2 Språksamfunnet Oppdal
2.1 Oppdal – historisk bakgrunn
Por outro lado, Riobaldo se utiliza do conhecimento dos fatos para manipular a forma como apresenta seu relato, por vezes com tons humorados. Essa tendência, muito presente numa certa tradição de obras humorísticas, é eclipsada pelo recurso à oralidade que a obra encena. No entanto, como leitores, não deixamos passar uma certa semelhança com os caprichos de narradores autoconscientes herdeiros, segundo Rouanet (2007), da forma shandiana, cuja característica mais próxima do nosso narrador Riobaldo é o que ele designou como "hipertrofia da subjetividade". Segundo Rouanet (2007:35): "A hipertrofia da subjetividade se manifesta na soberania do capricho, na volubilidade, no constante rodízio de posições e pontos de vista. E se manifesta na relação arrogante com o leitor, às vezes mascarada por uma deferência aparente." Mas, ao contrário de Tristam Shandy, Riobaldo não se apresenta arrogante para o seu interlocutor-leitor; pelo contrário. Declara constantemente a necessidade que tem de dialogar com seu interlocutor, impedindo-lhe mesmo que se vá no primeiro dia. Mas, assim como os narradores destacados por Rouanet, Riobaldo é dado a muitas digressões, apresentando a "primeira parte"6 de seu relato de forma fragmentada, por
6 Muitas pesquisas têm demonstrado (ROSENFIELD, 2008; HAZIN, 1994; GARBUGLIO, 1983) que GS:V possui divisões ao observar a linearidade da narrativa. Aqui cumpre enfatizar apenas duas partes: a primeira que, como esclarecemos na nota 4, compreende o início da narrativa até o momento em que Zé Bebelo volta do exílio imposto em seu julgamento, onde prevalece o caos narrativo, cuja ausência de linearidade está à mercê das associações subjetivas do narrador, seguido de três páginas onde se concentram os temas que
meio de "digressões narrativas" a exemplo dos causos exemplares que ele apresenta no início (ROSENFIELD, 2008:41). Essa proximidade, porém, tem um limite: suas digressões narrativas servem para ilustrar as dúvidas morais e referem-se ao centro de indeterminação moral que alimenta a tensão do narrador. São, portanto, exemplo da manipulação discursiva do narrador.
No entanto, essa manipulação dispõe do interlocutor de forma humorada. Ao referir-se à carta que começou a escrever para Otacília, Riobaldo diz que escreveu apenas a metade e assume:
Isto é: como é que eu podia saber que era metade se eu não tinha ainda ela toda pronta, para medir? Ah, viu? Pois isso eu digo por riso, por graça, mas também para lhe indicar importante fato: que a carta, aquela, eu somente terminei de escrever, e remeti, quase em data de um ano muito depois... Digo o porquê? Próprio porque não pude. Guarde o senhor: não pude completo. Mas guarde, por outra: o dia vindo depois da noite – esse é o motivo dos passarinhos...(ROSA, 2001:506).
A passagem mostra que Riobaldo cria humor por meio da tensão introduzida no seu discurso ao concentrar e ocultar o que somente depois o interlocutor vai inferir. Após brincar com a referência da carta pela metade, Riobaldo cria uma nova tensão que carrega as palavras "completo" e "metade" de outros significados. Porque é pela metade que ele gostava de Otacília naquele momento, somente pela metade que ele poderia se doar à escrita da carta e por isso somente após a morte de Diadorim é que ele pode escrever a carta completa. A noite que antecede o dia é, portanto, uma referência aos momentos infelizes que passou até ele decidir se casar com Otacília.
"Agora, destino da gente, o senhor veja: eu trouxe a pedra de topázio para dar a Diadorim; ficou sendo para Otacília, por mimo; e hoje ela se possui é em mão de minha mulher! Ou conto mal? Reconto" (ROSA, 2001:77). O tom com que o trecho é introduzido demonstra uma disposição humorada de como quem diz: "Olha como a vida é curiosa.", para logo depois apresentar a eufemização de uma intenção frustrada. Nesse trecho Riobaldo expressa que suas intenções foram frustradas pelo "destino", o qual carrega uma conotação levemente trágica, ao mesmo tempo em que afirma, ambiguamente, que o destino da pedra de
percorrem toda a obra; e a segunda, onde os fatos apresentam-se de forma mais linear e que vai contar as peripécias pelas quais os jagunços fiéis a Joca Ramiro buscam vingar a sua morte. Garbuglio (1983:429) assim se refere a segunda parte: "A segunda parte é a história linear de Riobaldo, confirmando seu 'destino' de homem fadado a ser chefe, portador de condições de combater os inimigos traidores do preito 'devido ao suzerano' e começa com a morte de Joca Ramiro. Mais especificamente se entremostra no ato mesmo do julgamento quando o curso dos fatos se orienta de acordo com as interferências e ponderações de sua fala."
topázio "ficou sendo para Otacília, por mimo", ressignificando sua frustração com a intenção de agrado que a palavra "mimo" carrega. Ainda que o interlocutor-leitor venha a saber que a pedra foi dada a Diadorim e que ela pediu para que ele entregasse o "mimo" apenas após a efetivação da vingança contra o Hermógenes, a preposição que antecede a palavra "mimo" cria uma locução adverbial de modo, o modo como ficou sendo de Otacília a pedra que se destinava a Diadorim. Além disso, Riobaldo no tempo em que enviou a pedra para Otacília pelo fazendeiro Habão demonstra pouco caso, como se tivesse enviado a pedra a Otacília por acaso: "Trasmente que, em Otacília, mesmo, verdadeiro, eu quase nem cuidava de sentir, de ter saudade. Otacília estava sendo uma incerteza – assunto longe começado. Visse, o que desse, viesse." (ROSA, 2001: 458). Portanto, o que o interlocutor e o leitor ficam sabendo ao final do relato desacredita a forma como Riobaldo afirma ter dado a pedra. E ao reconhecer que estava contando mal, introduzindo outras lembranças fora do contexto do que estava sendo narrado, ele não explica o que estava contando errado.
No dicionário Aurélio, a primeira definição da palavra "mimo" encerra o sentido que exerce no discurso de Riobaldo: "1. coisa delicada, fina, que se oferece ou se dá; prenda, oferenda, presente." e no léxico de Guimarães Rosa organizado por Nilce Sant'Anna Martins (2001:333) a palavra pode conotar a qualidade "de delicadeza, afeto". O que se observa, portanto, é que Riobaldo detém as duas realidades que a pedra de topázio encarna: a de uma intenção frustrada e a de uma intenção ressignificada, marcando com isso a sua possibilidade de refabulação. Num mesmo lance Riobaldo demonstra sua frustração e busca de superação recorrendo a uma refabulação, a um ponto que demarca o controle discursivo no gesto de recontar o que foi mal explicitado. Cabe ainda apontar nesse trecho que Riobaldo sustenta a tensão da história ao não revelar que Otacília é sua mulher e foi com ela que a pedra definitivamente ficou, criando a ilusão de que "minha mulher" e Otacília são pessoas distintas.
O conhecimento dos fatos é importante tanto na manipulação do relato quanto na construção de um posicionamento humorado para com o passado. Isso fica evidenciado quando ele atribui ao saber uma finalidade: "Ah, para o prazer de ser feliz é que é preciso a gente saber tudo, formar alma, na consciência; para penar não se carece: bicho tem dor, e sofre sem saber mais porque." (ROSA, 2001:328).
O humor seria essa possibilidade de formar a alma na consciência, visto que reúne tanto os aspectos cognitivos quanto afetivos: o lado cognitivo possibilita o distanciamento do
afeto doloroso ao mesmo tempo em que o afeto doloroso impossibilita que a reflexão pura se distancie ao ponto de os ridicularizar por meio de artifícios cômicos.7 Assim, a felicidade,
para Riobaldo, nasce justamente da complementariedade de afetos contraditórios postos lado a lado por meio da reflexão que considera o verso e o reverso de cada situação.
Para tanto, lembramos a cosmogonia encontrada no papiro de Leyde e que Minois (2003:21) resgata a fim de iniciar seu livro sobre a "História do Riso e do Escárnio". Segundo ele, no papiro alquímico escrito por um autor anônimo no século III, o universo fora criado por risos e gargalhadas de um Deus que, no sétimo dia, riu tanto que chorou e de suas lágrimas criou a alma, mostrando que a alma possui uma origem de tenso equilíbrio entre riso e lágrimas. Por isso, "formar alma na consciência" é ser capaz de, pelo humor, apreender as contradições internas, externas e da relação entre o interno e o externo e assim ser capaz de desfrutar do prazer e da felicidade.