Dos documentos analisados, selecionaram-se as informações sobre os aspectos analisados na presente pesquisa: linguagem oral e escrita, arte e comportamentos sociais, apresentados no quadro, a seguir:
Quadro 6- Critérios para a avaliação dos aspectos: comportamentos sociais, linguagem oral e escrita e arte
nos documentos pesquisados.
Documento Linguagem oral e
escrita Arte Comportamentos sociais
Referencial curricular nacional para a Educação Infantil
Procura por livros de histórias; comentários sobre as leituras; leitura de ilustrações; escrita do nome; escrita do próprio nome e de outros colegas; proposta de escrita para um destinatário ausente. Representação, comunicação e expressão por meio de várias formas de expressão plástica.
Experiências concretas, em que as crianças experimentem agir sem ajuda, como também por meio de estímulos diante das tentativas feitas.
Instruções para avaliação dos educandos do 3º estágio. Formação de orações completas em sequência lógica; flexão do verbo de forma correta; emprego de gênero e número das palavras..
–* –
Fonte: Elaborado pela autora
*indica que não constam informações.
Em primeiro lugar, se comparados os excertos retirados dos dois documentos, observa-se que, no documento Instruções para avaliação dos educandos do 3o estágio, de 1978, dos três aspectos analisados neste estudo, não havia avaliação dos aspectos Arte e comportamentos sociais.
Sobre Linguagem oral e escrita, avaliava-se a linguagem oral, ou nos termos do documento, o desenvolvimento verbal da criança. Conforme apresentado no quadro 6, os critérios para avaliação do desenvolvimento verbal consistiam na formação de orações, flexões de verbos, emprego de gênero e número de palavras, com base nos resultados da aplicação da seguinte atividade42:
42 O modelo de gravura para a realização da avaliação, bem como a ficha de avaliação, constam nos anexos deste trabalho.
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O professor apresentará as crianças, gravura rica em detalhes. A seguir, o educando descreverá a gravura e criará uma estória.
O professor estimulará a participação verbal da criança, à vista da gravura, através de perguntas, tais como:
- O que você está vendo nessa gravura?
- Quantas crianças estão brincando no parque (campo, etc.)? - Qual o nome que você daria para essa criança? (indicar)
Em função da criança enfocada, fazer perguntas sobre a atividade desenvolvida pela mesma na gravura.
O professor poderá relacionar quantas perguntas forem necessárias, à vista da gravura, a fim de coletar dados suficientes para a avaliação.
Destaca-se uma perspectiva funcional e normativa do procedimento de avaliação, uma vez que são utilizados elementos previsíveis que reiteram a noção de que a escola busca a homogeneização de acordo com os padrões apresentados pela escola.
No RCNEi, há várias referências para avaliar as crianças no que se refere à linguagem oral e escrita. Diferente do documento citado anteriormente, além da linguagem oral que pode ser avaliada, por meio dos comentários sobre as leituras, por exemplo, também consta, entre os objetivos para a avaliação, de modo resumido43, o interesse pela procura por livros de histórias e a escrita do próprio nome, de outros colegas, além de propostas de escrita para um destinatário ausente.
Em relação à avaliação em Arte, o objetivo é avaliar a representação, comunicação e expressão por meio de várias formas de expressão plástica. Ora, parece razoável observar as diferentes formas de expressões plásticas das crianças. Entretanto, torna-se uma consideração abstrata, na medida em que oculta a real possibilidade, de um lado, da realização por parte das crianças de expressar-se por meio de várias expressões artísticas e, de outro lado, das condições objetivas oferecidas ao professor, no que se refere tanto à formação quanto aos modos de organização dos tempos e lugares das instituições escolares.
Sobre os comportamentos sociais, conforme apresentado no quadro, o documento enfatiza a realização de experiências em que as crianças experimentem agir sem ajuda, exprimindo a noção de autonomia validada seja no documento, ou na sociedade contemporânea.
Uma vez que a criança é encorajada a agir sem ajuda, à escola prescinde da possibilidade de contato com o outro. Atitudes, como cooperação, convivência e cuidado com o outro, são fundamentais para a ideia de uma sociedade mais justa. Entretanto,
43 Os objetivos para a avaliação dos aspectos analisados neste estudo, no RCNEi, constam nos anexos deste trabalho.
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conforme será apresentado em capítulo conseguinte, são valorizados os aspectos comportamentais que apontam para a capacidade de as crianças fazerem as coisas sozinhas. A noção de autonomia, portanto, reduz-se à eliminação do outro, seja em relação às crianças entre pares, ou à mediação professor. No documento Instruções para avaliação dos educandos do 3º estágio, embora não seja um aspecto avaliado formalmente, há uma passagem no texto no que se refere ao comportamento das crianças:
Relembramos às professoras de Educação Infantil a importância de se observar as atitudes das crianças quanto à: atenção ordem, disciplina e relacionamento cujos critérios avaliatórios são subjetivos. Esta observação de atitudes envolve uma coleta de sistemática de dados, por meio dos quais serão determinadas as mudanças comportamentais do aluno, durante todo o seu período escolar. Portanto, não pode ser considerado como resultado final, apenas uma situação de avaliação padronizada (BRASIL, 1978, p.5).
Do que foi apresentado até então, sobre o RCNEi, observa-se um posicionamento genérico, tanto sobre o trabalho a ser realizado nas escolas de Educação Infantil, como pelos critérios para a avaliação.
Se comparados os dois documentos, seja pela natureza restrita do primeiro, ou pelo caráter genérico do segundo, constata-se que as orientações oficiais apontam para um empobrecimento das propostas para o trabalho pedagógico nas escolas de Educação Infantil, visto que as possibilidades de experiências com o acervo linguístico e artístico de nossa cultura são reduzidas aos critérios elencados pelos padrões escolares. Quanto aos aspectos comportamentais, a palavra de ordem é o controle e a eliminação do outro.
Por fim, do que pôde ser depreendido dos documentos oficiais pesquisados, pode- se afirmar que os dois referenciais coexistem no modo como as escolas avaliam as crianças na Educação Infantil. Desse modo, de um lado, trazem muito do que permaneceu ao longo da história, desde a lei 5692/71, sobre a organização do currículo em continuidade e sequência, e da noção de cumprimento de pré-requisitos para o ano seguinte; de outro lado, apresentam instrumentos diferentes, tal como especificado no RCNEi, além de assumirem um discurso alinhado às demandas da última Lei.
Os aspectos aqui apresentados apontam para a avaliação como um mecanismo que expressa a primazia do controle exercido sobre as crianças na escola. Evidenciam a pobreza das experiências por elas vividas e a ênfase dada aos aspectos técnicos e procedimentais, tendo como maior contribuição a Psicologia do desenvolvimento. Contudo, há de se considerar que, nesse processo de formação, em que as crianças estão
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inseridas, apesar do controle, do contato mediado com os bens de uma cultura afirmativa44, há, invariavelmente, uma inadaptação por parte do indivíduo que pode servir como estímulo a experiências formativas. Mais do que contar apenas com o imponderável é reconhecer que há espaço para que tais experiências sejam estimuladas e realizadas.
44 De acordo com a definição de Herbert Marcuse, cultura afirmativa é aquela cultura pertencente à época burguesa que, no curso de seu próprio desenvolvimento, levaria a distinguir e elevar o mundo espiritual anímico, nos termos de uma esfera de valores autônoma, em relação à civilização. Seu traço decisivo é a afirmação de um mundo mais valioso, universalmente obrigatório, incondicionalmente conformado, eternamente melhor, que é essencialmente diferente do mundo de fato da luta diária pela própria existência, mas que qualquer indivíduo pode realizar para si “a partir do interior” sem transformar aquela realidade de fato. Somente nessa cultura as atividades e os objetos culturais adquirem sua solenidade elevada tanto acima do cotidiano: sua recepção se converte em ato de celebração e exaltação. (MARCUSE, 2006, p. 95-6).
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