetes mellitus, doença coronária, aterosclerose, trauma pélvico, doenças neurológicas, doenças vasculares. Estão associadas com a disfunção neurovascular, aumentando a incidência com a idade e pode ter papel importante na disfunção sexual.
As disfunções sexuais ocorrem em 30% a 50% das mulheres (Laumann et al.,1999), podendo ser desenvolvidas por fatores fisiológicos, emocionais e orgânicos que incluem condições associadas com diminuição da circulação vaginal e clitoridiana (ex. menopausa, trauma pélvico anterior, cirurgia) assim como diversos medicamentos (Goldstein e Berman, 1998). A prevalência das disfunções sexuais também aumenta com a idade e os fatores de riscos vasculares. As mesmas patologias que causam disfunção erétil no homem, diabetes, hipertensão arterial e hipercolesterolemia e arterosclerose podem resultar em problemas de disfunção sexual nas mulheres. Pacientes com doença aterosclerótica relatam ter redução da intensidade do desejo, excitação e orgasmo (Mooradian e Greiff, 1990).